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GUERRA & BIOTERRORISMO
Folha de S. Paulo

"Muçulmanos querem desculpas do ‘Casseta’ por piadas com o islamismo", copyright Folha de S. Paulo, 19/10/01

"Os xeques Ali Mohamad Abdouni e Jihad Hassan Hammadeh, representantes da comunidade islâmica no Brasil, encaminharão carta à Globo e ao ‘Casseta & Planeta’ exigindo que o programa se desculpe pelas piadas envolvendo o islamismo.

Os religiosos, consultores da novela ‘O Clone’ (Globo), que retrata costumes muçulmanos, sentiram-se ofendidos com a edição de terça do programa.

‘Nunca vi um ataque tão ofensivo aos muçulmanos. Toda a comunidade está muito indignada’, afirmou Hammadeh.

A piada que mais ofendeu os islâmicos foi uma que mostrava um livro verde, que representaria o Alcorão, com fotos de mulheres nuas. Na capa, estava escrito ‘Pelas Barbas do Profeta’.

A atração, que vem satirizando ‘O Clone’ e Bin Laden, também fez piadas com Allah e com o profeta Muhammad.

Manfredo Barreto, empresário do ‘Casseta’, afirmou que o grupo tomará mais cuidado com piadas sobre o islamismo. ‘Nossa intenção jamais foi ofendê-los. Além de muçulmanos, vivem no Brasil e devem saber que o ‘Casseta’ faz piadas com a atualidade. Mas se sentiram-se ofendidos, pedimos desculpas.’

Barreto disse que faltou conhecimento da religião islâmica na criação das sátiras.

Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação, afirmou que ‘ninguém pode duvidar do serviço que a Globo tem prestado no esclarecimento da cultura árabe em ‘O Clone’’. ‘A Globo é a emissora que mais se preocupa em diferenciar a religião islâmica do terrorismo.’"

 

FSP

"Mídia critica FBI por silêncio sobre suspeitos presos", copyright Folha de S. Paulo, 20/10/01

"O silêncio sobre a detenção de cerca de 800 pessoas pelo FBI como parte das investigações sobre os ataques de 11 de setembro nos EUA começa a despertar críticas de grupos de defesa das liberdades civis e da mídia americana.

Em editorial publicado ontem, o jornal ‘The New York Times’ questiona a necessidade de o Departamento de Justiça omitir ‘fatos básicos’ sobre sua política, tais como: base legal para as detenções; o número de pessoas detidas como ‘testemunhas materiais’; o período pelo qual o governo pretende mantê-las presas; e o número de pessoas que dispõem de representação legal.

O diário cita reportagens publicadas no último dia 15 nos jornais ‘Los Angeles Times’ e ‘The Washington Post’ que mencionam alegações de ‘tratamento abusivo’ por vários detidos -incluindo a proibição de terem contato com advogados e com sua própria família- e pede ao governo que revele ‘rapidamente’ informações sobre as detenções.

‘O secretário da Justiça, John Ashcroft, insiste em dizer que as ações do governo são ‘consistentes com o modelo da lei’. Mas a avareza de seu departamento ao compartilhar informações não é reconfortante’, afirma o jornal.

‘Se, de fato, o governo está tratando seus detentos de forma justa, por que não ser mais aberto? A divulgação dos fatos rapidamente ajudaria a descartar as preocupações relativas ao tratamento injusto [dos detentos’. Também encorajaria indivíduos com informações relevantes a se apresentarem e, assim, obter avanços na direção dos objetivos investigativos do departamento.’

A ACLU (American Civil Liberties Union) enviou na última quarta-feira uma carta a Ashcroft expressando sua ‘preocupação’ com a falta de informações fornecidas pelo governo sobre as detenções. ‘A ACLU reconhece que alguns aspectos dessa importante investigação são necessária e apropriadamente confidenciais. Contudo, em nossa opinião, isso não inclui fatos tão básicos quanto o número de pessoas presas, a base sobre a qual elas permanecem detidas e a amplitude de quaisquer ordens de sigilo que tenham sido emitidas’, diz a carta, publicada no site da organização na internet (www.aclu.org).

O ‘The Washington Post’ também publicou editorial nesta semana pedindo ao governo que divulgue ‘informações suficientes’ para provar que está agindo dentro dos limites da Constituição. Segundo o diário, um ‘alto funcionário do Executivo’ disse que ‘o governo, se não estivesse violando as liberdades civis, estava pelo menos ‘forçando a barra’ do comportamento aceitável’."

 

Contardo Calligaris

"Al Qaeda conta com o pacifismo incondicional", copyright Folha de S. Paulo, 18/10/01

"Na quinta-feira passada, Suleiman Abou-Gheit, porta-voz da organização terrorista Al Qaeda, declarou que, ‘nas nações islâmicas, há milhares de jovens ansiosos por morrer, enquanto os americanos estão ansiosos por viver’.

