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CARGA PESADA
Laura Mattos
"Seriado ‘casa’ criação com patrocínio", copyright Folha de S. Paulo, 24/04/03
"Com os olhos brilhando de emoção, o caminhoneiro Pedro (Antonio Fagundes) grita ao amigo Bino (Stênio Garcia): ‘Você comprou o Titan! Não acredito’.
Titan é um caminhão da Volkswagen. Vermelho, reluz na cena que marca o reencontro dos antigos companheiros de estrada e a reestréia da série ‘Carga Pesada’, na próxima terça-feira, na Globo.
O seriado, apresentado de 1979 a 1981, volta ao ar selando uma casamento que faz muito gosto à emissora: o da equipe de criação com o departamento comercial.
Há anos na gaveta de projetos da Globo, o ‘remake’ de ‘Carga Pesada’ só conseguiu sair do papel graças à parceria com a Volks.
Emissora e montadora mantém escondido a sete chaves o valor total do patrocínio. Mas já se sabe que será a maior verba investida em TV neste ano pela fábrica.
A união, no entanto, vai além da ‘comunhão de bens’. Para a elaboração da série, produtores globais, marqueteiros titânicos e engenheiros dos dois times se sentaram na mesma mesa. Discutiram, por exemplo, a criação do Proteus, ‘caminhão-estúdio’ que custou cerca de R$ 150 mil, pagos pela Volks. Direto da empresa para o Projac (estúdios da Globo, no Rio), foram enviados dublês, pilotos e os caminhões, claro.
Tanta proximidade fica clara nos diálogos e cenas da série. O Titan aparece poderoso, cruzando belas paisagens turísticas do Brasil. É mostrado por todos os ângulos, em tomadas de fazer inveja a qualquer peça que pudesse entrar no intervalo comercial.
Mas isso não é tudo. E pode até ser o de menos. Titan acaba sendo num personagem cheio de empatia com o telespectador, e, principalmente, com o público-alvo da Volks. ‘A série tem uma relação emocionada com a classe de carreteiros’, disse Fagundes, na entrevista de lançamento do programa. Stênio lembrou que, depois de tantos anos da primeira versão, ainda é chamado para comerciais e eventos de montadoras.
Na estréia, Bino (Stênio) vende o caminhão velho que tem em sociedade com Pedro (Fagundes), sem o amigo saber. Compra um novo, ‘mais moderno’, o Titan.
A surpresa é revelada num reencontro dos amigos. É quando também Bino conta que, depois de anos afastado das estradas, voltará a viajar com o parceiro.
Na boléia do Titan, percorrem o país, numa viagem que pode ser a última da dupla. Bino está doente, acaba de fazer uma biopsia e acha que vai morrer. O caminhão da Volks o leva para a provável despedida do amigo e sua derradeira aventura pelo ‘Brasilzão’ afora.
Serão quatro episódios, às terças. Mais oito, para o segundo semestre, estão programados. A série pode ter espaço fixo na programação de 2004, se telespectadores (e a Volks?) concordarem.
Poder público
Além da Volks, ‘Carga Pesada’ traz uma outra grande oportunidade de parceria. Com cenas em diferentes regiões do país, abre as portas à co-produção com afiliadas da emissora (em fase de experimentação) e, principalmente, ao merchandising turístico, pago por prefeituras e governos estaduais (cada vez mais forte na TV).
A minissérie ‘Casa das Sete Mulheres’, por exemplo, contou com a RBS, afiliada da Globo no Rio Grande do Sul, e o governo do Estado. Juntos, ofereceram à Globo 500 cabeças de gado, além de hospedagem, passagem, transporte e alimentação para toda a equipe.
Em ‘Carga Pesada’, esse ‘apoio’ poderá vir do Oiapoque ao Chuí. ‘Nossa idéia de viajar pelo Brasil não teve essa intenção [de patrocínio estatal]. Mas é claro que isso vem a reboque’, afirma Marcos Paulo, diretor da série.
Segundo ele, foi fechado contrato para merchandising turístico de Foz do Iguaçu. Em frente às cataratas, Bino e Pedro brindam o reencontro. E a compra do Titan.
Para autor, merchandising não é imposição
Lauro César Muniz, autor da Globo e presidente da Associação dos Roteiristas de Televisão, acredita que ‘Carga Pesada’ seja ‘uma primeira experiência em que uma empresa tem uma participação mais ativa’.
Para ele, não há problemas ‘se houver uma plena integração entre o tema do projeto e o produto comercial que o sustenta’.
