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PROVÃO
Mil dias depois
Victor Gentilli
Há quase mil dias, em 5 de agosto de 1997, este Observatório iniciava de forma mais sistemática o debate sobre o ensino de Jornalismo. Em duas rodadas, diversos professores escreveram nas edições dos dias 5 e 20 de agosto daquele ano. O mote era o anúncio do provão em jornalismo por parte do ministro Paulo Renato Souza.
O Observatório da Imprensa convida a todos aqueles que escreveram naquelas edições a reavaliar seus textos. Os mil dias serão alcançados exatamente no dia 1º de maio de 2000.
Abaixo, alguns excertos do artigo que publiquei em 1997. Mil dias depois, a reflexão vale a pena. Os textos em itálico são comentários de 2 de abril de 2000.
Metralhadora giratória
Nenhuma escola de jornalismo, pública ou privada, vai desejar que seus alunos tenham um mau desempenho no provão. Portanto, as escolas vão se mexer. Aliás, o provão dá uma outra nota pela titulação dos professores, o que também ajuda a qualificar professores. Tudo isso é ótimo.
Profecia concretizada.
O provão fortalece o currículo mínimo que deve ser combatido
Outra grande batalha daqueles que pretendem aprimorar o ensino de jornalismo é o de livrar-se do currículo mínimo do MEC, que, na verdade, torna-se, na prática, currículo máximo. Já se vão quase dez anos da Constituição de 1988, que postula a autonomia curricular, e quase nada se andou nesta direção. Hoje, quase todos os cursos, de Norte a Sul do país, oferecem basicamente as mesmas disciplinas, a despeito da diversidade regional, de interesses e de vocações específicas de cada curso.
Se o provão vier isolado, desacompanhado de outras medidas, vai enfraquecer este movimento (que nunca foi forte) e dificultar mais ainda a quebra do currículo mínimo: os cursos vão colocar todos os seus esforços para melhorar apenas naquilo em que são iguais aos outros.
Assim, estudos de realidade regional, disciplinas de pesquisadores que ofereceriam uma personalidade original a um curso vão ser desestimuladas, já que não vão poder ser avaliadas numa prova igual para todos os alunos de todos os cursos de jornalismo do Brasil.
O debate das diretrizes curriculares até que andou. Pena que um bom trabalho pode ter dificuldades de implantação em função de pequenas divergências.
O ensino de jornalismo vai continuar sem prática?
Os cursos de jornalismo hoje, em sua maioria, têm problemas graves. Um deles é que as disciplinas práticas de habilitação em jornalismo ou são oferecidas por professores que estão no mercado e reproduzem este mercado sem espírito crítico, ou o são por docentes distantes do mercado.
Mas em qualquer profissão, a boa experiência prática é feita no estágio, com supervisão da universidade. E no jornalismo? Vamos continuar com o anacronismo da proibição do estágio?
O problema permanece, parece que agravado.
O ensino de jornalismo vai continuar sem teoria?
Outro problema é a ausência de discussão teórica de jornalismo. Isso mesmo: na grande maioria dos cursos, as disciplinas práticas são de jornalismo; as teóricas, de comunicação. Com o agravante de que as disciplinas teóricas, raríssimas exceções, juntam na mesma turma alunos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Turismo, Radialismo etc.
Cadê a reflexão teórica específica do jornalismo? Como o provão vai se sair dessa? O que fazer com as questões teóricas?
Houve uma certa disseminação do debate teórico de jornalismo e alguns cursos criaram disciplinas de teoria(s) do jornalismo.
Vestibular x provão. Será que não é a mesma coisa?
Estou aqui apenas sugerindo que façamos uma experiência: que tal confrontarmos as notas no provão com a relação candidato/vaga quatro anos antes, lá no vestibular. Se der muito parecido, que é a minha hipótese, pode significar que são os alunos que fazem as escolas melhores ou piores, não a qualidade do curso ou dos professores. Como conseqüência da hipótese, os cursos das universidades públicas, que sempre conseguem os melhores alunos, já partem de um patamar superior. Mas vamos ao próximo ponto:
Na mosca. O debate sobre a avaliação da UFRJ, por exemplo, já estava antecipado 1.000 dias antes.
Por que os cursos de Medicina estão de fora do provão?
Sei muito pouco. Parece que é pressão corporativa. Gostaria de entender melhor. Como estamos no Observatório da Imprensa, não poderia deixar de encerrar sem esta sugestão de pauta.
Em 1999, os cursos de Medicina foram avaliados pelo provão. Finalmente. E a surpresa foi positiva.
DIPLOMA
Para melhorar o país
Renato Albuquerque
Num país atrasado, com tantos problemas sociais e à beira do abismo, com denúncias de corrupção que surgem diariamente na imprensa, o diploma para a profissão de jornalista não deveria ser mais questão de dúvidas. Apesar de as faculdades de comunicação se servirem esplendorosamente de centenas, milhares de universitários todos os anos, alguns "sedentos por mudar o mundo", e elas, "faculdades", sedentas por dinheiro, ainda se trata de uma das formas para que as portas do mercado de comunicação se abram a esses profissionais.
Num país de coronéis, em que os veículos de comunicação, em sua grande maioria, se encontram na mão de políticos mesquinhos e voltados, única e exclusivamente, para seus interesses de poder e barganha, as faculdades de comunicação são uma forma de "profissionalizar" as relações de comunicação entre empresas, ONGs e órgãos públicos. Se não houver essa necessidade ou obrigatoriedade, seremos obrigados (aí sim obrigatoriamente) a conviver com "paus mandados" que nem sequer saberão se expressar, mas que dominarão redações, chefias de reportagem e importantes editorias, simplesmente porque estarão favorecendo o governador fulano, o ministro sicrano ou o vereador beltrano.
Não que o diploma também não possa trazer este perigo. Mas é mais difícil, mesmo porque o profissional terá uma carreira pela frente, na qual todas essas possibilidades serão avaliadas em algum lugar do futuro. No caso do jornalista que nunca foi a uma faculdade, e que nem sabe do que se trata a profissão, e que seja indicado por um chefão do coronelismo de alguma cidade brasileira, poderá ser alvo mais fácil da falta de ética.
