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GUERRA & TERROR
Ricardo Bonalume Neto

"Taleban derrota EUA na guerra da informação", copyright Folha de S. Paulo, 25/10/01

"Os Estados Unidos e o Reino Unido já estão perdendo pelo menos uma guerra no Afeganistão: a de propaganda. Ironicamente isso acontece com militares que acham que ‘aprenderam’ a lidar com a opinião pública depois do fracasso que foi a intervenção americana no Vietnã, nos anos 60 e 70.

E, mais irônico ainda, estão recebendo lições de ‘guerra de informação’ ou ‘psicológica’ de uma milícia que proíbe sua própria população de ver televisão ou mesmo ouvir música. E que ‘enforca’ aparelhos de TV e fitas cassete em postes e árvores.

Por enquanto as imagens mais impactantes da guerra são de crianças afegãs supostamente atingidas em bombardeios americanos. Os vídeos assépticos e cuidadosamente maquiados divulgados pelos EUA continuam lembrando videogames, e não uma guerra.

Traumatizado pelo que julga ter sido o impacto de imagens de americanos mortos em combate durante o conflito vietnamita, americanos e britânicos procuraram controlar o acesso ao campo de batalha desde então, como fizeram durante a Guerra das Falklands/Malvinas de 1982, a do Golfo em 91, e os ataques aéreos a Kosovo, Iugoslávia, em 99.

‘Embora o impressionante número de 2.700 jornalistas tenha acompanhado as forças da Otan quando elas entraram em Kosovo no final da campanha de bombardeio -no auge da Guerra do Vietnã eram 500 correspondentes-, o público se afogou em ondas e ondas de imagens que juntas não revelavam nada’, declarou o jornalista australiano Phillip Knightley em uma palestra recente sobre o tema.

Knightley é autor do mais famoso livro sobre cobertura de guerras, ‘A Primeira Vítima’, cuja primeira edição é de 1975 (a brasileira, 1978), e trata principalmente do jornalismo anglo-americano.

O livro foi depois atualizado, incluindo até o bombardeio da Otan sobre Kosovo em 1999, e dando ênfase à Guerra das Falklands/Malvinas, que segundo o jornalista marcou a recuperação dos militares desde a derrota no Vietnã e indicou uma recuperação da tradicional dominação sobre a mídia nos Estados Unidos e Reino Unido.

Problemas básicos

Em sua palestra, Knightley definiu os cinco problemas básicos das coberturas de guerras:

1. Cada governo tenta controlar os meios de comunicação para obter apoio aos seus objetivos; 2. Se necessário, o governo vai mentir para os meios de comunicação; 3. Muitos correspondentes de guerra aceitam as mentiras em nome do patriotismo, convicção ou ambição pessoal; 4. Os editores e proprietários dos órgãos de imprensa aceitam as mentiras, pois é de seu interesse apoiar o governo do momento; e 5. Se isso não estiver funcionando, o governo vai empregar propagandistas profissionais e relações públicas para manipular a opinião pública.

A opinião de Knightley, que nunca cobriu pessoalmente uma guerra, de que os correspondentes sempre falham na tarefa de fazê-lo, é criticada por Max Hastings, atualmente editor do jornal londrino ‘Evening Standard’.

Hastings cobriu conflitos em Biafra, Vietnã, no Oriente Médio, Chipre e outros lugares, além de ter acompanhado as tropas britânicas que retomaram as Falklands/Malvinas, o que descreve no livro ‘Going to the Wars’ (‘Indo às Guerras’), considerado um verdadeiro manual de como cobrir um conflito.

‘Eu sempre achei seu livro profundamente falho, porque ele ignora o problema fundamental de se escrever sobre um conflito. Você está tentando montar um quebra-cabeças no qual a maior parte das peças está faltando. A escolha para o correspondente de guerra não é entre reportar verdade e falsidade, mas entre reportar um fragmento da realidade ou então não fazer nada’, afirma o editor inglês sobre o livro de Knightley.

‘Todos jornalistas têm que competir com a falsidade oficial, em guerra e na paz. Na guerra, não só os comandantes contam mentiras aos repórteres, como muitas vezes nem eles sabem a verdade.’

Para Hastings, os jornalistas devem obstinadamente correr atrás dos fragmentos -e deixar claro que não são toda a verdade-, e deixar para os historiadores a tarefa de preencher os buracos no quebra-cabeças depois.

Segundo Hastings, muitos de seus colegas jornalistas acreditam que uma genérica ‘responsabilidade com a nossa profissão’ passaria por cima de ‘meros interesses públicos ou nacionais’. Para ele, isso ‘reflete uma presunção coletiva quase insana. Na guerra ou na paz, os meios de comunicação só podem se justificar pela referência ao interesse público’.