‘Fiz para a Bandeirantes a novela ‘Rosa Baiana’ [1981], inteiramente patrocinada pela estatal Petrobras. Era sobre a vida de petroleiros, trabalhadores dos poços de petróleo em terra e mar.’
Segundo Muniz, o merchandising não é imposto ao autor. ‘Cabe ao roteirista decidir se o produto comercial pode ou não ser inserido com naturalidade’ na teledramaturgia. ‘Nunca ouvi nenhum colega mencionar que seu projeto tenha que se vincular a algum pressuposto comercial.’ (A jornalista Laura Mattos viajou ao Rio a convite da TV Globo)"
Keila Jimenez
"Dupla infalível", copyright O Estado de S. Paulo, 27/04/03
"Sob chuva forte, eles param o movimentado terminal de Cargas Fernão Dias, em São Paulo, por onde passam mais de 4 mil caminhões por dia. Caminhoneiros e carregadores olham assustados, sorriem, acenam, cumprimentam os dois como velhos amigos, ensaiam pedidos de autógrafo. Não demora muito para que uma voz entre os contêineres grite: ‘Pedro, Bino!’ A dupla de caminhoneiros mais famosa do Brasil está de volta às estradas. Depois de quase 23 anos, Antônio Fagundes e Stênio Garcia vão retomar o volante do Carga Pesada, a partir desta terça, às 22h35, na Globo.
Após várias tentativas frustradas, a série retorna à TV com inicialmente quatro capítulos que irão ao ar semanalmente, mas com fôlego de ir além e até de virar DVD. Dessa vez, Pedro (Fagundes) e Bino (Stênio) levam na boléia Wagner Moura (Pedrinho, filho de Bino) e Patrícia Pillar (Rosa, par de Fagundes na trama). O improviso de cenários nos arredores do Rio e as precárias condições técnicas de 20 anos atrás deram lugar a gravações pelos quatro cantos do País e a um caminhão moderno (bancado pela Volkswagen), especialmente criado para a dupla. Durante o expediente no Terminal Fernão Dias, Stênio e Fagundes conversaram com o Estado. Entusiasmados e com um grau de afinidade raro entre atores, contaram sobre as dificuldades e alegrias de retomar o programa, num bate-papo divertido que mostra o segredo do sucesso do Carga Pesada: a amizade real entre os dois.
Estado - Como vocês decidiram voltar com o seriado?
Antônio Fagundes - Desde que acabou, a gente não se conformava. Num País em que 60 % do transporte de mercadorias é feito por rodovias, é importante que essa classe tivesse espaço na TV. Quando saiu do ar, a gente ficou chateado, era um sucesso muito grande, tanto que, anos depois, numa pesquisa sobre os seriados que fizeram mais sucesso, deu Carga Pesada na cabeça. A Globo reprisou o seriado inteiro aos domingos, às 8 horas da manhã, e dava boa audiência.
Stênio Garcia - Por esse sucesso, entre outras coisas, virava e mexia, a gente voltava com essa história na Globo, tentando retomar o projeto. Sempre fomos muitos amigos, continuamos trabalhando juntos e falando sobre isso, mas nunca dava certo.
Estado - Por quê?
Fagundes - Quando parecia que ia dar certo, alguma coisa acontecia. Eu estava fazendo Por Amor, falei na época com o Paulo Ubiratan (diretor), que se entusiasmou com a história, mas acabou morrendo e o projeto parou.
Stênio - Tinha também a questão de nossa agenda. Em determinado momento, ficamos impedidos por isso, eu estava em uma novela e o Fagundes em outra. Mas existia um desejo comum, sempre nos falávamos, tínhamos um envolvimento muito grande com o Carga. Participávamos, escrevíamos, só não dirigíamos o seriado porque estávamos dirigindo o caminhão (risos). Por sorte, no ano passado, o Marcos Paulo resolveu tocar a história para frente de novo.
Estado - Pedro e Bino vão encarar uma realidade muito diferente da de 23 anos atrás?
Fagundes - Infelizmente, a realidade do País não mudou muito e, se mudou, foi para pior. As estradas estão sucateadas...
Stênio - O risco que os caminhoneiros enfrentam é maior, apesar de terem mais tecnologia à sua disposição, a profissão está cada dia mais perigosa. Agora, os motoristas sofrem mais com roubo de carga. O Brasil está num momento político e social voltado para a produção, para o trabalhador, e o Pedro e Bino são dois trabalhadores.
Fagundes - O Stênio tem razão. O seriado pode trazer essa crença de que o trabalho pode resolver as coisas e que a produção não será um castigo, é um mérito. Talvez a gente possa trazer esse valor de volta.