Sei que os puristas do jornalismo, muitos dos quais não freqüentaram uma faculdade, defendem com unhas e dentes a não-obrigatoriedade do diploma. Sei também que esses profissionais normalmente são exemplos em nossa profissão, haja vista Claudio Abramo. No entanto, as relações do mundo moderno mudaram muito. Hoje, a profissionalização serve também para proteger o mercado de impostores da imprensa, coisa que no passado era mais difícil acontecer. A honestidade era uma mercadoria mais acessível.
Mídia americana
Além disso, não vejo qualquer perseguição (se houver, por favor relatem) a pessoas que não sejam jornalistas formados, e que escrevam colunas ou assinem reportagens. Deputados, ministros, governadores, consultores, psicólogos, cineastas, cientistas, todos têm seu espaço na imprensa atual. O que demonstra total liberdade dos veículos, para que esses profissionais possam opinar, divergir ou participar ativamente como cidadãos ou como repórteres de nosso cotidiano.
Vou um pouco mais longe, e acredito que essa história de diploma visa apenas "mascarar" os verdadeiros problemas da imprensa brasileira. Quando uma determinada matéria deve ser veiculada? Quais são os verdadeiros interesses que há por trás de uma reportagem? Quem ganha e quem perde com sua possível veiculação? Num país de miseráveis como o nosso, o diploma deveria ser cada vez mais reverenciado, pois a profissão de jornalista é ainda muito cultuada entre os jovens, pelo caráter heróico que a envolve. Quando um vestibulando enfrenta a escolha da profissão, sempre vê o jornalismo como carreira que proporciona orgulho. Se não houver necessidade do diploma, provavelmente esse estudante acabará caindo em outra carreira, que nem de longe espelha sua vontade de melhorar as coisas de seu país.
Por isso, não se deve tirar a única possibilidade que um jovem de classe média tem para entrar no mundo da comunicação e do jornalismo, que é fazendo faculdade. Caso contrário, ele terá que virar "puxa-saco" de autoridade para alcançar um cargo dentro de uma redação. A maior economia do mundo, os Estados Unidos, tem os melhores cursos de jornalismo do planeta, uma imprensa livre, moderna, eficiente, que derrubou um presidente e enxovalhou outro, e que não discute mais se o diploma deve ou não ser obrigatório. Mas apenas melhora a cada dia a natureza de seus cursos, abrindo redações de jornais impressos, rádio e TV para que novos formandos possam entrar no mercado com toda a fibra.
Filme americano
A elite talvez começasse a ficar preocupada com o seguinte debate: "Por que os políticos dominam os meios de comunicação?" Enquanto se discute sobre o "andar de baixo", como diz o brilhante jornalista Elio Gaspari, vão sendo ceifados os sonhos de novos jornalistas, que ficam em dúvida sobre o verdadeiro significado de uma faculdade em suas vidas.
Copiando outro importante jornalista, Gilberto Dimenstein, mais duas observações: todas as carreiras têm problemas, quando se trata de avaliar seus respectivos cursos universitários. Médicos, advogados, engenheiros são jogados no mercado de trabalho com numerosas deficiências. Por que o jornalismo seria diferente? Temos de debater como melhorar o nível cultural, intelectual e de conhecimentos gerais de nossos jornalistas.
Quem ainda não assistiu ao filme O Informante", não pode perder. Ali temos uma visão da real discussão acerca da mídia. Os verdadeiros interesses que a cercam. Diploma de jornalista é uma questão bem menor.
(*) Jornalista
AVALIAÇÃO DO MEC
Cursos comentam o provão
V. G.
O Observatório publica nesta edição dois documentos oficiais, da Universidade Federal da Bahia e da Universidade de Uberaba, com considerações sobre a avaliação. O documento da Bahia tem sua importância ampliada, posto que seu curso de Jornalismo foi avaliado como um dos melhores do Brasil.
Com relação à Universidade de Uberaba, cabe apenas esclarecer que o software com que os avaliadores trabalharam continha um pequeno problema que alterava o cálculo dos pesos relativos dos itens que iriam compor o conceito de Instalações. Isso ocorreu em todas as avaliações. Detectado o problema, diversas instituições tiveram o conceito alterado, sem que nenhuma das anotações dos avaliadores sofresse qualquer mudança. O MEC estabeleceu que Biblioteca e Instalações Específicas tivessem, cada uma, 40% do peso, e as Instalações Gerais, 20% do peso. No software, o peso das Instalações Gerais e Específicas estava trocado. No relatório final houve apenas a correção desta falha.
Carta aberta ao ministro
Marcos S. Palacios (*), Lindinalva Rubim (**),
José Mamede (***), André Lemos (****)
No dia 14 de março, através da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Faculdade de Comunicação (FACOM) tomou oficialmente conhecimento do teor do Relatório de Avaliação das Condições de Oferta do Curso de Comunicação (Habilitação em Jornalismo), mantido por esta Faculdade, realizado através de Comissão de Avaliação, composta por Especialistas, nomeados pelo MEC.
Ressalte-se que fomos submetidos à Avaliação com base em critérios e examinadores definidos pelo MEC, não havendo qualquer espécie de consulta a esta Faculdade, seja para o estabelecimento dos critérios norteadores da Avaliação, seja para a constituição das Comissões de Avaliação.
É fato de conhecimento público, através de ampla divulgação nos órgãos de imprensa do país, antes mesmo do encaminhamento dos resultados oficiais aos interessados diretos, que a avaliação da área de Jornalismo revelou resultados extremamente preocupantes. Dos 86 cursos avaliados, 44 tiveram mais de dois conceitos insuficientes, sendo que 48% deles obtiveram tal conceito para seu projeto acadêmico. No que diz respeito a instalações físicas e equipamentos, 74% dos cursos mantidos pelas Universidades Federais receberam o conceito mínimo, revelando a lastimável situação em que se encontram nossos laboratórios, equipamentos e bibliotecas.
Dentro de um quadro de tal gravidade, o Curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA foi avaliado, juntamente com a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-CAM) como o melhor da área no Brasil. Recebemos o conceito MB (Muito BOM) tanto no que diz respeito ao Projeto Acadêmico do Curso, quanto no que diz respeito à Qualificação e Produção Científica e Jornalística de seu quadro docente, os dois itens da Avaliação pelo quais somos diretamente responsáveis, através de nosso trabalho, nosso planejamento e nossa dedicação ao Curso.
