|
OTTO LARA RESENDE
Luís Edgar de Andrade
"Otto com ‘t’ dobrado", copyright Jornal do Brasil, 25/11/02
"Quando Otto Lara Resende era adido cultural do Brasil em Lisboa, no final dos anos 60, um jovem diplomata brasileiro, Alberto da Costa e Silva, foi visitá-lo, certa noite, no seu apartamento da Rua Duarte Pacheco, em frente ao Liceu Francês. Ao entrar no elevador, deu com uma placa que avisava em bom português: ‘Este ascensor é automático. Se Vossa Excelência deseja subir, aperte o botão de cima. Se deseja descer, aperte o botão de baixo. Em caso de dúvida, não aperte os dois botões ao mesmo tempo.’
O então jovem diplomata, hoje embaixador, contou essa anedota, quinta-feira passada, ao encerrar, como presidente da Academia Brasileira de Letras, a mesa redonda dos acadêmicos em homenagem a Otto Lara Resende, cujo 80º aniversário de nascimento se comemora, com saudade, em 2002.
Amigos durante 40 anos, Otto e eu só divergíamos quanto à ortografia oficial dos nomes próprios. Tanto que, em obediência ao acordo Brasil-Portugal de 1943, não relutei em cortar o ‘d’ mudo do Edgar, que consta em meus documentos. Por que Otto, então, com ‘t’ dobrado? ‘Quando você morrer, eu lhe dizia, passará a ser Oto para sempre com um ‘t’ só’. Ele protestava, indignado: ‘Nesse caso prefiro que me esqueçam, não me citem depois de morto’.
Como eu moro no alto da Rua Lopes Quintas, quase todo dia, indo para ao trabalho, sou obrigado a frear o carro, na esquina de Pacheco Leão com Jardim Botânico, por causa do sinal vermelho. Nos 80 anos do amigo, evito olhar à esquerda, mas a placa azul do Largo Otto Lara me contempla com dois ‘tt’. Como dizia São Paulo, onde está, ó morte, tua vitória?
O tempo passa. Daqui a um mês, no dia 28 de dezembro, vai fazer 10 anos que Otto morreu. Nessa data, por iniciativa do prefeito César Maia, será inaugurada, na pracinha que tem seu nome, uma estátua de Otto Lara, em pé, de livro na mão, junto à sua mesa de trabalho. É uma homenagem da Prefeitura do Rio de Janeiro ao brasileiro que mais escreveu cartas neste país.
Mas, voltando à questão ortográfica, quando o filólogo Laudelino Freire tomou posse na cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, vaga por morte de Rui Barbosa, em 1924, o acadêmico Aloísio de Castro, lembrou, no discurso de saudação, o comentário de Rui sobre a troca de letras que os nomes de ambos haviam sofrido - em Ruy e Aloysio - com ‘a mudança do ‘y’ por um ‘i’ desgracioso e inexpressivo’. Rui, que era o Rui, embora chateado, aceitou perder o ‘y’, para obedecer à nova ortografia. A história é citada por Antônio Olinto no prefácio da nova edição do livrinho Regras práticas para bem escrever , de Laudelino Freire, lançada pela editora Lótus do Saber.
Engraçado esse apego ao ‘y’. Em 1943, durante o Estado Novo, quando entrou em vigor o acordo ortográfico Brasil-Portugal, o Itamarati aceitou de bom grado, segundo me conta Marcos de Castro, a troca do ‘y’ pelo ‘i’ no palácio da Rua Larga - mesmo porque não existe fundamento etimológico para a grafia antiga. Itamarati é nome tupi-guarani. Nossos índios não sabiam escrever. Ora, o Formulário Ortográfico determina no capítulo XI, parágrafo 39: ‘Os nomes próprios personativos, locativos e de qualquer natureza, sendo portugueses ou aportuguesados, estão sujeitos às mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns’.
