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ELEIÇÕES 2002
Nelson de Sá
"Quebra-quebra", copyright Folha de S. Paulo, 22/03/02
"Enquanto pefelistas, tucanos e outros se digladiam entre pesquisas e telefonemas, surgem na TV as primeiras imagens de que a política pode ir além dos gabinetes neste ano.
Foram cenas de Goiânia a Belém, de Salvador a Brasília, mas sobretudo São Paulo. Manifestantes fecharam a av. Paulista e até a estrada que leva ao aeroporto de Guarulhos.
Na praça da República, diante de um imenso cartaz com a face de Che Guevara, os estudantes queimaram bonecos que representavam FHC e o pré-candidato governista, José Serra.
O que mais impressionou foi a amplitude do ‘dia de protesto’ contra a flexibilização da CLT, de norte a sul. E com as ameaças, do presidente da CUT, de muito mais se a mudança for aprovada no Congresso.
Não faltaram nem os primeiros sinais de descontrole. Na Paraíba, como sublinhou Boris Casoy, houve ‘quebra-quebra’.
Nada bom para a imagem do moderado e confiável -como quer Duda Mendonça- Lula.
A direção do PFL, um dia depois do discurso anticlimático de José Sarney e provavelmente já sabendo da nova queda de Roseana no Ibope, baixou o centralismo democrático.
O senador que não votar como a direção ordenar será expulso, foi a ameaça do dia, como destacou o Jornal Nacional. O mesmo vale para o deputado federal que não obedecer Inocêncio Oliveira.
Não era difícil distinguir mais uma vez a mão de Jorge Bornhausen, no esforço de evitar que a legenda se torne um novo PMDB na mão do governo.
De todo modo, prossegue a reconstrução de pontes.
Os próprios pefelistas teriam votado pelo arquivamento, decidido pela Mesa da Câmara, do pedido de cassação do tucano Márcio Fortes. E Fortes, de sua parte, desistiu de processar os pefelistas por calúnia.
O pouco que havia de concreto no discurso de Sarney, o pedido de observadores da ONU, foi dissolvido ontem.
FHC voltou a dizer, com o presidente da Câmara, que a idéia é despropositada. Lula foi na mesma linha, dizendo que, para tanto, o país tem a Justiça.
Mas foi Jefferson Perez, pedetista tido por referência moral do Senado, quem marcou mais, ao se dizer contra, na Jovem Pan:
- O Brasil não é o Zimbábue. As eleições são razoavelmente limpas.
Por enquanto, o país tem que se contentar com ‘razoavelmente’.
Itamar Franco, depois de consolidar a candidatura Serra, surgiu falando de sua ‘tristeza’ com a própria decisão.
Semana que vem, segundo a Globo, ele vai a Juiz de Fora para um retiro de ‘reflexão’. Pode voltar presidenciável de novo."
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"Qual o idiota?", copyright Folha de S. Paulo, 21/03/02
"José Serra usou o Jornal Nacional para dar a sua resposta a José Sarney, ontem. Sentado, despreocupado, num enquadramento de estadista, o tucano comentou:
- Ele falou como um pai.
Comentou também que não tinha nada a ver com ‘esse episódio do Maranhão’. E que Sarney deu ouvido a ‘fantasias ou mexericos’.
Na mesma linha, o tucano escalado para responder a Sarney no plenário, na transmissão pela TV Senado, Globo News e Band News, buscou aparentar facilidade na tarefa.
Foi um discurso ‘de pai’, saiu logo dizendo Artur da Távola, como se o ex-presidente não devesse ser levado a sério; um bom senhor, de respeito, mas não mais que um pai ferido, reagindo com emoção.
O tucano dizia apresentar ‘fatos’ e não ‘adjetivos’ -expressões que sublinhou o quanto pôde, para desqualificar o discurso de Sarney. A Justiça ordenou, a polícia cumpriu: ‘fatos’, nada mais.
‘Oratória’, acusou o tucano a certa altura.
De fato, oratória. Sarney parece ter vasculhado arquivos de jornais atrás de acusações novas e antigas para agitar no plenário contra Serra e o governo. Pouco ou nada mostrou de novo -a não ser oratória.
