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BRASIL NA TV ESTRANGEIRA
Cristina Padiglione e Keila Jimenez

"O Brasil que passa na TV dos outros", copyright O Estado de S. Paulo, 21/07/02

"Quando a novela Esperança for exibida fora do Brasil, aquela seqüência em que os personagens lutam na Revolução de 1932, apresentada aqui no 9 de julho passado, certamente ganhará um adendo, em áudio ou legendas, para explicar seu significado histórico aos telespectadores estrangeiros. A arte de empacotar novelas para o mercado internacional responde a critérios cada vez mais rigorosos.

Exportando produções desde 1973, quando vendeu o Bem-Amado para o Uruguai, a Globo foi colecionando hábitos e reações das mais distintas em cada canto do mapa, a ponto de conhecer, hoje, o gosto peculiar de seus clientes.

São pequenos ajustes, cortes e inserções que garantem o sucesso da expansão mundial da chamada telenovela, palavra que se aplica quase que exclusivamente ao padrão brasileiro de contar uma história em capítulos pela TV. E, assim como cá, é um negócio capaz de lançar modas, músicas e mudar costumes por onde passa.

Prova recente disso é o êxito de O Clone no mercado externo. Exibida atualmente em oito países, o romance de Jade e Lucas aumentou em 47% a audiência da Telemundo, canal que exibe a trama nos Estados Unidos. No Uruguai, pela Tele Doce, é a terceira atração mais assistida. No Equador, pela Ecuavisa, só perde para o futebol e para Quem Quer Ser Milionário?, um Show do Milhão local.

Para o diretor-artístico da Divisão de Vendas Internacionais da Globo, Geraldo Casé, é impossível não notar a influência da trama de Glória Perez nos hábitos europeus e americanos. Nos EUA, principalmente em Miami, conta Casé, já estão à venda as bijuterias inspiradas nas de Jade (Giovanna Antonelli). Em Portugal, revistas femininas ensinam a fazer a maquiagem da protagonista.

‘Cada país reage de um jeito. No caso do Clone (El Clon), já esperávamos grande repercussão entre o público americano, por causa do 11 de setembro’, fala o diretor. ‘A tragédia despertou interesse pela cultura muçulmana e cuidamos para não entrar em detalhes muito extremistas, coisa que fazemos tratando de qualquer religião, para evitar problemas nacionais e internacionais.’

Arestas - Em geral, as novelas, aqui com 200 capítulos, em média, cruzam as fronteiras mais compactas e com capítulos de 25 a 50 minutos cada. Assuntos de compreensão local, e desde que não sejam fundamentais para a compreensão da trama, são cortados na hora da exportação.

Por exemplo: de toda aquela lista de convidados do bar da Jura (Solange Couto) em O Clone, só Pelé e Ronaldinho Gaúcho, conhecidos no exterior, deverão ficar na versão internacional.

Nos EUA, a abertura do Clone ganhou a voz de Shakira, cantora de grande identificação entre os hispânicos naquele país.

Consultor de novelas da Globo e doutorando no assunto pela USP, Mauro Alencar lembra de um caso similar ocorrido com Lua Cheia de Amor (1990).

‘No Brasil, a abertura exibia uma modelo imitando a Carmen Miranda, o que era muito nacionalista. Nos países de língua hispânica, a abertura ganhou música de Julio Iglesias e uam cena em que a Genuína, personagem da Marília Pêra, sonhava com o Francisco Cuoco’, conta Alencar. O episódio, aliás, faz parte do livro que ele prepara para setembro, pela Senac Rio, A Hollywood Brasileira.

O brasileiro que tiver chance de acompanhar a exibição de uma telenovela brasileira no exterior poderá se surpreender. O primeiro choque é ouvir todos aqueles atores em outra língua. A psicóloga Irene Gentilli ficou tão encantada com as diferenças que viu na Terra Nostra exibida na Itália, pelo canal Rette 4, que relatou o fato em estudo.

Um dos casos que mais lhe chamou a atenção foi a inserção, em áudio, de uma explicação sobre o contexto do Brasil do início do século passado. ‘Algumas explanações do deputado Augusto (Gabriel Braga Nunes) na Câmara ganharam texto à parte’, ela conta. ‘Os elementos históricos da realidade no Brasil, vivida pelos imigrantes, necessitam de narração sobre as imagens em preto e branco, para cunhar um caráter documental à trama ficional’, narra.

Reprise - Terra Nostra representou de fato um capítulo novo para o rumo das exportações da Globo. Atualmente, a novela de Benedito Ruy Barbosa, e cuja demanda externa acelerou a produção da atual Esperança, está em reprise pela mesma Rette 4 na Itália.

Autora de uma extensa pesquisa, pela USP, sobre a internacinalização da telenovela brasileira, Maria Immacolatta Vassallo de Lopes explica o trajeto percorrido pela telenovela brasileira na Europa. Com a multiplicação de canais privados nos vários países europeus, na década de 80, passou a sobrar espaço e a faltar produções na TV. Isso incentivou a compra de enlatados de modo geral, o que incluía novelas, brasileiras, sim, mas também venezuelanas, colombianas e mexicanas. Para os europeus, era tudo farinha do mesmo saco. ‘Não havia essa distinção que nós sabemos reconhecer, entre o padrão brasileiro e o mexicano’, conta Immacolatta.