Foi em 1971, durante o regime militar, que o Ministério das Relações Exteriores se transferiu do Rio para Brasília, onde Oscar Niemeyer (esse tem ‘y’ porque se trata de sobrenome estrangeiro) projetou um novo palácio para os diplomatas. Só tempos depois, algum burocrata mal informado mandou pôr no gramado a placa pretensiosa: ‘Palácio do Itamaraty’."
CRÍTICA & BOM HUMOR
Carlos Alberto Di Franco
"Jornalismo e bom humor", copyright O Estado de S. Paulo, 25/11/02
"Testemunhei, num debate jornalístico, um caso exemplar de mau humor precoce. Um estudante, que poderia ter saído de um quadro de Velásquez ou de uma antiga loja de chapéus de feltro, investiu duramente contra o jornalismo esportivo. ‘O Brasil’, sublinhou, ‘tem problemas mais importantes. (...) Os jornais só querem faturar. Por isso, dão tanto destaque ao futebol.’
O comentário, uma clara demonstração de que chatice não tem idade, é uma impressionante manifestação de autismo. Afinal, o futebol, e não a caça à raposa, está no cerne da alma nacional. Basta pensar, por exemplo, na justificada depressão que tomou conta dos torcedores do Palmeiras, da Lusa e do Botafogo. O recente rebaixamento à segunda divisão, certamente um tropeço que será superado, ganhou contornos de uma autêntica crise de identidade.
Percebe-se, por óbvio, a importância dos cadernos de esportes, produtos que estão na linha do melhor jornalismo de serviço.
Além disso, o jornalismo, como qualquer negócio, não existe para perder dinheiro. A crítica do jovem estudante reflete a deformação de quem nunca enfrentou o batente. Na verdade, ganhar dinheiro com a informação não é um delito. É um dever ético. O lucro decorre da credibilidade, da qualidade do produto. A qualidade é o outro nome da ética. Não estou defendendo uma ética utilitária. Ela tem um valor em si e deve ser praticada independentemente do lucro. No entanto, ética e lucro nas empresas, também nas companhias de comunicação, não devem ser realidades antagônicas.
A ética jornalística não é um dique, mas um canal de irrigação, um instrumento de qualidade. A paixão pela verdade, o respeito à dignidade humana, a luta contra o sensacionalismo rasteiro, a defesa dos valores, enfim, representam uma atitude eminentemente afirmativa. A ética, ao contrário do que gostariam os defensores de um moralismo piegas, não é um freio às legítimas aspirações de crescimento das empresas. Suas normas, corretamente entendidas, são a mola propulsora das verdadeiras mudanças.
A imprensa, como qualquer atividade humana, está sujeita a erros. Um balanço sereno, no entanto, indica um saldo favorável ao trabalho da mídia. O jornalismo de escândalo, apoiado num provincianismo aético, é cada vez menos freqüente. Recaídas ocasionais são objeto de críticas e discussões internas.
As redações se modernizaram. Relações paternalistas foram sendo substituídas por um perfil muito mais profissional.
O jornalismo brasileiro tem desempenhado papel relevante. Ao lancetar os tumores da corrupção, por exemplo, tem cumprido um dever ético intransferível. A mídia, numa sociedade dominada por esquemas cartoriais, assume significativa parcela de responsabilidade. O País, graças à varredura dos meios de comunicação, está mudando. Para melhor. O tradicional jeitinho brasileiro, responsável pela cultura dos panos quentes, está sendo substituído pelo exercício da cidadania responsável.
Os pessimistas, contudo, não têm ‘olhos de ver’. Estão sempre hirtos, em posição de sentido. Querem fazer, como lembrava Oduvaldo Viana Filho, ‘do medo de viver um espetáculo de coragem’. Sua atitude é um redondo não. À semelhança de Quixote, vivem lutando contra moinhos de vento. Precisam ser contra: contra alguém, contra todos. Falta-lhes equilíbrio, bom senso.