A iniciativa de Avaliação dos Cursos de Graduação pelo MEC constitui, em nosso entender, processo fundamental para o avanço e consolidação do Ensino Superior em nosso país e esta Faculdade estará sempre disposta a colaborar para a análise e o aperfeiçoamento do sistema, sempre que para tal for convocada. Acreditamos que é urgente que se avance em termos de discussões abertas e aprofundadas, envolvendo representantes de todos os programas, para que se caminhe em direção a um processo de avaliação mais sólido, participativo e de ampla aceitação, a exemplo do que já acontece na Pós-Graduação, inclusive com envolvimento direto das associações científicas da área. Conquanto tenhamos reservas e críticas aos critérios de Avaliação presentemente adotados, o resultado não nos surpreendeu em absoluto, uma vez que o reconhecimento de méritos expressados pelo Relatório dos Avaliadores reflete um trabalho que vem se desenvolvendo na Faculdade de Comunicação da UFBA durante, pelo menos, os últimos quinze anos, no sentido de qualificar o corpo docente e aprimorar o projeto acadêmico do Curso de Jornalismo. A integração que vem sendo continuadamente buscada entre a Pós-Graduação, que em nossa Faculdade se situa entre as três melhores do Brasil na avaliação da CAPES, e o Programa de Graduação coloca nosso Curso em situação privilegiada, fazendo com que nossos estudantes sejam beneficiários de um ambiente acadêmico marcado pela produção de conhecimento original na área de Comunicação e não apenas por sua difusão.
No entanto, se nos dois itens que diretamente dependiam de nosso esforço alcançamos nota máxima dos Avaliadores, no que se refere ao item Instalações Físicas e Equipamentos, nosso conceito foi Insuficiente.
A correção de tal distorção depende diretamente de aportes financeiros do Governo e dirigimo-nos a Vossa Excelência na certeza de que o MEC buscará, através dos indicadores gerados pelo processo de Avaliação, corrigir e sanar as falhas detectadas, permitindo a cada curso superar suas deficiências e alcançar níveis de excelência acadêmica, compatíveis com os melhores padrões internacionais.
Estamos certos de que, com o pessoal qualificado que integra nossos quadros e com um Projeto Acadêmico já considerado de excelência pelos Avaliadores, teremos condições de dar um imenso salto qualitativo, tão logo sejam sanadas as deficiências apontadas em nossas instalações físicas e equipamentos.
A Faculdade de Comunicação da UFBA dirige-se, portanto, a Vossa Excelência, demandando que seja reconhecido o esforço de sua equipe de docentes e funcionários que, trabalhando em condições de absoluta precariedade conseguiram, não obstante, atingir os conceitos mais elevados da Avaliação em sua produtividade e qualificação. Cabe agora ao MEC cumprir sua parte, agindo de maneira rápida e segura, partindo para o imediato atendimento das necessidades de espaço físico e laboratorial de todos os cursos mantidos pelas Universidades Federais brasileiras, bem como dotando nossos programas de equipamentos que permitam um efetivo ensino das técnicas necessárias à formação do profissional de Jornalismo, eliminando definitivamente a farsa do faz-de-conta em laboratórios muitas vezes adaptados em vãos de escadas, com equipamentos sucateados e indignos de tal nome e fazendo das bibliotecas vazias e desatualizadas um pesadelo do passado.
Certos da justeza de nosso pleito, no aguardo de uma manifestação por parte de Vossa Excelência e na certeza de um pronto atendimento a nossas demandas, subscrevemo-nos:
(*) Diretor da FACOM/UFBA; (**) Coordenadora do Colegiado de Graduação; (***) Chefe do Departamento de Comunicação e Jornalismo; (****) Coordenador da Pós-Graduação
Uberaba contesta avaliação
Em reunião extraordinária de 25 de fevereiro de 2000, o Colegiado do Curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba examinou o resultado e o relatório técnico da Avaliação das Condições de Oferta da habilitação Jornalismo, realizada pela Sesu/MEC, que atribuiu três qualificativos CI – condições insuficientes – à habilitação, respectivamente, nos três grupos de conceitos – corpo docente, organização didático-pedagógica e instalações – considerados na respectiva Avaliação.
Como resultado desse exame, o Colegiado aprovou por unanimidade o seguinte conjunto de resoluções:
1 – O Colegiado, embora reconheça, em princípio, a validade de processos de avaliações acadêmicas, REPUDIA o resultado apresentado para a habilitação em discussão, pelos seguintes motivos principais:
O resultado é injusto, não refletindo a realidade mais ampla da mesma, quanto ao esforço, o investimento e o programa de melhoria comprovadamente em curso desde o início de 1999.
A avaliação realizada exibe incoerências básicas questionáveis e premissas duvidosas no método adotado pelo MEC para esse trabalho.
O modo policialesco com que o resultado foi apresentado à opinião pública revelou uma insensibilidade psicológica – no sentido social – e uma insensibilidade educacional – no sentido da construção de uma atmosfera motivadora de reforços positivos – deploráveis e inaceitáveis para um ato dessa envergadura. Parecem não ter sido consideradas as possíveis conseqüências negativas desse anúncio descontextualizado – rasamente explicado à opinião pública – junto ao corpo discente, ao corpo docente e à comunidade como um todo, em casos explícitos como o nosso, em que o árduo trabalho de alavancagem de um espírito coletivo de melhoria do Curso começa a demonstrar sucesso na integração de esforços conjuntos das várias partes envolvidas.
Causa estranheza o fato de o relatório enviado por nossos avaliadores ao MEC ter atribuído CB – condições boas – às instalações, enquanto o Ministério atribuiu CI. Temos em nosso poder comunicado em que os avaliadores atestam ter encaminhado assim seu relatório. Cabe aqui uma explicação oficial e uma justificativa detalhada, transparente e sem margem a enfoques duvidosos por parte da Sesu.
2 – As críticas específicas e os questionamentos explícitos do Colegiado, quanto às premissas e ao modelo de avaliação utilizados, resultando em penalizações indevidas de que fomos vítima, são os seguintes:
A avaliação adotada, tal qual aplicada no nosso caso, revela uma linha de pensamento norteadora exageradamente tecnicista, deixando pouca margem de consideração para com aspectos sistêmicos de processos de melhoria em andamento.
