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LULA PRESIDENTE / ELEIÇÕES 2002
Guilherme Fiuza

"Minha doce inquisição", copyright no mínimo (www.nominimo.com.br), 22/10/02

"Regina Duarte não está com medo. Apenas emprestou seus serviços à campanha de José Serra, que, às vésperas da derrota, ainda acredita na estratégia de acusar o PT de tingir de vermelho a bandeira nacional. As reações contra a mensagem anacrônica de Regina também não têm nada a ver com volta da censura. O que existe de fato na onda pró-Lula é mais sutil: se você estiver numa roda social mais ou menos esclarecida, em alguma capital brasileira, e se você não pretende votar no PT, sua única chance de terminar a noite sem ser moralmente crucificado é não falar de política.

Brasileiros de todas as cores ideológicas deveriam estar rindo à toa com um segundo turno entre Lula e Serra. Para bom entendedor, o Brasil já ganhou. Mas os eleitores e simpatizantes do PT não pensam assim. O que está se vendo, às vezes dentro de uma mesma família, é que quem fez a opção por Serra recebe logo uma moção de desconfiança: ou tem algo a esconder ou não está entendendo nada.

Não pergunte a um palestino, na Faixa de Gaza, por que ele não respeita os interesses daquele judeu que está do outro lado. As razões existem, mas estão fermentadas, poluídas e deformadas por séculos de enfrentamento cego. Hoje, aquele judeu não merece respeito simplesmente porque é judeu. Assim nascem os fundamentalismos, cuja marca essencial é negar o diferente.

Tolerância nem sempre é um valor inquestionável. Nas grandes transformações históricas, nas revoluções, parte do combustível costuma ser uma boa dose de intolerância - em nome da pureza dos ideais. Robespierre não pararia meio minuto para ouvir o que um defensor do Antigo Regime tivesse a dizer. Mesmo no Brasil, nos estertores da ditadura militar, o indivíduo que não defendia a volta da liberdade não podia reclamar de segregação moral.

Nada no Brasil de hoje justifica esse direito excepcional à intolerância. José Serra não é Collor. É um brasileiro tão respeitável quanto Lula. E é candidato de um governo que, entre erros e acertos, cumpriu com dignidade seus deveres democráticos. Toda disputa ideológica é saudável, mas o eleitor de Lula, sempre tão preocupado com a tal da cidadania, tem obrigação de respeitar a opção do eleitor de Serra - e não é isto o que vem acontecendo nas ruas, nas casas, nos bares.

Vai mal o tom das discussões. Assim como o palestino, o torcedor do Flamengo não precisa de argumentos para maldizer as convicções de um vascaíno. Mas os simpatizantes do PT precisam compreender que eleição não é futebol - onde cada torcida se outorga o monopólio da virtude e não há possibilidade de transigência. É quase desconcertante identificar, na onda em favor do candidato ‘do bem’, traços crescentes de autoritarismo e preconceito (que até outro dia eram características ‘do mal’). Fica parecendo a parábola do pacifista que fuzilou os generais para evitar a guerra.

‘Agora é a nossa vez de impor o pensamento único’, talvez esteja dizendo o inconsciente coletivo da esquerda. O curioso é que às vésperas de ganhar o poder, com o dobro das intenções de voto do adversário, a corrente petista ainda interrompa seu transe emocional para patrulhar a Regina Duarte. Talvez fosse mais útil discutir os primeiros passos do PT no governo, além da óbvia providência de mandar a ex-namoradinha do Brasil para a guilhotina.

Paz, amor e aumento da dívida

Lula está acima do bem e do mal, vai salvar os pobres do vampirismo dos especuladores. Nesse oceano de estereótipos, a vida real vai ficando mesmo para janeiro de 2003. Enquanto isso, o PT - subsidiado por Alexandre Dupeyrat, o famoso assessor de Itamar Franco para assuntos pirotécnicos - anuncia que vai renegociar as dívidas dos estados. Eles pagam hoje até 13% de sua receita à União, e deverão passar a pagar no máximo 5%. Isto é, o governo Lula, generoso, vai dar dinheiro aos governadores. O curioso é que boa parte da dívida do governo Fernando Henrique nasceu exatamente do refinanciamento dos estados. E agora, o PT, que tanto critica o tamanho dessa dívida, vai aumentá-la para fazer o que já foi feito.

