24/06/2003 18/23

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INTERNET
Nelson Ascher

"De Gutenberg à blogosfera", copyright Folha de S. Paulo, 23/06/03

"A impressão com caracteres móveis (tipografia), desenvolvida em meados do século 15 por Johannes Gutenberg (1397-1468), decorreu menos de qualquer invenção original do que da convergência de inúmeros avanços técnicos que, em áreas tão variadas como a produção de vinho e azeite (onde se usava a prensa), o comércio (que permitiu a difusão na Europa do papel inventado pelos chineses) ou a metalurgia, vinham se acumulando havia séculos.

Se, de início, limitando-se aos textos com os quais a autoridade religiosa se justificava, essa maneira de produzir livros favoreceu as forças da tradição, em meio século, graças aos exemplares exponencialmente multiplicados por impressores e tradutores, uns tão heréticos quanto os outros, a Bíblia, tornando-se acessível a novos leitores, incentivou alguns destes a usar a letra dos textos sagrados para questionar o monopólio oficial de interpretá-los.

As relações entre produção em massa de livros, reforma protestante, alfabetização universal, separação entre igreja e Estado, democracia representativa e autonomia do indivíduo são infinitamente complexas, mas nem por isso menos óbvias. Já faz pelo menos meio milênio que a liberdade política se nutre do acesso desimpedido à informação e de sua contrapartida natural, o direito de supri-la. O adjetivo ‘desimpedido’ equivale à garantia de que qualquer um possa fornecer e/ou receber a informação que bem entender, avaliando-a, em última instância, segundo suas próprias luzes. Quinhentos anos de tentativas e erros demonstraram que todo monitoramento de sua circulação resulta sempre na corrosão da liberdade.

Uma das principais razões da derrocada dos regimes comunistas europeus em 1989 foi a contradição, afinal irresolúvel, entre, por um lado, a necessidade crescente do trânsito de informações em sociedades cada vez mais complexas e, por outro, um modelo político incapaz de sobreviver sem controlá-lo. Não há ideologia autoritária de esquerda ou direita que simpatize com os meios de comunicação de massa, exceto, é claro, quando se encontram nas mãos de seus seguidores.

O surgimento da blogosfera no mundo anglófono e sua transformação qualitativa, em menos de dois anos, numa instância ou espaço dotado de características específicas e de dinâmica própria resultaram igualmente de uma longa série de progressos tecnológicos graduais convergindo num momento histórico preciso que, por diversas razões, quase parecia requerer sua criação.

A blogosfera, por exemplo, se não o rompe de todo, seguramente relativiza o nexo que a tecnologia pesada da televisão reforçara entre difusão de informação e poder econômico ou estatal, resolvendo, através de uma ‘terceira via’, o impasse entre quem pregava soluções estatizantes para o controle empresarial dos meios de comunicação e os que combatiam seu controle estatal propondo alternativas empresariais. A terceira via em questão nada mais é que uma devolução de poder à sociedade civil.

Se bem que seja cedo demais para saber quão profunda há de ser a influência da blogosfera anglo-americana, seu efeito sobre a mídia impressa e eletrônica, ou mesmo se se trata de algo que veio para ficar, pode-se dizer que ela se assemelha, por enquanto, a um exército ou a um corpo de bombeiros formado de voluntários, pois, reunindo-se em momentos de crise, tende a dispersar-se tão logo esta se resolva. Aos meses de ‘blogagem’ frenética que acompanharam primeiro o conflito diplomático que precedeu a guerra no Iraque e, então, a própria guerra, seguiu-se um período substancialmente mais ralo. Como a massa crítica de blogs políticos surgidos no contexto da guerra quente entre os EUA e o islamismo radical são mais ou menos monotemáticos, eles não têm com o que (nem por que) encher seu espaço virtual quando o conflito esfria temporariamente, algo que nem a imprensa nem a TV podem deixar acontecer.

