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Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak

"A pesquisa médica é seguramente um dos maiores sucessos deste século. Nunca na História tantos se beneficiaram do trabalho de tão poucos. Temos muita gente pesquisando e estudando o câncer de todos os tipos - e, quando há um progresso, ele é amplamente divulgado, antes mesmo de ser utilizado na clínica. Existem numerosos interessados em encontrar remédios para aterosclerose e outras tantas doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer. Nunca se investiu tanto no combate a uma moléstia quanto no caso da Aids.

Isso tudo está certo - são problemas sérios no mundo todo. No entanto, doenças que ocorrem nos países subdesenvolvidos, igualmente instigantes do ponto de vista da ciência, atraem interesse muito menor. E são os males relacionados à pobreza que mais matam no mundo. Enquanto o câncer provoca cerca de 6 milhões de óbitos ao ano no planeta, segundo algumas estimativas, as doenças infecciosas e parasitárias matam 16,4 milhões de pessoas.

Se compararmos a pesquisa farmacêutica na área ‘pobre’ com as áreas ‘quentes’, veremos um panorama contristador. Foram necessárias duas guerras mundiais, durante as quais os americanos eram enviados a países onde a malária proliferava, para que fossem descobertos remédios contra a enfermidade. Para a doença de Chagas, existem somente dois remédios. E, cá para nós, ambos não são nenhuma maravilha. É verdade que controlamos o vetor que transmite a doença, mas ainda não foram inventados remédios para eliminar os parasitas dos doentes cronicamente infectados, que vão desenvolvê-la. Mesmo no caso de doenças em que o tratamento avançou muito, ele não chega aos países do Terceiro Mundo como deveria. Por essa razão, a Aids, por exemplo, é cada vez mais doença de pobre, de Terceiro Mundo e da miséria. Cerca de 90% dos doentes de Aids hoje estão na África, e os remédios disponíveis são caros e pouco acessíveis à maioria dos pacientes.

Por enquanto, não há sinal de que a situação possa mudar. Nenhum laboratório farmacêutico sensato vai investir em medicamentos invendáveis ou, pior, para ser comprados por governos latino-americanos e africanos que pagam quando querem e se quiserem. Isso para não falar dos sistemas que permitem o licenciamento de remédios cheios de armadilhas. Não temos no Brasil indústria farmacêutica autóctone que faça pesquisa. Temos, em vez disso, muitos reembaladores de remédio e piratas de patente, ganhando muito com produtos de qualidade ruim. Existe também gente vendendo produtos jamais testados cientificamente, sem controle da nossa ineficiente Vigilância Sanitária. Precisamos fazer algo. Uma das idéias é convencer nossos ricos - e os temos - a imitar os americanos e dar recursos à pesquisa aplicados aos nossos maiores problemas médicos. Esse dinheiro poderia ser descontado do imposto de renda, o que seria mais interessante do que deixá-lo para planos de salvamento de empresa falidas, ou outras inspirações freqüentes do Planalto Central."

" Doença de rico e doença de pobre", copyright Veja, 27/5/98.

 

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