Estado - Vocês se sentiam como heróis de seriado na época?
Stênio - Para os caminhoneiros, nós éramos heróis.
Fagundes - Comento com o Stênio que até hoje entro em um táxi e ouço alguém falar do Carga Pesada. É estranho que não haja mais heróis populares como Pedro e Bino. A nossa teledramaturgia representa muito pouco nosso povo, está mais espelhada em nossa elite, que é tão pequena. Acho que é por isso que fizemos mais de 20 novelas e as pessoas se lembram sempre do Pedro e Bino.
Stênio - O que é mais interessante é que há uma geração de jovens e crianças que nunca viram, mas conhecem o Carga Pesada de tanto os pais falarem.
Estado - A TV mudou muito de 23 anos para cá. O trabalho de vocês está mais fácil?
Fagundes - Não, está mais difícil.
Stênio - Hoje, nós temos muita tecnologia, mas temos de aprender a lidar com ela. Temos um caminhão que possibilita duas carrocerias, tem todo um sistema com captação de imagem com passarelas, câmeras por todos os lados.
Fagundes - Mas antes era uma loucura. Lembro que gravávamos dirigindo com uma mão e outra segurando o cinegrafista do lado de fora do caminhão, pelo cinto (risos), para o cara não cair. A luz era coisa complicada, as câmeras hoje são bem mais sensíveis. Ao mesmo tempo que temos uma qualidade de imagem bem melhor, temos de nos habituar com tantas câmeras. É quase um Big Brother, a gravação (risos).
Stênio - Antes gravávamos próximo ao Rio de Janeiro, fingindo que estávamos nos lugares mais distantes do Brasil. Hoje já fomos gravar na Chapada Diamantina, Foz do Iguaçu, Juazeiro do Norte. Tem uma preocupação, que antes não tinha, a de mostrar o Brasil.
Estado - Vocês se divertem trabalhando juntos, não?
Stênio - A própria Globo já utilizou a química de atuarmos juntos em outras novelas. Já fomos patrão e empregado, compadres, inimigos...
Fagundes - Acho que a gente funciona junto, mas não é aquela coisa de casal romântico (risos).
Stênio - Ainda bem que não.
Fagundes - Não tô falando isso. Tô falando de repetição, daquela coisa de apostar no mesmo. Não ficam colocando a gente junto o tempo todo nas novelas.
Estado - Pedro e Bino continuam os mesmos?
Fagundes - Eles têm um pouco de dor nas costas, menos cabelos (risos). Esses quatro episódios começam com a vinda do Bino para a estrada novamente. Será que a gente pode contar a história para ela?
Stênio - Conta né, já começou.
Fagundes - O Bino faz um exame, uma biópsia e acha que vai morrer. Aí, ele quer se despedir da vida dele, da estrada. A história se chama A Grande Viagem...
Estado - Ai que triste...
Fagundes - Não, ele não morre...
Stênio - Não conta, (tentando interromper Fagundes). Bem, já foi (risos). Mas não vai ser triste, eu garanto. O Pedro chega a zombar do Bino, apostando que ele não vai morrer. O drama serve apenas de motivação para o encontro.
Estado - Mas não seria estranho ver Pedro e Bino na estrada de novo, 23 anos depois, sem explicação?
Fagundes - Acho que não. A impressão que tenho é que aqueles dois carreteiros, há 20 anos, tiveram a oportunidade de ter uma câmera focando a vida deles. De repente, a câmera se afastou e foi ver outras coisas, até que alguém perguntou: ‘Onde estão aqueles dois lá?’ Aí, a câmera voltou.
Stênio - A relação continuou durante os anos. O filho do Bino na história é afilhado do Pedro, chama-se Pedrinho.
Fagundes - Assim você vai contar tudo para ela.
Stênio - Não vou, não (risos).
Estado - Vocês escreverão algum episódio?
Fagundes - A princípio nos contrataram para sermos só atores, não autores (risos). De qualquer forma, ficou aberto para, se quisermos, entregarmos algum episódio. Eu mesmo já tenho um escrito que vou entregar para eles.
Estado - O que vocês sentem quando se vêem vivendo os mesmos papéis de 23 anos atrás?
Fagundes - É estranho. Ganhamos do Marquinhos (Marcos Paulo, diretor) uma coletânea com alguns episódios antigos da série. Foi um lindo presente. Sei que ali sou eu, mas aquilo está tão distante que parece que estou vendo outro ator fazendo o Pedro. Sem contar que o cabelo daquele Pedro é mais escuro.
Stênio - Também tínhamos menos barriga. O Fagundes era mais ágil para subir no caminhão.