É excessivamente conservadora, rigidamente presa a resultados numéricos.
Parece adotar, erroneamente, um modelo de referência nacional, abandonando o bom senso ao não considerar que a realidade do país é constituída de múltiplas e diferenciadas condições regionais. .
É injustamente incoerente para com a política em curso de melhoria das instituições de ensino superior endossada pelo próprio MEC. A LDB estabelece até 2003 para as instituições reestruturarem o corpo docente quanto às novas premissas de titulação. Da mesma forma, exige que as instituições passem a abrigar processos de desenvolvimento de pesquisas científicas. Este Colegiado entende que o MEC age com rigor injusto e condenável quando cobra numa avaliação de 1999, quanto a estes dois aspectos, resultados que só poderiam eticamente ser exigidos a partir de 2004.
A avaliação conduzida também não respeita considerações tecidas pela Câmara de Educação Superior, do Conselho Nacional de Educação, no Parecer 1070/99, homologado pelo Ministro de Estado em 26 de janeiro de 2000, conforme publicação do Diário Oficial da União de 27 de janeiro. Embora esse Parecer trate dos critérios para autorização e reconhecimento de cursos de instituições de ensino superior, o Colegiado entende que vários aspectos do documento aplicam-se claramente, por inferência, à Avaliação das Condições de Oferta dos Cursos de Jornalismo, mas foram ignorados.
Estes aspectos do Parecer do CNE expõem incongruências lamentáveis que persistiram na dita Avaliação:
a) A análise dos processos por parte das Comissões de Especialistas e de Verificação ... "tem revelado um excesso de rigor ..."que não encontra amparo legal nem é necessária para a assegurar a qualidade desejável para os cursos de uma determinada área. "
b) O Parecer critica a exigência draconiana de um excesso de professores titulados, pois ... "é perfeitamente possível a existência de bons cursos de graduação..." ... "que não incluam no corpo docente elevado percentual de mestres e doutores". Entretanto, "...os critérios de avaliação não levam em consideração essa diferenciação" ... (entre cursos que se dedicam prioritariamente à pesquisa e os que profissionalizam futuros especialistas).
c) A adoção de um critério uniforme para todo o país é também criticada no documento: "Em áreas nas quais o número de doutores é reduzido e nos estabelecimentos situados no interior dos Estados, as exigências são freqüentemente inviáveis".
d) Também aponta uma confusão condenável que exemplarmente apareceu na avaliação a que fomos submetidos: "...é preciso considerar que planos de qualificação docente se aplicam propriamente à instituição e não ao curso."
e) Quanto aos currículos, o relatório diz que ..."nem devem as comissões exigir a rígida obediência nem aos antigos currículos mínimos nem às diretrizes provisórias que vêm sendo publicadas pelas comissões".
f) Por outro lado, é inaceitável que a dita avaliação não considera numericamente, como ponto favorável aos cursos e às instituições, o fato de haver docentes freqüentando, comprovadamente, programas de pós-graduação. No nosso caso, fomos injustamente penalizados pelo fato de poucos de nossos docentes possuírem titulação. Contudo, uma parte expressiva dos nossos professores – principalmente dos profissionais responsáveis pelas disciplinas técnicas que formam o cerne da proposta pedagógica – está em vias de titulação como Mestres e Doutores, inclusive em programas de reconhecida excelência, como são os da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e da Faculdade Cásper Líbero. Tal fato é meritório, no contexto da nossa situação – uma instituição de médio porte, situada longe dos grandes centros culturais do país -, mas passa desprezado por esse critério de avaliação.
h) O Colegiado rejeita que a avaliação do projeto pedagógico tenha ocorrido, basicamente, a partir de um modelo externo. Esse item deve ser examinado, essencialmente, à luz da sua própria proposta e da coerência – ou não – com que a instituição organiza seu trabalho para obter os objetivos que o projeto define.
i) Protesta pelo fato do relatório técnico não ter sido encaminhado à instituição em paralelo ao anúncio público do resultado. Pelo contrário, tivemos dificuldades para obtê-lo, por resistência na esfera do Ministério, recebendo-o apenas vários dias após tal anúncio.
j) Protesta contra o altíssimo grau de exigência quantificadora para que a instituição possa ultrapassar a classificação "CI", algo que os cálculos sugerem só ser possível com mais de 70% de conceitos A, B e C nos itens pertinentes a cada grupo examinado.
l) Condena o fato de o esquema de avaliação, excessivamente mecanicista e reducionista, tal qual apontado antes, não fornecer meios para que observações positivas dos avaliadores possam traduzir-se em pontos favoráveis na computação final dos grupos de conceitos considerados.
m) Aponta a incoerência de o MEC manifestar o desejo de que os cursos possam inovar encontrando uma "identidade" e uma proposta diferencial própria, mas monta um esquema de avaliação rígido, preso a modelos do passado, pouco arejado a inovações e experimentações.
n) Questiona o fato de dois dos três integrantes da Comissão Especial de Avaliação, designada pela Portaria 1.181 de 17 de agosto de 1999, estarem vinculados à mesma instituição. Com o devido respeito às pessoas que a compõem e à carreira individual de cada um, o Colegiado entende que este procedimento dá margem a desvios e distorções de perspectiva humanamente naturais, pela tendência de o ser humano valer-se de sua própria experiência para avaliar o mundo. É inaceitável, porém, que tal possibilidade seja negligenciada, causando prejuízo eventual aos cursos avaliados.
3 – Em nível de detalhamento maior, o Colegiado recusa aceitar as classificações atribuídas aos seguintes itens específicos dos respectivos grupos de conceitos:
I – Corpo Docente
Obteve-se D em "titulação acadêmica dos professores de disciplinas não técnicas", D em "titulação dos professores de disciplinas técnicas"", C em "docentes que ministram disciplinas de pós-graduação" e B em "produção científica e/ou técnica do corpo docente". Nenhum desses itens poderia ser exigido com tamanho rigor, visto que há prazo legal ainda não vencido – conforme já discutido – para as instituições atenderem as novas exigências do MEC.
