CASO PIMENTA NEVES
Carlos de Oliveira
"Pimenta Neves ganha mais tempo na Justiça", copyright Máquina da Notícia, 25/08/03
"O desembargador Haroldo Luz, da 6ª Camara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ), decidiu ontem (21/08/2003) converter em diligência o julgamento de recurso impetrado pela advogada de defesa do jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, que quer evitar a sentença de pronúncia e a ida de seu cliente a julgamento popular. Para Luz, os autos devem retornar à 1ª Vara Criminal de Ibiúna (SP), para que o jornalista, réu confesso no assassinato da jornalista Sandra Gomide, ocorrido no dia 20 de agosto de 2000, seja novamente interrogado. Essa decisão, contudo, não será tomada de imediato, uma vez que o desembargador Ribeiro do Santos, um dos três que apreciariam o recurso, pediu tempo para analisar o caso. O julgamento do recurso foi, então, remarcado para o dia 28/08.
Em junho do ano passado, a juíza Eduarda Maria Romeiro Correia, da 1ª Vara Criminal de Ibiúna, decidiu levar Pimenta Neves a júri popular. Para ela, ficou caracterizado que o jornalista impossibilitou qualquer defesa da vítima. Pimenta foi denunciado por homicídio duplamente qualificado (sem dar chance de defesa à vítima e por motivo fútil).
A defesa recorreu dessa decisão e quer que o réu confesso seja julgado por homicídio simples, o que reduziria sua pena.
O jornalista ficou sete meses preso. Ele está em liberdade desde março de 2001 após uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).
Para o advogado criminalista Luiz Fernando Pacheco, do escritório Ráo, Cavalcanti & Pacheco, assistente do Ministério Publico contratado pela família de Sandra Gomide, ‘a acusação só tem a lamentar a cristalização da impunidade de Pimenta Neves por meio de expedientes utilizados pela defesa’. Para Pacheco, ‘a Justiça já é naturalmente lenta e a defesa se vale desse recurso protelatório até pelo fato de seu cliente estar em liberdade’."
POLÍTICA & CULTURA
Ana Maria Bahiana
"O suculento filão cultura-política", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 19/08/03
"A conjunção cultura-política, sempre interessante, continua no topo da minha lista de prioridades e curiosidades esta semana.
Há não muito tempo uma estudante de jornalismo me entrevistou, via e-mail, sobre o estado de coisas no setor cultural da imprensa. A maior parte de suas (muito boas, por sinal) perguntas focalizava a vertiginosa queda de prestígio, importância e relevância do métier (num ‘bate papo’ virtual, antes da entrevista, ela me havia confessado que tinha pensado em seguir a especialização em cultura, mas estava em vias de desistir, diante do consenso de colegas e professores de que se tratava de ‘perfumaria sem valor’, de ‘reputação duvidosa’).
Não me ocorreu isto na época, mas, hoje, eu teria dito à moça que a extrema relutância em abraçar os óbvios aspectos políticos da cultura - e, por simetria, os culturais da política - estão no coração dessa despencada. Não se trata de proselitismo - vício tão nocivo quanto esta poção turva de narcisismo e trivialidade que nos assola - mas da capacidade de perceber, seguir e analisar as encruzilhadas onde estas duas forças se tocam. O que é quase sempre.
Duas belas bolas na rede, recentemente, me lembraram do quanto o filão é suculento. Em matéria de capa do Caderno B do JB, Ely Azeredo discorreu sobre a candidatura Schwarzenegger e as implicações políticas de Hollywood. Não concordo com Ely - não vejo Hollywood como ‘de direita’, nem ‘de’ coisa alguma, mas uma força política em si mesma; e Michael Moore tem tanto a ver com Hollywood quanto focinho de porco com tomada - mas o simples fato do tema ter sido levantado, e de alguém com autoridade e conhecimento se pronunciar a respeito, já é um tremendo salto à frente .
No Estadão, enquanto isso, uma acertadíssima suíte de matérias construía um panorama dos hábitos de consumo de cinema do brasileiro, e a notável dicotomia social de suas opções: classe média nos multiplexes, classe trabalhadora nas locadoras de vídeo. É um excelente começo para uma proveitosa investigação onde cultura, economia e política se abraçam.
Guardei as matérias com carinho. Uma das coisas mais difíceis de explicar para profissionais estrangeiros de cinema é, exatamente, quem é o público brasileiro, quais seus padrões e preferências de consumo. Ouvi uma vez de um executivo americano (que tem toda simpatia pelo cinema em língua estrangeira) a seguinte indagação perplexa: ‘Mas como é possível que no Brasil se faça cinema sem que se saiba quem vai vê-lo?’.
As implicações dessa pergunta são tão vastas, profundas, atuais e óbvias que poderiam alimentar várias pautas por um bom tempo - algumas delas com aquele tempero que os editores tanto amam, a tal da ‘polêmica’. E sem precisar recorrer ao gluteus maximus! Nem de Christina Aguilera, nem de Jennifer Lopez, nem de Gerald Thomas!"