Como ficará o fantástico superávit fiscal anunciado pelo comando petista diante de uma medida desse tipo? Não seria melhor discutir isso do que montar barricadas contra o chororô da Regina Duarte? Não adianta, o máximo a que se chega no debate sobre política econômica, por exemplo, é a repetição daqueles panfletos que põem o ‘capital financeiro’ na coluna do mal e o ‘capital produtivo’ na coluna do bem. Sobre isso, vale reproduzir trecho de uma carta do leitor Geraldo Luiz Matos, a propósito do discurso das oposições, Enéas à frente:

‘Um dos pontos mais interessantes é essa idéia espúria de que o único capital bom é aquele empregado na tal ‘cadeia produtiva’. Coisa aliás defendida, com mais elegância, até mesmo pelo Adam Smith já na Riqueza das Nações. O que eu acho fantástico nessas idéias (...) é o princípio subjacente de que é possível separar as duas coisas: como se o negócio das bolsas nada tivesse de relação com a tal cadeia produtiva.

‘Aliás, o mais interessante é quando os que assim pensam começam a querer fazer outra separação, desta vez entre o dinheiro ‘legitimamente’ aplicado nos papéis do mercado e a ‘maldita especulação’, como se pudesse existir mercado primário de papéis sem existir mercado secundário. Aí, meu caro senhor, a coisa pega de vez pelo baixo nível da conversa.

‘Essa gente nunca se preocupou muito em observar o fato de que o sucesso e a solidez da economia de um país está íntima e diretamente relacionada com a força e a solidez do seu mercado financeiro, e tudo aquilo que ele traz de perigoso (mais pela corrupção e ineficiência dos órgãos reguladores) e de benéfico: redução brutal do tempo de ‘realização do capital’, partilha dos riscos em empreendimentos muito arriscados, financiamento rápido e menos burocrático e, no limite, quando não se vive uma crise sistêmica, risco de investimento bem próximo a zero (...).

‘Aliás, os escândalos das megacorporações americanas são bom exemplo disso pelo volume absurdo de perdas - fala-se até mesmo em 7 trilhões de dólares. Não fosse o mercado financeiro americano o que é (com um enorme volume de participantes, de tal forma que os prejuízos se distribuem melhor reduzindo o efeito cascata) teriam arrastado o país inteiro pro brejo em minutos e sem qualquer saída. (...).

‘Confesso a vossa senhoria que essa gente me lembra aqueles políticos que, a cada eleição, aparecem cantando aos ventos que ‘a solução da nação está na agricultura’; que é ‘da terra que surge o lucro, a prosperidade e que só ela pode nos salvar’ e outras banalidades similares, como se ainda estivéssemos no tempo dos fisiocratas. (...)’

Geraldo, infelizmente sua argumentação está fora de moda. Com uma frase ‘em favor da reforma tributária’ e outra ‘contra o capital especulativo’, eleitores e analistas se sentem hoje discutindo profundamente os problemas nacionais. Resta esperar janeiro para ver onde é que isso vai dar."

 

Pedro Doria

"O bom debate", copyright no mínimo (www.nominimo.com.br), 23/10/02

"Numa noite que prometia nevasca em dezembro, no inverno de 1773, 5.000 homens deixaram suas casas em Boston, com toda discrição. Seu destino foi a pequena igreja branca, no centro da cidade, onde já estava gente como Samuel Adams e Benjamin Franklin, proeminentes políticos locais. Fizeram um longo debate, o povo e seus representantes, reunidos na mesma sala, falando no mesmo tom - inventavam uma nova forma de democracia. Naquela noite, decidiram saquear os navios que traziam chá da Inglaterra - uma revolta que disparou o processo que culminaria na independência dos EUA.

Quando Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra se encontrarem nos estúdios da TV Globo no Rio de Janeiro para o debate presidencial de sexta-feira, estarão celebrando aquela tradição. Será um novo formato para debates no Brasil, os dois candidatos estarão de pé, andando livremente pelo palco de um anfiteatro e o público lá presente, eleitores indecisos de vários cantos do país, farão perguntas. Ao jornalista William Bonner, no papel de moderador, caberá organizar o fluxo.

E é um formato que tem mestre que ensina como fazer: Bill Clinton.

Assim se faz política nos EUA. No país, dividido com toda cautela em distritos, todos os políticos - de deputados ao presidente - se reúnem com a população o tempo todo, mesmo em cidades pequenas e principalmente durante a campanha. Se não há os grandes comícios a céu aberto, um pequeno palco e a população fazendo perguntas acontece toda hora. No caso dos parlamentares, o ritmo durante o ano às vezes é semanal.

Mas quem levou o formato destas reuniões para a televisão foi o jovem governador de Arkansas, estado pequeno e pobre que, em 1992, saiu candidato à presidência da República: William Jefferson Clinton. Há quem diga que sua performance naquele debate, o segundo no pleito, o elegeu. Exageros à parte, tem lá seu sentido.

