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ELIO GASPARI / AS ILUSÕES ARMADAS
Carlos Heitor Cony

"O livro do Elio", copyright O Estado de S. Paulo, 26/11/02

"Deve ser chato morrer frustrado. Aliás, é chato morrer, seja de que maneira for, mas quando se vai desta para pior levando uma carência, um desejo não realizado, um projeto não alcançado, a morte não apenas acaba com a vida mas destroça o sonho -sendo assim um fracasso duplamente mortal.

No meu caso particular, posso cantar vitória. Duas aspirações que trago do berço se realizaram, custaram um pouco, mas sempre vieram, embalsamando meu coração com a felicidade que nem todos desfrutam.

A primeira dessas aspirações foi a vinda de Frank Sinatra ao Brasil, anunciada desde os tempos em que os tamoios se assanhavam aqui no Rio à espera de novidades. Demorou muito, cheguei quase a desanimar, mas afinal tive meu momento de glória, vendo Sinatra cantar no Maracanã ‘Strangers in the Night’.

A outra aspiração, não menos difícil que a primeira, era ter vida suficiente para ler o livro que o Elio Gaspari estava escrevendo desde o século passado. Diversas vezes o interpelei, com alguma rudeza, cobrando-lhe pressa, não queria ir embora deste mundo sem ler as cavilações, as revelações, as informações e as brilhantes tiradas nas quais o Elio é mestre sabido e consabido.

Ele está para 1964 como Suetônio está para os Doze Césares. Só que com melhor estilo e maior isenção, pois Suetônio não era um Tácito nem um Tito Lívio e vivia pendurado na corte, tal como seu rival Petrônio.

Misturando os dois cronistas da fase áurea do império romano, mas sempre com estilo melhor e maior profundidade, Elio Gaspari pagou-me a dívida e esclareceu as dúvidas que amealhei esses anos todos.

Partirei deste mundo satisfeito, e só não estarei cem por cento realizado porque ainda não sei onde estão os ossos de Dana de Teffé. Quem sabe o Elio ainda virá em meu auxílio."

Leão Serva

"Elio Gaspari lança ‘As Ilusões Armadas’, primeiros volumes de sua crônica da ditadura militar imposta em 1964", copyright Último Segundo, 23/11/02

"Começa a chegar às lojas neste sábado um dos livros mais esperados dos últimos anos. Em verdade, dos últimos 18 anos, quando começou a ser escrito: o livro do jornalista Elio Gaspari sobre a saga do regime militar de 1964 e como dois de seus artífices, os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, tramaram o golpe e depois o fim da ditadura.

Os dois primeiros volumes (de um total de cinco) formam um conjunto denominado ‘As Ilusões Armadas’ (referência ao ‘Ilusões Perdidas’ de Balzac). Cobrem o período que vai do golpe de 31 de março de 1964 à decretação do AI5 (dezembro de 1968); e desse momento de radicalização do regime de força ao final da guerrilha do PC do B no Araguaia (início de 1974).

Se vender integralmente, a edição, com 50 mil exemplares de tiragem cada volume, é suficiente para tornar a obra um dos maiores best-sellers do país nos últimos anos. Depois destes, já prontos, virão mais dois cobrindo os anos de 1974 a 1977 (do início do governo Geisel à demissão de seu ministro do Exército ‘linha dura’, general Sylvio Frota). Um quinto volume, ainda por escrever, encerrará a coleção descrevendo o fim do governo, até a posse do general João Figueiredo, em 1979. (Gaspari diz que não tem interesse no período seguinte, concedendo a Figueiredo o esquecimento que ele pediu.)

Cada um dos primeiros volumes tem um nome próprio, referência a outro clássico do gênero biográfico: ‘A Ditadura Envergonhada’ e ‘A Ditadura Escancarada’ (estes ecoam os títulos dos três volumes da biografia do revolucionário russo Leon Trotsky, por Isaac Deutscher: ‘Profeta Armado’ , ‘Profeta Desarmado’ , ‘Profeta Banido’).

Os dois primeiros livros, com um total conjunto de 924 páginas, são o resultado de um minucioso trabalho de pesquisa, obsessivo mesmo, em que o jornalista passou por uma infinidade de fontes diretas ou indiretas, arquivos próprios ou de outros, públicos ou privados. Um retrato disso são as 23 páginas de citações de fontes, com duas colunas de letras miúdas cada; ou as 33 páginas de índice remissivo. Segundos os editores, foi necessário um ano de checagem para que toda essa massa de informação ficasse exata.

