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MEMÓRIA / AMILCAR DE CASTRO
Maria Hirszman

"Morre Amilcar de Castro, o mestre da emoção forjada em ferro", copyright O Estado de S. Paulo, 23/11/02

"Morreu ontem no início da madrugada, aos 82 anos, o escultor Amilcar de Castro. Figura singular na história da arte brasileira, Amilcar construiu ao longo de meio século de arte uma obra marcada pela concisão e pelo rigor sem, em nenhum momento, abandonar o que considerava o caráter central da obra de arte: a emoção. ‘Não existe inteligência se antes não há sensibilidade; não há nada no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos’, afirmava ele, explicando por que sua obra - apesar de simples, construtiva e abstrata - toca tão profundamente o público.

Com uma aparência tão sólida quanto as enormes chapas de ferro que dobrava com uma estranha simplicidade, transformando o espaço circundante na própria escultura, Amilcar foi vítima de uma insuficiência cardíaca, depois de ter passado duas semanas internado, após complicações decorrentes de uma angioplastia coronária. Sua morte é um choque para a classe artística, que se sente um pouco órfã com a perda de um de seus grandes mestres. Afinal, como poucos na história da arte brasileira, Amilcar conseguiu não apenas construir uma poética própria, única, mas também coloca sua obra como uma espécie de ponte entre a tradição que lhe antecede e as novas gerações que o seguiram.

Figura discreta mas sempre presente, o artista protagonizou vários momentos importantes da arte brasileira desde os agitados anos 50 e serviu de inspiração para as gerações que o sucederam. É impossível hoje pensar a escultura brasileira sem posicionar-se em relação à obra de Amilcar ou analisar a história do designer no País sem lembrar-se - com saudades - da revolução gráfica que ele promoveu na diagramação do Jornal do Brasil, criando o primeiro jornal graficamente moderno do País.

Filho de um juiz, a quem acompanhava pelo interior de Minas Gerais, vendo de perto as agrugras do povo brasileiro - fato que o levou a tentar estudar Direito, até que percebeu que lhe faltava talento para isso. Após uma curta experiência como diagramador da Revista Manchete em Belo Horizonte - graças à indicação de um colega da faculdade, Amilcar chega ao Rio em 1952 e rapidamente estabelece contato com os outros participantes do movimento concretista, reunidos em torno do grupo Frente, sendo um dos signatários do Manifesto Neoconcreto, de 1956.

Dentre seus professores destacam-se Alberto da Veiga Guignard, com quem aprendeu a desenhar com o grafite mais duro que havia, marcando o papel em sulcos e impossível de ser apagado - lição que considerou essencial para o caráter rigoroso assumido por sua obra posteriormente - e Frans Weissmann (convém lembrar que nesta época Weissmann ainda não era o construtivo que conhecemos hoje e que ambos trilharam seus caminhos em busca das relações entre as formas e o espaço de maneira paralela, mas independente). Mas o grande toque inicial para o escultor, que acabou levando-o a trilhar o caminho que nunca mais abandonaria, foi a descoberta da obra de Max Bill, na então recém-criada Bienal de São Paulo.

Um mineiro que soube tirar do ferro um retrato desse Brasil cheio de contradições

Apesar do indiscutível caráter internacionalista da arte concreta e das formas abstratas, há na obra de Amilcar uma profunda relação com o Brasil, uma afirmação de uma arte de caráter nacional, tanto em termos formais quanto sociais. Admirador de Machado de Assis e de seu conterrâneo Guimarães Rosa, o também poeta Amilcar traduziu em seu trabalho simples e voluntarioso um certo desejo de transformação dessa herança que nos desafia.

Como nosso passado colonial, que se perpetua no presente, o ferro resiste à mudança, ao gesto voluntarioso e consciente do escultor. Como bem captou o crítico Rodrigo Naves em A Forma Difícil, ‘sobre a clareza formal dessas peças, sobre o frescor das articulações tão límpidas pesa a lembrança de um arcaísmo social que não se pode reverter apenas com estruturas complexas e relações decididas’.

O material por excelência de Amilcar também remete ao caráter brasileiro de seu trabalho. Ele contava, por exemplo, que quando viveu na década de 60 nos Estados Unidos, tentou desenvolver suas esculturas em alumínio, material que detestou por ‘não ter caráter’. Já o ferro é pura força e uma fonte de inúmeros significados. Representa o conservadorismo atávico, que o militante Amilcar - com uma permanente preocupação pública e altruísta - sempre denunciou. ‘A elite brasileira é a pior do mundo’, afirmou certa vez em entrevista ao Estado.

