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ROBERTO CARLOS
Eugênio Bucci
"Momento triste", copyright Jornal do brasil, 21/11/02
"Vi de relance quando o Rei abriu os braços no Fantástico, de branco, entre fachos que transpassavam o palco feito navalhas impacientes. As lâminas de luz servem para comandar os aplausos dos presentes: quanto mais elas se agitam, para lá e para cá, mais a platéia bate palmas e, ocasionalmente, grita também. Era um show ao vivo, no Aterro do Flamengo, para 300 mil fãs. Eu vi quando Roberto Carlos, intacto, começou a cantar, para deleite de Glória Maria. E de mim, e de mim.
Isso foi na noite de domingo, noite que se abate, também como faca, sobre as nossas ilusões de evitar o suicídio. Era o Rei, eu notei de longe, mas logo desisti de meu deleite, logo desisti de Glória Maria, logo desliguei a TV. Depois, na segunda de manhã, o Jornal do Brasil estampou a foto do cantor, na primeira página, sob um título que só a ele se aplica: ‘Momento lindo’. Consta que o público que compareceu para vê-lo estava pacífico e feliz. Deve ter sido lindo de fato, mas lindo é um adjetivo melancólico, que designa o que já não comporta nenhum grão de paixão, de furor, de desgarramento, e eu também não me interessei pela notícia. De Roberto Carlos, o que eu guardo, eu e o resto do país, são lembranças, apenas detalhes tão pequenos de nós dois, ou melhor, de nós 175 milhões de brasileiros. Nós todos, os resignados: ‘O importante é que emoções eu vivi.’
Pode?
Roberto Carlos é a sonoridade do nosso passado comum e compungido. O Rei é o inventariante da cafonice nacional que nos comove inapelavelmente. Ou é o inventariante de tudo o que comove a nação e, por isso, é cafona. O Rei é o denominador comum do lugar comum, da melodia comum, da dor comum. Sua majestade não tem invenção, mas uma incrível submissão ao fácil. Roberto Carlos é a arte das maiorias esmagadoras, um produto das maiorias esmagadoras. Penso nele com um carinho um tanto tíbio, um carinho sem caráter. Penso nele e sua grandeza se desfaz numa transparência continental, por onde se vê não mais a sua face de Rei, mas apenas o pavoroso coração exposto das multidões: melodramático, ingênuo, previsível e temente a Deus. Quanta feiúra nas belezas acessíveis e democráticas de Roberto Carlos. Não, já não vale mais a pena. Quero que tudo o mais vá para o inferno. Passa o tempo e as nossas emoções vividas viram uma névoa fúnebre entre os olhos dele e os nossos. Passa o tempo e a memória é lixo.
Que no entanto não cheira mal.
Ou, talvez, eu devesse dizer: passa o tempo e os tesouros emotivos do passado se despem de sua antiga imponência e se revelam detritos. Detritos inodoros. Uma caveira sobre um chão de cimento.
Volto no tempo. Penso em Roberto Carlos nas noites de Natal, na tela da Globo, e no aconchego que havia quando entrava no palco o ‘meu amigo Erasmo Carlos’. Era a época da ditadura. Erasmo vinha com roupas de couro, encarnando o que restava de rebeldia, uma rebeldia esvaziada, para abraçar a realeza daquele que era ao mesmo tempo um ídolo de massas e a materialização do status quo. O encontro dos dois era uma suspensão da luta de classes. O encontro era uma anistia ampla, um indulto natalino. Roberto Carlos, naquele tempo, pacificava o país - e a televisão só existia para pacificar o país. Roberto Carlos era a peça mágica da televisão brasileira. A peça que provava que a conciliação era possível e prazerosa. O amor em lugar da violência. O romance em lugar do ódio. A fé em lugar da fúria. Claro: ele era o Rei. O Rei do Brasil. Pensando por aí, esse título de realeza lhe faz mais sentido do ponto de vista sociológico que do ponto de vista musical. Ou, se preferirem, mais mítico que artístico.
Retrocedo mais um pouco nas lembranças. Mais antigamente ainda, no tempo dos compactos simples rodando na vitrola, Roberto cantava que era ‘terrível’ e que punha ‘mesmo para derreter’. Ele foi um príncipe quase gauche da Jovem Guarda, alguém que estetizava a indisciplina, ainda que ingênua e despolitizada. Hoje nada mais ficou. Quer dizer: ficaram as canções e o príncipe inquieto não ficou. Tornou-se um Rei, um rei fixo, cada vez mais tristonho.
Assim é que o ‘momento lindo’ do Rei tem esse sabor de momento pesaroso, como era pesaroso aquele verso, ‘ficaram as canções e você não ficou’, tanto na voz dele, Rei, como na voz dela, Maria Bethânia. Um réquiem das ilusões idas. ‘É tão difícil olhar o mundo e ver o que ainda existe/ Pois sem você meu mundo é diferente, minha alegria é triste.’ Sim, é triste.