O que é côncavo de um lado aparece convexo do outro. Depende só do nosso ângulo de visão. Como lembrou alguém, muitas vezes um defeito é apenas a sombra projetada por uma virtude. Os negativistas padecem da patologia da sombra. São incapazes de ver o outro lado: o da virtude. As críticas à imprensa, necessárias e pertinentes, são sempre bem-vindas. Espera-se, no entanto, que sejam justas. E não precisam ser ranzinzas. Podem ser construtivas, equilibradas e bem-humoradas. (Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil E-mail: difranco@ceu.org.br)"
A ARTE DE FAZER UM JORNAL DIÁRIO
Natalie Lima
"Noblat ensina a fazer jornal diário", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 25/11/02
" Um manual de redação desprovido de formalismos. ‘A arte de fazer um jornal diário’, que o jornalista Ricardo Noblat lançou em Brasília e Recife na semana passada e ainda vai percorrer as cidades de Rio e São Paulo, tem no senso de humor e na experiência a receita para fisgar os recém-chegados às redações ou os aspirantes à tal condição. Dono de memória admirável, Noblat ensina ao se recordar de situações que viveu ou às quais assistiu.
‘Este livro me foi encomendado pela editora Contexto. Consegui escrevê-lo de maio a julho deste ano. Seu conteúdo tem a ver com as lições que acho que aprendi ao longo de 35 anos de jornalismo’ diz, em entrevista por telefone.
O livro reúne lições de ética, estilo e técnicas de reportagem, entrevista e pesquisa em oito capítulos. O autor não caiu em tentação de escrever ditames que possam desmotivar novatos, sempre suscetíveis a críticas. O tom de sua prosa provoca uma inevitável sensação de intimidade, derrubando a guarda até dos mais vaidosos. Será uma estratégia para que o leitor acabe admitindo ter o que aprender?
Noblat provoca questionamentos quando faz afirmações. Dá a notícia que o lead convencional morreu, por mais que ainda não tenha sido enterrado pela imprensa brasileira. ‘Sei que dói perder um parente tão próximo, embora alguns de vocês jamais o tenham tratado com carinho. Mas o lead viveu mais do que deveria’, diz ele em um trecho do livro.
O ex-diretor de redação do Correio Braziliense abre seu trabalho com uma informação desanimadora: o público que lê jornal envelhece a cada dia sem ser renovado. Os jovens preferem a internet ao impresso, fato que coloca em xeque a função do jornal e até mesmo seu futuro. A questão é, sem dúvida, o grande desafio de quem está nas redações e dos que aspiram trabalhar nelas.
‘Acho que os jornais devem explorar mais o jornalismo de opinião, a análise. O conteúdo atual deve ser reformulado. Esse modelo já deu o que tinha que dar’, defende, referindo-se ao que chama de ‘jornalismo de antecipação’. Para isso, ‘os jornalistas têm que descobrir notícias, não apenas registrá-las’, diz.
‘É o conteúdo que vende jornal. Somente uma mudança radical de conteúdo, aqui e em qualquer lugar outro lugar, será capaz de prolongar a lenta agonia dos jornais’, diz o jornalista no livro. Mas como fazer isso, continua Noblat, se os donos de jornal recusam-se a correr riscos e os jornalistas trocam a redação pela assessoria quando estão no auge de sua maturidade profissional? ‘Os donos de jornal têm medo da mudança. Para eles, a atual maneira de se fazer jornal é mais cômoda’, diz.
Entre os pontos defendidos pelo jornalista está a cobertura de assuntos que afetam diretamente os leitores. Como exemplo, Noblat cita as relações pais e filhos que, observa, só aparecem em artigos, e a pouca atenção que os jornais dão ao público juvenil. ‘Durante os oito anos em que estive à frente do Correio, apliquei algumas dessas idéias. Conseguimos dobrar a tiragem nesse período’.
Seja qual for o futuro dos jornais, Noblat aposta na pregação junto aos jovens jornalistas. Afinal, se não é deles a responsabilidade pelo que aí está, é deles o que está por vir.
‘A arte de fazer um jornal diário’ será lançado no Rio em 03/12, na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 480 - Ipanema) e em São Paulo em 10/12, na Siciliano Livros & Música (Shopping Pátio Higienópolis). (*) Colaborou Miriam Abreu."
|
|