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DIRETÓRIO ACADÊMICO
Autonomia universitária
e sistema midiático
Victor Gentilli
O sistema midiático brasileiro reitera, sistematicamente, as análises e interpretações do ensino superior que apresentam dados mostrando ineficiência no setor público.
Na realidade, as avaliações mais recentes divulgadas pela mídia mostram as universidades federais, grosso modo, sempre muito melhores que suas concorrentes locais privadas. Há o componente ideológico, claro. Mas na realidade de grande expansão do ensino privado em que estamos vivendo, não custa lembrar que as universidades públicas sofrem com a falta de verbas; enquanto as privadas, que juntam cem alunos em sala e pagam professores por hora-aula, têm sempre dinheiro para suas campanhas publicitárias... na mídia.
O debate sobre autonomia universitária parece em vias de desembocar finalmente num projeto de lei a ser enviado ao Congresso. Com a autonomia, qualquer que seja o projeto vencedor, as universidades públicas vão poder buscar recursos no setor privado.
O sistema midiático brasileiro é fascinado pelos consultores da Universidade de Navarra (entenda-se Opus Dei), pelos designers cubanos (exilados) e pelas universidades americanas. No entanto, as possibilidades de intercâmbio e troca entre as universidades brasileiras e as empresas jornalísticas são imensas, com ganhos para todos.
Estamos muito próximos da hora da verdade: ou as escolas e as empresas se entendem e trabalham em parceiras (preservando suas especificidades) ou todos sairão derrotados.
Atenção: o papel crítico da universidade não pode se perder nesse processo. As atividades de crítica de mídia, portanto, vão, cada vez mais, tornarem-se decisivas e fundamentais para a mídia e para as instituições de ensino. O Observatório continua animado e disposto a montar em conjunto com as escolas uma rede de Observatórios.
Ensino de jornalismo,
caminhos abertos
V. G.
Há exatos dois anos, este Observatório iniciava o debate sobre o ensino de Jornalismo com ampla discussão sobre o provão, então um mero anúncio do ministro Paulo Renato Souza. Bastou o ministro afirmar que o jornalismo iria ser avaliado no ano seguinte para convocarmos professores, estudantes e profissionais a escrever sobre o assunto.
Nesses dois anos, muita coisa aconteceu. Pessoalmente, este observador vinha mantendo posições bastante críticas em relação aos cursos, mas muito otimistas em relação ao futuro. Eram possibilidades então apenas insinuadas.
A realidade hoje é outra, e permite um otimismo fundado ainda em possibilidades, mas não mais apenas insinuadas, já palpáveis. Mas ainda possibilidades, como se verá nas notas a seguir. Possibilidades cuja conquista dependerá agora da vontade e da determinação dos que batalham pelo ensino de Jornalismo.
MEC vai inspecionar
in loco as 92 escolas
V.G.
Todos os 92 cursos de Jornalismo cujos alunos participaram do provão este ano serão visitados por especialistas do MEC ainda em 1999. Um grupo de cerca de 35 professores de Jornalismo será treinado neste mês de agosto. A equipe avaliará corpo docente, projeto pedagógico, currículo realmente em prática. Os pesquisadores vão entrevistar professores e alunos, conhecer (e avaliar) instalações, laboratórios, bibliotecas etc.
Pela primeira vez teremos um quadro completo da verdadeira realidade do ensino de Jornalismo no Brasil.
Tudo indica que veremos uma realidade desalentadora.
Tudo indica que temos todas as condições para uma virada radical pela qualidade.
Cursos novos, novos padrões
V.G.
Mudou o processo de abertura de novos cursos de jornalismo e de reconhecimento de cursos cujas primeiras turmas estão se formando. Já está disponibilizado no site do MEC os padrões de qualidade específicos para os novos cursos de jornalismo [veja remissão abaixo].
Ah, se julho fosse fevereiro...
V.G.
O documento final que a Comissão de Especialistas em Comunicação entregou ao MEC é substancialmente diferente daquele disponibilizado em fevereiro para debate.
O documento para debate gerou muita polêmica.
O documento atual está no ponto para ser debatido, mas o debate está encerrado.
Aliás, boa parte daquilo que foi dito em fevereiro pela minoria consta do atual documento. Mas julho não é fevereiro.
Entre um e outro, o único momento em que efetivamente houve debate foi o Seminário de Campinas, dias 24 e 25 de abril, iniciativa coletiva de uma série de entidades e instituições, entre elas o Observatório da Imprensa.
Hoje, todos se pretendem os verdadeiros herdeiros de Campinas.
Entre julho e fevereiro, a Comissão de Especialistas em Comunicação foi desfalcada de dois membros, que viriam a compor a nova Comissão de Especialistas em Jornalismo.
Essas novas diretrizes só vão valer para Jornalismo se o Conselho Nacional de Educação rejeitar a proposta da Secretaria de Ensino Superior do MEC (SeSu/MEC) de criar a Comissão de Especialistas em Jornalismo. Se a proposta for confirmada, a equipe que agora está cuidando da visita aos 92 cursos de jornalismo do Brasil vai trabalhar em diretrizes específicas.
Pelo sim, pelo não, é bom ver que o esforço coletivo daqueles que se preocupam com o ensino de Jornalismo não foi em vão.
Nem tudo são flores, porém. O texto tem várias, diríamos assim, armadilhas. Citemos apenas uma delas, para exemplificar.
Os defensores da posição de que os cursos de Comunicação, com as novas diretrizes, devem "dispor de uma visão integradora e horizontalizada – genérica e ao mesmo tempo especializada – de seu campo de trabalho, possibilitando o entendimento da dinâmica das diversas modalidades comunicacionais" desfizeram na redação final do documento o que propunham. Vejamos:
No texto que o Seminário de Campinas tomou emprestado da Comissão que estabeleceu as diretrizes e parâmetros do provão encontramos a seguinte formulação:
[O jornalista deve ter] "capacidade para propor, planejar, executar e avaliar projetos na área de comunicação;"
No texto final das diretrizes, escreveram:
[O jornalista deve] "desenvolver, planejar, propor, executar e avaliar projetos na área de comunicação jornalística;"
Quer dizer: todos devem saber comunicação, mas os jornalistas só podem dominar a comunicação jornalística.
Então, tá [ver remissão abaixo].
