|
DIRETÓRIO
ACADÊMICO
REALIDADE
A revista que mudou
a imprensa brasileira
Entrevista de José Salvador
Faro a Victor Gentilli
Em 1966, a realidade da imprensa
brasileira era bastante diferente da de hoje. O golpe militar de 1964 tinha
apenas dois anos, o país fervilhava, o debate político era
intenso, rico e polarizado; os padrões culturais e familiares tradicionais
enfrentavam suas primeiras contestações. O Brasil não
tinha nenhum desses novos apetrechos da modernidade, mas também
não tinha revistas semanais de informação (tinha O
Cruzeiro , Manchete e outras), a televisão era em preto-e-branco,
com muito pouco videotape (chegado em 1960).
A efervescência cultural
da época tinha na mídia certa correspondência. No Rio,
o Jornal do Brasil vivia um de seus momentos de esplendor, sob o
comando de Alberto Dines. Em São Paulo, Cláudio Abramo dirigia
o Estado de S.Paulo , e Mino Carta, que criara Quatro Rodas
para a Editora Abril, em 1960, lançava o filhote Jornal da Tarde
.
Veja só seria lançada
em setembro de 1968, dois meses antes do AI-5.
É nesta conjuntura que a Editora
Abril lança Realidade , uma revista mensal de grandes reportagens,
que iria mudar o jeito de fazer jornalismo no Brasil. Um jornalista podia
ficar meses numa tribo indígena para produzir uma reportagem. A
revista foi um sucesso. Suas edições pautavam os grandes
temas em debate na sociedade; tratavam de política, de comportamento,
de sexo. Edições sobre a juventude brasileira e sobre a mulher
brasileira esgotavam-se nas bancas. Esta última foi apreendida pela
Polícia Federal sob o argumento de pornografia: era a primeira foto
de um parto publicado na imprensa brasileira. Mas a apreensão não
serviu de nada. Um dia depois da distribuição nas bancas,
quando os policiais foram buscar as revistas proibidas, não havia
mais o que recolher: a edição se esgotara.
A rigor, Realidade durou
apenas três anos. O AI-5 transformara a revista num arremedo de si
mesma, embora até 1972/73 o projeto conseguisse sobreviver com todas
as dificuldades.
Em 1976, a Editora Abril deixou
de publicar Realidade .
O professor José Salvador
Faro, da Universidade Metodista, ex-presidente da Intercom, publica em
livro sua tese de doutoramento defendida em 1996: "Revista Realidade
1966-1968: Tempo de reportagem na imprensa brasileira", Editora da Ulbra,
AGE Editora, 1999, 285 pgs. Nesta entrevista ao Observatório
da Imprensa , Faro fala sobre sua pesquisa e seu livro.
Observatório da Imprensa
- Por que escolher Realidade
como objeto de estudo?
José Salvador Faro - A
revista da Editora Abril representa um momento importante na história
do jornalismo brasileiro, tanto pela pauta das questões que reportou
quanto pela forma como o fez. Os profissionais que a produziram estiveram
atinados para os problemas de seu tempo, investigando-os em profundidade,
elaborando matérias de alto nível interpretativo se se quiser
classificar de alguma forma o gênero do jornalismo da revista. Além
disso, trabalharam com códigos narrativos que extrapolavam os limites
do texto convencional, inúmeras vezes no limite da ficção
e da abordagem literária. Realidade , em parte por isso,
acabou se transformando numa referência para os estudiosos da imprensa
brasileira, embora não sejam muitos os estudos sistematizados sobre
o fenômeno que ela representou na verdade, recuperando algumas linhas
que já estavam consolidadas na história da nossa imprensa.
Minha preocupação, dessa forma, foi tentar entender a variedade
de causas que contribuíam para o resultado final que era atingido
todos os meses, no período 1966-1968, os três anos de "ouro"
da revista. Refiro-me tanto aos resultados jornalísticos quanto
aos resultados de penetração junto ao público. No
meu trabalho, atribuo o êxito da revista à sintonia que seus
jornalistas mantinham com a extensa pauta de temas de meados dos anos 60,
no Brasil e no mundo. Penso que não se pode compreender o que aconteceu
com a imprensa e com o jornalismo brasileiro nas últimas décadas
sem entender a experiência de Realidade .
O.I. - Você
poderia descrever a história da revista e seu significado cultural
e político para a realidade brasileira na época?
J.S. Faro - Realidade
surgiu em abril de 1966, depois de um estudo cuidadoso que a Editora Abril
encomendou ao Inese com base no número experimental da publicação.
