27/01/2004 6/30

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GOVERNO LULA
Policarpo Junior

"O ministro Eunício", copyright Veja, 28/1/2004

"‘Esse menino é diferente dos outros’, observou dona Discinelha, quando o filho mais novo, Eunício, decidiu sair de casa, na pequena cidade de Lavras da Mangabeira, no interior do Ceará, para estudar na capital. Ele tinha 12 anos, havia calçado um sapato pela primeira vez e acabara de aprender a ler. Aos 14 anos, o menino diferente arrumou emprego numa fábrica de biscoito, onde começou como provador. Esperto, sabia que o patrão costumava fazer rondas noturnas para verificar se os carregamentos cumpriam o cronograma e, mesmo de folga, se plantava na porta da fábrica. Caiu nas graças do chefe e chegou a gerente. Hoje, aos 51 anos e algumas dezenas de milhões de reais mais rico, o deputado federal Eunício Oliveira prepara-se para assumir o Ministério das Comunicações do governo Lula. Chega, de novo de maneira veloz, ao topo de uma carreira política iniciada há apenas cinco anos. No Congresso, assim como fazia na fábrica, se empenhou nas negociações de apoio político de seu partido, o PMDB, ao governo. Caiu nas graças do Planalto e foi premiado com a promoção. ‘Sou um sujeito de muita sorte’, reconhece o novo ministro. A sorte vive atravessando a biografia de Eunício.

Antes de se dedicar à política, o futuro ministro fez carreira como empresário. O primeiro bem de Eunício foi um Chevette zero-quilômetro, ano 73, que ganhou do dono da fábrica de biscoito por ter conseguido vender o produto a uma grande rede de supermercados do Nordeste. ‘Foi sorte e trabalho’, diz o deputado, que hoje é sócio de onze empresas, tem casas, prédios, apartamentos, lojas, carros importados, aviões, fazendas, emissoras de rádio - um patrimônio declarado de 20 milhões de reais, que, atualizado, vale pelo menos o triplo disso. Sim, o deputado Eunício é um milionário, como tantos outros políticos. A Confederal, uma empresa de vigilância e transporte de valores, é a propulsora de seus negócios. A companhia é uma potência na área de prestação de serviços. Emprega 4.000 pessoas, fatura 65 milhões por ano e, como a maioria das firmas de sucesso nascidas em Brasília, cresceu e ficou forte se alimentando de bons contratos com órgãos e empresas estatais. Reina absoluta em instituições como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Ministério da Fazenda. Sim, o deputado Eunício ganha dinheiro em contratos com o governo. O processo de terceirização de serviços em repartições públicas começou no fim da década de 70. Um amigo cearense de Eunício anteviu o filão e comprou uma empresa quase falida em Brasília. Ofereceu sociedade ao colega, que topou o desafio. Foi nessa época que Eunício conheceu e começou a namorar Mônica Paes de Andrade, filha de um influente político cearense, o então deputado Paes de Andrade, atual embaixador do Brasil em Portugal. Também foi nesse período que Eunício deslanchou como empresário.

Ousado, ele saneou a firma e decidiu concorrer com empresas tradicionais da cidade que dominavam o mercado de prestação de serviços a órgãos públicos. Apostou, logo de início, numa milionária licitação do DNER - e venceu. Sua proposta foi a mais baixa, precisamente 1 centavo mais baixa, para desespero da concorrente que ficou em segundo lugar. ‘Foi pura sorte’, lembra Eunício. Depois disso, não parou mais. Sua empresa ganhou outra não menos importante licitação para limpeza e vigilância da Sucad, o órgão que gerenciava os imóveis funcionais do governo. Mais de 11.000 só em Brasília. ‘Era um contrato enorme.’ Em 1981, Eunício deu início à corrida em direção ao primeiro milhão e também decidiu casar. ‘Você vai se casar com aquele provador de biscoito?’, estranhou o deputado Paes de Andrade. Não só se casou como avançou na área de influência do sogro ao vencer uma licitação para prestar serviços à Câmara dos Deputados. Outro contrato milionário. Paes de Andrade era o primeiro-secretário da Câmara, responsável, inclusive, pela parte administrativa. Em Brasília, sempre se falou que o sucesso das empresas do deputado tinha um dedo de influência do sogro. Pegou mal. Ele estava viajando quando os envelopes foram abertos. Ao saber do resultado que beneficiava o genro, decidiu anulá-lo. ‘Ficamos sem nos falar durante uns seis meses’, lembra Eunício. ‘Isso mostra que ele nunca me ajudou em nada.’