A comissão, a UFSC
e Afonso Albuquerque
Francisco Karam (*)
Nas duas edições anteriores do Observatório da Imprensa, o professor Afonso Albuquerque, da Universidade Federal Fluminense, atacou o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina em geral e alguns professores da instituição em particular. Tentou desmerecer, ao mesmo tempo, a criação da Comissão de Especialistas em Jornalismo formada no âmbito da SeSu/MEC, constituída pelos professores Hélio Ademar Schuch, Nilson Lemos Lage, Victor Gentilli e Tupã Gomes Corrêa, enfurecendo-se especialmente contra os dois primeiros, da UFSC. A essência dos argumentos do professor Afonso oscilam entre o desconhecimento e o oportunismo:
1) O professor Afonso tenta desqualificar o professor Hélio Schuch, atacando o que considera sua pouca produção acadêmica e experiência profissional para integrar a Comissão de Especialistas. Afora as qualidades do professor Hélio, tanto acadêmicas como profissionais, e agora administrativas (Chefia do Departamento e outras instâncias universitárias), que pude constatar ao longo dos últimos 15 anos em um grande convívio pessoal e profissional com ele, chama-me a atenção o flagrante oportunismo da argumentação do professor Afonso;
2) Não entendo as objeções do professor Afonso à participação do professor Hélio na Comissão e por que não o fez antes, quando o docente da UFSC participava da Comissão de Especialistas em Comunicação. Deve-se salientar que o professor Hélio Schuch, assim como o professor Victor Gentilli (Universidade Federal do Espírito Santo), participava dos trabalhos da Comissão de Especialistas em Comunicação. Em nenhum momento, durante os trabalhos, foi questionada qualquer das qualidades acadêmicas ou profissionais tanto de Hélio quanto de Victor. Pelo contrário, tais qualidades foram reafirmadas e legitimadas em sucessivas reuniões, como as de 24 e 25 de abril de 99, em Campinas. Como o professor Afonso deve saber, Hélio e Victor participaram ativamente do Seminário Nacional de Diretrizes Curriculares do Ensino de Jornalismo (assim como o professor Nilson Lage), fazendo propostas, dando informações e corrigindo distorções no texto então vigente de diretrizes para a área, atuando nas comissões e na plenária final com empenho e qualidade. O Seminário, para lembrar ao professor Afonso, teve organização e promoção da Federação Nacional dos Jornalistas, do Fórum de Professores de Jornalismo, do Observatório de Imprensa e do GT de Jornalismo da Intercom. Entre os mais de 200 inscritos, estavam representantes da Associação Brasileira de Escolas de Comunicação (Abecom), da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecos) e da Sociedade Brasileira para Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). O documento final, com apoio de todas as entidades presentes (incluindo a Enecos - João Brant participou e fez várias propostas; e a Intercom - seu presidente, professor José Salvador Faro, apresentou várias sugestões), foi encaminhado à Comissão, reconhecendo a qualificação e a legitimidade de sua composição, onde se encontrava, precisamente, o professor Hélio Schuch (a quem Afonso ataca por integrar a Comissão de Jornalismo);
3) Seria o caso de perguntar ao professor Afonso: o professor Hélio Schuch tem grande qualificação para participar da Comissão de Especialistas em Comunicação, qualificação desaparecida imediatamente quando passou a participar da Comissão de Especialistas em Jornalismo, sendo ele precisamente jornalista e doutor em Ciências da Comunicação? As mesmas qualidades desapareceram também de Victor Gentilli, que participava dos trabalhos da Comissão de Comunicação? Obviamente que um circunstancial argumento, irmão do oportunismo, ocupa a poltrona confortável em que está sentado o professor Afonso Albuquerque, que não compareceu ao Seminário de Campinas;
4) Criada a Comissão de Especialistas em Jornalismo, legítimo e democrático é que os jornalistas membros da Comissão de Especialistas em Comunicação fossem convidados a participar da nova instância, por razões óbvias (poderia dizer epistemológicas, teóricas, éticas, técnicas e todas caberiam). Excluir os jornalistas que participavam da Comissão de Especialistas em Comunicação da de Jornalismo é que seria ferir a lógica da legitimidade e da democracia. Por isso, foram convidados, para o novo fórum de discussão, salvo engano, as três pessoas mais qualificadas em Jornalismo que participavam dos trabalhos da Comissão de Especialistas em Comunicação. Segundo sei, o terceiro membro convidado que integrava a Comissão de Comunicação, a professora Dóris Haussen, da PUC do Rio Grande do Sul, não aceitou o convite para participar da Comissão de Jornalismo, por compromissos profissionais que já dificultavam sua participação na própria Comissão de Especialistas em Comunicação;
5) Em seu lugar, foi convidado o professor Nilson Lage, também da UFSC. Aí é que parece que Afonso não aceita de jeito algum, assim como muitos outros professores do campo geral da Comunicação. Ora, dois professores da UFSC num total de quatro membros da Comissão seria demais, não? No entanto, se observarmos bem pelo Brasil afora, talvez ninguém supere o professor Nilson Lage em condições ideais para participar da Comissão. A indiscutível qualificação de sua trajetória profissional no Rio de Janeiro em significativos veículos de comunicação e sua larga experiência acadêmica tanto na UFRJ como na UFSC, bem como sua produção teórica na área (diversos livros qualificados, centenas de artigos e palestras, consultorias ao longo de décadas tanto para organismos governamentais como instituições sindicais, organismos privados ou públicos) o colocam como um nome extremamente relevante para discutir diretrizes para a área. Neste aspecto, Nilson Lage não representa só a UFSC, mas, creio, tem um nome que, pela trajetória dos últimos 40 anos, ultrapassa qualquer instituição em particular, concordando-se ou não com ele. O que Nilson Lage faz, e com isso Afonso dificilmente irá concordar algum dia, é defender galhardamente a profissão de jornalista e sua relevância social; é defender estudos específicos teóricos sobre jornalismo; é defender a regulamentação profissional. Nilson Lage poderia estar confortavelmente sentado assistindo a tudo o que se passa na área de Comunicação e Jornalismo. Não receberia menos por isso. Poderia preferir a paz do não-envolvimento, poderia evitar qualquer projeto polêmico. Mas não. O conhecimento, o caráter e um rigoroso sentimento de compromisso público levam a que ele, mesmo sem precisar de nada disso para sobreviver hoje, se preocupe com a profissão e o futuro dela. Por isso, depois de toda a sua trajetória, ainda participa e produz na área, dando aulas, escrevendo livros, dispondo-se a palestras na área sindical, profissional e acadêmica, acompanhando, pacientemente, a formação de alunos em graduação e pós-graduação. Para os colegas jornalistas do Departamento de Comunicação da UFSC, certamente a convivência com o professor Nilson foi um ganho significativo;
6) Em consulta a entidades da área, o MEC criou a Comissão de Especialistas em Comunicação, renovadamente legitimada por encontros dos quais participaram representantes de diversas instituições do setor. Em decorrência de tal Comissão, criou-se outra, cujo pedido estava protocolado havia bastante tempo no MEC, precisamente a de Jornalismo. Levou-se em conta os jornalistas já participantes da anterior e a representatividade e qualificação dos novos nomes. Neste sentido, o quarto membro da Comissão de Especialistas em Jornalismo, convidado pela SeSu/MEC, foi o professor Tupã Gomes Correa, Diretor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Escolas de Comunicação (Abecom). Poderiam ser outros, mas os novos nomes, como os professores Tupã Gomes Corrêa e Nilson Lage, sintetizam a alta qualificação da área. Se o professor Faro, presidente da Intercom, participa da Comissão de Especialistas em Comunicação, não poderia o presidente da Abecom e diretor da maior escola de Comunicação do país, o jornalista e professor Tupã Gomes Corrêa, ser convidado para a Comissão de Especialistas em Jornalismo? Parece-me, portanto, que o problema não é a qualificação dos membros da Comissão, mas o inconformismo de Afonso com outros aspectos: dois professores serem da UFSC e a "surpreendente" formação da Comissão de Especialistas em Jornalismo;
7) Quem esteve em Campinas e ficou até a conclusão dos trabalhos sabe que o documento final obteve consenso, com duas observações/ressalvas, que estão na primeira página. Mas sabe também que ao final foi levantada a possibilidade da criação da Comissão de Especialistas em Jornalismo, sendo informado, então, que já havia solicitação para tal junto ao MEC. E os participantes, entre eles o professor José Salvador Faro – lembro-me perfeitamente – aceitaram que, caso fosse instituída a Comissão de Especialistas em Jornalismo, o documento fosse encaminhado a ela. E é este documento, aprovado em Campinas, que, conforme a própria Comissão de Especialistas em Jornalismo, será tomado como referência para a elaboração das Diretrizes Curriculares em Jornalismo. Portanto, parece-me que Afonso não poderia reclamar nem do encaminhamento nem do documento de Campinas;
8) De fato, se observarmos detalhadamente as alegações do professor Afonso, vê-se o que está pouco claro: seu temor de que o projeto pedagógico do Curso de Jornalismo da UFSC se torne predominante. Seria tecnicista, palavra bastante usada por mais gente. Afonso chega a considerar demasiado o número de professores do Curso de Jornalismo da UFSC que se dedicam a disciplinas específicas de Jornalismo, 17, do total de 24. Ele quer mais equilíbrio. Qual equilíbrio?
9) Ora, é natural que, em um Curso de Jornalismo, a maioria dos docentes seja formada por jornalistas professores, que tenham experiência profissional e conhecimento teórico-reflexivo sobre a área. Ou Afonso acha impossível os jornalistas pensarem? Não conheço nenhum professor de Jornalismo da UFSC que não consiga refletir sobre a área, mesmo que com graus variados de abordagem, temática e profundidade.
No Curso de Jornalismo da UFSC, gradativamente vem sendo ampliada a titulação dos professores. Bem mais do que 17 dos 24 são jornalistas. Jornalistas que ingressaram, em sua maior parte, sem o título de mestre ou doutor, mas que ao longo da trajetória acadêmica foram realizando pós-graduações no Brasil e no exterior; produzindo livros, artigos, palestras; participando cada vez mais de encontros na área; organizando eventos. Em 1981, quando Afonso tinha 14 anos, o Curso de Jornalismo organizou o Congresso da União Cristã Brasileira de Comunicação, em que participaram cerca de três mil pessoas, com palestrantes do porte de Dom Hélder Câmara. Em 82, quando Afonso tinha 15 anos, organizou o Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, repetido na década de 90. Em 1983, quando Afonso passou a ter 16 anos, o Curso de Jornalismo da UFSC organizou o Encontro Latino-Americano de Escolas de Comunicação. Em 1989, organizou o Congresso da Intercom. Em 90, ajudou a organizar o Congresso Nacional dos Jornalistas. Em 94, promoveu o Encontro Nacional de Rádios, TVs e Produtoras Universitárias. Em todos estes anos, inúmeros outros eventos foram sediados na UFSC e co-promovidos pelo Jornalismo, como encontros regionais de estudantes de Comunicação, da Abecom e por aí adiante. Convivemos com o meio profissional e acadêmico e produzimos, integrando profissão e universidade.