A Abril já vinha ensaiando a produção de uma revista
de reportagens, e Quatro Rodas parece ser um exemplo disso. A rigor,
no entanto, a explicação para o surgimento de Realidade
também deve ser procurada no próprio desenvolvimento do jornalismo
brasileiro, que já guardava alguma tradição no gênero
investigativo em outras revistas (O Cruzeiro , Senhor ) e
de jornais (o melhor exemplo é o Jornal da Tarde , também
surgido em 1966). Na medida em que reportava temas que diziam respeito
ao complexo de valores em transição na época, acredito
que a revista levando em conta o sentido revelador e transgressor de sua
pauta deve ter contribuído para intensificar a mudança de
padrões de comportamento que se assistia na sociedade brasileira,
que já vivia as conseqüências contraditórias do
processo de modernização iniciado no pós-guerra. Do
ponto de vista político, é preciso lembrar que o Estado brasileiro
começava a estruturar o feitio militar e totalitário que
viria a adquirir após 1964 e que se consolidou com o Ato Institucional
n 5, em 1968. O impacto da revista, portanto, não era só
cultural, era também político, porque as reportagens da revista
colocavam seu público-leitor fora da órbita da ideologia
conservadora dos grupos que haviam dado o golpe que derrubou João
Goulart.
O.I - Como se configurava
o sistema midiático brasileiro antes de Realidade?
J.S. Faro - A própria
revista deu conta das mudanças que se processavam no "sistema midiático
brasileiro", apontando o novo papel que a televisão passava a ter
no cotidiano das classes médias e de alguns segmentos populares.
Além disso, já se assistia nos anos 60 à formação
de complexos empresariais de mídia embora nem todos eles estivessem
adequados às exigências da racionalidade operacional do capitalismo,
como era o caso dos Diários Associados de Assis Chauteaubriand.
Mas a própria Editora Abril que se consolidou como um império
editorial nessa época era um sintoma de que o "sistema" caminhava
para uma feição concentracionária, cujo momento culminante
parece que estamos atingindo agora. Na área da produção
impressa, tudo indicava que haveria uma tendência à segmentação
de publicações, a exemplo do que ocorre com revistas temáticas
e fascículos. A julgar pelas transformações das quais
Realidade foi contemporânea, acredito que a revista da Abril
vistas as coisas de agora tinha seus dias contados, levando-se em conta
os projetos existentes de revistas semanais de informação.
Nos anos posteriores, essas tendências se intensificariam, e o declínio
da revista pode ser explicado de duas formas convergentes: de um lado,
a impossibilidade de coexistência do projeto editorial de Realidade
com a estrutura do Estado policial e censor que se instalou no Brasil depois
de dezembro de 1968; de outro, o surgimento das revistas semanais de informação
no mundo inteiro, fenômeno do qual Veja foi o exemplo mais
expressivo para o Brasil. Quando Realidade deixou de ser publicada
em 1976, os traços mais gerais do "sistema midiático" brasileiro
hoje existente já estavam delineados.
O.I. - Você
saberia dizer por que nenhum outro pesquisador se interessou pelo estudo
da revista antes de você?
J.S. Faro - Há outros
trabalhos acadêmicos sobre Realidade . Tenho notícia
de uma tese de doutorado defendida no Instituto de Estudos da Linguagem
da Unicamp pelo professor Valdir Heitor Barzotto. E há também
as teses de Edvaldo Pereira Lima e de Terezinha Tagé Fernandes,
ambas defendidas na ECA/USP. No primeiro caso, trata-se de um estudo do
discurso da revista, e parece que seu autor chegou a conclusões
diferentes das minhas. Não li esse trabalho, que foi apresentado
depois de concluído o meu, que é de 1996. Nos dois outros,
a pesquisa de Edvaldo refere-se às condições de produção
do livro-reportagem, mas o autor, que é professor da ECA/USP, procurou
historiar o jornalismo investigativo na imprensa brasileira e, nesse caso,
teve que passar pela análise da experiência da Editora Abril.
Terezinha Fernandes, também professora da ECA/USP, analisou os textos
produzidos por Jorge Andrade na revista, já em anos posteriores
a 1968. Sei também de alguns outros projetos que foram ensaiados,
mas não concluídos. De qualquer forma, as referências
a Realidade são sempre inevitáveis quando se pensa
na imprensa brasileira contemporânea, o que significa dizer que os
pesquisadores se interessam pela revista, embora possam não ter
transformado esse interesse em objeto de pesquisa como aconteceu comigo.