Representa também as Minas Gerais, sua terra natal, para onde voltou em 1967 e nunca mais abandonou. Para trabalhá-lo, Amilcar, que durante décadas trabalhou em um pequeno ateliê localizado em cima de uma papelaria no centro de Belo Horizonte, transferiu-se para um belíssimo ateliê construído especialmente para ele na capital mineira. Mas mesmo assim o espaço do ateliê das galerias onde costuma expor se mostrou pequeno. Em sua última exposição, no cais do Rio de Janeiro (onde deve se instalar o Guggenheim), ele mostrou um trabalho de cortes em grandes peças, de 12 polegadas de grossura, que só podiam ser trabalhadas com guindastes especiais. Se o ferro é ‘teimoso’, como dizia ele, Amilcar é mais. Ele faz questão, no entanto, de não humilhar o material, de preservar sua personalidade.

Outra característica interessante do processo criativo do mestre mineiro é que ele não pensava como escultor. ‘O problema fundamental é que toda escultura que você conhece parte do volume. Eu não; parto da superfície.

Faço um corte e dobro a chapa e essa dobra não só conquista o espaço, como faz com que ele atravesse a matéria’, explicou em uma das últimas entrevistas que concedeu.

A tenacidade e o ânimo do artista, aos 82 anos, eram algo impressionante.

‘Acho que arte é vida’, costumava afirmar. O que significa que Amilcar continua vivo, não apenas em seu trabalho, mas no de todos aqueles que se inspiram e se alimentam dessa obra tão brasileira."

FSP

"Morre aos 82 o artista Amilcar de Castro", copyright Folha de S. Paulo, 23/11/02

"O artista plástico mineiro Amilcar de Castro morreu às 23h de anteontem em Belo Horizonte, aos 82 anos. Ele estava internado desde o último dia 6 no hospital Felício Rocho, vítima de complicações decorrentes de uma insuficiência cardíaca, conforme o boletim médico divulgado pouco tempo após sua morte.

O corpo do escultor foi velado na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, que tem na entrada uma obra do artista, instalada ali desde o final dos anos 80. O enterro foi marcado para as 16h, no cemitério do Bonfim, em BH.

No último dia 9, Amilcar de Castro foi submetido a uma angioplastia -procedimento para desobstruir artérias-, mas seu quadro clínico só piorou.

Segundo relatórios médicos, o artista apresentava um quadro de infecção generalizada e respirava por meio de aparelhos. Fazia hemodiálise para contornar insuficiência renal.

Artista gráfico

O artista mineiro estava planejando duas exposições, uma em Niterói (RJ) e outra em Belo Horizonte (MG). ‘Ele estava em pleno processo de produção. O Amilcar não parava nunca’, afirmou Allen Roscoe da Cunha, 51, amigo e executor das obras escultóricas do artista plástico.

A produção recente de Amilcar foi marcada pelas esculturas, mas o artista nunca se desligou de sua formação gráfica.

Amilcar foi encarregado do projeto gráfico do caderno ‘Suplemento Dominical’, do ‘Jornal do Brasil ‘, e, entre os anos de 1957 e 59, sob a coordenação do jornalista Janio de Freitas, foi um dos responsáveis pela reformulação gráfica do jornal, que influenciaria diversas outras publicações daí em diante. Em maio de 1999, fez o projeto gráfico do Jornal de Resenhas, da Folha, e passou a criar os desenhos que ilustravam as capas do caderno.

‘Quanto a seu trabalho nas artes plásticas, é claro que ele pertence à história brasileira, mas há o notável trabalho gráfico realizado na segunda metade dos anos 50 na revolução comandada pelo poeta Mário Faustino, no ‘Jornal do Brasil’. A diagramação é histórica. Uma coisa notável com o uso do espaço em branco’, afirmou o poeta Décio Pignatari. ‘A reforma dividiu o jornalismo em antes e depois, toda a imprensa seguiu aquilo’, afirma o jornalista Reynaldo Jardim.