O que Afonso parece não aceitar, também, é que exista uma produção voltada para Jornalismo, porque talvez não creia que exista um campo autônomo de conhecimento na área, relacionado com as outras a partir da sua especificidade. Obviamente, tal autonomia é a mesma da Medicina em relação à Enfermagem, da Arquitetura em relação à Engenharia, da Pintura em relação à Fotografia, do Teatro em relação ao Cinema, da Zoologia em relação à Veterinária, da Aquicultura em relação à Oceanografia. Se tais conhecimentos estão vinculados interdisciplinarmente, é porque há algum ponto não superposto, em que emerge o conhecimento específico. Ora, se a sociedade se tornou complexa a tal ponto, é necessário que estudos específicos se ampliem em cada área para, com mais qualidade, profundidade e ética, qualifiquem-se cada vez mais os campos específicos.
Por isso, estranho a defesa de um Curso de Jornalismo de somente dois anos finais, e não a defesa de um curso integral de quatro anos, como, pessoalmente creio, deveriam fazer todas as áreas da Comunicação, como Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Cinema. Acredito que hoje há acúmulos suficientes para isso. E a produção de cada uma das áreas aponta em tal direção. Isto não impede nem a interdisciplinaridade, nem o convívio, nem a existência de cursos na mesma faculdade ou prédio;
10) O Curso de Jornalismo da UFSC busca tal caminho. Seria tecnicismo? Ora, sabe-se que em disciplinas como técnica de reportagem, radiojornalismo, telejornalismo, fotojornalismo, redação, jornalismo econômico, jornalismo político, jornalismo cultural, jornalismo policial estão presentes concepções de mundo, realidades multifacetadas das ruas, versões do poder, críticas sociais... São acontecimentos, visões e versões que, ao irromperem, transformam-se em pautas jornalísticas. Em uma disciplina como técnica de reportagem, pode-se claramente discutir diversos campos em que se move a sociedade e como confeccionar tal material tecnicamente, com qualidade ética e estética. Na produção laboratorial que temos na UFSC buscamos isso, seja nos laboratórios de Telejornalismo ou Radiojornalismo, no jornal-laboratório Zero ou no Laboratório de Fotojornalismo, na Internet ou em Comunicação Institucional. E discutimos a técnica, a profissão, a cultura, a cidadania, a ciência, o conhecimento, as artes também em Teoria ou em Ética, em Políticas de Comunicação ou em Comunicação e Realidade.
Acredito, efetivamente, em uma práxis profissional que reúna, integre e funda epistemologia, teoria, técnica, ética e estética. Seria o fotojornalismo de Sebastião Salgado mero "tecnicismo"? Seria a denúncia da Folha de S.Paulo dos massacres em Carandiru ou Eldorado dos Carajás só "técnica" e "tecnologia"? Seriam os artigos e crônicas de Janio de Freitas, Luis Fernando Verissimo, Elio Gaspari, Clóvis Rossi, Carlos Heitor Cony, Barbosa Lima Sobrinho algo menor diante da produção acadêmica teórica? Ou há algo mais na culminação técnica, que envolve mundo, valores, estética, ética? E que, precisamente, culmina na técnica e na tecnologia pela qualificação teórico-prática?
Acho possível buscar tal caminho durante a formação do estudante em quaisquer disciplinas do chamado tronco específico de jornalismo e da primeira à última fase do curso. Se há limites para isso, o que precisa ser superado são os limites, não o Jornalismo. E, ao contrário do caminho seguido pelo professor Faro em artigo anterior no O.I., não se trata de propor que a Física Nuclear deixe a Física, ou que a Pediatria deixe a Medicina. Por isso, não se pretende separar Jornalismo Econômico, Político, Esportivo etc. do próprio Jornalismo, mas fortalecê-lo em sua imensa variedade de áreas, temas, suportes;
11) O que não ocorre – e Afonso talvez confunda as pernas – é o Jornalismo ser igual à Medicina ou à Antropologia, tampouco à Engenharia. No entanto, quaisquer destas e outras áreas manifestam-se pelo jornalismo, com coberturas noticiosas, versões, pautas, análises, críticas, debates, na imediaticidade com que surgem, sintetizadas, em linguagem acessível, em escala pública e disseminação massiva;
12) Ao mesmo tempo, no Curso de Jornalismo da UFSC há uma possibilidade enorme de disciplinas chamadas teóricas serem ministradas. É só olhar o currículo, seja em obrigatórias, optativas e tópicos especiais. O que se defende é que sejam, em primeiro lugar, qualificadas; em segundo, que tenham conexão com o universo jornalístico e, a partir dele, com as demais áreas; e que não se considere a formação profissional em Jornalismo algo menor. Por isso, procura-se, na UFSC, oferecer um currículo que afirme a identidade profissional, defenda a profissão, tornando-a mais complexa e, simultaneamente, a especifique no todo social em que se move. Tal currículo e tal projeto pedagógico defendem a não-subordinação do Jornalismo às demais áreas, porque ele se respeita a si mesmo e respeita as demais;
13) O professor Afonso fala muito em produção teórica, que tem 32 anos e desde os 29 é doutor e tem um livro escrito. Ora, eu tenho 47 e não sou doutor. Aos 29 anos eu estava trabalhando em jornalismo, porque além de precisar sobreviver, gostava, como gosto, da profissão, adquiria experiência profissional e não ousava, ainda, fazer Concurso Público para professor. Também ingressei na UFSC somente aos 32 anos. Antes disso trabalhei em jornalismo e este período foi fundamental para entender e aprofundar o entendimento do cotidiano dos profissionais. Em relação à titulação, devo me tornar doutor no dia 1º de setembro, quando na PUC-SP defenderei minha tese, sob a orientação do professor Norval Baitello. Não precisei de 48 meses para concluir o Doutoramento. Foram suficientes 36, incluindo pesquisa de um ano em Barcelona (sob a orientação do professor Lorenzo Gomis, da Universidade Autônoma de Barcelona) e não quero enrolar até o final de minha licença, legalmente cedida até fevereiro. Dediquei-me bastante, nestes três anos e meio, e não precisarei de "mais tempo" ou de qualquer outra desculpa para concluir a tese, assim como o professor Hélio Schuch não precisou, entregando o trabalho de Doutorado rigorosamente no prazo (um pouco antes até). Vou defendê-la e volto às aulas, porque gosto de Jornalismo e das atividades acadêmicas. Não fujo das aulas da graduação, gosto delas porque acredito que estão intimamente ligadas à profissão. Não fujo de atividades de pesquisa, de extensão e administrativas. E o que faço, como o que fazem os professores Hélio Schuch, Luís Scotto, Eduardo Meditsch, Nilson Lage, Orlando Tambosi e muitos outros professores do Jornalismo da UFSC, tem resultado visível. Há apresentação de relatórios precisos, há produção apresentada e apresentável.
Acredito, também, que a experiência profissional para o ensino de Jornalismo é importante. Por isso, nunca me desliguei das áreas, seja em trabalhos esporádicos (a dedicação exclusiva impede envolvimento sistemático) ou participando das discussões com a categoria profissional. Respeito demasiadamente os profissionais de Jornalismo e sei o quanto lutam, com exceções, é claro, para realizar, na prática, a profissão. E acredito que os jornalistas com experiência profissional, titulados posteriormente com Mestrado e Doutorado, têm mais condições de ensino do que os que não têm experiência alguma na área. Acredito que o jornalismo tem objeto e que ele é concreto, e sobre tal concreto o jornalismo pensa e age, discute e polemiza, porque existe e é visível nas ruas, nos campos, corpos e almas. Conheço autores com alguns livros, todos bons, como são os do professor Nilson Lage (conheço quatro). Conheço outros autores com mais de 20 livros, tudo porcaria. Na produção científica universitária, Nilson perderia para a pontuação sem critérios da infinidade de bobagens esotéricas que todos os dias chegam às livrarias ou são produzidas, muitas vezes, na Academia. E por falar nisso, Karel Kosik escreveu um livro brilhante, que valerá por muitos séculos, precisamente Dialética do concreto (editado no Brasil pela Paz e Terra, com tradução de Célia Neves e Alderico Toríbio). Ele é um dos que não precisariam escrever mais nada. É uma pena que o livro dele, na pontuação acadêmica, valeria tanto quanto o do professor Afonso Albuquerque.
(*) Jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina
Idiotas da objetividade
Anatricia Borges (*)
Que a profecia não se concretize: não sejamos os idiotas da objetividade!!!
