24/06/2003 21/23

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REDE SENAC DE TELEVISÃO
Fernanda Dannemann

"Celeiro independente", copyright Folha de S. Paulo, 22/06/03

"No ar 24 horas, o canal pago STV - Rede SescSenac de Televisão, mantido pelo Sesc-SP e pelo Senac-SP há sete anos, apresenta programação inteiramente feita por produtoras independentes. ‘Só neste ano já recebi mais de cem projetos’, diz o diretor de programação Robson Moreira, 49, que trabalhou com mais de 50 produtoras nos últimos dois anos e não revela seu orçamento para ‘não gerar especulação’.

Enquanto cinco delas renovam anualmente os contratos para produzir a grade fixa -idealizada por um grupo de jornalistas responsáveis pela programação-, produtores de todo o país buscam na emissora a chance da parceria e da exibição garantida. ‘A STV está vindo com tudo. Tem sensibilidade para as questões ambientais e culturais e abraça nossos projetos’, afirma Sérgio Túlio Caldas, 40, que produziu ‘Asia Central, Fronteiras do Islã’ e ‘Patrimônios da Caatinga’.

Cláudio Kahns, produtor de ‘Civilização do Cacau’, faz coro. ‘Se as outras emissoras fizessem o mesmo, teríamos um mercado de verdade para os independentes.’

Ao eleger o documentário como ponto forte do canal, e o Brasil como assunto principal em seu objetivo de exercer um papel na sociedade, o STV escolheu o telespectador acima dos 15 anos e dividiu sua programação em seis faixas temáticas.

A faixa ‘Arte e Cultura’, por exemplo, exibe atualmente 64 curtas de Charles Chaplin. Já a ‘Cidadania e Qualidade de Vida’, veicula o programa ‘Gerações’, apresentado pelo poeta Ferreira Gullar, que busca a integração entre jovens e idosos.

Disponível a 2,6 milhões de assinantes em todo o país, via cabo e satélite, segundo Moreira, o canal reprisa os programas seis vezes, em horários alternativos. ‘Não queremos que o telespectador seja nosso refém e bata o carro para não perder um programa’, diz. Sem acesso aos números da audiência, ele diz receber, em média, 400 pedidos mensais de cópias das atrações e 50 e-mails por dia.

Convênios

Com produção ‘90% nacional’, como diz Moreira, e o restante composto por documentários de TVs estrangeiras, a STV também tem 11 parcerias para co-produções e troca de programação com instituições, entre elas, TV Cultura, Rede Minas e TVE do Rio Grande do Sul.

Segundo o diretor, a emissora está negociando com o Ministério da Cultura o acervo audiovisual do canal desativado Cultura e Arte e de órgãos governamentais -como a Funarte. Faria parte do pacote, por exemplo, o projeto de captação de espetáculos teatrais do Cultura de Arte. ‘Doze peças foram captadas, entre elas ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, dirigida por José Possi Neto’, diz Moreira, que descarta a possibilidade de produzir dramaturgia.

Ao frisar que sua programação não é movida pela audiência, o diretor da STV diz que o ideal seria haver um código de ética que determinasse critérios e limites para as emissoras. ‘Estou convencido de que o gosto do telespectador é estabelecido pela oferta’, conclui.

STV - Canal 3 da Net, 22 da Canbras, 3 da Sky, 211 da Directv e 10 da Tecsat."

***

"Ferreira Gullar também faz TV", copyright Folha de S. Paulo, 22/06/03

"Há dois anos no papel de apresentador do programa ‘Gerações’, da STV, o poeta Ferreira Gullar, 72, inteiramente à vontade frente às câmeras, tem como assunto a maturidade. No intervalo das gravações, Gullar falou à Folha sobre televisão.

Folha - Por que o sr. aceitou apresentar um programa de TV?

Ferreira Gullar - Fui convidado pelo Roberto Viana, meu amigo e produtor. Eu jamais quis ser apresentador, mas vi que o programa não era igual aos outros e que eu prestaria um serviço. Se eu fosse convidado para fazer um ‘talk show’, nem cogitaria.

Folha - O sr. fica à vontade diante das câmeras?

Gullar - Inteiramente. Não quero ser estrela. Pergunto em lugar do público, e só. Às vezes faço um comentário engraçado, mas o pressuposto é que não entendo de nada do que está sendo discutido. Às vezes entendo, como quando houve um programa que envolvia questões políticas dos anos 60 e 70, já que fui militante e preso. Então acrescento perguntas, mas não estou ali para responder por ninguém.

Folha - O sr. gosta de fazer TV?

Gullar - Estou trabalhando com amigos e tenho prazer em vir encontrá-los. Houve uma expectativa de o programa terminar, e foi um momento de certa melancolia. Felizmente não acabou.

Folha - Como foi a sua passagem pela TV Globo?

Gullar - Fui roteirista da Globo por 20 anos. Adaptei espetáculos teatrais para o ‘Aplauso’, nos anos 70; fiz roteiros para os seriados ‘Carga Pesada’ [79] e ‘Obrigado, Doutor’ [81] e participei da ‘Quarta Nobre’. Criei com Dias Gomes a série ‘As Noivas de Copacabana’ [92], a novela ‘Araponga’ [90], e a minissérie ‘O Fim do Mundo’ [96]. Depois da morte dele, fui demitido. Trabalhar na Globo é muito aflitivo.

A empresa é íntegra com os funcionários, mas a estrutura de trabalho é muito estressante. Foi importante porque eu estava ao lado de grandes autores, mas trabalhei lá mais por dinheiro. Digo que trabalhar na Globo significa fazer entretenimento, e não arte. Fiz trabalhos de qualidade, mas altamente comerciais. Sair de lá foi um certo alívio, eles fizeram por mim o que eu não tinha coragem de fazer. Quando saí da Globo, até comemorei com a minha mulher.

