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HACKERS
Bruno Garattoni

"Hacker mais famoso da história volta à rede", copyright Folha de S.Paulo, 22/1/03

"Terminou ontem, com um gesto quase prosaico, um dos bloqueios mais marcantes da história da internet: em 21 de janeiro, encerrou-se o prazo de liberdade condicional do hacker (mestre em computadores) Kevin Mitnick, 39, que já foi considerado pelo governo dos EUA ‘o criminoso de informática mais perigoso de todos os tempos’.

Depois de invadir uma série de redes de computadores, inclusive as de grandes empresas de software e hardware e de uma agência de espionagem norte-americana, passar vários anos preso e sofrer restrições profissionais, Mitnick finalmente obteve autorização para acessar a internet. Ele não comentou seus planos imediatos, mas sua namorada, a jornalista de tecnologia Darci Wood, declarou que o primeiro site a ser acessado pelo hacker seria o dela, um blog (diário virtual) cujo endereço é www.labmistress.com/lmblog/girlgeek.

Embora tenha sido capturado várias vezes nos anos 80, Mitnick sempre voltou a praticar invasões, em parte aproveitando as penas relativamente pequenas que recebeu. Mas, em 1994, ele foi finalmente derrotado: numa atitude que poderia ser considerada audaz para qualquer outro hacker, mas que para ele era até banal, invadiu os PCs do cientista e especialista em segurança Tsutomu Shimomura, que estava ganhando fama por sua colaboração com o governo dos EUA.

A caçada cibernética que se seguiu foi a desgraça de Mitnick: depois de algumas semanas, Shimomura e o FBI conseguiram localizar o hacker, que foi preso num apartamento alugado em Raleigh, na Carolina do Norte.

Naquela vez, as autoridades norte-americanas não deixaram barato: Mitnick ficou detido entre 1995 e 2000 sem julgamento, o que causou revolta entre seus fãs e ajudou a alimentar o mito do hacker na internet, que chegou a servir como meio para arrecadação de fundos para a defesa legal de Mitnick.

O Departamento de Justiça dos EUA diz que Mitnick causou prejuízos de US$ 1 milhão, mas os promotores que o acusaram falam em US$ 300 milhões, sem revelar mais detalhes.

Embora Mitnick fosse capaz de feitos tecnológicos consideráveis (como manipular redes de telefonia celular para acessar a internet sem ser detectado), sua principal estratégia para invadir computadores foi o que ele chama de ‘engenharia social’, ou seja, enganar funcionários de empresas de informática para conseguir senhas e contas de acesso.

Filho de pais separados, Mitnick cresceu em Los Angeles, na Califórnia, sem muitos recursos financeiros -a mãe começou a trabalhar como garçonete após o divórcio, que aconteceu quando o filho tinha três anos. Na adolescência, o hacker praticou seu primeiro truque: usando um furador de papel, descobriu como fraudar bilhetes de ônibus para viajar sem comprar passagens.

Embora tenha acessado redes altamente confidenciais, Mitnick não manifesta a agressividade muitas vezes associada aos invasores digitais: em sua trajetória, a destruição de arquivos alheios é uma atitude bastante rara. ‘Eu nunca danifiquei intencionalmente nenhum dos computadores que invadi’, afirma.

Mas a compulsão por acessar sistemas proibidos é uma constante na vida do hacker. Um exemplo: sua ex-mulher, Bonnie Vitello, era uma funcionária da companhia telefônica General Telephone que o ajudou a praticar invasões. Em 1987, quando namoravam, ambos foram presos pelo FBI. Bonnie acabou sendo liberada e se casou com o hacker poucos meses depois.

O hacker não se diz arrependido. No primeiro capítulo de seu livro, que pode ser consultado na internet, ele afirma: ‘O que fiz não era nem ilegal quando comecei, mas se tornou crime depois que nova legislação foi aprovada’. ‘Eu continuei mesmo assim.’

Ele aponta a ‘diversão’ como principal motivo de suas ações: ‘Na verdade, tudo foi para saciar minha curiosidade, ver o que eu podia fazer e obter informações secretas sobre tudo o que me interessasse’. ‘De um menino que gostava de brincar com mágica, transformei-me no hacker mais famoso do mundo.’"

 

CIDADE DE DEUS
Folha de S.Paulo

"Hermano Vianna propõe mediar polêmica na Cidade de Deus", copyright Folha de S.Paulo, 23/1/03

"Uma visita de reconhecimento à comunidade hip hop, no último sábado, em Madureira acabou preocupando o antropólogo e consultor não-oficial do Ministério da Cultura Hermano Vianna, segundo escreveu em nota divulgada ontem. Em conversa com Celso Athayde, idealizador do prêmio Hutus e empresário de rapper MV Bill, Vianna teria tomado conhecimento de que Cidade de Deus, ‘filme’ [de Fernando Meirelles] e ‘comunidade’, poderiam estar à beira de um conflito.

No encontro, Athayde teria mostrado a Vianna uma carta que Bill, morador da Cidade de Deus, teria escrito na madrugada de sexta-feira e que originaria a sua coluna da última segunda no site ‘Viva Favela’. Nela, o rapper criticava a ineficácia do filme ‘Cidade de Deus’ em trazer benefícios à favela e a seus moradores -em contraponto com suas indicações ao Globo de Ouro e, possivelmente, ao Oscar.

No texto ‘A bomba vai explodir?’, Bill convoca jornalistas para uma entrevista no próximo dia 6 e diz que no dia ‘13 de fevereiro o caô vai tá formado!’.

‘Fiquei imediatamente muito preocupado com o que li. Tinha certeza que ninguém -nem a comunidade de Cidade de Deus, nem os produtores do filmes ‘Cidade de Deus’, nem o MV Bill, nem a cultura brasileira- nada tinha a ganhar com a situação que o texto anunciava’, declarou Vianna na nota.

‘Como sou amigo de pessoas das produtoras O2, da VideoFilmes, da Globo Filmes e de várias outras pessoas ligadas ao filme (começando por Paulo Lins), eu perguntava se os dois lados (filme e comunidade) já haviam esgotado outras formas de negociação antes de se instaurar o confronto’, continua o consultor de Gil, que teria ido, ao tomar conhecimento da carta, até a Cidade de Deus para ouvir a opinião da comunidade e se colocar como um mediador para a situação.

‘O Hermano Vianna -eu que tinha minhas reservas quanto aos intelectuais vou começar a rever meus conceitos-, se um terço do que o Celso Athayde falou a respeito desse maluco aí for verdade, a Cidade de Deus terá um débito eterno com ele. (...) teve a coragem de vir aqui na favela (...) e descobriu que a comunidade nada mais queria a não ser ‘carinho’.’, escreveu Bill em sua coluna na internet.

O filme ‘Cidade de Deus’, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, é baseado numa ficção do escritor Paulo Lins. Filmada com atores do grupo Nós do Cinema, formado por crianças da Cidade de Deus, a produção conta a história de um morador da favela carioca que reluta em entrar para o crime e tem sido exibida e elogiada nos principais festivais de cinema do mundo."

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