Ora, sejamos práticos, como aspiram os "tecnicistas": para que cursar uma faculdade de Jornalismo? No fim do século em que imperou a racionalidade, sejamos também realistas: não é preciso muita inteligência e discernimento crítico para atender aos níveis de exigência profissional da mídia brasileira. Ou seja, o requisito é saber executar, pensar é apenas um "detalhe"!
Penso eu que foi dentro desta práxis que se baseou a comissão de elaboração do Provão 99 de Jornalismo. Na realização de uma prova – que nada mais é do que a tentativa evidente da "panacéia neoliberal" de FHC em querer comprovar a falência do ensino público superior brasileiro, sem falar nos médio e fundamental. E, diga-se de passagem, mais um fracasso a ser adicionado à continua e extensa lista do nosso digníssimo presidente, visto que as maiores médias do provão estão nos cursos oferecidos por essa mesma universidade pública que ele aspira a extinguir.
Nesse contexto histórico, cultural, político e econômico, podemos divagar, e até mesmo delirar, sobre a atuação da imprensa – com raríssimas exceções –, marcada pela apatia, o comprometimento, e por que não usar a palavra colaboracionismo, em favor dos cada vez mais pesados, onerosos e egocêntricos desejos da elite dominante nacional.
Se entrarmos nesse campo, veremos que discutir técnica dissociada de teoria "é pinto", como diria o linguajar popular, diante da realidade apocalíptica dos quadros da imprensa nacional, reduzida ao papel de mera divulgadora dos fatos do dia-a-dia, desvirtuada de sua função social, e com enfoques "técnica" e nitidamente elaborados para a sustentação dessa hegemonia cultural, se me permitem o uso do termo teórico os srs. tecnicistas.
Discussão medieval
Enquanto FHC e seus fiéis cavaleiros da Távola Redonda se esforçam, a exemplo de outros setores da economia nacional, em privatizar o ensino público brasileiro, nos deparamos com a medieval discussão sobre teoria e prática, e o que é pior, desta vez propõe-se a desvinculação quase total de ambas – como já vem realizando em seu curso de Jornalismo a "notável" Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Ora, Comissão de Especialistas em Jornalismo, para que a teoria ensinada pelos comunicólogos? Aliás, a que fins serviu na história da humanidade o pensamento dos filósofos? Certamente, nesta sua "moderna" visão de puro tecnicismo, Marx, Engels, Weber, Benjamim, Adorno, Gramsci ou os contemporâneos Foucault e Baudrillard foram homens muito pouco produtivos no sistema de produção erigido pela Revolução Industrial. Afinal, que bens concretos produziram a não ser o "abstrato" pensamento? E o que essa sapiência teórica pode influir, realisticamente, na carreira de um jornalista?
Atores de circo
Bem, com certeza, para o cada vez mais potente e maquiavélico "mercado" da comunicação, certamente a teoria ensinada nas boas escolas de Jornalismo nunca foi exigência para a conquista de um emprego na área. O que não é de se estranhar nessa estrutura de jornalismo americano (new journalism), adotada pelos burocratas da imprensa nacional, em que a falta de imparcialidade é imperante, os conteúdos simbólicos das mensagens tratam o leitor/telespectador/ouvinte como testemunha "emudecida" dos atos literário e locutório, quando não fantoches de sua própria realidade, e o jornalista é mais um "ator" nesse grand cirque.
É, realmente, dentro deste panorama, sou obrigada a tirar o chapéu, dar as mãos à Comissão e reconhecer que o pensamento de Gramsci, Adorno, Benjamim, Foucault, Horkheimer, Habermas, entre outros, infelizmente nunca foi, e acho que nunca será, parâmetro para a disputa de uma vaga nesse restrito, desigual e alienista mercado de trabalho da mídia brasileira.
O perfil ideal
Mas será esse o perfil que a sociedade brasileira deseja para os seus jornalistas? Estaria digna de aplausos efusivos a Comissão Especial de Jornalismo se a questão fosse apenas produzir na academia o profissional-técnico jornalista, apto a saber lidar e operar câmeras sofisticadas, ilhas de edição de última geração e a desfrutar de todos as possibilidades da interatividade da cibernética com a comunicação, em consonância com as necessidades do Quarto Poder.
Só que o problema, senhores, é que o papel da universidade vai muito mais além do que apenas habilitar tecnicamente um indivíduo a exercer ou não uma profissão. Esquecem-se os membros dessa especializada Comissão, talvez movidos pelo encanto do progresso tecnológico e de suas inúmeras vias, em especial na área da comunicação, que o universo acadêmico não se restringe apenas à técnica, inquestionavelmente importante para a formação profissional, mas tem na produção do pensamento uma de suas mais importantes forças motrizes para a condução das transformações necessárias à sociedade. Em uma abstração de minha parte, a discussão (teoria versus prática na formação do futuro jornalista brasileiro) me traz à lembrança uma antiga campanha do biscoito Tostines: "É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?" É bom por causa da ênfase na técnica ou é bom pelo enfoque na teoria?
Dissociação impossível
Ora, senhores, teoria e prática raramente se dissociam!!! No caso da formação em Jornalismo, então, a presença e a relação entre ambas é fundamental. O jornalista que não conhecer e entender, por exemplo, o conceito e os mecanismos da cultura de massas e da indústria cultural pode até exercer o "básico" de seu papel profissional, mas certamente estará desprovido de fundamentos importantes para a análise do discurso de um entrevistado, que pode conduzir a entrevista em prol da sustentação ideológica de algum mecanismo social ou da manutenção do sistema hegemônico dominante vigente. Sem falar que se torna, assim como os aparatos técnicos, mais uma ferramenta "mecânica" de produção a serviço do poder das megaestruturas da comunicação, que nem ele entende!
Não digo aqui que jornalistas que, antes da regulamentação da profissão, não passaram pelas salas da universidade, sejam desqualificados no exercício profissional, mas, em sua maioria, foram e são homens autodidatas, com grande conhecimento teórico e técnico, que contribuíram no processo de transformação da sociedade nacional e, hoje, criticam veemente os modos mercantilistas e padronizados de produção adotados pelas redações brasileiras.
Olhar crítico
Acredito que a teoria ensinada por aqueles que os tecnicistas classificam como "comunicólogos", que aprendi e aprendo na faculdade, foi e é de extrema importância para minha visão de mundo e, constantemente, vem sendo utilizada no exercício de minha profissão. Para ser jornalista não basta dominar a técnica objetiva do jornalismo (principalmente a do estilo proposto/imposto pelos americanos), exige-se o olhar crítico incansável nas relações estabelecidas pelas classes sociais, nos discursos da sociedade política, tanto quanto nos da sociedade civil, e ao que pode levar a manifestação dessas sociedades, seja no universo nacional ou mundial. Não atribuo a boa qualificação profissional apenas à teoria, como também não execro nem cultuo o tecnicismo puro. No meu ingênuo saber e reles ignorância de estudante, ambas, na formação do jornalista, são de extrema importância para que não concretizemos a profecia do saudoso Nelson Rodrigues de nos tornarmos, definitivamente, os idiotas da objetividade.
E, professora Maria José Baldessar (UFSC), não é a falta de conhecimento do que é uma produção não-linear em rádio e TV que levará os alunos dos cursos de Comunicação a exigir de suas instituições os equipamentos necessários em seus laboratórios; nem tampouco reside no coeficiente máximo obtido pelos alunos da UFSC, na questão relativa formulada no Provão 99, o que vai legitimar a qualidade do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina como um dos melhores do país. No caso, melhor esperamos o resultado do Exame Nacional (ainda não foi divulgado!!!). No caso, somente pela consciência coletiva e a formação de uma massa crítica – fenômenos sociológicos que, "ironicamente", envolvem as "ultrapassadas" teorias ensinadas pelos "comunicólogos" –, é que acredito ser possível vermos os alunos dos cursos de Comunicação reivindicando não só melhores equipamentos em seus laboratórios, como também lutando por uma sociedade mais justa e igualitária.
(*) Universidade Federal Fluminense
Onde? Onde?
Marinilda Carvalho
Imploro aos chamados "comunicólogos" e seus defensores que me informem depressa, por favor, que escola é essa que ensina toda essa teoria maravilhosa, que forma esses cidadãos pensantes, esses profissionais transformadores, que não deixam entrevistado conduzir entrevista. Onde? Onde? Quero recomendá-la a amigos cujos filhos insistem na carreira de jornalista.
Nas redações, salvo as honrosas exceções – que talento explode até no deserto –, vejo garotos bobos, que nada interpretam, nada associam, nada deduzem. E nada sabem de português, porque nada leram – ou talvez leram, sim, más traduções de Foucault e Baudrillard (quem sabe apenas as orelhas, como já soube que um nosso festejado professor do "bloco comunicólogo" recomenda).
