24/06/2003 15/23

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ASSESSORIA & RP
Ricardo Noblat

"Assim é, se lhe parece", copyright Comunicação Empresarial nº 47 (Aberje) (www.aberje.com.br), 2º trimestre de 2003

"O que é o que é? Formado em jornalismo, vive entre jornalistas, entrevista pessoas, apura, escreve e publica notícias, mas não é jornalista? É o assessor de imprensa. Durmo com um - ou melhor, com uma - há 26 anos. Sempre que digo que um assessor de imprensa faz tudo menos jornalismo, ela fecha a cara, sai de perto de mim e leva algum tempo para se reconciliar comigo. Há muito que ele desistiu de bater boca em torno do assunto. Nem a convenci do que penso, nem ela de que estou errado.

Antes que seja esfolado vivo, digo que respeito o assessor de imprensa, como respeito todo tipo de profissional sério, digno e que sua a camisa para sobreviver. Se não fossem as assessorias de imprensa haveria um número muito maior de jornalistas desempregados no país da mídia falida, dos juros estratosféricos e do presidente que ganhou pela esquerda e que por ora governa pela direita. Reconheço também que assessores de imprensa muitas vezes facilitam o trabalho dos jornalistas. E até evitam que eles cometam mais erros do que seria habitual.

Mas que assessores de imprensa fazem jornalismo, não fazem não. Sinto dizer. Pelo menos o que entendo por jornalismo. Ou melhor: o que é definido como jornalismo em qualquer conversa de botequim e nos salões acadêmicos mais vetustos. Para que seja considerado como tal, o jornalismo tem que ser livre, crítico e, se necessário, impiedoso. O escritor Millor Fernandes acha que jornalismo de verdade tem de ser de oposição - o resto é armazém de secos e molhados.

Quem paga o salário

O jornalismo supostamente praticado nas assessorias de imprensa pode ser livre? Pode ser crítico? E impiedoso, pode ser? Se for qualquer uma dessas coisas, ou todas ao mesmo tempo, não será um jornalismo de assessoria de imprensa. Porque não haverá assessoria de imprensa que sobreviva com um jornalismo desses. Ela simplesmente não terá clientes - nem de esquerda, nem de direita, nem de centro.

Mesmo que a verdade não seja algo claramente identificável, e mesmo se admitindo que não exista uma única verdade, o dever número um do jornalista é persegui-la à exaustão. O dever número um do assessor de imprensa é oferecer para divulgação a verdade que melhor sirva ao seu assessorado. E, se preciso, ocultar a verdade quando ela lhe for nociva. O dever número dois do jornalista é com o jornalismo independente.

O do assessor de imprensa é com o jornalismo que depende dos objetivos do seu assessorado. O dever número três do jornalismo é com os cidadãos. Não se deve ter vergonha de tomar partido deles. O do assessor de imprensa passa pelos cidadãos desde que seja para que seu assessorado fique de bem com eles. Ou desde que os cidadãos não atrapalhem a vida do assessorado. O quarto dever do jornalista é com sua própria consciência. Vá lá: o do assessor de imprensa é também com sua própria consciência.

Em última instância, quem paga o salário do jornalista é o público que consome o que ele apura e divulga. Quem paga o salário do assessor de imprensa é a empresa, entidade, governo ou figura pública que o contratou. No dia em que um assessor de imprensa for capaz de distribuir notícias contra seus clientes, estará fazendo jornalismo - e deixará de ser assessor de imprensa. O que ele faz tem mais a ver com relações públicas e propaganda do que com jornalismo. (Noblat é consultor do jornal A Tarde, de Salvador, e autor do livro ‘A Arte de Fazer um Jornal Diário’.)"

 

Ivson Alves

"Repensando assessorias", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 23/06/03

"Um coleguinha que me acompanha há anos - é até membro do Conselho de Sábios - enviou emeio em meados da semana passada para relatar seu espanto com o fato de jornalistas, e mesmo agências de assessorias de imprensa organizadas, terem aceitado trabalhar para alguns advogados envolvidos no escândalo do propinoduto e para o secretário Chiquinho da Mangueira, este acusado de ter ligações com o tráfico de drogas. O meu amigo pedia ainda o início de uma discussão séria sobre os limites deontológicos das assessorias.