Por causa desse contrato fracassado, Eunício acabou deixando a sociedade. ‘Ele é arrojado e um grande articulador’, diz José Pedrosa Filho, que nessa época convidou Eunício para gerenciar sua empresa e, dois meses depois, ofereceu-lhe sociedade. Juntos, eles compraram a Confederal. Depois, Eunício resolveu seguir sozinho e adquiriu todas as cotas da empresa. Foi o grande negócio de sua vida. A Confederal venceu as licitações de dois dos maiores clientes de segurança e transporte de valores de Brasília - a Caixa Econômica e o Banco do Brasil. Mantém esses contratos há quase duas décadas. O patrimônio do deputado também começou a se multiplicar a partir daí. Em 1994, Eunício tinha declarados 6 milhões de reais. Em oito anos, saltou para 20 milhões em valores não atualizados. Estima-se sua verdadeira fortuna pessoal em 60 milhões de reais. A Confederal é o carro-chefe do grupo de empresas do deputado, que faturam algo em torno de 150 milhões de reais por ano e atuam em ramos diversos, como construção civil, táxi aéreo, concessionária de automóveis e produção rural. A Confederal responde por quase metade de tudo - e continua crescendo. Em 1995, a empresa gerava 35 milhões de reais por ano. Em 1998, Eunício se afastou da administração para tentar ingressar na política. Parece ter sido uma boa decisão empresarial. O faturamento da Confederal passou a aumentar numa velocidade ainda maior. Era de 42 milhões quando Eunício saiu para se candidatar. No último balanço apresentado em 2002 saltou para 66 milhões de reais. O lucro também dobrou no mesmo período, passando de 2 milhões para 4 milhões de reais.

Eunício é a imagem e semelhança do político-empresário-bem-sucedido da capital. Fez fortuna tendo o Estado como cliente e, de uma hora para outra, resolveu entrar para a política. Em 1998, foi o deputado federal do PMDB mais votado. Na eleição seguinte repetiu a dose e teve 190 000 votos, deixando para trás o sogro, Paes de Andrade, que não conseguiu nem se eleger. O sucesso eleitoral no Ceará foi estrategicamente pensado. Eunício ajudou vários prefeitos, aproximou-se de lideranças importantes e adquiriu três emissoras de rádio no Estado, ferramenta eficiente para quem busca popularidade nos grotões. Ele não será o primeiro ministro que tem uma parcela de suas propriedades regulamentada e fiscalizada por órgãos que passará a dirigir. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, é sócio de uma empresa exportadora de alimentos. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é aposentado por um banco privado, e o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, é um próspero fazendeiro. Nada de novo, portanto, em haver um ministro das Comunicações dono de emissoras de rádio. ‘Como negócio, é muito ruim’, diz ele. ‘Hoje, só no Ceará tem dezenas à venda. Estou pensando até em me desfazer das emissoras.’

Um detalhe curioso de sua biografia: o novo ministro só virou Eunício quando entrou para a política. Seu apelido desde a infância era ‘Bebeto’. Eunício, na verdade, era para se chamar Eurico, uma homenagem que seu pai queria fazer ao ex-presidente Eurico Gaspar Dutra, mas o escrivão do cartório errou na hora do registro. Uma vez ele perguntou ao pai por que tinha lhe colocado esse nome. Com a simplicidade de quem sempre viveu no interior, seu pai, Otoni, explicou: ‘A vantagem é que você não vai ter um homonimi’. Existem 99 Eunícios em todo o país. Destes, oito são Eunícios Lopes. Dois são Eunícios Oliveira e um, até pouco tempo atrás, tinha o mesmo nome e sobrenome do futuro ministro - Eunício Lopes de Oliveira. O pai teria errado em sua previsão? Havia um homônimo? Não. A Receita Federal, ao fazer um recadastramento de contribuintes, descobriu que se tratava do próprio ministro Eunício Lopes de Oliveira, apenas com outro número de CPF. No cadastro estava registrado o endereço onde o deputado morava em Fortaleza quando trabalhava lá. Sim, o deputado Eunício tinha dois CPFs. Por quê? ‘Esse CPF deve ser de quando eu tinha emprego no Ceará. Eu o perdi na década de 70. Quando mudei para Brasília, tirei outro. Nunca o usei para nada. Não sabia nem ele que existia. Só descobri isso quando fui registrar uma empresa na junta comercial e me avisaram. Posso garantir que não é para esconder nada. Ele foi cancelado em 1997...’ Agora, está explicado."