Fagundes - Eu? E você? (risos)
Stênio - O mais legal é que o Leopoldo (Serran, autor) conseguiu incorporar toda a carga de vivência que eles já tiveram e a maturidade que eles adquiriram. Acho que o público vai olhar o seriado não como um novo Carga Pesada nem como um remake e sim como a volta do Pedro e do Bino de uma longa viagem juntos, pois dessas estradas da vida, eles nunca saíram.
Série terá flash-backs reais e caminhão especial
Saem os autores Dias Gomes, Walter George Durst, Renata Pallottini e Gianfrancesco Guarnieri, entram Ivan Sant’Anna e Leopoldo Serran. Na direção, Gonzaga Blota e Ary Coslov dão lugar a Roberto Naar e Marcos Paulo, este, diretor de núcleo da Globo e principal responsável pela volta do Carga Pesada.
Apaixonado pela série, Marcos Paulo conta que há tempos queria participar da retomada do projeto e esperou Fagundes e Stênio ficarem com suas agendas livres - detalhe, ao mesmo tempo - para rebater nessa tecla junto à direção da Globo. A insistência valeu a pena. O diretor se diverte ao dizer que, com a volta da jornada de Pedro e Bino, ele realiza o sonho de todo diretor de TV: o de usar imagens de flash-back reais. Fagundes e Stênio não terão de se maquiar e pintar os cabelos para parecerem mais jovens em cenas que retratam o passado dos personagens.
‘Não vão precisar puxar nossos olhos e rugas com esparadrapo, como fizeram em O Clone’, brinca Stênio Garcia.
Marcos Paulo terá à sua disposição os 54 episódios antigos da série, intactos, com o Fagundes e o Stênio de 20 anos atrás. Imagens prontas para serem utilizadas sempre que necessário na nova edição, como um complemento ou como homenagem àqueles que trabalharam na primeira edição do programa, explica o diretor.
‘Assisti a todos os episódios novamente antes de começar a gravar, mesmo tendo todos eles bem vivos na minha cabeça de fã’, conta Marcos Paulo. ‘Queria participar desse projeto desde que o Paulo Ubiratan falou pela primeira vez da possibilidade de volta. Agora, coincidiu da Globo estar procurando uma série para a grade de programação e de Fagundes e Stênio estarem livres’, continua. ‘A utilização do flash-back será um atrativo a mais na história, estou muito empolgado com a idéia.’
Supercaminhão - Além do flash-back, Marcos Paulo contará com uma máquina especialmente criada para a volta da série.
Ele conta que a Volkswagen criou um chassi de ônibus que possui duas cabines : uma de caminhão, em que vão os personagens, dando a impressão de que eles estão dirigindo na estrada, e outra que vai atrás, com a equipe técnica, câmera e o real motorista da moderna geringonça. O novo veículo substituirá o antigo caminhão da Scania, da primeira fase. Também facilitará a vida da equipe técnica que, na primeira edição, tinha de chacoalhar no braço a cabine do caminhão para dar o efeito de movimento no veículo no estúdio.
‘Apanhamos um pouco da máquina no começo, mas agora vemos como ela facilitou nossa vida’, fala o diretor. ‘Antigamente, os cinegrafistas se arriscavam demais para gravar o caminhão em movimento e os atores acabavam tendo de fazer duas, três coisas ao mesmo tempo: atuar, dirigir e segurar o iluminador.’
Assim como os dois protagonistas da série, Marcos Paulo já pensa adiante e negocia com a Globo a produção de pelo menos mais oito episódios de Carga Pesada.
‘Vontade não falta, mas não posso falar se isso realmente vai ter vida adiante sem ver os resultados no ar’, fala ele."
PROPAGANDA SUBLIMINAR
Rosângela Marques
"Ong busca mensagens ocultas na TV", copyright O Estado de S. Paulo, 27/04/03
"Um comercial da pasta de dentes Close-up é o novo alvo da Ong Mensagem Subliminar, dedicada a estudar a mídia e encontrar detalhes implícitos que sejam captados inconscientemente por quem vê programas de televisão, filmes, comerciais e outros veículos de comunicação.
Lançado no dia 21 de março, o comercial produzido pela agência Thompson, responsável pela conta publicitária da Unilever, traz dois palavrões escritos numa cena que envolve um casal de atores falando coisas desconexas. A descoberta foi feita há poucos dias, através de denúncias enviadas à Ong, que no ano passado acabou se tornando conhecida depois de apontar mensagens subliminares de pedofilia e sadomasoquismo numa vinheta exibida pela MTV.