Naquele país, o contato entre população e políticos sempre foi constante. Mas o crescimento econômico e populacional, durante o século 20, foi afastando os presidentes da república. É natural. Quando aconteceu o primeiro debate para a presidência pela tevê, em 1960, atribuiu-se ao aspecto cansado do então vice Richard Nixon a vitória de seu oponente, John Kennedy.

O medo de televisão contribuiu para que apenas na eleição de 1976 o ritmo de debates ao vivo voltassem. Aí, cada debate tem sua história. Gerald Ford falou besteira, Jimmy Carter venceu. Quatro anos depois foi Carter quem falou besteira, Ronald Reagan assumiu. Impossível saber o quanto os debates contaram de fato.

Táticas de debate

Mas com Clinton foi diferente. Um político estupendo. Se Reagan, pelo seu treino de ator, sabia trabalhar bem televisão, Clinton foi melhor. Sabia fazer tevê bem e sabia estar junto ao público bem. Juntou os dois atributos e arrasou no debate. Sua naturalidade, porém, tinha método. Clinton sugeriu o formato de town hall meetings porque sabia como fazer para que aquela encenação parecesse uma discussão informal que contagiasse os espectadores. Sabia também que seus adversários, o independente Ross Perot e o então presidente George Bush (pai), não iam fazer direito.

Em 92, Bush vinha apostando - como é moda por aqui - na desconstrução de Clinton. O futuro presidente tinha queimado sua convocação para a Guerra do Vietnã, protestado contra a guerra, feito coisas que bom americano não faz. Bush pretendia explorar este tipo de coisa no debate mas foi pego de soslaio. Bem no início, quando ensaiou o primeiro ataque, um dos populares pediu que os candidatos largassem disso e se ativessem às questões do país. Bush fez seu melhor sorriso amarelo e assentiu.

‘As perguntas que eles fazem e a maneira como eles fazem são muito interessantes’, contou mais tarde Clinton, já no fim de seu segundo mandato, ao jornalista Jim Lehrer, do canal comunitário PBS. ‘Não é nada com vocês, é só que se você é jornalista e trabalha com política, você formula perguntas diferentes. Aquele pessoal, não, eles estão lá fora tentando organizar suas vidas, pagar as contas, levar seus filhos à faculdade, lidam com essas coisas com as quais pessoas normais lidam.’

É um tipo de debate, pois, onde reina o imponderável. Naquela mesma noite, outro sujeito perguntou ao pai de George W. Bush como a recessão afetava a ele, pessoalmente. Bush fez cara de confuso e pediu que ele refizesse a pergunta, que não tinha entendido diferente. Quando foi a vez de Clinton, ele jantou.

Mas não é só a agilidade na resposta às perguntas que não jornalistas fazem que está em jogo. Clinton conhecia como televisão funcionava tecnicamente. Chegando ao palco, decorava a posição das câmeras, seus ângulos, e não deixava de trabalhar com isso um só segundo. Se mexia, mexia lento e de uma câmera para a outra facilitando o trabalho do editor. Quando falava com Bush, olhava para ele. Quando falava com um eleitor, nos primeiros segundos observava-o, para então com lentidão voltar os olhos para a câmera - e dirigir-se ao público lá fora. Fez mais. Nos momentos em que percebia um olhar de preocupação no oponente, ou alguma impaciência, movia-se para que a câmera que estivesse o acompanhando também flagrasse Bush. O resultado é que, duas vezes durante o debate, o então presidente foi visto olhando para o relógio. Impaciente. Doido para sair dali.

Quem viu Bill Clinton num debate não esquece - trata-se dum ás. Preocupado, descontraído, tudo no momento certo, sempre atencioso. Tudo calculado, raciocinado, feito para que o resultado soasse natural, o mais possível. O resultado foi ótimo. Nas duas campanhas.

Além das peculiaridades do formato sobra o treino natural pré debate. Um ensaio que pode durar um, dois dias. Alguém faz o papel de oponente e imagina-se tudo quanto é pergunta que pode ser feita. Bola-se frases de efeito, comparações - aquela de José Serra no último debate, por exemplo, quando sugeriu que Garotinho deveria estar no Casseta e Planeta. Usam-se estas frases com cautela e economia, senão confunde, e improvisa-se. É Clinton, novamente, quem explica:

‘É como jazz. Existe uma melodia que deve ser tocada e se você toca no tom certo chega uma hora em que tem que improvisar. Se você improvisar por completo e tocar fora do tom e esquecer qual era a música, então estará criando um problema para si mesmo. Mas se você nunca variar a melodia, também não vai ser muito eficiente.’