 

Nelson de Sá

"Aos amigos", copyright Folha de S. Paulo, 23/01/04

"E no fim Lula vai fazendo sua reforma ‘sem demitir os amigos’.

O presidente passou gente de lá para cá e, pelo jeito, deve manter até Benedita da Silva, cuja demissão ‘era quase certa’, segundo a Globo.

Parece que ela fica como secretária de Políticas para a Mulher, embora a cobertura não diga o que será da atual secretária. Talvez a secretaria se divida em duas.

Já não se sabe bem o que diferencia tantos nomes de secretarias, ministérios, assessorias especiais e lideranças do governo no Congresso.

Uma hora se diz que Aldo Rebelo vai cuidar do Ministério da Articulação Política, outra hora o nome é Ministério Extraordinário das Relações Políticas, outra hora é Secretaria da Coordenação Política.

E nada de esclarecer se ele vai responder, afinal, ao presidente ou a José Dirceu.

Outros amigos ficaram. A Band confirmou que ‘Miro Teixeira será o líder do governo na Câmara’.

Também já se confirmou que José Graziano deixa o Fome Zero e muda para o palácio como assessor para, entre outros temas, Fome Zero.

A barafunda continuou e chegou a envolver, ontem, Ricardo Berzoini (Previdência Social) no lugar de Jaques Wagner (Trabalho), por sua vez no lugar de Tarso Genro (Desenvolvimento Econômico e Social), por sua vez no lugar de Cristóvam Buarque (Educação).

Buarque não é ‘amigo’ e seria espirrado para o Congresso. Sem direito a brinde no Jornal Nacional.

A manutenção da taxa de juros pelo Banco Central esteve longe de concentrar a atenção dos telejornais dos últimos dias. Mas não faltaram reações pontuais, algumas carregadas na retórica.

Para Míriam Leitão, ‘o Banco Central poderia, sim, ter reduzido a taxa’.

Para Geraldo Alckmin, na Jovem Pan, a decisão foi ‘ducha de água fria na economia’. Para Delfim Netto, o BC acreditou nas ‘anedotas da FGV’ e mostrou ser ‘covarde’.

Entre uma obra e outra, a prefeita Marta Suplicy teve que falar sobre Rita Lee.

A cantora, segundo a Jovem Pan, declarou no Rio que São Paulo não sabe fazer festa e que falta personalidade às mulheres paulistanas.

Marta, que não era o alvo pois as críticas obviamente não cabem, creditou tudo ao ‘estilo irreverente’ da artista.

E foi inaugurar um ‘corredor cultural’ no centro velho."

***

"Deixa a vida levar", copyright Folha de S. Paulo, 22/01/04

"No dizer da Globo:

- Só se fala em reforma ministerial no palácio.

Não só lá. Em meio ao ruído sem fim dos 450 anos de São Paulo, é a reforma que move os telejornais.

Até Zeca Pagodinho deu seu ‘conselho aos que saem’, ele que animou a roda de samba do primeiro escalão, anteontem na Granja do Torto.

Na ‘despedida’ do primeiro ministério Lula, o conselho do pagodeiro foi dado com verso de sua música:

- Deixa a vida me levar.

A vida levou Roberto Amaral e também, ao que parece, José Graziano, ambos recebidos pelo presidente.