Em "programa de capacitação docente" obteve-se D mas entendemos, conforme sugere o Parecer 1070/99 mencionado anteriormente, que esse compromisso é uma tarefa da instituição. Não pode, um curso isolado, ser penalizado pela carência desse requisito.
O conceito obtido em "qualificação e regime de trabalho do responsável" foi C. Embora a qualificação do mesmo supostamente não tenha sido ignorada – é Doutor em Ciências da Comunicação pela USP, com carreira comprovada na docência e na pesquisa, atuando em tempo parcial nessa instituição de ensino, além de ser jornalista graduado -, o curso foi penalizado por sua atuação em regime de tempo parcial na Universidade de Uberaba. Tal atitude é questionável, pois demonstra uma visão estanque, presa a um modelo conservador de gestão. A Universidade de Uberaba encontrou uma solução própria para este problema. Entendeu que há vantagens academicamente estratégicas de contar com um diretor de curso vinculado a um centro de excelência no ensino e na pesquisa de jornalismo, como é o caso do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP. Definiu para esse diretor uma função de envergadura, concebendo e administrando em larga escala um programa de melhoria gradativa do curso. Como não há possibilidade de atuação física diária do mesmo na Universidade de Uberaba, criou a figura da coordenação-pedagógica, que em sintonia fina com a direção atende as tarefas do dia-a-dia. Assim, o que o MEC deveria cobrar seria a eficiência do sistema de gestão implantado e não a resposta passivamente estéril a um modelo externo.
Atribuiu-se D ao quesito "dedicação ao curso". Contudo, dois outros quesitos – "experiência profissional como jornalista" e "produção jornalística" – são conflitantes. O MEC exige dedicação, de um lado, e produção jornalística de outro. Como é possível o docente jornalista continuar a produzir profissionalmente nas redações, emissoras e produtoras, se lhe é exigida dedicação integral à docência? Felizmente o resultado foi ótimo – A em ambos os casos – para a habilitação Jornalismo do Curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba. A incoerência da avaliação é novamente gritante.
II – Organização Didático-Pedagógica
Questionamos, no item Estrutura Curricular, a atribuição de "N" ("Não") aos quesitos "existência de disciplinas teóricas vinculadas ao jornalismo", "integração das atividades de ensino com a pesquisa e a extensão" – pelo motivo já discutido da incoerência do MEC em cobrar o resultado para o qual ainda há prazo legal disponível – e "integração da graduação com a pós-graduação em jornalismo", pela mesma razão.
Nesse mesmo item e basicamente pelo mesmo fundamento, rejeitamos a atribuição de "N" aos quesitos "existência de núcleo de apoio, fomento e acompanhamento da pesquisa", "relevância dos projetos de pesquisa e extensão", "mínimo de 10% dos professores envolvidos em projetos de pesquisa" , "mínimo de 5% dos professores envolvidos em projetos de extensão" e "apresentação de trabalhos em eventos científicos, culturais e técnicos profissionais."
Por outro lado, o documento que entregamos aos avaliadores e nossa informação oral especificavam que estávamos instalando o Laboratório Integrado de Narrativas Transdisciplinares, que abrigaria dois núcleos iniciais de pesquisa e desenvolvimento: o Núcleo de Livro-Reportagem e o Núcleo de Histórias de Vida. O documento informava que as atividades do Laboratório, para o público externo, teriam partida em março de 2000, como de fato está programado, com o lançamento dos quatro primeiros cursos de atualização. O critério do MEC deveria ser, novamente, dinâmico e sistêmico, levando em conta iniciativas comprovadamente em andamento como esta.
Do mesmo modo, o documento apontava a existência do Núcleo de Estudos Éticos, que desde 1997 desenvolve trabalhos com a participação de docentes, alunos e profissionais convidados de renome nacional. Informações sobre esse núcleo estão disponíveis inclusive no "site" da Universidade de Uberaba na Internet.
É também inaceitável a atribuição de "N" ao quesito "integração da graduação com a pós-graduação em jornalismo Tc..." Dos professores de disciplinas técnicas, mais da metade tem vínculos fortes – como tinha na ocasião da avaliação – com o Núcleo de Epistemologia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, enquanto alunos em nível de Mestrado e Doutorado, incluindo experiência de monitoria de disciplinas de graduação. O próprio diretor do curso é um dos três professores integrantes do Núcleo da USP. A transferência de experiências e os efeitos benéficos do vínculo informal mas altamente produtivo entre a habilitação avaliada e a ECA são visíveis, para quem examinar a questão com ótica menos mecanicista e mais orgânica
III – Instalações
Refutamos o "N" atribuído ao quesito "integração do curso com a biblioteca para atualização do acervo" do item Biblioteca, bem como a exigência de "número mínimo de 10 exemplares de livros sobre jornalismo para cada aluno".
Rejeitamos a abordagem excessivamente desproporcional deste grupo de conceitos, quanto aos itens que o compõem. Temos um bem equipado laboratório de jornalismo impresso, assim como outro de rádio. Nossos computadores estão todos ligados à Internet, que sabidamente é o mais importante canal de pesquisa para o jornalista contemporâneo. Nossa plataforma Macintosh está voltada para o planejamento gráfico, a criação e a produção de produtos jornalísticos. Temos um estúdio de televisão com boas condições físicas – conforme reconhecem os avaliadores -, embora admitamos a carência de equipamentos atualizados e em maior número. Mesmo assim, o rigor excessivo da pontuação nos remeteu a um "CI", quando seria razoável esperar, pelas condições reais, vistas sob a perspectiva contextual das instalações reservadas às disciplinas técnicas, que alcançaríamos um resultado justo melhor qualificado.
Da mesma forma, se a proposta pedagógica, no momento, enfatiza maior peso ao jornalismo impresso, tal condição deveria ser considerada. Não caberia exigir pesos iguais para instalações diferentes, sem consideração precisa para com esse enfoque contextualmente correto.
4 – Face a essas observações, o Colegiado decide encaminhar ao Conselho Universitário, à Reitoria e às Pró-Reitorias pertinentes da Universidade de Uberaba o pedido de revisão da avaliação realizada pelo MEC na habilitação Jornalismo do Curso de Comunicação Social, visando a contestação em todas as instâncias possíveis do resultado que a avaliação em questão configurou.