Mas há ainda muito mais a ser analisado. Meu estudo se restringe
aos três primeiros anos de Realidade , o que significa dizer
que a maior parte da sua produção exceção feita
à tese de Terezinha Fernandes permanece ainda sem um estudo que
desvende o comportamento que ela teve até 1976, quando deixou as
bancas.
O.I. - O subtítulo
de seu livro diz "Tempo de reportagem na imprensa brasileira". O que significa
isso? Você acha que já passamos do "tempo da reportagem"?
J.S. Faro - O subtítulo
do livro procura indicar um tempo em que, como diz um dos jornalistas da
revista em depoimento que eu transcrevo, "era possível ousar". Ele
diz isso naturalmente se referindo à experiência profissional
que teve na própria revista. Mas quem se dispuser a olhar com atenção
a imprensa da época, percebe que se trata de um período muito
rico para o jornalismo brasileiro: além do Jornal da Tarde
, havia a Folha da Tarde , O Cruzeiro , a revista Senhor
, e os próprios jornais diários mais tradicionais Correio
da Manhã , Jornal do Brasil abriam espaço para
o texto investigativo, que é a estrutura mesma da reportagem. O
ambiente político e cultural vivido pelo Brasil favorecia isso.
Realidade é a sua expressão, daí por que eu
identifico na sua prática um momento da imprensa brasileira muito
especial, fruto de uma determinada conjuntura. No livro eu digo que essa
experiência era irrepetível, porque o conjunto de todos os
seus fatores evidentemente não vai se repetir. O que não
significa que não exista espaço para a reportagem, mas o
"tempo" desse gênero tomada aqui a categoria "tempo" como um conjunto
de circunstâncias já passou. A imprensa brasileira hoje produz
bons exemplos de jornalismo investigativo, e há mesmo alguns profissionais
ainda atuantes que viveram Realidade e que carregam nos seus projetos
atuais toda a experiência daquele "tempo". Mas acho que é
mais difícil, porque falta aquela "ligação" com o
complexo das forças sociais, no Brasil e no exterior. Depois, a
própria imprensa passou por mudanças sensíveis nos
últimos anos, mudanças dotadas de uma filosofia mais próxima
da administração empresarial do que das demandas culturais
e políticas do jornalismo.
O.I. - Como você
entende este relançamento extemporâneo de Realidade?
Foi só para ajudar a divulgação do seu livro?
J.S. Faro - Eu não
tinha o menor conhecimento da iniciativa da Abril, embora do meu ponto
de vista tenha sido uma feliz coincidência, porque esse exemplar
antológico que está nas bancas pode estimular muitas pessoas
a ler o livro especialmente professores e estudantes de jornalismo que
nunca tiveram a oportunidade de "ver" a revista. Não imagino o que
possa ter levado a Abril a lançar essa edição comemorativa,
até porque se uma comemoração se justificasse ela
deveria ter ocorrido em 1996, quando o lançamento de Realidade
completou 30 anos. Mas eu teria talvez selecionado outras matérias
para uma publicação desse tipo: a antologia da Abril não
chega a mostrar inteiramente o que foi a revista: falta ali uma contextualização
mais apurada da publicação e das próprias reportagens
escolhidas. De qualquer forma, é uma iniciativa que tem um sentido
histórico importante no sentido de que resgata, de alguma forma,
uma das maiores experiências da imprensa brasileira.
PROVÃO
Acusação de professora
é exemplo de
baixo jornalismo
Alberto Dines
A nota da professora Sylvia Moretzsohn
publicada em nossa edição anterior [veja remissão
abaixo ] é uma demonstração cabal do despreparo
de comunicadores, comunicólogos ou pesquisadores de comunicação
para enfrentar as responsabilidade jornalísticas. Não discuto
os méritos acadêmicos da professora, mas a peça que
produziu e ofereceu publicamente aos seus alunos é exemplo de baixo
jornalismo. Denuncismo solerte. Falta de cuidado em investigar. Agressão
à ética qualquer ética, acadêmica ou jornalística.
Fiz parte de uma comissão
de padrões e paradigmas que se reuniu em 1997 para estabelecer os
conceitos em torno dos quais seria montado o Provão de Jornalismo.
Essa comissão não preparou o questionário
do provão, entregue a outro grupo de profissionais, especializados,
e cujos nomes foram mantidos em segredo.