‘Recebemos as denúncias de pessoas que estão cadastradas no nosso site e estão inteiradas do que significa o contexto subliminar. Elas já se habituaram a ver televisão fazendo uma verdadeira varredura nos cantos de tela. O foco de atenção não é mais o personagem central, mas aquilo que chamamos de visão periférica, nas laterais do monitor e nas frases jogadas inocentemente nos cantos da tela’, explica o pesquisador José Vicente Dias, presidente da Ong e que começou a se interessar por mensagens subliminares ainda nos anos 80. De lá para cá, tornou-se pesquisador do fenômeno e um profundo conhecedor da técnica, que começou a ser estudada por americanos ainda nos anos 50.
‘De acordo com a psicologia, subliminar significa qualquer estímulo não captado conscientemente por estar abaixo dos limites sensoriais receptores’, esclarece. ‘A cena do comercial tem a duração de apenas um frame (quadro), mas o suficiente para que as pessoas leiam os dois palavrões.’
Vicente aponta ainda que os referidos palavrões - ‘pora’ e ‘f...-se’ - surgem no filme como se estivessem escritos em um dente. ‘A imagem é ampliada e no pouco tempo que fica no ar é possível ler direitinho. De acordo com a linguagem semiótica, para expressar sentimentos de ira ou palavrões, o correto é usar símbolos como cobras, lagartos, escorpiões, etc.
‘Ainda mais numa mídia como a TV, não se pode usar palavras escritas para expressar esse tipo de sentimento’, argumenta o pesquisador, destacando que o comercial tem sido exibido em várias emissoras, durante o horário livre.
Empresa nega más intenções - Informada sobre a denúncia feita pela Ong, a assessoria de imprensa da Unilever manifestou-se enviando uma nota à redação da Agência Estado, explicando que o ‘tema central da campanha de Close-up, que está sendo veiculada atualmente, tem como objetivo transmitir a seguinte informação: ‘sua boca está cheia de bactérias, suja e falando mal de você? Então, mude para o novo Close-up com anti-séptico bucal. Sua boca só vai falar bem de você’.
Ainda de acordo com a nota, a ‘marca tem uma linguagem jovem, a campanha utiliza conversas desconexas para mostrar o conceito de ‘falando mal de você’ e mostra dentes com letras e ícones associados, muito utilizados nas histórias em quadrinhos, para transmitir a idéia de boca suja, sem o objetivo de colocar qualquer mensagem subliminar ou estimular o uso de palavrões’.
Mencionando o significado de propaganda subliminar descrito pelo Dicionário de Comunicação, de Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Guimarães Barbosa (Ed. Campus), a assessoria destaca que trata-se de ‘técnica de propaganda baseada na transmissão de mensagens que não são percebidas conscientemente pelo público. No campo da percepção visual, a mensagem subliminar é transmitida em estímulos ultra-rápidos, a uma velocidade de 1/3000 segundos, uma vez a cada 5 segundos, o bastante para que sejam captados pelo subconsciente’.
Por não haver repetição da cena das letras e ícones dos dentes no comercial com a intensidade necessária para captação da mensagem pelo subconsciente, a assessoria assegura que a campanha não se encaixa no contexto da denúncia. ‘A cena dos dentes aparece por poucos segundos e, logo em seguida, a ‘boca suja torna-se um boca saudável e limpa’, finaliza a nota."
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"Cena vai para a comissão de direitos humanos", copyright O Estado de S. Paulo, 27/04/03
"Lançado em setembro do ano passado e reestruturado em abril de 2003, o site www.mensagemsubliminar.com.br registrou desde sua criação até março último mais de 2 milhões de acessos.
‘Já registramos mais de 300 pedidos de cadastros, na grande maioria, de universitários e pessoas que estão concluindo teses dedicadas ao estudo da semiótica e da propaganda subliminar’, ressalta. ‘Nossa intenção é identificar todo tipo de propaganda subliminar e fazer com que as pessoas não se sintam obrigadas a consumir algo que não lhes é oferecido de verdade.’
Com relação à denúncia feita ao comercial da pasta dental, Vicente garante que, além de deixar o texto no ar em seu site, também vai procurar a ajuda de outros órgãos, como a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que tem levantado a bandeira contra a baixaria na TV, por meio do site www.eticanatv.org.br, que denuncia abusos cometidos por programas de televisão e sustenta a campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania.
‘Já falei com o deputado Orlando Fantazzini, que é da Comissão, e ele já pediu para que eu mandasse a imagem para ser analisada por outras pessoas. Acho que nossa missão é poder colaborar para que a sociedade tenha uma mídia melhor do que a que existe hoje.’"
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