Bem, sei por experiência própria que este é um assunto difícil. Durante muito tempo, defendi que os jornalistas ao trabalhar em assessorias faziam um trabalho jornalístico semelhante ao de um jornalista de redação. Defendia esta tese porque, durante este tempo todo, me parecia, naquele momento, que as atividades não diferiam muito. Havia apenas um mudança de perspectiva.

Como denotam os verbos no passado, já não penso assim. Afinal, como já disse Lula, a vida muda, e o tipo de trabalho de comunicação também mudou nestes últimos anos, como, aliás, já notaram pessoas mais abalizadas que eu, como o meu vizinho de portal Eduardo Ribeiro. Atualmente, a assessoria de imprensa propriamente dita é apenas uma parte - e nem a maior - de um trabalho integrado de comunicação competente, no qual as relações públicas são a mola-mestra, com suas ações de responsabilidade social, comunicação interna, gerenciamento de crise, posicionamento estratégico e outras. Creio, no entanto, que a discussão apenas começa aqui. Há, em minha opinião, uma série de questões a serem respondidas - e mesmo algumas ainda a serem levantadas, antes que se chegue a alguma conclusão, por mais provisória que seja.

Tenho certeza, porém, de que qualquer discussão séria - ou seja, uma que não descambe para aqueles vexatórios bate-bocas em que normalmente se transformam as discussões entre jornalistas - deve partir de uma premissa: ninguém é melhor do que ninguém. Este lembrete vai, claro, para os coleguinhas de redação, que, como já disse outras vezes, se comportam como se fossem os paladinos da justiça, os tribunos do povo, os indomáveis cavaleiros da verdade, e outras coisas ainda mais ridículas.

A bem da verdade, a maior parte dos que defendem essas idéias toscas fazem parte das chefias das redações e, por isso, suspeito que não acreditam nelas, só as externando porque tentam pobremente mascarar que jornalista em redação não tem apenas o leitor como cliente: antes dele tem o dono do jornal, que é muito mais decisivo para manter o emprego do coleguinha do que uma dona de casa carioca ou um microempresário paulista. Afinal, se o dono de um jornal está interessado...digamos...na Companhia Energética do Maranhão (Cemar) - cujos donos americanos literalmente se evadiram para Pensilvânia - as matérias dos coleguinhas que falam sobre o assunto tenderão a enfocar um ou outro ângulo da questão conforme a evolução do negócio, não é? Negar esse fato, e defender a isenção e a imparcialidade total, em todos os casos, de uma empresa de comunicação é um insulto à inteligência de qualquer pessoa que tenha mais de cinco anos de idade.

Assim sendo, partindo daquela definição básica, podemos começar discutir o que faz um assessor de imprensa, qual a sua responsabilidade na sociedade, qual o comportamento que ele deve ter em relação ao cliente e ao colega de redação. Discussão longa como se vê. Por isso, vamos deixar para continuar na semana que vem (se nada muito palpitante acontecer, é claro...)

Esclarecimento - Recebi este emeio comentando uma parte da coluna da semana passada:

Olá. Li seu texto ‘Este mundo é uma ervilha!’ em varios lugares pela internet.

Destaco o começo:

‘Se você acessa a Rede há muito tempo, quase certamente já recebeu aquela corrente sobre ‘Os seis graus de Kevin Bacon’. Nela o gaiato do autor ‘prova’ que todos os atores do cinema, da década de 20 para cá, trabalharam com alguém, que trabalhou com alguém, que trabalhou com alguém, que trabalhou com alguém, que trabalhou com alguém, que trabalhou com Kevin Bacon.’

Isso não é (somente) uma corrente, o autor não é gaiato e nem prova com aspas. Existe uma teoria chamada ‘Six Degrees of Separation’, formulada pelo psicólogo americano Stanley Milgram, na década de 60. Muito resumidamente, é uma teoria que diz que entre você e qualquer outra pessoa no planeta existem no máximo seis links de conhecimento, ou seja, eu conheço fulano que conhece um fulano que mora na Austrália que conhece o primeiro-ministro de lá e tal. Então entre eu e o primeiro-ministro da Austrália existe 1 grau de separação.

Bem, baseado nessa teoria, existe um jogo muito comum em universidades americanas, que é o ‘Six Degrees of Kevin Bacon’, que visa linkar qualquer ator a Kevin Bacon no menor número possível de links. Existe um site da Universidade de Virginia que sistematizou isso, www.oracleofbacon.org.

Vai lá e testa com todos os atores que você conhece, pode ser Marília Pêra, Antônio Fagundes, qualquer um. Funciona.