Outro fator importante é que, na maioria das vezes, a blogosfera não produz informação: somente a discute, coteja, filtra. Uma de suas funções tem sido justamente a triagem de notícias. Embora a internet coloque à disposição do leitor centenas ou milhares de jornais, revistas, webzines, quem é que dispõe de tempo para ler uma parte significativa do total? E mesmo se tempo não fosse um problema, caso consideremos a altíssima taxa de redundância, valeria a pena? Os blogs, de acordo com seus interesses, preferências e pendores ideológicos, oferecem comentários e estabelecem os links que julgam necessários, enquanto o leitor, por seu turno, após visitar vários, voltará, por razões de utilidade e/ou afinidade e/ou credibilidade, a alguns poucos, tornando-se seu frequentador. Assim, se a blogosfera concorre diretamente com as páginas editorialísticas e de opinião da grande imprensa, ela não substitui e pode, aliás, estimular o que esta faz melhor (quando o faz): reportagens, sobretudo as investigativas.

Muitos comentaristas, constatando que os modelos políticos e econômicos adotados pelos países que falam inglês se parecem mais entre si do que com os do resto do planeta, inclusive os da Europa continental, começaram a adotar o termo ‘anglosfera’. O atual emaranhamento acelerado das malhas da internet, além de representar um novo capítulo da globalização, envolve um desdobramento que não deixará os antiglobalistas felizes, pois, estreitando os vínculos informais entre americanos, britânicos, australianos etc. e incorporando mais internautas ao universo da anglofonia, ele aumenta a influência da língua inglesa e de tudo o que esta veicula."

 

Eugênio Melloni

"‘Direção’ da internet terá 3 brasileiros", copyright O Estado de S. Paulo, 20/06/03

"Três brasileiros deverão compor os três ‘boards’ da Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), entidade que tem a licença do Departamento de Comércio americano para gerenciar nomes de domínios, endereçamento IP, servidores-raiz e protocolos da internet. Ivan Moura Campos, sócio da Akwan S.A e consultor na área de Tecnologia da Informação, Demi Getschko, diretor de Tecnologia da Agência Estado, e Tadao Takahashi, fundador da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), foram escolhidos para representar a América Latina e o Caribe no Icann, com mandatos de um a dois anos.Os três brasileiros têm longa atuação nesse segmento e assumirão suas funções durante encontro da entidade a partir de domingo em Montreal, no Canadá.

De acordo com Getschko, o encontro de Montreal será palco de discussões importantes sobre os rumos da internet no mundo. A começar pelo financiamento do Icann, uma entidade sem fins lucrativos. Inicialmente, o Icann foi bancado com recursos do Departamento de Comércio dos EUA e por patrocinadores. Hoje, conta com colaborações dos seus membros, que custeiam parte de seus encontros - são três eventos anuais.

Além disso, os domínios genéricos (.com e .net, por exemplo) já contribuem para a entidade com uma parcela do que arrecadam - de US$ 0,10 por registro -, segundo Getschko. ‘Uma das idéias que se discutirá no encontro é como os ‘country codes’ (domínios de países, como .br e .ar) contribuirão para a entidade’, diz Getschko. Trata-se de uma questão complexa. Ele lembra o caso da Argentina, onde os registros de domínios são gratuitos, o que dificulta a cobrança de taxa por registros. ‘Há uma série de possibilidades em discussão, como cobrar uma contribuição de domínios de países levando-se em consideração pontos como o seu PIB, por exemplo.’

Outra questão que será discutida em Montreal será sobre quais os dados dos domínios genéricos que deverão estar disponíveis na ‘lista telefônica’ da internet, um debate em que a defesa da privacidade vai se contrapor à busca por transparência. Também se discutirá como serão liberados domínios por falta de pagamento e como se fará o repasse desse domínio.

O último encontro do Icann foi realizado no Rio de Janeiro, em março, quando foi consolidada uma reforma que contemplou a eleição de especialistas para o comando da entidade."