Ao longo dos 18 anos de pesquisa, Gaspari buscou informações em cerca de 500 livros, mais de duzentos entrevistados e milhares de documentos que compõem os arquivos pessoais de Ernesto Geisel e o de Golbery do Couto e Silva e Heitor Aquino Ferreira (como registra o jornalista Zuenir Ventura em material de divulgação da editora Companhia das Letras, em que classifica o trabalho como ‘obra prima’ ).

Para registrar com mais precisão cada fonte de informação do livro, Gaspari publica referências para todas as passagens, em um total de 2.543 notas de rodapé, uma média de 2,75 notas por página. É melhor que estejam ali, no fim de cada página em vez de ao final dos capítulos, mas os olhos dos leitores são tentados a saltar demais dos eletrizantes parágrafos.

Fora esse preciosismo, o livro faz um brilhante retrato do período. O texto é fluido, fácil como uma boa reportagem e denso como um tratado histórico, bem mais simples, direto e claro do que o estilo idiossincrático das colunas do autor, cheias de expressões que obrigam o comum dos mortais a irem ao dicionário.

[Na edição especial de ‘Veja’ sobre o bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, Elio se propôs a não repetir duas vezes a palavra ‘povo’. Assim, alinhou de uma vez uma infinidade de seus sinônimos, como só um Antônio Houaiss ou Aurélio Buarque de Hollanda encontrariam. O trabalho continua dando frutos desde então, em suas colunas: a cada citação ao ‘povo’ ou aos pobres brasileiros, ele tasca lá esquisitices como ‘choldra’, ‘patuléia’, ‘andar de baixo’, etc.]

Jornalista renomado, Elio Gaspari esteve sucessivamente na berlinda dos principais veículos da mídia impressa brasileira nos últimos 30 anos. Depois de ser por vários anos o assistente do colunista Ibrahim Sued, foi membro do time original que participou do lançamento da revista ‘Veja’, em 1968.

Da revista semanal da Abril, Gaspari passou a editor do ‘Jornal do Brasil’ no início dos anos 70 (quando o diário carioca ainda era a referência nacional) e voltou para ‘Veja’, já na condição de editor, acompanhando seu crescimento à condição de maior veículo impresso do país e quinta semanal do mundo; no final dos anos 80 foi para Nova York, como correspondente da revista. Hoje é colunista dos dois principais jornais em circulação no país, ‘Folha de S. Paulo’ e ‘O Globo’, com uma página dominical e um texto de meio de semana.

Duas idéias na cabeça

Os livros que chegam às lojas neste sábado são uma leitura singular da história de certo período do regime militar. Ela contém dois fios condutores, idéias fixas e originais de seu autor, simples e claras, de fácil compreensão. Todos os fatos são submetidos a essas teorias: a) de que Geisel e Golbery ajudaram a tramar o regime militar em 1964 e, depois de dez anos, se juntaram para desfazer a ditadura; b) de que a tortura é a marca do regime militar.

A última idéia é resumida em uma frase: ‘O regime se impusera à sociedade, mas a tortura se impusera ao regime’. Gaspari procura mostrar ao longo do livro que a violência contra os direitos humanos de oposicionistas começa ‘envergonhada’ na primeira fase do regime militar (1964-67) para se tornar ‘escancarada’ no governo Médici (1969-1974).

No primeiro volume, ele diz: ‘Existiu uma identidade, uma relação e um conflito entre o regime instalado em 1964 e a manifestação mais crua da essência repressiva que o Estado assumiu na obsessão desmobilizadora da sociedade: a tortura’. No início do segundo tomo, específico para a fase mais violenta do regime, diz: ‘Escancarada, a ditadura firmou-se. A tortura foi o seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional número 5 libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada foi substituída por um regime a um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões. Foram os Anos de Chumbo’.

Ao longo das quase mil páginas, Gaspari narrará episódios que comprovam sua tese. Quando um fato tem duas versões, ele optará por aquela que reforça seu argumento. É o que ele faz quando descreve a queda e morte do líder guerrilheiro Carlos Marighella. Ele cita a versão de Frei Betto, em livro, segundo a qual agentes da repressão infiltrados na organização de Marighella (ALN) produziram a arapuca em que foi morto o esquerdista. Mas ela não comprovaria a tese de que a tortura era a alma e única técnica de investigação da repressão. Portanto, opta pela versão de que dois frades dominicanos presos e torturados deram à polícia as informações necessárias para criar a oportunidade de matar o terrorista.