‘Não é necessário acreditar que os correspondentes de guerra devam escrever o que os governos querem que escrevam, ou transmitir opiniões adequadas ao estado-maior -eu nunca fiz isso na minha vida-, mas meramente que nós não devemos frivolamente passar segredos operacionais que podem custar vidas’, acrescenta ele.

‘Em uma guerra, quando questões de vida e morte estão em jogo, se os jornalistas se enxergarem como mero espectadores nas arquibancadas do Coliseu, colocando o dedão para cima ou para baixo com absoluta indiferença aos que estão lutando pela sobrevivência na arena, eles não poderão esperar muito respeito do público’, afirma Hastings.

Knightley dá uma receita do modo como os meios de comunicação se comportam ao cobrir uma guerra, em quatro pontos que sempre se repetiriam:

1. A guerra vai ser apresentada em termos da luta do bem contra o mal; 2. O lado maligno vai ser demonizado e seu líder apresentado como um novo Hitler, louco e sanguinário; 3. O lado do bem vai ser mostrado como o salvador da civilização, humanitário e forçado a agir por causa da barbárie do outro lado; e 4. Com esse objetivo, velhas histórias sobre atrocidades serão tiradas da gaveta e recicladas -algumas serão verdade, outras serão falsas, e só depois da guerra se vai saber o que foi verdade e o que foi propaganda.

‘Todas as campanhas militares são julgadas, no final, pelo seu sucesso ou não. Não importa quão honrados sejam os motivos, ou bem intencionadas, suas desculpas. Se você começa uma guerra, tem de vencê-la’, escreveu Hastings em artigo no último dia 19.

E, mesmo que o Afeganistão tenha um novo governo e seja reconstruído, a vitória só vai acontecer com Osama bin Laden preso ou morto, conclui ele."

 

Eugênio Bucci

"De Charlton Heston a Bin Laden", copyright Folha de S. Paulo, 25/10/01

"Está esquecido nas locadoras o vídeo de Os dez mandamentos (EUA, 1956), de Cecil B. DeMille. Todos os viventes já o viram. Por definição. É um dos pilares da mitologia visual do tal ‘Ocidente’ do século 20. Pois agora, no princípio da assim chamada primeira guerra do século 21, é perturbador revê-lo. É aterrador. O Moisés de Charlton Heston emerge do passado como um justiceiro genocida. Atenção: não falamos aqui do profeta fundador que está no Velho Testamento, do ordenador da civilização em que todos existimos. Este, desde já, está além do alcance deste artigo. Não é de religião que se fala aqui, mas de entretenimento e de suas conexões com o jornalismo. Falamos, portanto, do Moisés hollywoodiano - que age como um fanático impiedoso. E aí é que está: por disparatado que seja, há aspectos desse personagem, o hollywoodiano, que poderiam ser atribuídos, ainda que com todas as reservas, ao terrorista louco Osama Bin Laden. Você vai dizer, com toda razão, que não há nenhum termo de comparação entre o personagem do cinema dos anos 50 e o criminoso real do noticiário contemporâneo. Sim, você tem razão, mas vamos nos lembrar de que as transfusões de sentido entre as imagens, neste tempo dominado pelo entretenimento, não seguem nenhuma lógica racional.

Hoje é assim. Qualquer signo se associa a qualquer outro signo sem cerimônia, sem reverência, sem método. O nosso tempo evolui como num zapping de TV. Pode-se narrar a Revolução Francesa em ritmo de videoclipe. Pode-se fazer de um videoclipe uma causa política. We are the children etc. Um sósia de Che Guevara faz propaganda de Bom-Bril, um sósia do Padre Marcelo anuncia motocicletas. Há poucos anos um pastor deu um chute numa Nossa Senhora, pondo-a no lugar de bola de futebol. John Lennon se declarou mais famoso que Jesus Cristo e um roqueiro brasileiro canta que ‘o papa é pop’. Com o Moisés cinematográfico dá-se o mesmo. Primeiro, Hollywood o transforma num astro que arrasta as multidões não mais para a outra margem do mar, mas para as poltronas acolchoadas dos cinemas. Na tela, ele já não é um ser de luz; é apenas o vingador que flagela o povo do Egito para chantagear o faraó. O cinema americano não consegue adaptar a biografia do profeta sem banalizá-la, sem reduzi-la a um filme de mocinho. Que, se fosse filmado hoje, teria Arnold Schwarzenegger no papel principal.