5 – Em paralelo, decide apoiar as iniciativas de divulgação pública desse questionamento, adotadas pela direção do Curso de Comunicação Social, no mais amplo âmbito possível, tanto local quanto nacionalmente.
6 – Manifesta publicamente um gesto de louvor ao corpo discente que se manifestou espontaneamente indignado em repúdio à avaliação e ao modo como seu resultado foi exibido à opinião pública, causando-lhe embaraços psicológicos e morais plenamente dispensáveis.
7 – Da mesma forma, apresenta um voto público de solidariedade e apoio às manifestações críticas à avaliação apresentadas por cartas abertas, respectivamente, da direção da Escola de Comunicação da UFRJ e da Chefia do Departamento de Comunicação Social da UFF, assinadas pelo professor André Parente e pela professora Sylvia Moretzsohn.
8 – Congratula-se com os docentes da Faculdade de Comunicação da UFBA, que através de carta assinada por seu diretor, professor Marcos S. Palacios, dirigiram-se à Sesu em dezembro de 1999, manifestando solidariedade às preocupações de nossos colegas da UFF que em novembro daquele ano já apontavam discordâncias gritantes quanto aos critérios adotados para esta primeira versão do programa de avaliação do MEC.
9 – Apoia a decisão executiva de se realizar no campus II da Universidade de Uberaba um evento de esclarecimento a pais, familiares e amigos de alunos, incluindo a visita dos mesmos – ciceroneados pelos próprios estudantes – às instalações que, pela ótica do MEC, são "insuficientes " para o desenvolvimento das atividades didáticas.
10 – Chama a atenção da comunidade que o mais adequado sistema de avaliação tende a ser a auto-avaliação. Por isso mesmo, reconhece a validade da ação do Conselho Universitário da USP, que recusou a avaliação do MEC em seus cursos de graduação, preferindo optar pelo seu próprio sistema de avaliação.
11 – Observa a ironia da divulgação pública da avaliação conduzida pelo Ministério da Educação, quando a habilitação Jornalismo do Curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba recebe aproximadamente no mesmo período duas notícias que a colocam honradamente sob a luz dos holofotes, no plano nacional, em grau de destaque que jamais tivera em sua história. A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior – ABMES – comunica que o nosso programa de inovação educacional, denominado "O Jornal-Laboratório REVELAÇÃO e a Humanização da Narrativa Jornalística" foi agraciado com Menção Honrosa no Prêmio Top Educacional Professor Mário Palmério, versão 1999. E o Instituto Ayrton Senna informa que nossa aluna Mariângela Camargos é um dos cinco finalistas, em âmbito nacional, do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo 1999-2000, na categoria "Estudantes de Comunicação", com seu livro-reportagem "Anjos da Vida". Ora, se o MEC atribui CI à organização didático-pedagógica de um curso, como se explica que este mesmo curso obtenha reconhecimento nacional pela excelência de seu trabalho, em dois projetos examinados por entidades independentes? Algo está falho e distorcido no foco da realidade. E seguramente a falha não é do nosso projeto pedagógico.
CARTAS
UMESP
Ainda o baixo nível
Num dos primeiros dias em que cheguei à faculdade para assistir aula à noite, no primeiro ano do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo, onde curso o primeiro semestre, um colega de classe me perguntou: quanto você ganha de desconto na mensalidade para usar este chaveiro aí, mostrando o nome da faculdade? Não ganho nada, não. É por gostar mesmo da faculdade. Uso o chaveiro porque tenho orgulho de estudar Jornalismo da Universidade Metodista de Ensino Superior. Pela imagem? Não, pela qualidade. Para mim, que gosto até de cheiro de jornal, estudar Jornalismo num dos melhores cursos do país é motivo de grande satisfação.
Alguns interpretaram de forma equivocada e demasiado emocional de minha carta anterior ao Observatório, e confundiram o amor e o zelo pela língua portuguesa lá demonstrados com um ataque à instituição, o que seria, no mínimo, burrice de minha parte, já que manchar a imagem da escola seria, em última análise, denegrir a minha própria.
Mister ressaltar que minhas críticas se restringiram ao uso do vernáculo em aula, exclusivamente. Continuo acreditando que se a palavra é o instrumento de trabalho do jornalista deve ser bem manipulada por ele. Estarei errado?
Creio ser até desnecessário dizer que o corpo docente da universidade é de alto nível, já que a instituição sempre figura entre as melhores do país na área. O professor mencionado em meu e-mail anterior, inclusive, esbanja conhecimento; é aula imperdível.
Impossível, assim, colocar em dúvida a qualidade do ensino oferecido pela universidade, bem como imaginei fosse impossível confundir uma crítica formal com um ataque, uma defesa da língua portuguesa com uma ofensa indiscriminada.
Na verdade, ocorreu o que se pode chamar, na linguagem jornalística, de um "feedback" negativo. Põe negativo nisso!
Não há como desistir da luta por um duplo amor: a língua portuguesa e o jornalismo. Tentei contribuir para que esse casamento perfeito seguisse em paz. Mas, hoje em dia, o romantismo anda meio fora de moda, e mesmo esse casamento, tão antigo e, imaginei na minha ingenuidade, infinito, encontra obstáculos na dureza dos corações pós-modernos. A luta pelo uso correto da língua pelos que dela se utilizam como instrumento de trabalho, a meu ver, é batalha que não se ganha com ataques pessoais.
Quero contudo desarmar os espíritos. Ficaríamos nos agredindo "ad infinitum", e o cerne do problema seria esquecido. Você é isso, você é aquilo, e nossas vaidades ofuscariam o verdadeiro objeto do debate. Esta é uma luta que se vence pensando.
Vamos todos pensar no que foi dito, e, com certeza, será dado um passo adiante. Não fui compreendido, mas, de qualquer modo, suscitei o debate. Portanto, creio haver contribuído humildemente para jogar uma luz sobre o assunto.
Pelo menos um colega, entre os outros 79, ficou do meu lado.
Márcio Alexandre Silva
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É interessante notar a repercussão obtida pelo texto "Baixo nível" entre alguns alunos da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo). Há uma evidente tônica emocional em todos os comentários, uma espécie de sentimento de "dor". Realmente, o aluno Márcio Alexandre Silva pode não ter escolhido a melhor maneira ou o melhor lugar para fazer aquele tipo de crítica, mas peço a vocês (sobretudo aos alunos) que pensem antes de sair por aí com o ego ferido.