A mira desse debate, acredito, está mal-alinhada. Temos que brigar mesmo é pela volta do bom ensino de 1º e 2º grau. Só dele vem o bom uso do português, a boa leitura, a ética, a formação ideológica, o espírito crítico.
Até lá, curvo-me realisticamente a esta triste penúria. Grande mídia como agente transformador? Onde? Onde? Não vejo desde os anos 60. Olhar crítico? Quem dera. Teoria libertadora não desperta cérebro dormido desde o ginásio.
Se é para escolher um lado, portanto, só me resta ficar com os jornalistas/"tecnicistas": pelo menos nos mandem às redações – que o neoliberalismo enxugou, e por isso somos poucos para carregar o piano – garotos que não ponham o lide no pé. Êta "básico" danado para atrasar fechamento... Crase, regência, concordância? Já abrimos mão desse luxo. "Básicos" gramaticais nós, os "idiotas da objetividade", acertamos no copy. E ainda baixamos no horário.
Encontro debate
ensino de Jornalismo
A Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero e a ECA-USP estão sediando o II Encontro Latino-Americano de Ensino de Jornalismo, que se realizará de 8 a 11 de agosto. O encontro vai se concentrar nos diversos grupos de trabalho. Há grande expectativa em torno do debate com a nova Comissão de Especialistas no Ensino de Jornalismo, que comparecerá e discutirá as questões que tanto mobilizaram estudantes, professores e interessados neste primeiro semestre de 1999 [ver remissão abaixo].
A escola americana e
a banalização dos anos 90
Fabiano Golgo, de Praga
Quando me transferi da Famecos (Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUC-RS) para a New York University, pensei estar avançando, em qualidade, nos meus estudos. Deixaria um curso fraco para um "de Primeiro Mundo". O que me incomodava na Famecos era o quase desânimo dos professores frente à quase preguiça dos alunos.
No Brasil, com o ensino secundário que temos, os calouros chegam às universidades sem saber conjugar verbo ou escolher entre g e j ou ç, s e ss. Nossa língua é complicada, e poucos podem se gabar de nunca cometer erros, de sempre acertar a crase. Mas há coisas básicas em acentuação ou formação de frases que deveriam ser dominadas pelos que chegam ao que chamamos de ensino "superior". E quando um aspirante a jornalista diz (e escreve!) coisas do tipo "para mim chegar lá", não há muito o que esperar dele... embora os sucateados jornais de hoje em dia lhe dêem emprego como estagiário, em detrimento de jornalistas experientes, com vocabulário maior – e expectativa de salário também.
Eu achava estar fugindo do círculo vicioso das universidades brasileiras, com seus professores desiludidos. Para não cometer o equívoco de depositar toda a culpa no aluno, emburrecido pela mídia de massas e pela cultura do entretenimento non stop, devo dizer que a maioria dos meus professores pouco se dedicava a tentar criar um diálogo inteligente com os alunos, ou pensar em novos métodos para cativar essa geração por demais visual. Apenas bradam os mesmos símbolos de "alta cultura", formando um grupo fácil de ser identificado.
Sob vaias
É a concepção de cultura no Brasil. Na estréia do filme Central do Brasil, em Praga, o ex-ministro da Cultura, hoje embaixador na República Tcheca, Sérgio Rouanet, desfilou todo o seu conhecimento sobre Camões e os gregos por quase 45 minutos, por intermédio de uma suada tradutora (foi vaiado pela audiência, que viera ver Fernanda Montenegro, não um embaixador despenteado que sequer fala a língua local). Mas justificou seu emprego, apresentando-se, sem pudor, como "intelectual brasileiro" – e por isso digno da nação intelectual tcheca. Também fez questão de contar que proporcionara a realização, pela lei que leva seu nome, do tal filme. A gafe maior foi contar em detalhes todo o roteiro, inclusive o que chamou de "uma cena que surpreende a todos, quando a mãe do menino morre debaixo de um ônibus". Foi vaiado até sair do palco.
Os professores da PUC/RS não eram muito diferentes. Depois de dois anos nesse ambiente desestimulante, consegui a transferência. Tinha certeza de que encontraria um novo cenário, onde a discussão inteligente prevaleceria. Chegando aos Estados Unidos, onde já morara anteriormente por dois anos, encontrei, nas salas de aula, muito debate, muita conversa. O que faltava era a profundidade. Já sabia que o bate-papo é a especialidade americana, desde que seguindo certas regras e não tocando em certos tabus (Jesus, business e, no caso da NYU, sionismo).
As constantes e enormes mesas-redondas e palestras eram desprovidas de conteúdo. A causa: a mídia de massas também lá emburreceu uma geração inteira pela sua abordagem soft e fast dos assuntos; pela falta de contextualização dos tópicos nos telejornais, mídia impressa e radiofônica.
A discussão barata que acontecia nas salas de aula e auditórios não produzia mais que os clichês muito ouvidos ou a tão americana política de defesa de interesses de grupos (i.e. homossexuais, negros, asiáticos, todos com suas "agendas" bem delineadas nos seus politicamente corretos quartéis-generais livres de impostos.
Esse bla-bla-blá sem consistência poderia pelo menos ser compensado com um currículo abrangente, uma atividade docente bem embasada. Mas os americanos sofrem dos males da pesquisite, da síntese crônica, da supremacia dos factóides e da religião do mercado, todos devidamente exportáveis (e nossos emergentes adoram uma porcaria importada dos EUA).
Quando tentei a Columbia University encontrei o mesmo quadro. Univeristy of Florida, em Gainesville, idem. A cultura puritana presume a existência de verdades absolutas, as famigeradas fórmulas às quais somos submetidos quando estudantes (até os que pretendem ser escritores devem passar pelas academias, para "aprender" um estilo com a literatura passada...).
Estilo calvinista
Um dia, o mestre Jeff Greenfield, hoje comentarista-mor da CNN para qualquer assunto (o grupo Time-Warner apostou em seu carisma e linguagem apropriada para as massas), apareceu com dados sobre o telejornalismo gringo. Nos primeiros sete anos desta década, levando em consideração as redes ABC, CBS e NBC, haviam sido apresentadas 9.391 matérias sobre crimes, contra 2.397 abordando assuntos de Washington. Economia – que para os americanos é tão essencial quanto sucrilhos – havia tido uma queda vertiginosa: entre 1973 e 1980, 12.058 matérias contra 6.673 entre 1990 e 1997. Neste mesmo 1997, contou Greenfield, surgiram na telinha 282 reportagens envolvendo o vice-presidente Al Gore e sua agenda para o século 21 (com a Internet no topo das prioridades). Ótimo, não fosse o fato de, no mesmo período, terem aparecido 242 matérias sobre Buddy, o cachorro de Clinton.
A guerra na Bósnia gerara (entre 1990 e 1997) 3.780 reportagens de TV, contra 2.674 sobre o conflito em Israel e 1.547 sobre a briga com o Iraque. É claro que os comparsas de Slobodan Milosevic ganhavam porque forneciam conteúdo abundante de horrores, fazendo par com as histórias locais sobre crimes – contribuindo para a audiência dessa gente que adora os Ratinhos da vida. Iraque e Israel contavam com menos atrativos de mercado (sangue) para seus consumidores. Onde foi parar o conceito de jornalismo como serviço de utilidade pública, em vez de produto a ser vendido para o maior número possível de "consumidores?
Desde os primórdios o jornalismo dedica espaço às distorções de comportamento, e não há nada mais correto que apontar esses males da sociedade. Mas a escola americana aperfeiçoou a tarefa de transformar o nojento em atração. Passaram a celebrizar os criminosos (vide Assassinos por natureza, filme de Oliver Stone,). Também trouxeram às primeiras páginas o que costumava ocupar os cadernos de entretenimento. Se Leonardo DiCaprio esfola o joelho, aparece em destaque em todos os jornais. Tom Cruise nu na Time? Basta assistir aos telejornais das três grandes redes para ver que o formato tradicional (quando não há uma grande notícia dominando, tipo a morte de Kennedy Jr. ou uma guerra) consiste de 10 minutos com o que chamamos de hard news e, depois, 20 minutos com os "quadros" como "Sua saúde" ou "Para onde vai o seu dinheiro", ou ainda "Uma família americana?, tudo no estilo calvinista do Gente que faz...
Peter Jennings, Dan Rather e Tom Brokaw dedicam boa parte de seus bem pagos minutos no ar ensinando a família americana a evitar que seus filhos consumam pornografia, ou dando dicas de como comprar um carro usado. Na versão tapuia, Renato Machado dá dicas de vinho e de cozinha no antes mais político/econômico Bom Dia Brasil.