A seguir, houve um declínio no espaço reservado ao gênero e, por fim, em 2000, coube justamente a Terra Nostra, trama de tema universal (imigração) a capacidade de seduzir o gosto desses telespectadores pela cena brasileira.

Para ela, a iniciativa da Globo em produzir uma telenovela específica para o mercado internacional - falamos aqui de Vale Todo, versão atual, com atores de língua hispânica, para a Telemundo (EUA) - representa uma preocupação estratégica.

A internacionalização da telenovela, produto nacional, será tema de um seminário internacional, que Immacolatta organiza para outubro, dias 24 e 25, na USP.

Isaura - Convém acrescentar que, na Europa, também há um horário nobre à tarde, por causa da tradicional sesta. Em compensação, na América Latina, as novelas com temas mais fortes e minisséries são exibidas no final da noite, geralmente após as 23 horas.

‘Países como Chile e México possuem um repressão velada na programação de TV’, conta Geraldo Casé.

Embora Terra Nostra represente um novo fôlego para esse mercado, ainda é Escrava Isaura (1976) que coleciona os melhores episódios provocados pela nossa telenovela na cultura mundial.

Apaixonado pelo tema, Mauro Alencar conta que o romance original, de Bernardo Guimarães, foi traduzido para quase todos os países onde a novela foi exibida.

Da exibição na íntegra dos seus quase 200 capítulos em Portugal - único país em que as tramas brasileiras não sofrem mudanças - a uma versão com 30 capítulos, foi comercializada para mais de 100 países. ‘Assim como no resto da América Latina, os brasileiros têm o hábito de assistir a folhetins grandes. Os europeus não têm paciência, eles gostam das novelas mais curtinhas’, fala Casé.

Na Rússia, por causa de Escrava Isaura, chegaram a incluir a palavra ‘fazenda’ no vocabulário local. Lá, as novelas não são dubladas nem legendadas. A TV russa utiliza um recurso batizado de voice-over, em que o som original da trama é veiculado baixinho e há um locutor contando falas e ações dos personagens. Antigamente, era um único locutor, agora, eles já usam vozes femininas e masculinas, mas sem a menor sincronia com as falas dos atores. Parece maluquice? Os russos não acham, eles adoram. É estranho gosto do mercado internacional."

 

TV PÚBLICA
Gerusa Marques

"TV digital deve passar por consulta pública", copyright O Estado de S. Paulo, 19/07/02

"A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deverá colocar em consulta pública, em agosto, o modelo de negócios que orientará a implantação da televisão digital no País. Segundo o presidente da agência, Luiz Guilherme Schymura, também fará parte da consulta a proposta de modelos de transição do sistema analógico de televisão para o sistema digital.

O modelo definirá qual a prioridade que será dada à TV digital.

Discute-se a alta definição de imagens, que teria número reduzido de canais mas com transmissão de altíssima qualidade, ou a distribuição do sinal em um número maior de canais, o que aumentaria as opções do telespectador, mas teria uma transmissão não tão boa. Esta definição é fundamental para a indústria e a comercialização dos televisores e conversores de sinal digital para analógico.

Schymura disse que a Anatel está fazendo os últimos ajustes nas propostas dos dois modelos elaboradas pela Fundação CPQd, contratada para propor a modelagem de negócios e de transição. Quanto às contrapartidas que serão exigidas dos países detentores da tecnologia, ele disse que a Anatel ainda está estudando de que forma isso será feito, mas vai buscar exemplos ou resultados de experiências já feitas, como a do Comando da Aeronáutica no processo de aquisição de novos caças."

 

VALE TODO
Laura Mattos

"Novela é feita ‘sob encomenda’", copyright Folha de S. Paulo, 17/07/02

" ‘Vale Todo’ é mais que um remake de ‘Vale Tudo’, a inesquecível história de Odete Roittman, exibida pela Globo em 1989.

Para adaptar a trama, Yves Dumont teve de ir além do que normalmente é, ou pelo menos era, tarefa de um autor de novela: usar como base da criação um estudo de mercado. A nova novela, que está sendo gravada no Rio e exibida nos EUA, é um produto de marketing, acima de tudo.

Dumont teve de colocar na trama elementos que criassem identificação com os latinos que moram nos EUA. Criou, por exemplo, um garoto mexicano que não consegue visto para viver na América. O personagem, que obviamente não existia na versão original, contempla um dos principais problemas do público-alvo.

O autor teve de se adaptar também ao ritmo das tramas mexicanas, que ainda detém a preferência do telespectador-alvo de ‘Vale Todo’. Quem já parou para ver novela no SBT sabe que os conflitos são simples e se resolvem rapidamente. Muitas vezes, começam e acabam num mesmo capítulo, enquanto no Brasil, tudo é lento.

Assim, o primeiro beijo entre Raquel e Ivan (Regina Duarte e Fagundes, na versão brasileira), que foi no 16º capítulo quando exibida no Brasil, nos EUA aconteceu no terceiro. É o melhor exemplo da filosofia da Globo: correr atrás de outras fontes de lucro."


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