 

Público

"Repórteres Sem Fronteiras Denunciam Vigilância na Internet", copyright Público (www.publico.pt), 22/06/03

"Leis liberticidas, ciberdissidentes presos, ‘sites’ bloqueados, vigilância dos fóruns de discussão: a Internet está sob cerco em muitos países, constata a organização de defesa da liberdade de expressão Repórteres sem Fronteiras (RSF), num relatório publicado na quinta-feira. Em 19 de Junho de 2003, mais de 50 internautas estavam na prisão, dos quais três quartos na China, explicou a RSF durante uma conferência de imprensa em Paris.

A organização publica todos os anos um relatório sobre ‘a liberdade de imprensa no mundo’, que também aborda a Net, mas no relatório apresentado na semana passada, ‘Internet sob vigilância. Os entraves à circulação de informação na rede’, com 160 páginas, aborda a situação dos internautas em sessenta países.

‘A Internet permanece como um meio de contornar a censura, um embaraço para os censores em muitos países’, afirmou o secretário-geral da RSF, Robert Ménard. O reverso da medalha é que isso ‘é acompanhado por uma repressão cada vez mais importante’. E exercida de várias maneiras: detenções de ciberdissidentes, bloqueio do acesso aos ‘sites’ julgados ‘politicamente ou culturalmente incorrectos’, controlo do correio electrónico, vigilância de fóruns de discussão, encerramento de cibercafés.

A RSF aponta o dedo sobretudo à China, que tem 59 milhões de internautas. Havia 42 ciberdissidentes pressos neste país, e ‘o poder bloqueia também o acesso aos ‘sites’ cujo conteúdo julga ‘perigoso’ ou ‘subversivo’.

Em Cuba a Internet aparece ‘como um fenómeno limitado e sob alta-vigilância’, com o acesso dependente de autorização e racionamento do equipamento necessário. A Tunísia, segundo a RSF, pratica censura de ‘sites’, intercepção de e-mails, controlo dos cibercafés e detenções.

‘E há igualmente problemas nas nossas democracias’, afirmou Ménard. A adopção de leis antiterroristas reforçou ‘o controlo das autoridades sobre a rede e pôe em risco o princípio da protecção das fontes jornalísticaas, nomeadamente nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em França’, garante a RSF."

 

REDAÇÃO PSICOPATA
Delmar Marques

"Você trabalha numa redação psicopata e não sabia?", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 18/06/03

"Estamos tão acostumados a relacionar a expressão ‘psicopata’ aos criminosos violentos, como os serial killers, que esquecemos da possibilidade de o diagnóstico ser aplicado a pessoas que desenvolvem a doença sem chegar aos atos extremos, mas igualmente agredindo, manipulando mesquinhamente, enfim, desenvolvendo um comportamento anti-social. Estudos mais recentes analisam a influência desses sociopatas no meio profissional, quando conseguem transformar seu ambiente de trabalho, através de práticas destrutivas, em esquemas extremamente prejudiciais não só às pessoas, mas também à produtividade da empresa. Em cargos de chefia, até mesmo competindo entre si, pois são por demais egoístas e insensíveis para fazer alianças sinceras, instalam verdadeiras ‘redações psicopatas’ por onde passam. Avalie bem se você não está trabalhando numa delas.

Primeiro é preciso compreender que não são apenas os assassinos seriais, mas uma grande proporção de criminosos violentos em nossa sociedade, são 25% dos presidiários, apresentam características do que a psiquiatria chama de ‘sociopatia’, atualmente reconhecido como um termo mais preciso do que psicopatia. O manual de diagnóstico usado por psicólogos e psiquiatras (DSM-IV) define um distúrbio mais geral, denominado mais apropriadamente ‘distúrbio da personalidade anti-social’ (DPA), listando suas principais características, que podem ser facilmente reconhecidas nos afetados.

