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DIRETΣRIO ACADΚMICO
AINDA O PROVÃO Rogério Tomaz Jr. (*) Prezado professor Gentilli. Sobre o deslocamento do foco da questão do debate, citado em meu último texto (publicado em edição anterior do OI [ver remissão abaixo], o que aconteceu foi o esgotamento dos argumentos de defesa do método do Provão. Agora, é clara a tentativa de desqualificação do movimento estudantil de comunicação, justamente pelo êxito do boicote em ampliar o espaço de discussão fazendo as distorções e as fragilidades do Provão virem à tona sobre as temáticas de avaliação e qualidade de formação. Nossas posições políticas são decididas democraticamente, em congressos nos quais são definidas as diretrizes a serem seguidas pelo movimento estudantil e encaminhadas pela Enecos. Não é impossível propor o não-comparecimento ao Provão, tanto que a proposta é sempre colocada em discussão. Contudo, entendemos, até o presente, que não há um contexto suficientemente propício para a sua deliberação. A origem do problema está na recusa do MEC em implementar uma avaliação decente, que respeite a LDB e as diretrizes curriculares das áreas; que considere e contemple a existência de especificidades regionais, em termos de sociedade e de mercado; que seja um processo holístico, compreendendo todos os elementos do ensino superior, e não apenas o "produto" deste e não adianta dizer que a Avaliação das Condições de Ensino complementa o Provão, porque seria ridículo afirmar isso, diante de sua ineficiência e da irregularidade , entre tantos outros princípios ignorados ou rejeitados pelo ministério. A conseqüência dessa postura autoritária é o boicote e a desmoralização do ranking de Jornalismo aliás, por que, após cinco anos, esta permanece como a única habilitação da área "avaliada"? Ou alguém leva a sério esta falsa classificação dos cursos? Alguém pode justificar o consumo de milhões de reais da sociedade brasileira num sistema tão frágil e ineficaz, se é notória a existência de experiências de avaliação muito mais consistentes, como o Paiub, só para ficar num único exemplo, à disposição dos homens que comandam a educação no país? Como enxergar coerência num processo que busca resultados imediatistas e superficiais, quando se sabe que a verdadeira excelência acadêmica se constrói ao longo de gerações e através de profundo engajamento e compromisso com a instituição e, sobretudo, com a sociedade? Os prejuízos resultantes do boicote, se relativizados diante dos prejuízos da gestão irresponsável do ensino superior, que atingem principalmente as instituições públicas, são irrelevantes quando existem. Exemplos não faltam para desmistificar essa tese: a procura, no vestibular, pelos cursos tradicionais não diminuiu onde ocorreram boicotes. Tampouco se pode afirmar que o prestígio das escolas foi abalado é até piada, de péssimo gosto, insinuar que o Provão tem o poder de legitimar ou abalar o respaldo social de algumas instituições, especialmente das públicas. Que prejuízos são esses, afinal, se o próprio MEC nunca cumpriu sua ameaça de interromper o funcionamento dos cursos picaretas? Tais entidades não precisa existir o Provão para se comprovar isso existem aos montes e proliferam como moscas, com o aval do excelentíssimo Sr. ministro Paulo Renato. A respeito do caráter político da questão, quando ele é assumido e transparente, como no nosso caso, é legítimo e responsável. Quando ele é dissimulado e escamoteado, só pode merecer o repúdio, a resistência e o combate. Este é o caso do Provão, que não é mais do que um elemento de marketing político para o MEC e, em alguns casos, ainda acaba virando propaganda para os "shoppings da educação". Quando me referi à "humilhação" no seu debate com o professor Paulo Cunha, estou apenas explicitando o forte conteúdo emocional presente naquela ocasião em que o senhor perdeu a cortesia habitual por não ter conseguido rebater as críticas do professor Paulo. De fato, desqualificar o opositor é uma atitude condenável. Pergunto, então, se, ao rotular simploriamente os estudantes "boicoteiros" de covardes, o senhor não estaria caindo nesta armadilha. Os professores que têm o "poder de estabelecer o que os cursos desta área, no país inteiro, devem considerar como obrigatório para constar em seus projetos pedagógicos" são justamente aqueles que têm o poder de estabelecer as diretrizes para a formulação do exame de Jornalismo no Provão. O professor José Camilo dos Santos Filho (Unicamp), em artigo publicado no livro Universidade desconstruída avaliação institucional e resistência, organizado por Dilvo Ristoff (UFSC) e José Dias Sobrinho (Unicamp), explica fundamentando-se em outros pesquisadores de forma adequada onde se dá a gênese desse poder: "O modo mais rápido para se mudar a aprendizagem do estudante é mudar o sistema de avaliação [...] A tendência é de os exames determinarem a forma do currículo e não este determinar a forma daqueles. Em suma, um poderoso sistema de exame pode estreitar e homogeneizar o currículo e a aprendizagem do estudante [...] O maior perigo de um exame nacional é que ele inibe a inovação, a criatividade, não nos métodos docentes, mas no desenvolvimento de currículo. Um sistema de exame nacional induz a necessidade de um currículo nacional" (p.166-167). Ora, se um punhado de professores independentemente de suas capacidades e intenções tem a incumbência de definir as diretrizes para a elaboração do exame de determinada área, em última instância eles estarão estabelecendo, na prática, as diretrizes para o próprio ensino desta área. O senhor também foi levemente sarcástico ao