Se for assim, o terror ganhará a guerra. Como os americanos e, por extensão, nós, ocidentais, resistiríamos a um Exército que deseja sua própria morte, enquanto, mesquinhos, queremos preservar nossas vidas? Os que encararem a morte com desenvoltura serão mestres, os que preferirem minimizar os riscos serão escravos.

É certo que houve, vindos de várias nações islâmicas, muitos jovens ansiosos por morrer. No começo, pensamos que eles fossem animados por uma fé absoluta nas recompensas do além. O espírito crítico de nossa cultura nos torna desconfiados e céticos. Por contraste, a convicção maluca dos assassinos era exótica e podia nos parecer quase invejável, como se fosse uma qualidade moral perdida pela modernidade.

Essa explicação inicial encontrou um paradoxo: os pilotos assassinos não eram homens religiosos. A reconstituição de seus últimos dias incluía bebida e clubes de ‘go-go girls’. Com essa descoberta, a coisa ficou mais familiar. A força de uma fé absoluta constituía para nós um mistério. Mas sabemos do que é capaz o esforço para reprimir desejos que são fortes dentro de nós e, apesar disso, inaceitáveis. Conheci anos atrás um jovem que, perseguido por paixões masturbatórias proibidas, se automutilou. O vôo dos pilotos assassinos podia ser algo parecido: uma maneira de cortar brutalmente seu próprio desejo de ‘go-go girls’, matando, com uma cacetada só, o desejo (ou seja, a si mesmos) e as ‘go-go girls’.

Em suma, milhares (?) de jovens querem morrer matando outros que querem viver e que bebem e se permitem ‘go-go girls’. Para os assassinos suicidas, a matança é um remédio contra sua própria vontade de ser como aqueles que querem viver -vontade de álcool e de ‘go-go girls’. A fé seria uma racionalização. A repressão seria a verdadeira motivação.

Apareceu mais um elemento para explicar a determinação dos terroristas. Na última semana, três mulheres (duas delas americanas) me confessaram que, ao assistirem às falas de Osama bin Laden, sentiram-se atraídas quase fisicamente sem saber por que característica. Nos jornais, as fotografias de paquistaneses e de palestinos acariciando a imagem do terrorista não dizem outra coisa: independentemente de seus planos geopolíticos (obscuros), Osama bin Laden fascina e seduz.

Como? Prometendo uma morte bela. Aliás, é sempre com essa promessa que o terror e os fascismos recrutam: quem morrer por nós e conosco morrerá bonito. As elites quase sempre tentam convencer seus oprimidos de que a miséria é bonita (o Brasil conhece bem essa tática). Ora, o rebento mais famoso da elite saudita melhorou o esquema: achou o jeito de acalmar os oprimidos do islã, prometendo-lhes que sua morte seria bonita. A morte é o mestre absoluto, que ganha de nós todos -sempre. Morrer é a prova de nossos limites. Desagradável, não é? Bom, transformar nossa morte numa apoteose narcisista, numa imagem de grande beleza, é o melhor jeito de negar nossos limites. A nossa morte será o próprio monumento que nos eternizará. Era isso que podia animar os pilotos suicidas e assassinos na hora do impacto: uma imagem de si mesmos enaltecida pelo sacrifício e pelo horror. Lá vou eu, triunfando na morte. Bin Laden seduz por ser um maquiador de cadáveres.

Com isso, a determinação dos terroristas dilui-se num meandro de conflitos psíquicos banais.

Mesmo assim, nossa chance de resistir aos apóstolos da morte seria pequena, se fosse verdade que nós e nossos jovens queremos apenas viver. Se garantir nossa sobrevivência for a razão principal de nossa existência, então não haverá como resistir ao terror. Quem quer viver a qualquer custo nunca levanta para lutar. Será que Abou-Gheit tem razão?

É o que me parece quando ouço, nestes dias, a insistência de um discurso pacifista incondicional, que simplesmente pede que ninguém mais seja morto ou ferido. Tudo é aceitável em troca da sobrevivência: baixem as armas, não quero nem saber o porquê da briga, só tomo posição em favor da vida e não respondo à pergunta: ‘Qual vida?’. É um discurso coerente com um traço marcante da cultura contemporânea, segundo o qual o culto ao corpo e à saúde parecem valer como única ética coletiva.

Em contraponto, os passageiros do quarto avião sequestrado no 11 de setembro, quando souberam do destino dos outros aviões, rebelaram-se. Um deles falou no celular com sua mulher, a qual lhe sugeriu que ficasse calmo e, quem sabe, assim salvasse a pele. Antes de desligar e passar à ação, ele disse: ‘Algo precisa ser feito’.

Talvez Abou-Gheit esteja errado em seu entendimento da modernidade ocidental. É verdade que, para nós, a vida é um valor, e a morte nunca nos parece bela. Mas também é verdade que essa ‘consciência’ não nos torna todos necessariamente covardes."


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