Obras públicas

Em São Paulo, algumas de suas obras podem ser vistas na Pinacoteca do Estado, na praça da Sé e no jardim das esculturas do MAM/ SP. Amilcar realizou uma grande mostra, em agosto, no Rio de Janeiro, e outra em dezembro de 2001 na Pinacoteca.

Um grave problema vinha atormentando a capacidade de Amilcar na pintura. O artista sofria de degeneração das retinas, doença que gradativamente prejudicava sua acuidade visual.

‘Ele pintava mais com o coração que com os olhos’, afirmou Yana Coelho, coordenadora de pesquisa do livro ‘Amilcar de Castro’, que reúne fotos das principais obras do escultor.

Primogênito de uma família de sete filhos, mineiro de Paraisópolis, Amilcar Augusto Pereira de Castro foi influenciado pelo pai, um desembargador, a seguir carreira na área de Direito.

Tornou-se bacharel em 1945, pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mas, durante o curso, sua atenção sempre esteve voltada para a arte. Enforcava aulas para ter lições de desenho com Alberto da Veiga Guignard (1896-1962).

Em nota divulgada na manhã de ontem, o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (sem partido), decretou luto oficial de três dias no Estado. ‘Minas sente de modo profundo a perda de um ícone que emblematizou o Estado na mineralidade da escultura de ferro e no recorrente triângulo da liberdade’, disse o governador. ‘Minas e o Brasil se engrandeceram, em perspectiva internacional, com a repercussão intensa de sua obra’, afirmou."

Tiago Mesquita

"Artista esculpiu a imortalidade em suas peças", copyright Folha de S. Paulo, 23/11/02

"Em um texto de 1963, o crítico de cinema Paulo Emilio Sales Gomes dizia que já se preparava para a morte de Charles Chaplin. Diante de uma fragilização daquele que lhe ensinou tanto, o autor tinha que estar pronto para o impacto da notícia, para digeri-la e pronunciá-la. Ingrata função do jornalista.

Impossível estar preparado, no entanto, para o falecimento de Amilcar de Castro. Quem acreditaria que, com 82 anos e com problemas de saúde, retirasse do ferro o que retirava?

A aparência de seus trabalhos e sua atuação em diversas frentes, com tanto vigor, indicava longevidade. Quem não se assustará ao saber que o artista nos deixa logo agora em que vivia um auge de sua carreira?

Na década de 50, quando abraça o construtivismo concreto, não pula no barco da ortodoxia. Relembra os exercícios de desenho com lápis duro dados por Guignard. Casada com a reflexão neoconcreta, de cujo manifesto foi signatário, tal produção se torna uma das mais potentes da arte nacional.

Em 59, renova as artes gráficas do país, mudando o desenho do ‘Jornal do Brasil’. Já havia feito um projeto para a revista ‘Manchete’, em 54, mas foi com o ‘JB’ que produziu um desenho moderno, em que limpava as linhas do jornal e deixava a disposição dos textos e imagens mais livre e plástica. Como artista gráfico continuou até seus últimos dias, no Jornal de Resenhas, na Folha.

Mas onde o artista atuou com maior liberdade foi em suas esculturas de chapa de metal. Tinha um gesto enérgico, mas não o usava para conformar o material. Suas peças mostravam toda a beleza da carga bruta do minério. Eram enferrujadas, pesadas e ásperas, mas apareciam com delicadeza.

Nas peças fendidas no meio e abertas para o mundo, dos anos 70, a chapa de ferro plana sugere volume. Aberta, ela se faz de cubo. Entretanto o que vemos é a flexão da chapa enferrujada insinuando tridimensionalidade. Com o tempo o corte foi se tornando cada vez mais irregular. Nas peças mais largas, sugeria um equilíbrio momentâneo entre as partes.

Em duas de suas últimas exposições, na Pinacoteca (SP) e no Armazém (RJ), elas partiam de formas geométricas irregulares. As chapas dobradas tentavam instituir uma convivência entre duas partes desarmônicas que indicavam a possibilidade de uma derrubar a outra. A vigorosa dobra lateral segurava as esculturas equilibradas e graciosas. Diante de nós bailavam para não despencar.

Para quem viu essas peças, a impressão de que a escultura de Amilcar contava com, pelo menos, uns 30 anos de vida não era ilusória. Talvez nem o artista acreditasse na proximidade dessa tragédia. Quando esculpia ou desenhava brincava com a imortalidade. E ela ficou inscrita nesses trabalhos."


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