Rede alternativa
A cobertura internacional das redes dos EUA caiu de 52% no início da década para 22% em 1998 (antes da guerra da Iugoslávia). O que fazer? Se ainda existe um bom jornalismo na França, até mesmo na Espanha, o mesmo não ocorre com a "área de influência" dos americanos. Fomos inundados com a simplista percepção de que, se funciona na terra da Disney, também deve funcionar em nosso país.
A pergunta é: em quanto aumentou a venda de jornais depois da banalização das reportagens? Cada vez que incluem panelas ou CDs no pacote, uma enxurrada de emergentes vai às bancas. Muitos sequer levam o jornal, apenas o badulaque.
Se não deu certo simplificar os textos, encher páginas com fotos e gráficos enormes, botar a Sasha em destaque, então que tal apostar nos velhos sábios do país, nos jornalistas com calos nas mãos, no bom uso da tecnologia atual que permite uma mais abrangente coleta de dados e um sem-número de pautas interessantes? Por que fazer do jornal um pão com manteiga se se tem um estoque de iguarias esperando para ser publicadas? Simples: porque a gurizada das redações foi orientada por professores preguiçosos, pelo Xou da Xuxa e pela vazia conversa dos intelectuais tupiniquins.
Quando um texto chega à redação é cortado pelo mal preparado redator (enfastiado com o acúmulo de trabalho e o salário indigno), que não consegue acompanhar uma matéria de estrutura mais complexa e conclui que a bugrada também não conseguirá. Então, o bugre, no dia seguinte, vai às bancas direto ao seu jornal popularesco, enquanto o mais letrado vai a lugar nenhum, pois não tem opção. Ou compra, por hábito, o velho jornal de sempre, ultimamente lido sem tesão, na corrida, uma vez que nada há, ali, para excitar sua libido mental (a não ser, às vezes, certos colunistas).
Se os telejornais apelam para o banal, os impressos deveriam se atirar de cabeça nas reportagens aprofundadas, investir em leitores com nível mais alto, em vez de se guiar pelo termômetro dos números.
Foi-se o tempo em que minha avó abria a porta de manhã cedo com prazer, por saber que tinha ali no chão um monte de gente interessante prestes a falar com ela sobre o mundo. Agora, simplesmente vê o "casal telejornal". E sua diabetes a impede de ver a Lillian, de tanto que açucararam o ex-jornal menos vazio da Globo. Ainda bem que existe outra rede, com algum conteúdo encontrável, a www.internautas.uni-vos!
A posição da CEEJor
sobre os cursos seqüenciais
A Comissão de Especialistas no Ensino de Jornalismo (CEEJor) encaminhou ao Ministério da Educação documento em que se posiciona sobre os cursos seqüenciais de Jornalismo. Eis o texto:
A Comissão de Especialistas de Ensino de Jornalismo aprovou, em 2 de julho de 1999, o seguinte parecer:
1. Sobre os cursos seqüenciais
Os cursos seqüenciais são regulamentados pela Resolução CES no 1, de 27 de janeiro de 1999, com base no Parecer CES 968/98, de 17 de dezembro de 1998, que retifica o Parecer CES 672/98.
Nos termos da Resolução CES no 1, os cursos seqüenciais definem-se por campos de saber, "conjunto de atividades sistemáticas de formação, alternativas ou complementares aos cursos de graduação" (Artigo 1º), destinando-se à "obtenção ou atualização de qualificações técnicas, profissionais ou acadêmicas ou de horizontes intelectuais em campos das ciências, das humanidades e das artes" (Artigo 2º). São de dois tipos:
1. "os cursos superiores de formação específica, com destinação coletiva, conduzindo a diploma":
2. "os cursos superiores de complementação de estudos, com destinação coletiva ou individual, conduzindo a certificado". (Artigo 3º)
Os cursos de formação específica, que conduzem a diploma, estarão sujeitos a processos de autorização e reconhecimento, ressalvada, quanto à primeira, a autonomia de universidades e centros universitários. A carga horária não poderá ser inferior a 1.600 horas ou 400 dias letivos (Artigo 5º). Dos diplomas, expedidos pela instituição que ministrou o curso e que serão registrados nos termos da resolução CES no. 3/97, deverá constar a informação de que se trata de curso superior de formação específica. (Artigo 8º).
Será exigido dos alunos dos cursos seqüenciais o certificado de conclusão do ensino médio, salvo, em casos excepcionais, nos cursos em que mais de metade da carga horária exigida for integrada por disciplinas da área de artes. (Artigo 12º, Parágrafo único).
O Parecer 968/98 é bastante esclarecedor quanto à abrangência e finalidades dos cursos seqüenciais, particularmente daqueles de formação específica. Nele se lê:
1. "A nova figura caracteriza-se inicialmente por ser uma modalidade à parte dos demais cursos de ensino superior, tal como até hoje entendidos. Enquanto modalidade específica, distingue-se dos cursos de graduação e com estes não se confundem. Os cursos seqüenciais não são de graduação. Os primeiros estão contemplados no inciso I do art. 44, anterior ao inciso II, que trata dos cursos de graduação. Ambos, seqüenciais e de graduação, são pós-médios e portanto de nível superior. Mas distinguem-se entre si na medida em que os de graduação requerem formação mais longa, acadêmica ou profissionalmente mais densa do que os seqüenciais." (fls. 2)
2. Já se viu que os campos de saber dos cursos seqüenciais, conceito novo na legislação educacional brasileira, não se identificam com as tradicionais áreas do conhecimento, com suas aplicações ou com as áreas técnico-profissionais nas quais costumeiramente diplomam-se nossos estudantes. A definição do inciso I do art. 44, de que eles terão diferentes níveis de abrangência, sugere que campos de saber podem constituir-se a partir de elementos de mais de uma das áreas do conhecimento, de mais de uma de suas aplicações ou de mais de uma das áreas técnico-profissionais; campos de saber também podem estar contidos numa destas áreas do conhecimento, numa de suas aplicações ou numa das áreas técnico-profissionais." (fls. 7)
E, particularmente, quanto aos cursos de formação específica:
1. "Noutra situação, o curso seqüencial é concebido por uma instituição de ensino. Este será um curso novo, experimental ou regular, de menor duração do que um curso de graduação, e será oferecido a todos os que por ele se interessem, atendendo a demandas da mais variada sorte. Neste caso diz-se que o curso tem destinação coletiva. Ele abrangerá igualmente um campo de saber, isto é, um recorte específico de uma área do conhecimento, ou de suas aplicações, ou de uma área técnico-profissional ou, ainda, uma articulação de elementos de uma ou mais destas. A aprovação neste conjunto de disciplinas ensejaria a obtenção de um certificado." (fls. 8)
2. "Dos cursos de destinação coletiva com maior duração, pelo menos dois anos letivos, e que eventualmente possam servir a algumas das finalidades antes mencionadas, pode-se dizer que cumprem a função de oferecer formação específica em algum campo de saber. São cursos superiores, porém não de graduação; oferecem formação básica num campo de saber, mas não formação no nível de graduação numa área do conhecimento, numa de suas aplicações ou numa área técnico-profissional. A conclusão com êxito dos estudos dará direito a diploma de curso superior, mas não de graduação." (fls. 10)
2. Cursos seqüenciais no âmbito do Jornalismo
Fica evidente, da leitura dos textos acima, que os cursos seqüenciais, voltados para campos de saber e não áreas de conhecimento, não foram concebidos para substituir ou sobrepor-se a cursos de graduação existentes, nem habilitam ao exercício de profissões regulamentadas para as quais é exigida, de longa data, a formação superior plena, como é o caso do Jornalismo.
Ainda assim, e em decorrência da criação de um curso seqüencial com formação específica em Jornalismo pela Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro – no exercício de sua autonomia universitária –, o conflito entre os dois tipos de formação superior está colocado.
Em estudo encaminhado à SESu/MEC, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) comenta que "a descuidada redação da Resolução no 1 do CES, de 27 de janeiro de 1999, contrariando o parecer que a originou, autoriza na prática a criação de cursos superiores de dois anos de duração destinados à obtenção de qualificação profissional em qualquer área. O texto da Resolução não atenta apenas contra a regulamentação profissional do jornalista, mas também contra a do médico, do advogado, do engenheiro, do arquiteto e de todas as demais profissões de nível superior regulamentadas por lei. Isto porque todas essas regulamentações, por serem anteriores à invenção dos cursos seqüenciais, referem-se genericamente à exigência de diploma de curso superior, e não de "curso superior de graduação"."