questionar a veracidade de uma manifestação da Enecos: "A considerar verdadeira a nota da Enecos publicada na edição anterior deste Observatório...". Ademais, não sei de onde foi retirada a opinião de que a "Enecos orgulha-se de sua representatividade". A Executiva tem apenas 10 anos de existência um fio de cabelo na linha da história, como costumo dizer e, apesar de ter contribuído e permanece contribuindo em bandeiras importantes da área, como a democratização da comunicação e a qualidade da formação do comunicador, não tem exatamente na sua representatividade o maior mérito, problema este enfrentado por todo o movimento estudantil. Se conhecesse, de fato, o MECom, o senhor talvez não tivesse feito tal afirmação, ingênua, creio eu. O debate, dialético e propositivo, deve continuar. É o que esperamos. (*) Estudante de Comunicação Social (Jornalismo) da UFMA, integrante da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (Enecos)
Victor Gentilli responde Prezado Rogério. O debate deve continuar. Continuemos. Inicialmente, agradeço por afirmar que habitualmente sou cortês. Desconhecia esse atributo pessoal. Mas desconheço igualmente em que momento tenha perdido a cortesia no debate com Paulo Cunha, em Recife, em 2000. Aliás, Paulo Cunha, na carta encaminhada e publicada neste Observatório, também não faz referência alguma à falta de cortesia. Afirmar que perdi a cortesia e sequer citar o momento em que isso se deu parece um desejo de insistir num equívoco em vez de educadamente admitir que errou ao afirmar que fui "humilhado". Não é assim que se debate, Rogério. Também não se debate fazendo afirmações sem provas. Onde o Provão desrespeita a LDB e as diretrizes curriculares? Por que o Provão deveria levar em conta realidades regionais, se competências, habilidades e conteúdos são únicos para todos os jornalistas? A Enecos quer jornalistas de primeira e segunda categorias? A Enecos critica o Provão porque ele é punitivo ou, conforme as suas palavras, porque "o próprio MEC nunca cumpriu sua ameaça de interromper o funcionamento dos cursos picaretas"? Da parte do MEC, sabe-se que o pedido de fechamento de cursos foi negado pelo Conselho Nacional de Educação. E quando o MEC assumiu esta decisão foi impedido por decisão judicial. Mas vale relembrar algo para o qual este Observatório sempre chama a atenção: ao deixar de apoiar (mesmo que criticamente) o Provão, a Enecos, a Fenaj e as entidades passam a ser cúmplices das fábricas de diplomas e dos picaretas. Aliás, ao definir como estratégia alterar o ranking, como cobrar do MEC o fechamento dos cursos? Também não se debate confundindo coisas diferentes como se fossem iguais. O Paiub é um instrumento de avaliação institucional e avalia universidades. Não avalia os cursos de Medicina, Direito, Jornalismo etc. E é exatamente isso o que o Provão faz. Portanto, são instrumentos complementares, como é complementar a Avaliação das Condições de Ensino. Acrescentemos que o Paiub avalia apenas universidades. O Provão avalia os cursos de universidades, de centros universitários, de faculdades isoladas, de faculdades integradas. Afirmar que o que vem da Enecos é bom e legítimo e o que vem do governo (ou do Estado, você não distingue) é ruim e deve ser combatido não é apenas um argumento primário porque deixa de ver as coisas em si para avaliar apenas as suas origens. É um passo a mais para posições fundamentalistas. Espero, sinceramente, que você consiga reavaliar esta posição e que ela não seja disseminada por todas as lideranças da Enecos. Não sei em que data Dilvo Ristoff e José Dias Sobrinho escreveram o livro Universidade desconstruída, que você cita em seu texto. Independentemente da data, a realidade parece não confirmar suas previsões. Pelo menos na área de Jornalismo, em que o Provão já existe há mais de cinco anos, não houve essa apregoada "homogeneização" de currículos. Pelo contrário. Os cursos novos apresentam propostas curriculares originais e os cursos antigos estão revendo seus currículos. Um curso de Jornalismo forma jornalistas. O Provão avalia se eles são bem formados. Cada um monta seu currículo como desejar. Eis por que nem a LDB nem as diretrizes curriculares são negadas pelo Provão. Rogério, você questiona algumas ironias e sarcasmos meus. Um bom debate precisa ser sisudo e mal-humorado? Por quê? Mais: você afirma que a Enecos não tem representatividade. Das duas uma: ou a Enecos tem representatividade (tanto que consegue fazer 25% dos alunos entregarem a prova em branco), e portanto pode falar e propor em nome dos estudantes, ou não tem. Aí precisa recolher suas trouxas e voltar para casa. Se a Enecos pode falar e propor em nome dos estudantes e se já colocou várias vezes (é você quem afirma) a idéia de não-comparecimento, mas avaliou-se que "não há um contexto suficientemente propício para a sua deliberação", baseado em que faz essa afirmação? Parece opinião pura. Palavras suas: "a origem do problema está na recusa do MEC em implementar uma avaliação decente". Você tem todo o direito de ter essa opinião. Mas por que não responder a minha pergunta sobre o exemplo dos estudantes de Medicina, que fazem o Provão e fazem também o Sinaem (Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Médico)? O próprio ministro considerou o Sinaem bem melhor do que o Provão. O problema é que tudo tem que vir do Estado ou do governo. Esqueça o boicote e faça do Avaliação para Valer uma avaliação para valer. Conte comigo nesta empreitada. Abraços fraternos do Victor Gentilli Leia também A calmaria aparente V.G. O provão, a covardia e o MST Rogério Tomaz Jr. Os pingos nos ii Paulo C. Cunha Filho | ||