Vocês ficaram indignados com o texto antes ou depois de a diretora aparecer na sala dizendo que a atitude de Márcio Alexandre foi "molecagem", antiética etc? Não pretendo ofender ou defender ninguém, mas fatos são fatos: o professor realmente disse aquelas coisas e, se alguém não ouviu, não estava na sala. Tal fato nem de longe desmerece o professor em questão que, pelo que pude ver, é muito bom.
Quanto aos alunos se sentirem chamados de burros... Bem, há uma parábola oriental que ensina algo como: "A ofensa está mais no ouvido de quem a recebe". Pensem nisso.
Raizen
JORNALISMO
Perguntas, perguntas
Sou estudante de Jornalismo e gostaria de esclarecer uma dúvida. Será que essa avaliação do MEC é mais uma estratégia do governo Fernando Henrique, segundo sua política neoliberal, pela qual a reprovação ocasionaria a privatização das universidades federais?
Kênia Raissa, Estudante de Jornalismo da UFRN
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Meu nome é Fábio Paião Correia de Sousa, sou aluno da Universidade Católica de Brasília. 1. Qual o sentido de se ter as matérias dos primeiros semestres idênticas para as várias especializações (RP, PP) para o curso de Comunicação? Não seria de melhor proveito um currículo distinto para cada especialização, podendo assim dar maior especificidade e aproveitamento do Curso de Jornalismo?
Ricardo Freitas
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O que se pode ver pelos conceitos do provão? O aluno que termina o ensino médio deve aplicar exclusivamente este conceito para escolher a universidade que pretende cursar? Por que não se divulgam também os relatórios que são direcionados às universidades?
Fábio Paião
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1. Qual é a opinião dos professores sobre o clichê de redação, segundo o qual jornalista só aprende jornalismo na redação?
2. O profissional de jornalismo precisa ser formado em Jornalismo?
3. Ética se aprende na escola?
Léo Varella, formado em Comunicação, ex-jornalista
ASPAS
Felippe Penna
"Por um ensino humanista e técnico", copyright Jornal do Brasil, 3/4/00
"No mês passado, a avaliação dos cursos de Jornalismo feita pelo MEC voltou a ser discutida na página da opinião do Jornal do Brasil. De um lado, o professor Victor Gentilli, integrante da comissão de especialistas que coordenou a avaliação, defendendo o trabalho realizado, que, segundo ele, foi baseado em parâmetros rigorosos, arduamente discutidos em um congresso realizado em Campinas, no ano passado. De outro, a professora Sylvia Moretzsohn, chefe do Departamento de Comunicação Social do IACS da UFF, criticando os critérios adotados que, segundo ela, privilegiaram uma visão tecnicista da profissão, em detrimento de seu caráter humanista.
Em artigo publicado nessa mesma página, em fevereiro, deixei bem claras minhas posições sobre esta avaliação. Apesar de a Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, que é dirigida por mim, ter ficado entre as três melhores do Rio, não hesitei em questionar os mesmos critérios que a colocaram nesta posição de destaque. Mas as minhas críticas tinham endereço certo, baseavam-se em dados concretos, ou seja, nos quesitos expressos no formulário de avaliação do MEC. O que é bem diferente da discussão que começa a tomar forma agora, cujo tema principal é uma suposta e irreconciliável dicotomia entre um ensino voltado para a formação humanista e outro direcionado para a técnica. Para mim, esta separação é completamente equivocada. Muito pelo contrário, acredito que só é possível ensinar jornalismo tomando as duas diretrizes como integrantes de uma mesma estrutura didático-pedagógica.
Se o tecnicismo sem reflexão acadêmica pode gerar profissionais sem capacidade crítica, apenas ‘ligados na tomada’, a teoria sem técnica, por sua vez, pode inviabilizar o acesso do estudante ao mercado de trabalho. E não adianta dizer que o mercado está à procura apenas do profissional com estofo cultural e reflexivo, sem se preocupar com o seu manejo da técnica jornalística. Isso é uma grande mentira, já que uma coisa está diretamente ligada à outra. Na verdade, é impossível refletir sem produzir. E a produção científica deve estar atrelada à produção profissional. Afinal, como é possível elaborar um pensamento crítico sobre a profissão sem nunca ter feito uma reportagem? Ou sem saber como funciona uma redação? Preocupa-me muito o despreparo de alguns brilhantes acadêmicos para ministrar disciplinas como redação jornalística ou telejornalismo. Da mesma forma, é claro, surpreende-me a falta de interesse reflexivo de alguns jornalistas.
Não pretendo, nem de longe, diminuir a importância das disciplinas teóricas, onde a pesquisa pode tomar rumos não necessariamente ligados ao jornalismo, o que, aliás, vem ao encontro da amplitude do curso de comunicação e da própria LDB, que estimula a interdisciplinaridade. Mas o ensino seria muito eficaz se estas pesquisas tivessem ligação com as habilitações do curso. Ao mesmo tempo, não posso deixar de considerar engessada a maneira como a avaliação do MEC tratou as chamadas disciplinas técnicas. Neste sentido, concordo com a professora Sylvia Moretzsohn quando ela questiona a inadequação do professor da disciplina Oficina de Textos da UFF pelo simples fato de não ser jornalista, apesar de ser poeta e doutor em comunicação. Acho que é necessário exigir que os professores das disciplinas técnicas sejam jornalistas, mas deve haver um espaço para experiências pluralistas, embora ele deva estar devidamente delimitado.
As experiências, principalmente no campo da linguagem, devem ser submetidas a um detalhado e rigoroso planejamento. Para experimentar é preciso conhecer o trivial, o feijão com arroz. Só depois é possível enveredar pelo experimentos. Preocupa-me a maneira como determinados professores incentivam os alunos a fazer experiências sem nunca terem ensinado o básico. Alguns usam esta tática para esconder a própria ignorância. Outros, a incompetência didática. Mas mesmo aqueles com bagagem acadêmica para empreender a tarefa vão precisar de instrumentos para realizá-la. E esses instrumentos só podem ser práticos, ou seja, a experiência só é possível se aliar o conteúdo acadêmico com o exercício da técnica.