E prossegue:
"O Decreto no 83.184, de 13 de março de 1979, que dá nova regulamentação ao Decreto-Lei 972/1969, que dispõe sobre o exercício da profissão de jornalista, estabelece que o registro profissional se fará no Ministério do Trabalho mediante a apresentação de diploma de curso de nível superior de Jornalismo ou de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, fornecido por estabelecimento de ensino reconhecido na forma da lei. O espírito da lei era o de exigir diploma de curso de graduação, mas, como isso não ficou explicitado em seu texto, a regulamentação posterior dos cursos seqüenciais por uma Resolução que não faz as devidas ressalvas a esse tipo de situação presta-se a interpretações equivocadas que, utilizadas de má-fé, poderão gerar conflitos com todas as profissões regulamentadas de nível superior, como já causou no caso do Jornalismo como curso seqüencial da Universidade Estácio de Sá."
A Fenaj sugere a correção de ambigüidades na redação da Resolução CES no 1 de 1999, estabelecendo claramente as distinções entre cursos seqüenciais e cursos de graduação e salientando que os cursos seqüenciais não habilitam para o exercício de profissões regulamentadas que exigem diploma de curso superior. Pede que se faça distinção clara entre áreas de conhecimento e campos de saber e conclui:
"Por fim, a Resolução deve se preocupar em evitar a possibilidade de propaganda enganosa, estabelecendo que, junto com a divulgação dos cursos, e com o mesmo destaque do anúncio de sua realização, se esclareça ao público que não habilitam ao exercício de profissão regulamentada. A Resolução deve determinar também que esta informação conste do certificado ou diploma expedido."
3. Critérios propostos pela CEEJor
Para que fique claro o entendimento das diferenças entre cursos de graduação e cursos seqüenciais – tal como estipula o Parecer 968/98, e objetivando impedir que a instituição dos cursos seqüenciais, com sua vocação de interdisciplinaridade e flexibilização, dê margem a propaganda enganosa, a Comissão de Especialistas de Ensino de Jornalismo entende necessária a fixação de alguns critérios:
1. Nenhum curso seqüencial poderá ter a denominação "Jornalismo" ou apresentar-se como tal, o que caracterizaria propaganda enganosa. Em sentido mais amplo, sugerimos que nenhum curso seqüencial possa denominar-se da mesma forma que cursos de graduação, particularmente aqueles que correspondem a profissões regulamentadas;
2. Há, no entanto, possibilidade de integração de disciplinas dos cursos regulares de graduação em Jornalismo nos programas e conteúdos de cursos seqüenciais.
Para explicitar melhor a proposição (b), imaginamos (e até mesmo propomos a criação, se houver instituições interessadas) dois cursos seqüenciais, que servirão como exemplo.
O primeiro deles, somando conteúdos de Jornalismo e de ciências agrárias, seria o de extensionista rural, para o amplo mercado que se abre na produção e veiculação de mensagens destinadas a produtores rurais, particularmente em pequena escala e suplementando contatos pessoais.
Outro, articulado com conteúdos do curso de graduação em assistência social, seria o de agente de informação comunitária, destinado a suprir a demanda de pequenos veículos locais voltados para a promoção humana, tais como rádios e boletins comunitários.
Em ambos os casos, e nos demais que se perfilem com o mesmo parâmetro, os objetivos são de atendimento a demandas existentes, mas sem conflito com a atuação dos jornalistas, profissionais cuja formação, pela própria natureza do ofício, deve ser aprimorada na graduação e ampliada por programas de pós-graduação.
Crítica a Tambosi
Elisa Sayeg (*)
Gostaria de comentar texto que li neste site, "A ‘comunicologia’ e as modas ‘pós-modernas’", de Orlando Tambosi. Não sou da área de jornalismo, não sei que tipo de teoria jornalística deveriam ensinar em seus cursos, mas acho que o artigo de Tambosi é superficial.
Por exemplo, nos trechos abaixo incluídos, ele rejeita Donna Haraway, Helen Longino, Seyla Benhabib e Evelyn Fox Keller. Coincidentemente, todas feministas. Acho que aí já é um viés ideológico. Mas, fora isso, acho meio difícil rejeitá-las "em bloco", como se dissessem a mesma coisa.
Por exemplo, pelo que já li de Seyla Benhabib, ela é muito diferente de Donna Haraway, não há como comparar. Aliás, ela organizou um livro com a participação de Habermas, tem diálogo com Habermas. Ou o professor Tambosi também rejeita Habermas? Isso ele não deixou claro.
Haraway assusta
Aparentemente, as críticas de Helen Longino e Evelyn Fox Keller também são fundamentadas, e estão dentro de uma tradição anterior de crítica à ciência, que é importante conhecer hoje em dia. Já Donna Haraway pode de fato assustar aos proseadores acadêmicos mais convencionais. Mas quem consegue ler seus textos acaba percebendo a relevância de suas críticas.
Bem, não sou especialista em nenhuma dessas autoras, só li por curiosidade, mas julgando pelo que li a crítica do referido professor me pareceu superficial. Pior ainda é quando ele comenta o livro de Sokal e Bricmont. Diz que Sokal e Bricmont criticam Foucault, Deleuze, Guattari, Baudrillard e Latour... bem, pelo que Sokal e Bricmont mesmo admitiram, quando vieram para um colóquio na USP no ano passado, eles não criticam esses autores "em bloco", mesmo porque não são especialistas. Eles criticam certos abusos discursivos desses autores, que usariam termos "complicados" indevidamente, para obscurecer a comunicação, bem como usam termos técnicos que não entendem, originados da física e da matemática. Pelo menos essa é a crítica que fazem a Lacan, Kristeva etc.
Concepção limitada
Finalmente, Sokal e Bricmont estão longe de serem autoridades em ciências humanas. Pelo que deu para perceber, eles conhecem apenas superficialmente as ciências humanas. Assim, tudo o que podem fazer é tentar entender o discurso das ciências humanas usando o seu referencial de físicos, físicos teóricos. Mas quem disse que a ciência humana pode ou deve ser reduzida aos métodos das ciências exatas? Essa é uma concepção limitada. Não quer dizer que a ciência humana não possa ser rigorosa, pertinente etc., mas deveria ter uma metodologia própria, e não "colada" da física.
Mas a superficialidade do texto do professor Tambosi se revela, principalmente, ao agrupar todos os autores citados sob o rótulo de "pós-moderno", que não esclarece nada. Trata-se de uma forma fácil de rejeitar um conjunto de textos e autores diferentes, que não se tem tempo de analisar detidamente, atribuindo-lhes um rótulo que funciona como uma espécie de xingamento. No fundo, acho que o problema é esse: não existe o "pós-moderno" que esse professor ataca.
Acho que o artigo seria mais útil se o professor apresentasse, de fato, quais as teorias que ele gostaria de ver ensinadas no curso de Jornalismo, em vez de repetir slogans fáceis contra autores que, até análise mais detalhada, são sérios e muito diferentes uns dos outros.
Por fim, talvez as teorias que ele gostaria de ver ensinadas possam conviver com as dos autores acima citados, ou pelo menos, poderiam dialogar com elas, incentivando nos alunos o espírito crítico.
(*) Psicóloga
Trechos do artigo:
Nos EUA, os nomes preferidos são Aronowitz, Shapin, Ross, Sandra Harding, Donna Haraway, Helen Longino, Seyla Benhabib, Evelyn Fox Keller, amplamente citados em teses acadêmicas. Mas os franceses Foucault, Deleuze, Guattari, Baudrillard e Latour são alguns dos nomes mais festejados - estes, justamente criticados pelos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont em seu livro Imposturas intelectuais (Rio de Janeiro, Record, 1999). Coisa de "francófobos", limitaram-se a desconversar os filósofos franceses.
Teoria da devastação
Estamos no coração da cultura "pós-moderna" - hostil a noções como "objetividade", "realidade", "verdade" - para a qual o "real", os "fatos" que as ciências buscam conhecer não passam de "construtos sociais". Mero discurso ou "narrativa", a ciência é ideológica, isto é, instrumento de dominação de uma civilização "branca", "eurocêntrica", "opressora", "machista", "heterossexual" etc. (a respeito, ver também Higher superstition - The academic left and its quarrels with science, de Paul Gross e Norman Levitt, Baltimore, John Hopkins University Press, 2ª ed., 1998 - livro que, aliás, inspirou Sokal e Bricmont).
A psicóloga e o
relativismo bárbaro
Orlando Tambosi (*)
A psicóloga Elisa Sayeg confessa não conhecer a "área de jornalismo" nem ser "especialista" em qualquer das autoras que, no texto que tanto a incomodou, nomeio apenas a título de ilustração. Ela lê tais autoras – "coincidentemente, todas feministas" – por mera "curiosidade". Cessa aí a falsa modéstia da psicóloga, que (traço típico do estilo "pós-moderno"), passa a dar palpites sobre tudo e a disparar adjetivos contra meu pequeno artigo, segundo ela, "superficial", "ideológico" etc.