Não espero que você publique uma nova coluna informando seus leitores desses fatos, mas isso seria bom.

Propague a felicidade.

David’

Como se vê, o David pode até conhecer uma pessoa que conheça o primeiro-ministro da Austrália, mas certamente não me conhece...Ah! Já tinha visto o livro do gringo em alguma livraria."

 

FOLHA ANABOLIZADA
Folha de S. Paulo

"Venda em banca cresce 30% no domingo com ‘O Nome da Rosa’", copyright Folha de S. Paulo, 19/06/03

"‘O Nome da Rosa’, de Umberto Eco, o segundo título da Biblioteca Folha, aumentou em 30% a venda em banca da Folha no último domingo.

O número de exemplares vendidos subiu de 100 mil, a média do mês anterior, para 130 mil. A circulação total do jornal foi de 413 mil exemplares, dos quais 283 mil foram para assinantes que recebem o jornal aos domingos.

Esses números são parciais. Os dados definitivos só devem ser conhecidos no final da semana devido à complexidade de se totalizar números vindos de bancas espalhadas por todo o país.

Na estréia da Biblioteca Folha, no dia 8 de junho, a distribuição gratuita de ‘Lolita’ para os compradores do jornal aumentou em cerca de 140% a venda em bancas.

As vendas atingiram perto de 240 mil exemplares. O livro de Vladimir Nabokov também foi distribuído para os 310 mil assinantes do jornal. Com isso, ‘Lolita’ atingiu a circulação inédita de 550 mil exemplares.

No próximo domingo, circula o terceiro título da coleção, ‘O Amante’, de Marguerite Duras. O livro poderá ser comprado por preços que vão de R$ 11,50 a 13,50, dependendo do Estado.

Os livros da Biblioteca Folha não circulam em bancas nos Estados do Rio e do Espírito Santo, na Grande Belo Horizonte e algumas cidades de Minas (saiba quais são elas no Serviço de Atendimento, pelo telefone 0800-7038080).

Nesses locais, os mesmos títulos da coleção, numa ordem de lançamento diferente da adotada pela Folha, são distribuídos com o jornal ‘O Globo’.

Nos demais Estados e no Distrito Federal, os livros circulam com a Folha.

Pelo acordo feito entre os dois jornais, ‘O Globo’ ficou com as áreas onde o seu volume de venda em banca é, em média, maior do que o da Folha.

Os leitores do Rio, Espírito Santo e Minas, porém, podem adquirir os livros da Biblioteca Folha pelo telefone do Serviço de Atendimento, desde que haja estoque. ‘Lolita’ custará R$ 3,50 e os demais títulos, R$ 15,00. Em ambos os casos, o leitor pagará o frete."

 

FOLHA CONTESTADA
Painel do Leitor, Folha de S. Paulo

"Chamas", copyright Folha de S. Paulo, 20/06/03

"‘Estou curioso. Qual seria o motivo para o jornal colocar em sua Primeira Página um homem desesperado correndo com o seu corpo em chamas? Por que a Folha nos expõe a uma violência dessas? Não há lógica. A não ser por motivos financeiros ou por algo do gênero. Porque não duvido da inteligência dos que comandam esse jornal, de que têm consciência de que essa foto não passa de uma exposição fútil da violência. A imagem não nos mostra a vida como ela é, pois a vida como ela é tem seus lados ruins e seus lados bons. Qual a razão de mostrar o ato de um fundamentalista radical (radical porque só com uma lavagem cerebral ideológica muito forte se consegue fazer com que um homem ameace a sua integridade e a sua vida)? Espero que a Folha, um jornal que leio faz um bom tempo, não se renda ao ‘ibope’ e mantenha a sua integridade.’ Daniel Severo (Taubaté, SP)

Terror e resistência

‘Sou um físico francês em visita ao Instituto de Física da Universidade de São Paulo por algumas semanas. Tenho lido a Folha quase todos os dias e surpreendi-me na semana passada ao ver que os recentes ataques contra as forças israelenses na Palestina são chamados de ‘ataques terroristas’. ‘Ataques terroristas’ é realmente uma expressão apropriada quando os alvos são civis. Mas, se fôssemos seguir o mesmo uso que a Folha faz, também teríamos de chamar de ‘terroristas’ os atos da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Creio que o jornal não gostaria que isso acontecesse.’ Cirano De Dominicis (São Paulo, SP)"


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