E enfim levou Miro Teixeira, que chamou os microfones e saiu avisando que só aguarda o ‘substituto’.

A corrente contrária carregou o mineiro Patrus Ananias para o ministério, ele que abriu o jogo para a Record:

- Eu me sinto com condições de contribuir.

De saída, Miro Teixeira não reclamou da provável demissão geral dos ministros do Rio. Disse que o investimento no Estado se mantém, citando o presidente carioca do BNDES.

Dinheiro, mais do que o cargo, é o que importa -que o diga Roberto Requião, para quem já teriam prometido o controle da Eletrobrás.

Que o diga Renan Calheiros, também peemedebista, que saiu espalhando que vai decidir tudo com Lula amanhã, horas antes da viagem à Índia.

Em meio a tantas conversas, a novidade é que o PMDB pode acabar levando seu cobiçado Ministério dos Transportes -era o que faltava.

No verso do samba, que serve para o PT:

- Deixa a vida levar.

O PT não vai apresentar mais, na convocação extraordinária, a proposta de diminuir o recesso parlamentar -os três meses de férias.

Quanto ao desgaste com a convocação, o líder pefelista José Carlos Aleluia culpou Lula, na Jovem Pan:

- Não há o que fazer aqui.

Na CBN, o líder tucano foi na mesma linha. Até o presidente da Câmara, o petista João Paulo Cunha, atacou:

- Não fomos os responsáveis pela convocação.

Pode ser culpa do Executivo. Mas é o Legislativo que apanha na Globo:

- Pelo terceiro dia não houve sessão de manhã. O trabalho é lento. Independentemente disso, os primeiros R$ 12,8 mil serão pagos nesta semana.

Os parlamentares questionam Lula e a convocação, mas nada de devolver o dinheiro."

***

"Trabalho honesto", copyright Folha de S. Paulo, 21/01/04

"Lula não aceita que se fale de reforma ministerial, na TV. Mas não fala de outra coisa, no palácio.

Ou melhor, oferece aos telejornais uma alternativa de ‘photo-op’, oportunidade de imagem, na Granja do Torto. Com Zeca Pagodinho.

Foi uma oportunidade para ajudar nas vendas do DVD do cantor. Em troca, o presidente se mantém popular entre os fãs de pagode.

Enquanto Lula vendia DVD, o JN mostrava cenas angustiantes do desemprego:

- Candidatos a trabalho temporário formam fila de dois quilômetros e meio.

Isso, no Amazonas. Em São Paulo, a fila era outra, por atendimento médico.

A administração petista desativou o 0800 que tinha para marcar consultas -e as filas voltaram a postos como o de Sapopemba.

Em plena semana dos 450 anos, o destaque nos telejornais locais foi para imagens de fila e a notícia de que postos limitaram o atendimento.

O novo secretário mal conseguia articular respostas a perguntas como:

- A zona leste é a mais populosa da cidade. O posto mostrado não tem clínico geral. A distribuição de senhas é desastrosa. O que acontece?

Em outra passagem, o locutor criticou:

- Não dá para funcionário ficar de braços cruzados enquanto o pessoal espera.

E o secretário:

- Essas questões gerais nós vamos resolver. E vamos tentar melhorar de novo a colocação de médicos este ano.

Este ano é de eleição, afinal.

Por falar em fila, um deputado federal tucano, Serafim Venzon, tentou furar a do transplante de medula. Era para uma vizinha. Dele, no JN:

- O ministro foi extremamente ágil. Em três dias foram liberados os entraves.

O ministro petista Humberto Costa não deu as caras.

Ontem, na cobertura da Globo News, de novo:

- Não houve sessão.

O tema era a ‘convocação extraordinária’ do Congresso. E de novo com tiradas de Inocêncio Oliveira.

O pefelista disse que deputado nenhum gosta de receber o ‘dinheiro extra’. Mas por que não devolvem?

- Porque precisamos respeitar a Constituição. Eu mesmo não vou devolver. Porque o meu trabalho é honesto.

Na CBN, Franklin Martins aconselhou:

- Em vez de pagar a conta do desgaste, o Congresso deveria votar logo a mudança na duração do recesso.

Aquelas férias de três meses."

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