Na próxima quinta-feira, dia 6 abril, às 22h, no programa ‘Aula Aberta’, veiculado na TV Universitária, canal 16 da NET-Rio, o professor Nilson Lage, que também é integrante da comissão de especialistas em jornalismo, e o professor Eduardo Refkalefsky, coordenador de jornalismo da UFRJ, estarão novamente discutindo os critérios de avaliação do MEC. Refkalefsky vai valorizar a tradição humanista da ECO. Lage vai defender a produção técnico-científica . Eu estarei exercendo minha função de jornalista, como mediador do debate. Mas, desde já, gostaria de deixar registrada a minha opinião: neste embate dicotômico, a única possibilidade de vitória é o empate [Jornalista. Diretor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá]."
Tereza Halliday
"Falta atenção", copyright Diário de Pernambuco, 25/3/00
"Em seu artigo ‘Alta tensão nas salas de aula’ (Diário de Pernambuco, 9/3/2000), Roberto Martins refere-se ‘à falta absoluta de gosto e aplicação’ dos estudantes, já assinalada por Tobias Barreto em priscas eras. Sei muito bem do que ele está falando. Professora universitária em tempo integral e dedicação exclusiva, cometi aposentadoria precoce, primeiramente por não confiar na palavra do meu empregador – o governo federal. Eu havia optado por uma profissão que jamais me faria rica mas me dava a liberdade de estudar a vida inteira e prometia certa segurança ao fim da carreira. A liberdade teve um preço, a segurança foi pro brejo. Em segundo lugar, mesmo que eu tivesse ficado mais um tempo, meu espírito já estava sobrecarregado de desalento com a sala de aula. Apenas uns poucos ex-alunos deram-me gosto e alegria, demonstrando engajamento com o aprendizado.
Deixei a universidade com a sensação de que, no Brasil, ela é um lugar onde não se valoriza o conhecimento O saber bem não parece prioritário, nem para alunos nem para professores, com as sempre honrosas exceções. Procedimentos burocráticos, reuniões improdutivas que mais parecem terapia de grupo, alianças políticas, patrulhagem ideológica que vitimiza docentes-pesquisadores competentes e dedicados, e eventos no campus, que devem ser um suplemento, e não a raison d'être da vida acadêmica, tudo isto é tratado como mais importante do que o estudo. Por estudo entenda-se o conjunto de atos de pensar, ouvir, ler, analisar, debater, escrever – enfim, assimilar, produzir, difundir conhecimento e saber usá-lo. O resultado de não se valorizar estudo é o despreparo de grande parte dos egressos dos cursos universitários. Andam fazendo besteira na agricultura, na engenharia, na medicina, na administração, no jornalismo, na economia, no Executivo, Legislativo e Judiciário, sem conseguir servir bem à sociedade que os remunera. Um pai de aluno comentou, abismado: ‘Essa turma sai crua da universidade’. Sem receber ‘cozimento’ adequado, muito jovens correm sofregamente para pseudo-estágios, onde conhecer gente se torna o investimento que não substitui a competência.
Por motivos diversos, a ‘falta de gosto e aplicação’ ataca tanto alunos como professores. Aqueles docentes que levam a sério seu trabalho se queixam de estudantes mal preparados e desrespeitosos que, durante a aula, entram e saem da sala, lêem revistinhas, vendem produtos ou conversam; desinteressados, sem cumprir as leituras requeridas e a reclamar como bodes embarcados qualquer exercício que os leve a pensar. Por outro lado, os estudantes que levam a sério a vida se queixam de certos professores que os desrespeitam: passam metade da aula falando ao telefone celular, ou a aula inteira batendo papo e contando ‘causos’, sem cobrir o programa nem cobrar estudo, nem fazer jus ao seu salário. Há também aqueles professores de boa fama profissional que não ensinam a matéria para não formar concorrentes, segundo informação, em off, de ex-alunos. Um docente que abomina esta prática classificou-a contundentemente de ‘estelionato’. Em suma, os estudantes sérios são lesados pelos meros detentores de um cargo de professor e os professores sérios são desgastados por aqueles alunos que não deviam sequer estar na universidade.
No meio deste descompasso, surgem as palavras de Vinicius Lopes que, aos 18 anos, obteve o primeiro lugar no vestibular da Fuvest, em São Paulo. Desde a 8ª série vinha sendo aprovado todos os anos, como ‘treineiro’. Em entrevista à Folha de S.Paulo (14/2/200, p.7-3), ele diz que o segredo do sucesso é encarar o curso colegial como um treinamento para a vida e prestar atenção nas aulas: ‘Por exemplo, aprendi biologia para não ser enganado por nenhum médico. Porque você está num colégio aprendendo tudo aquilo para uma finalidade. E a finalidade do ensino nunca foi o vestibular. Eu só estudava isto para a vida, para não ser um ignorante. E aí, o vestibular veio como conseqüência. (...) Eu nunca fui de conversar em aula e isso é importante. Ou você ouve o professor ou ouve seu amigo’.
Vinicius afirmou que a maioria dos seus colegas encara o ensino com repúdio. Numa classe de 60 estudantes, 40 achavam que estudar não serve pra nada. Ele culpa os pais ‘porque não ensinaram o cara durante o ensino fundamental a prestar atenção. Aí, chega o ensino médio e o pai está desesperado, mandando o filho prestar atenção na aula. Vai adiantar? Ele não sabe como fazer isto. Os meus pais me orientaram bem, eu tomei o hábito e pronto’. Culpa somente dos pais ou de toda uma cultura que aplaude o remelexo do bum-bum da garotinha recém-saída das fraldas e dá vivas ao primeiro chute de bola do menino ainda de chupeta, como se fossem as maiores realizações do mundo?
Falta atenção nas salas de aula, do ensino fundamental – que é exatamente isto: fun-da-men-tal, à universidade. Falta respeito e compromisso. Falta educação, em todos os sentidos."

Quem forma jornalista é a sociedade – Claudio Buongermino
A exigência do diploma de Jornalismo – Graça Caldas
Jornalistas e marceneiros – C. B.
Baixo nível 1, 2 e 3
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