Você pode identificar facilmente um psicopata como aquele que costuma demonstrar desprezo pelas obrigações sociais e por apresentar uma constante falta de consideração com os sentimentos dos outros. Eles exibem egocentrismo patológico, emoções superficiais, falta de autopercepção, como se isso fosse um mérito de suas personalidades. Apresentam baixa tolerância para frustração e limites ínfimos para descarga de agressão, costumando culpar todos a sua volta por seus erros. Essa irresponsabilidade, falta de empatia com outros seres humanos e ausência de remorso, ansiedade e sentimento de culpa em relação ao seu comportamento anti-social são características comuns em profissionais de imprensa que também são cínicos, manipuladores, incapazes de manter uma relação e de amar. Eles mentem sem qualquer vergonha, plagiam matérias ou mandam fazê-lo, abusam da boa vontade dos demais, trapaceiam para ganhar mais poder, negligenciam seus familiares.

O pesquisador canadense Robert Hare, um dos maiores especialistas do mundo em sociopatia criminosa, os apresenta como ‘predadores intra-espécies que usam charme, manipulação, intimidação e violência para controlar os outros e para satisfazer suas próprias necessidades. Em sua falta de consciência e de sentimento pelos outros, eles tomam friamente aquilo que querem, violando as normas sociais sem o menor senso de culpa ou arrependimento.’

O especialista Renato Sabbatini, diretor do Núcleo de Informática Bimédica da Unicamp e professor de Informática Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas, PhD. neurocientista e doutor pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria Max Planck em Munique, na Alemanha, afirma em artigo disponível na Internet (‘O Cérebro dos Psicopatas’, www.epub.org.br) que ‘os sociopatas são incapazes de aprender com a punição, e de modificar seus comportamentos. Quando eles descobrem que seu comportamento não é tolerado pela sociedade, eles reagem escondendo-o, mas nunca o suprimindo, e disfarçando de forma inteligente as suas características de personalidade’. Por isso, os psiquiatras usaram no passado o termo ‘insanidade moral’ ou ‘insanité sans délire’ para caracterizar esta psicopatologia.

Ao longo da minha carreira pude, infelizmente, colecionar uma série de experiências com jornalistas-psicopatas, sendo que nos últimos anos pude facilmente perceber como o problema ganhou tal dimensão que acredito que podemos classificar alguns ambientes de trabalho como verdadeiras ‘redações psicopatas’. Bastava um jovem repórter entrar às 9h dizendo que tinha uma prova na faculdade às 19h para receber do seu editor uma pauta ‘urgente’ às 18h que o prenderia no jornal até a meia-noite. Tal disparate era creditado às necessidades imperiosas da empresa e qualquer reclamação provocava imediata ameaça de demissão.

Igual insensibilidade pode ser percebida, também, nos critérios de edição. Apesar dos meus esforços, foi publicada uma matéria em que uma menina, atacada em seu apartamento e morta com duas facadas no pescoço, foi apresentada como potencial suicida. Imaginem a dor dos familiares e amigos ao lerem tamanha aberração no dia seguinte. O menosprezo diante do sofrimento alheio, geralmente justificada pela enorme pressão emocional que os jornalistas são submetidos por receberem uma enorme carga de informações negativas todos os dias, é uma das principais características nos critérios de diagnóstico da psicopatia (a lista completa está em www.mentalhealth.com).

Como os departamentos de recursos humanos das empresas jornalísticas limitam-se aos testes de admissão e aos registros de demissão, não acompanhando o que acontece nas redações nesse meio tempo, um psicopata consegue contaminar toda uma empresa, comprometer seu rendimento e sua credibilidade e levá-la à falência, saltando para novo emprego onde volta a disseminar suas práticas com igual resultado. Quanto mais alto o cargo que atinge, mais dissemina o pânico, a depressão, o jogo sujo pelo poder e veículos de comunicação igualmente insensíveis aos problemas sociais do país, condenados ao fracasso editorial. Pessoas doentiamente manipuladoras geram, infelizmente, ‘redações psicopatas’ e um jornalismo anti-social tão em voga na mídia internacional."

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