O segundo volume é minucioso em revelar a trajetória ainda mais profunda da tortura, até chegar ao extermínio que ele cita na abertura do volume. Ele se manifestou claramente em dois momentos. Um foi a eliminação sistemática dos esquerdistas banidos do Brasil (em troca de diplomatas seqüestrados) que voltavam ao país. Por medo de que o exército de exilados engrossasse as fileiras das organizações armadas (já depauperadas), ou apenas por vingança, praticamente todos os que voltaram foram executados. Em outra situação, na guerrilha do Araguaia, os esquerdistas do PC do B eram mortos depois de presos e rendidos, com crueldade digna das piores crônicas de conflitos africanos. Esta é apenas uma passagem da longa descrição dos combates no Araguaia:

‘Passados 21 anos, o mateiro José Veloso de Andrade teve o seguinte diálogo com os professores Romualdo Pessoa Campos Filho e Gilvane Felipe:

- O Ari ele foi morto e quem cortou a cabeça dele foi um guia.

- O sr. se lembra do nome dele?

- (...) Ouvi falar que foi o Abel. Mas eu não tenho certeza.

- Ele chegou com a cabeça dele num saco?

- É, num saco, exatamente, eles carregaram num saco.

- E o sr. tomou conhecimento de outras cabeças que chegaram assim?

- É... muitas, vários, porque eles... vários outros que eles...

- O sr. ficou sabendo de mais alguma?

- É, fiquei...

- Tinha alguma recompensa quando acontecia isso?

- Mixaria, mas tinha. Mas era mixaria.

- Então pra provar que tinha matado aí eles levavam a cabeça?

- É. Exatamente...’

A escalada da violência e a autonomia alcançada pelo aparelho de repressão fizeram com que se estabelecesse uma anarquia nos quartéis, manifestada tanto nas várias rebeldias de subordinados (ligados diretamente à repressão) contra oficiais mais graduados mas também na degradação moral dos funcionários dos órgãos de segurança (o caso extremo é o dos militares do Rio que se dedicaram ao roubo e achaque de contrabandistas).

Para acabar com a bagunça, segundo o fio condutor adotado por Gaspari, é que Geisel (o ‘sacerdote’) e Golbery (o ‘feiticeiro’) se uniram novamente em 1974 para desmontar a ditadura que tinham ajudado a montar em 1964. Ao final do governo do ‘sacerdote’, as forças armadas estavam novamente organizadas, submetidas à hierarquia e à ordem. No dizer de Gaspari: ‘Quando assumiu, havia uma ditadura sem ditador. No fim de seu governo, havia um ditador sem ditadura’. Boa tirada, mas certamente exagerada: só mesmo um ditador com ditadura poderia ter imposto ao país o sucessor João Figueiredo com seis anos de mandato e um regime amparado na mesma legislação outorgada mais de dez anos antes pelo marechal Costa e Silva (na fase anterior ao AI-5).

Os volumes não parecem conter em si informações totalmente novas. O próprio Gaspari, nesses 18 anos, antecipou várias novidades em suas colunas. No entanto, inundam os livros detalhes das cenas que fizeram história do período.

A descrição do golpe de 1964, que abre o primeiro volume é cheia de detalhes saborosos, inclusive os números de telefones que os generais golpistas discam para tentar formar a frente que, depois de uma aparente derrota no início, termina por se impor e derrubar o presidente constitucional Jango Goulart.

Também a cena da demissão do general Sylvio Frota, em 1977 (no primeiro tomo, numa antecipação do que deve ser o enredo do terceiro e quarto volumes) é cheia de tempero. Do outro lado, entre os esquerdistas vitimados pela repressão, há também descrições detalhadas das mortes de muitos deles, como não se encontrava antes reunidas em um só livro. Entre várias outras, são exemplares as narrativas das mortes de Chael Charles Schreier, em 1969; de Carlos Lamarca, em 1971; e de todos os guerrilheiros mortos na guerrilha do Araguaia nos anos seguintes.

Há uma lacuna que persiste à leitura do primeiro e do segundo volumes: ao descrever os dias que se seguiram à derrubada de Jango, no início de abril de 1964, o autor narra como o general Costa e Silva se impôs na marra como líder dos golpistas. Em seguida mostra que Castello Branco foi feito presidente da República com apoio de civis que preferiam evitar Costa e Silva. Mas o livro não detalha o que afinal convenceu Costa e Silva a desistir da presidência naquele momento (e exigi-la depois, na sucessão de Castello).

O livro de Gaspari é certamente uma das obras mais importantes já publicadas sobre um período fundamental da construção do Brasil atual, permitindo inclusive uma compreensão mais exata de como foi possível passar sem terremotos políticos, em 25 anos, de uma ditadura sangrenta para um governo liderado por um esquerdista responsável pela pressão popular que ajudou a tornar real e completa a abertura ‘lenta, segura e gradual’ desejada por Ernesto Geisel."


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