Mas as palavras têm um poder que Artur da Távola, que se quer um literato como Sarney, deveria conhecer, e não receber com o desdém tucano que demonstrou.
As palavras têm poder quando Sarney diz, por exemplo, como ‘pai’, mas não só:
- Quem acredita neste país, qual o idiota, que uma ação dessa magnitude seria armada sem que a máquina estatal de nada soubesse?
Outra:
- Se ela (Roseana) aceitasse ser vice, certamente não estaria amargando essa manipulação de imagem cuja origem está no aparato estatal.
Mas é evidente que poderia ter sido muito pior para FHC, Serra e os tucanos.
O discurso de José Sarney foi antes de mais nada, como disse o JN em sua manchete, uma ‘defesa’. E, pior, uma ‘defesa da filha’.
Para além da oratória, o que machucou os governistas no interminável discurso de ontem foi o pedido de um observador da ONU para vigiar o processo eleitoral no Brasil.
Foi a única declaração que causou reação de FHC. Ele disse que não é necessário, que quem vigia as eleições no Brasil é a ‘mídia’.
A começar do JN.
O mais curioso no discurso talvez tenha sido acompanhar um líder do regime militar como Sarney falar contra o Dops, o órgão que torturava e fazia muito mais quando ele próprio estava no poder.
E ainda buscar apoio em declarações dadas por Lula, Leonel Brizola.
O JN escolheu a formalização da candidatura de Lula, que foi apresentado pelo programa num enquadramento sóbrio de estadista -ou de eleito- como Serra.
Mas a maior concorrência ao discurso de Sarney foi mesmo a extemporânea desistência de Itamar Franco de disputar a Presidência."
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"Dinheiro de sobra", copyright Folha de S. Paulo, 20/03/02
"As cenas de São Paulo debaixo d’água coincidiram com a formalização da candidatura de Lula, no PT.
E com a saraivada de críticas e ironias em torno da prefeita petista, na vitrine eleitoral que restou ao partido.
Na Globo, um link fazia plantão na av. Aricanduva, à espera da sétima enchente, enquanto o repórter relatava:
- Não veio ninguém da Prefeitura... Ninguém passou para recolher lixo.
Um morador, desesperado:
- Não estão fazendo nada, nada, nada pela gente.
E teve coisa pior. Na Record, atacaram Marta pela idéia de sediar a Olimpíada -ao fundo, imagens da enchente.
Na Jovem Pan, o paralelo foi outro. Disseram que, enquanto ela comemorava o aniversário numa casa ‘elegante’ da av. Faria Lima, junto com Lula e ‘o namorado’, na av. Aricanduva se vivia o oposto.
A festa ‘concorrida’ foi parar até na Globo.
Enquadraram o pefelista ‘radical’ Inocêncio Oliveira.
Ele ‘até tentou’, segundo a cobertura, convencer a bancada a barrar a CPMF, usando uma pesquisa que apontaria a oposição dos brasileiros ao imposto. Não conseguiu.
O problema foi a avaliação de que, se chegasse com tal posição ao plenário, ficaria evidente a falta de unidade da bancada -e se iniciaria a debandada tão temida pelo ‘moderado’ Jorge Bornhausen.
O segundo enquadramento de Inocêncio foi quanto à CPI do grampo. Ele mesmo anunciou que não vai mais assinar o pedido de abertura.
E assim o PFL vai construindo as caravelas para voltar.
Do outro lado, segundo se anunciava, os tucanos faziam sua parte e afastavam Márcio Fortes da campanha.
Um dia antes do prometido e tantas vezes adiado discurso udenista de José Sarney, chegou à TV a gafe de José Sarney Filho, em conversa com o pai. Nas manchetes da Band:
- Irmão de Roseana diz que ela tem que escolher entre a campanha e o marido.
Assim fica difícil defender a Lunus do genro.
A imagem política do dia foi de um vereador de Tangará da Serra, à tarde na Globo, dizendo ter aceito dinheiro para aprovar uma privatização:
- Foi, foi R$ 10 mil. Eu peguei e os outros também pegou (sic). Eles não podem negar também não, porque todo mundo pegou. Tinha dinheiro de sobra. Estava sobrando dinheiro."
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