Aliás, o único verso que ainda guarda algum mistério em Roberto Carlos é precisamente esse: ‘É tão difícil olhar o mundo e ver o que ainda existe’. É como se, numa das curvas perigosas do caminho, ele tivesse se dado conta de que, depois de tanta estrada, de tantas perdas, tanto sofrimento e tanta separação, nada existe de fato. Olhamos para o mundo e não vemos no mundo nenhuma das coisas que julgávamos coisas realmente existentes, mas apenas escombros de linguagem. Sim, escombros de linguagem, signos em deterioração, como os restos da memória. As canções ‘que você fez pra mim’ estão ali, soam ali, mas somente como se fossem velhas fotos empoeiradas, que fazem alusão a uma felicidade que já não há. A fotografia, como a canção, não passa de um estilhaço de linguagem. É portanto um resíduo, um signo estragado. Linguagem em decomposição. A estrada de Santos, mesmo ela, não existe de fato, mas apenas como sensação. E que já foge, rapidamente, em alta velocidade. As ‘emoções’ se perdem na poeira.
Vejo o Rei de relance. E vivo esse momento triste."
TV & CONAR
EB
"Não é o Conar que vai nos proteger", copyright Folha de S. Paulo, 24/11/02
"O Conar é o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária. É uma entidade do mercado publicitário. Segundo a auto-apresentação publicitária que o próprio Conar faz de si em anúncios veiculados na imprensa, ele é ‘um órgão criado por agências, anunciantes e veículos para zelar pelos limites éticos da comunicação comercial’. Nessa auto-apresentação publicitária, o ‘órgão’ promete proteger o consumidor: ‘Se algum dia um anúncio ofender sua família, defenda-se: faça uma queixa ao Conar. Você vai evitar que outros consumidores também se sintam prejudicados ou ofendidos, e vai ajudar a elevar cada vez mais o nível da propaganda brasileira’.
Escrevo aqui com alguma ironia, admito, mas quero deixar claro, logo de saída, que o Conar deve ser bem recebido. Pelo menos é uma entidade disposta a ouvir reclamações. Antes, quando via uma imagem ofensiva na TV, o sujeito não tinha a quem protestar. Ao bispo, talvez, e olhe lá. A TV comercial é, e sempre foi, uma instância inacessível aos reclamos do cidadão. As emissoras comerciais não têm nem ombudsman. Elas nunca dão voz (nem direito de imagem) aos que criticam seus programas. Só escutam o público, quando escutam, naqueles quadros tolos, chamados de ‘interativos’, em que pululam perguntas irrelevantes: ‘Qual o final que você escolhe?’, ‘Que filme você quer ver amanhã?’, ‘Você quer comprar este jogo de faca em três ou quatro vezes no cartão?’. São perguntas da ordem do consumo e do entretenimento; não tocam, nunca, nos desvios éticos que a TV não cansa de praticar e estimular. Quando se trata de debater sua própria conduta ética, quando se trata de debater os direitos dos telespectadores, bem, aí é inútil contar com os ouvidos e com a sensibilidade da TV comercial.
De uns tempos para cá, pelo menos, existe o Conar. A publicidade abusou? Tem uma mensagem racista? É preconceituosa? Nesses casos, ele pode ser eficaz. Já é alguma coisa. Melhor que nada.
Ao mesmo tempo, é pouco, muito pouco. Por quê? Muito simples. O Conar não visa proteger a integridade do telespectador nem a dignidade do cidadão. Ele existe para proteger uma coisa só: a credibilidade do discurso publicitário. Ele protege a publicidade da má publicidade. Se recomenda que uma determinada campanha saia do ar, é menos para fazer respeitar os direitos humanos e mais para evitar que a publicidade perca sua autoridade aos olhos do público. Parece uma reles sutileza, mas é uma sutileza crucial. Pode haver uma coincidência entre evitar abusos que desgastem a imagem da instituição da propaganda e proteger a dignidade humana, mas é apenas isso, uma coincidência de momento. Nem tudo que é bom para a imagem da publicidade é sempre bom para o cidadão. Às vezes, pode mesmo haver contradições profundas aí. O Conar apenas defende a boa imagem da publicidade. O seu interesse fundamental é fortalecer o mercado anunciante e, para isso, ele sabe, e faz saber, que a credibilidade é indispensável. Aparecendo como defensor do cidadão indefeso, o Conar ajuda a melhorar o conceito que a sociedade tem do negócio da propaganda. É só disso que se trata.
É claro que o Conar ajuda a difundir valores éticos e os direitos do público diante da publicidade e da TV. Mas não é o pronto-socorro do cidadão ofendido. Se fosse, estaríamos privatizando perigosamente a defesa da cidadania, que não pode ficar a cargo de ‘um órgão criado por agências, anunciantes e veículos’. A defesa do cidadão é assunto de interesse público, é função pública e deve contar com instâncias e entidades de natureza pública (que, ou não existem, ou não são acionadas).
Eu repito: o Conar é bem-vindo. É um fator de educação dos publicitários, o que é necessário e urgente. Mas ele não é e nem poderia ser o defensor do cidadão."
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