O telejornalismo atual também se estrutura como um filme de mocinho. Daí que, quando tenta mostrar o rosto e a fala de um fanático terrorista que habita cavernas e montanhas desérticas, isso se torna uma questão de segurança mundial. Há o risco terrível de que a sonolenta face de Bin Laden adquira uma tênue aura de grandeza - irracional, por certo, mas ainda assim uma aura. Quando George W. Bush prometeu caçá-lo, também como num filme de mocinho, na luta do ‘bem contra o mal’, era de se esperar que ele, Bin Laden, ganhasse alguma projeção. Mas nem tanta: seus perseguidores não admitem que sua imagem cresça além do que já cresceu. E por que tanta vigilância? Seria possível que Bin Laden, por acaso, se beneficiasse da mística que ainda hoje emana daquele antigo Moisés de Charlton Heston, daquele Moisés de folhetim em celulóide, um Moisés um tanto circense, hiperbólico, de laquê na cabeleira? Não, não seria possível. Mas mesmo a possibilidade exígua, uma possibilidade quase impossível, já é em si mesma ultrajante, infamante, apavorante.

O medo que ela nos infunde é o medo de nós mesmos, ou melhor, é o medo tardio que desenvolvemos da mitologia cinematográfica na qual acreditamos, por décadas, como se ela fosse um oráculo para a celebração da crueldade, da força bruta e do assassinato como via de solução para os impasses. A divindade-tela-de-cinema nos proporcionou delícias inesquecíveis nos mostrando genocídios fartos, sangue aos borbotões, rios inteiros de sangue - como os rios do Egito sob o Moisés de Charlton Heston. Essa divindade, a tela, cobrou dos seus sacerdotes, os cineastas, não mais sacrifícios reais de virgens e mancebos, mas exigiu sacrifícios simbolizados. Na tela, morreram todos os indivíduos e todos os povos a quem estaríamos encarregados de odiar - e o Moisés de Charlton Heston foi um de seus carrascos. Ele foi, sim, um terrorista implacável. Não poupava nem a população civil. Enviava as pragas, dos gafanhotos para a lavoura à peste para os animais. Enviava a morte - e matou uma criança em especial, o filho do faraó. A libertação dos hebreus foi assim retirada do Velho Testamento, onde era feita de palavras, e projetada sobre a tela, onde, refeita em imagens, acabou se prestando à disputa entre os caprichos de Charlton Heston e os de Yul Brynner (o faraó Ramsés). O filme convencia o público de que tanta crueldade era justa: os egípcios tiveram o que ‘mereceram’. Pagaram com sangue.

É por isso que, quando as autoridades do governo George W. Bush movem todos os recursos para impedir uma alta exposição de Bin Laden na TV, penso que o problema é menos de ordem jornalística e mais de ordem mítica. Há todo tipo de desculpa para os constrangimentos que as autoridades impõem às emissoras de TV: o terrorista iria conseguir inflamar comunidades islâmicas fundamentalistas, iria passar mensagens em códigos aos seus comandados (como se Bin Laden desse suas ordens como quem faz micagens num jogo de truco). Mas, para o tal ‘Ocidente’ e seus governantes, o insuportável não é bem isso. O insuportável é que aquele personagem sem luxo, de barbas longas, habitante de paragens inóspitas, que diz que não dará sossego aos Estados Unidos até que as crianças na Palestina tenham paz, evoque, por alguma dessas associações sem razão que as imagens do entretenimento admitem entre si, a figura mítica do justiceiro milagroso - e terrorista - das superproduções dos anos 50. Essa figura está guardada na cinemateca afetiva do ‘Ocidente’. Não, Condoleeza Rice não teme que Bin Laden arregimente simpatizantes por meio do telejornalismo objetivo. Todos sabem que o telejornalismo é incapaz de objetividade nessa matéria. O que arrebata no noticiário não é o relato dos fatos, mas o componente espetacular que esse relato incorpora. Talvez o que Condoleeza tema, mesmo que não saiba disso, é que nós, os ‘ocidentais’ pacifistas recém-convertidos, descubramos que já idolatrávamos desde sempre as piores violências contra povos inteiros, desde que fossem ‘merecidas’.

Em tempo: o Velho Testamento jamais estimulou o culto das imagens. E Charlton Heston não é outra coisa senão o próprio bezerro de ouro. Agora, resta ao tal ‘Ocidente’ exigir que Bin Laden só apareça na TV como um objeto, jamais como sujeito; como enunciado, jamais como enunciador; como um retrato remoto, jamais como imagem viva."


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