Em relação ao feminismo, que sequer menciono (também não sou especialista no assunto), o texto é superficial, sim. Por não ser estranho à "área de jornalismo" – nem tampouco à de comunicação, diga-se –, sei que o Observatório não é lugar para tratados ou dissertações acadêmicas, mesmo que o tema fosse o feminismo. O fato é que, embora não explicite, Sayeg toma as dores dos "comunicólogos". Não me refiro aqui aos professores de teoria da comunicação, disciplina que também lecionei durante anos, mas aos que privilegiam, em seus eternos e monocórdios "tópicos especiais em comunicação", o relativismo bárbaro de algumas vertentes ideológicas do pensamento contemporâneo (não excluídas, é claro, algumas pregações feministas).
Não é relativismo bárbaro afirmar que a ciência moderna, particularmente a física, é "não apenas sexista, mas também racista, classista e culturalmente repressora"? (Sandra Harding, The Science Question in Feminism, Cornell University Press, Ithaca, N. Y., 1986); ou que os cientistas "torturam a natureza" (por exemplo, a matéria no acelerador de partículas) para dela extrair seus segredos? (E. Fox Keller, em entrevista a Bill Moyers, cit. em Higher Superstition, de P. Gross e N. Levitt, John Hopkins University Press, Baltimore, 1998). São teses que repercutem na província. "Não é demais reafirmar", diz E. Rago no ensaio "Epistemologia feminista, gênero e história", "que os principais pontos da crítica feminista à ciência incidem na denúncia de seu caráter particularista, ideológico, racista e sexista". E acrescenta: as ciências partem de um "conceito universal de homem, que remete ao branco-heterossexual-civilizado-do-Primeiro-Mundo" (em Masculino, feminino, plural, Joana M. Pedro e Miriam P. Grossi (Orgs.), Editora Mulheres, Fpolis., 1998). É isto que Sayeg considera "crítica fundamentada" e "relevante"?
Ataque às ciências
Pouco cuidadosa com os conceitos, Sayeg confunde crítica com "rejeição". Não rejeito os autores e autoras citados, nem acho que formem uma escola ou "bloco" homogêneo, mas critico a visão anticientífica comum à maioria deles. Feminista ou não, o relativismo é uma das faces do amplo ataque às ciências (e às tecnologias) insistentemente denunciado por filósofos e cientistas em todo o mundo, principalmente nos EUA (ver, por exemplo, Science and anti-science, de Gerald Holton, Harvard University Press, Cambridge, Mass., 1994). Trata-se, na verdade, de um rebotalho da metafísica e do antropocentrismo, filosoficamente destroçados já por Hume e Kant, a partir da separação – moderna – de "fatos" e "valores", ou seja, de ciência e ética. Não bastasse isso, depois ainda veio Darwin...
Abra-se uma dissertação ou tese recente, na área das chamadas ciências humanas, e não será difícil encontrar, na bibliografia, pelo menos um dos autores por mim referidos no texto que causou mal-estar à psicóloga. É o tributo à moda pós-modernista, com sua persistente confusão de ciência e ideologia, suas cansativas e obscuras metáforas, seu estilo esotérico e auto-referente, suas pregações subjetivistas e arrogantes, sua aversão à clareza e sua hostilidade a conceitos como objetividade, verdade etc.
"Não existe o ‘pós-moderno’", pontifica Sayeg. Se com isto ela quer dizer que não estamos na "pós-modernidade" (cito sempre entre aspas), concordo plenamente. Mas o pós-modernismo, apesar de sua variedade e ambigüidade (define-se, basicamente, por oposição ao que se supõe ser a modernidade), é tema constante tanto na academia quanto na mídia, com o beneplácito da "comunicologia". A psicóloga deve saber que, desde o velho O pós-moderno, de Jean-François Lyotard (Rio de Janeiro, J. Olympio, 1986), a literatura sobre o assunto tem sido abundante. The Cambridge Dictionary of Philosophy, org. por Robert Audi, e The Oxford Companion to Philosophy, org. por Ted Honderich (ambas as edições de 95), abrem interessantes verbetes para o pós.
Alguns dos autores que enumerei – e que são citados também por Sokal e Bricmont em seu Imposturas intelectuais – freqüentam assiduamente universidades, revistas acadêmicas e cadernos culturais de jornais brasileiros. Entre eles, o onipresente Baudrillard e o "sociólogo da ciência" Bruno Latour (cujo relativismo não vê grande diferença entre ciência e ficção), este um dos colaboradores da seção Autores, no caderno Mais da Folha de S. Paulo.
Sem medo de Donna Haraway
Por fim, Sayeg critica Sokal e Bricmont, que, por não serem "especialistas" em ciências humanas, conheceriam essas disciplinas apenas "superficialmente". Não são "autoridades", diz ela. Mas é preciso invocar a "autoridade" para analisar as imposturas de alguns intelectuais das humanidades? Quem seria "autoridade" em ciências humanas? Os relativistas "pós-modernos"? Ou, quem sabe, o filósofo Habermas, que a psicóloga insere gratuitamente no seu texto, talvez para socorrer a pouca "autoridade" de Seyla Benhabib ("ela organizou um livro com a participação de Habermas, tem diálogo com Habermas"!)?
A respeito, repito o que disse no texto anterior: em suas respostas, os "impostores" franceses apenas desconversaram. Em caso de dúvida, basta consultar o vasto material – inclusive de publicações brasileiras – reunido na página de Sokal na Internet <www.physics.nyu.edu/faculty/sokal/index.html).
Que os citados autores não são epistemólogos, eles próprios reconhecem. Nem pretendem – como não pretendo – que as humanidades sejam "reduzidas aos métodos das ciências exatas". Mas ficam as incômodas questões: que ciências são estas que praticam o "reducionismo cultural"?; que ciências são as que se confundem com ideologias?; que ciências são aquelas que negam a objetividade do conhecimento?; que ciências são, finalmente, as que reduzem a realidade à história?
Como a psicóloga já deve ter percebido, faço parte, de fato e com prazer, da fileira de "proseadores acadêmicos mais convencionais". Gosto dos clássicos, acredito que o conhecimento tem fundamentos, não desprezo as ciências naturais e nem acho que o melhor do pensamento contemporâneo surgiu da confusa contracultura dos anos 60. Enfim, aprecio todas essas coisas que as feministas/pós-modernistas/relativistas de Sayeg acusariam de preconceituosamente heterossexuais.
E, sobretudo, não me assusto com Donna Haraway.
P.S.: A quem quiser se divertir com o estilo "pós-moderno" de produção de textos, recomendo o Postmodernism Generator, de Andrew C. Bulhak <www.csse.monash.edu.au/community/postmodern.html>. A cada clique, ele produz uma nova "dissertação", inclusive com títulos e bibliografia.
(*) Professor de Filosofia e Ética do Curso de Jornalismo da UFSC e autor de O declínio do marxismo e a herança hegeliana. Lucio Colletti e o debate italiano (1945-1991), Florianópolis, Edit. da UFSC, 1999.
CARTAS
Jornalistas vs. comunicólogos
Não é difícil perceber que o nobre professor Albuquerque não é jornalista. Precisou de seis laudas para replicar modestas dez linhas de um "desagravo antecipado". Bem diferente do professor Orlando Tambosi, de quem tive o prazer de ser aluno na UFSC, que pôs o dedo na ferida da discussão em singelas duas laudas. Por trás disso tudo está a discussão de quem é sério e quem não é no trato com a gurizada que entra cada vez mais cedo na universidade. Prometo para a próxima edição deste Observatório artigo contando a todos algumas historinhas muito interessantes sobre como pensam e agem os professores não-jornalistas da UFSC (sim, eles também grassavam por lá), a que todos os universitários são submetidos (infelizmente).
Paulo Henrique de Sousa
Aula de Afonso
Sobre a polêmica dos comunicólogos: nos seus longos artigos sobre o tema, o doutor Afonso de Albuquerque nos deu uma verdadeira aula. Aula de como falar, falar e não dizer nada - tipo de coisa, aliás, que cansei de presenciar em certas disciplinas do curso de "comunicação social".
Maurício Oliveira, jornalista
Afonso Albuquerque responde: Obrigado ao O.I. por me escrever. Não há nada no texto do jornalista Maurício Oliveira, porém, a que eu possa responder. Ele não gostou do meu texto nem do seu curso de "comunicação social". É direito dele... Um abraço, A.A.

Padrões de qualidade para os cursos de Jornalismo
II Encontro Latino-Americano de Ensino de Jornalismo
Diretrizes Curriculares para os cursos de Comunicacão
A ‘comunicologia’ e as modas ‘pós-modernas’
Afonso Albuquerque
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