Folha - Qual a sua opinião sobre a TV atual?

Gullar - Tem coisas boas e coisas péssimas. É inconcebível uma sociedade de massa sem a televisão, ela é uma parte orgânica da sociedade, mas como tem o problema comercial, isso pesa muito sobre a programação. Há programas que eu absolutamente não vejo e que considero constrangedores. Isso é lamentável, porque a televisão é uma concessão pública e tem um compromisso diante da sociedade, que é uma construção nossa; nós a inventamos e a mantemos, e a cada dia ela vai sendo transformada, conservada ou estragada por nós. Todos temos responsabilidade no que estamos fazendo, e a TV tem um papel fundamental por sua abrangência. Esta consciência não pode se reduzir simplesmente à preocupação de ganhar dinheiro e audiência.

Folha - A que o sr. assiste na TV?

Gullar - Aos jornais, mas, quando a coisa é chocante demais, eu mudo de canal. Não acho que tenham que ocultar a violência, mas não se pode criar uma imagem aterrorizante da sociedade. Há pessoas que me perguntam ‘mas você mora no Rio?!’... O que que há, cara? Existe violência no Rio, mas não é essa coisa de botar o pé fora de casa e levar um tiro. Não se pode exagerar, dizer que há um poder de Estado instalado nas favelas, isso é bobagem.

Folha - A TV é inimiga da leitura?

Gullar - Não. A TV é um instrumento da sociedade contemporânea e não adianta brigar com ela. A TV, muitas vezes é -e deveria ser mais- veículo da leitura. Conheço gente que nunca tinha lido Eça de Queiroz e leu ‘Os Maias’ depois da minissérie da Globo.

‘GERAÇÕES’ - Quartas, 22h30"

 

CINEMA
Silvana Arantes

"Em algum lugar do passado", copyright Folha de S. Paulo, 22/06/03

"O Brasil tem hoje 998 salas de cinema a menos do que possuía há 30 anos. Eram 2.648 telas em 1972. Em 2002, 1.650. Mas, comparada com 72, a renda das bilheterias nacionais no ano passado foi quase oito vezes maior -R$ 529,5 milhões contra R$ 70,1 milhões.

O encolhimento das salas e a expansão da renda traduzem uma transformação que é também geográfica, nos hábitos e no perfil do consumidor -os cinemas migraram das ruas para os shoppings, o público se elitizou, o preço médio do ingresso cresceu.

Estima-se que hoje no Brasil só 8 milhões de pessoas frequentem cinema e só 9% dos municípios possuam salas. A venda anual de ingressos gira em torno de 80 milhões. Em 72, foram 191 milhões.

Mais antiga rede de cinemas do Brasil, o grupo Severiano Ribeiro exemplifica, com sua trajetória, a mudança no parque exibidor.

‘No final da década de 70, 95% das nossas salas eram de rua. Em 1995, 90% eram salas de shopping’, diz Francisco Pinto Jr., diretor de expansão da empresa. O grupo tem hoje 185 salas; apenas nove resistem no formato de rua.

A decadência dos cinemas de rua é relacionada por especialistas do mercado com o medo da violência urbana. A estrutura dos shoppings, com seus estacionamentos e seguranças particulares, tranquilizaria o consumidor.

Mas o modelo multiplex formou (ou atendeu) um gosto de consumo que não se resume à idéia da segurança. Os conjuntos de salas são sempre acompanhados de bombonnière, porque a venda de alimentos é determinante na rentabilidade do negócio. Predominam na programação grandes lançamentos, em geral de filmes norte-americanos.

‘O cinema popular é muito importante para a divulgação do filme brasileiro’, diz Pinto Jr. Mas, de acordo com Luiz Gonzaga de Lucca, diretor de relações institucionais da Severiano, a viabilidade comercial das salas populares é ‘muito complexa’. A dificuldade seria equalizar o objetivo de rápida recuperação do investimento com a necessidade de vender ingressos a preços populares.

Num acordo entre o Ibope e a Filme B, empresa especializada no mercado cinematográfico, foram divulgados neste mês dados sobre o perfil do frequentador de cinema no Brasil.

Ouvidas 10 mil pessoas em nove Estados, concluiu-se que 54% dos espectadores são mulheres. A faixa etária predominante é a de 20 a 29 anos (33%), seguida pela de 12 a 19 anos (30%). 62% dos espectadores se situam nas classes A e B, 29% na classe C e 9%, nas D e E.

Se há uma tendência no mercado de salas, é a de um consumo mais requintado, que oferece as facilidades dos multiplex, sem a agitação dos shoppings. ‘Cinema de vizinhança’, define Pinto Jr.

De olho nesse filão, a Severiano Ribeiro faz sua primeira investida no mercado paulistano, abrindo, em julho, seis salas no Itaim (zona oeste), construídas num centro comercial que reúne hotel, lojas e restaurantes, em espaços abertos e independentes.

Uma das novas salas contará com tecnologia digital, que dispensa a película para a projeção na tela. A vantagem empresarial desse processo é a expansão das possibilidades de uso do cinema, eliminando seus tempos ociosos. Transmissões de shows, eventos institucionais e esportivos passam a ser alvos dos exibidores. Mas o multiuso das salas digitais ainda é uma expectativa futura.

De concreto, há a publicidade digital. Cada uma das novas salas da Severiano Ribeiro terá seu projetor digital para propaganda. Anúncios poderão ser programados e incluídos até meia hora antes do início da sessão. ‘É a publicidade que está garantindo o negócio’, diz Gonzaga de Lucca."

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