O debate não será fácil nem para Serra nem para Lula. Não terão uma bancada para esconder seus corpos e eventuais cruzadas de pé ou mãos tensas. Nem sempre saberão quando a câmera estará neles. Não conhecem seus inquisidores, portanto não podem guardar expectativas de qual será a linha das perguntas. (No caso de Bush, sua estratégia de bater em Clinton caiu nos primeiros minutos.) Estarão expostos.

Pela total falta de hábito de entrar em contato com políticos, para os telespectadores este novo debate talvez soe artificial. Mas é um formato estupendo porque mostra uma coisa diferente: candidatos e povo. Quem não tem o hábito deste contato por mais tempo que o cordial abraço no meio da rua costuma ter mais problemas. Será uma nova tradição - e bem-vinda.

Ben Franklin, que tanto gostava desse tipo de contato, foi um dos pensadores que estruturou o jogo político norte-americano que corre até hoje. Em sua auto-biografia, dedicou um bom tempo a falar como um homem público deveria lidar com o público. Sam Adams, além de primo e tio de dois presidentes, foi um sujeito tão querido que virou nome de cerveja - uma das melhores dos EUA, nada a ver com aquelas que chegam aqui. Não é uma má tradição para se copiar."

 

Otavio Frias Filho

"Coro dos contentes", copyright Folha de S. Paulo, 24/10/02

"Os adversários do senador José Serra -e agora eles são tantos, pois se formam filas para adular o provável vitorioso- culpam o candidato pela derrota. Serra foi ambicioso demais, praticando uma política de terra arrasada no campo governista até conseguir firmar sua candidatura. Não é ‘simpático’ e seu modo de atuação política ‘desagrega’.

São características que podem ter sinal positivo se adotado outro ponto de vista. Não ser ‘simpático’ pode ser um eufemismo para quem não agrada a cada auditório; ‘desagregar’, outro eufemismo para quem não fez acordos que abraçam desde a direita nordestina até o MST. Mas é duvidoso que um candidato ‘melhor’ pudesse obter resultado diferente.

Foi somente depois de Roseana e Ciro terem sido pulverizados que o eleitorado desistiu de procurar uma terceira via que lhe permitisse escapar do dilema entre governo e Lula. Desgastado depois de oito anos, tendo levado o país às portas da bancarrota quando os benefícios do real já envelhecem na memória, os tucanos (agora se vê) não tinham muita chance.

De outro lado, a lenta decantação do PT como partido social-democrático foi apressada por uma política de alianças sem outro critério exceto o de vencer a todo custo, ao mesmo tempo em que o candidato passava por uma profunda cirurgia publicitária. Nessa plástica, os traços que o eleitor imaginava ver em Roseana foram transferidos a Lula.

Toda eleição acumula novo aprendizado coletivo sobre as anteriores. Os meios de esclarecimento se desenvolvem em paralelo, no entanto, com os meios de ilusão, que também melhoram. A vocação publicitária da política contemporânea se fixa cada vez mais. E seu programa é o mesmo para todos os clientes: despolitizar a campanha e glamourizar o candidato.

A embalagem pode ser nova, mas o fenômeno não. Conforme a cirurgia petista surtia seus efeitos e a economia fragilizava ainda mais o governo, de repente o eleitorado -tão flutuante no começo, embora agora se compreenda melhor o percurso de suas cismas- fixou-se em Lula, gerando essa onda que nada mais parece capaz de deter.

Num país de tradição sebastianista, reaparece de tempos em tempos uma dessas figuras de demiurgo (cujo modelo local é Getúlio), em torno da qual se forma um consenso irrestrito, que os poderosos passam a assediar com seus apoios e que os entusiastas consideram acima de críticas. Para ficar no período recente, foi assim com Tancredo e com Collor.

O caso de Lula tem uma dimensão simbólica mais profunda do que as desses dois precursores, pois ele incorpora o sentimento de injustiça ante a desigualdade abissal que separa as classes no país. É um paradoxo, talvez fecundo, que esteja a um passo do poder num momento em que a economia praticamente impõe um governo de união nacional.

Na fase de ascenso desses demiurgos, antes que as decepções inevitáveis, sobretudo num governo sem margem de manobra, devolvam as expectativas a nível mais realista, toda crítica é impatriótica, toda ressalva é impertinente. Mas há instituições -o Ministério Público, a imprensa- cuja função deveria ser desafinar o coro dos contentes."

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