Nos anos seguintes fui honrado com
o convite para continuar participando desta comissão de padrões
e paradigmas mas, infelizmente, em função de compromissos
profissionais, jamais consegui assistir a alguma das reuniões. De
qualquer forma, o questionário continuou sendo preparado por outro
grupo de profissionais cujos nomes a comissão de padrões
continuou ignorando.
Os procedimentos do grupo que prepara
os questionários para resguardar o segredo são públicos
e notórios. Qualquer acadêmico mesmo não sendo jornalista
tem o dever de conhecê-los.
Ao insinuar que eu tenha me valido
da condição de membro (ausente) de uma comissão para
promover um livro de minha autoria (editado há um quarto de século!)
num questionário preparado por pessoas que nem conheço, a
professora Moretzsohn mostra como aqueles que estão aferrados à
"análise do discurso" se distanciaram da alavanca primordial da
atividade jornalística a busca da verdade.
Em outra oportunidade pretendo me
manifestar sobre a questão que levou a professora Moretzohn a tão
descabida acusação.
ESPECIALISTAS
O imaginário in extremis
João Brito de Almeida (*)
Quando a coisa encrespa em
qualquer debate nas mídias, sempre existe o que busca na memória
ou no bolso do colete uma entre bilhões de leis, decretos e quejandos
existentes no país. Talvez seja interessante no meio deste bolsão
de boas idéias, saudável discussão e alguns desculpáveis
exageros, acionarmos o balizamento burocrático de portaria específica
e da LDB, ambas consultadas no site do Ministério da Educação.
A portaria é a 972,
de 22 de agosto de 1997, gerada nos salões do MEC. No artigo 40,
sob o título "Criar Comissões de Especialistas" está
definido que o "processo de escolha da Comissão de Especialistas
de uma determinada área de atuação se dará
por indicação das coordenações dos cursos de
graduação reconhecidos das Instituições que
também ofereçam programas de pós-graduação
stricto-sensu, na mesma área de atuação da comissão".
Corre-se o risco de estimular o imaginário
a tal ponto que a bola volte ao centro e se inicie uma nova disputa em
torno da interpretação do texto legal [ver abaixo remissão
para o artigo "Jornalismo imaginário"].
Da leitura da Lei de Diretrizes
e Bases que, como soe acontecer, varou anos no Congresso, lá no
capítulo IV Da Educação Superior, art. 52, no que
se refere a currículos, pode-se destacar literalmente que "são
asseguradas às universidades as seguintes atribuições...
: II - fixar os currículos dos seus cursos e programas observadas
as diretrizes gerais pertinentes".
Pode não ser a melhor
contribuição, mas como acompanhei as discussões sobre
a reforma de 1984 e desta que iniciou por volta de 94, em Taubaté,
Vila Velha, Campinas, nos intervalos dos Intercom e, mais recentemente,
em São Paulo, posso afirmar que hoje temos uma praça agregadora
virtual que permite a participação democrática dos
realmente interessados em melhorar a qualidade do ensino de Jornalismo
neste país.
Amplio este conceito para as demais
áreas da Comunicação, mesmo constatando que não
há, ou não é freqüente, a manifestação
dos colegas de publicidade/propaganda e de relações públicas
neste importante espaço de convivência profissional e acadêmica
proporcionado pelo Observatório da Imprensa . Se há
proibição, que se manifestem os professores Dines, Gentilli
ou Egypto.
(*) Professor
da Famecos
Nota do O.I.: Caro
professor, o Observatório é um espaço público
e nele não há proibição de espécie alguma,
excetuando-se os conteúdos pedófilos, racistas e nazi-fascistas.
ENECOM
O professor não viu
Rafael Fortes (*)
"Nada contra a Antropologia,
a Sociologia ou a Psicologia. No entanto, vemos um encontro nacional de
estudantes de Comunicação como este que se realiza agora
em Maceió, capital das Alagoas, estado nordestino brasileiro que
é um dos lugares mais miseráveis do universo, segundo no
ranking mundial de mortalidade infantil. E o que discutem esses estudantes?
As condições
históricas que conduziram a essa pobreza? A odiosa contradição
entre a miséria do povo alagoano e o luxo da orla marítima,
com sua alta concentração de automóveis caros, playboys,
drogas, pistoleiros e prostitutas? Especulam sobre a ameaça de intervenção
dos Estados Unidos na Colômbia? Meditam sobre o servilismo dos correspondentes
de guerra em Kosovo? Questionam a possibilidade de se estender a todos
os homens, ou à maioria deles, os avanços da ciência
e tecnologia modernas? Não. Discutem o sexto sentido, a holística
e o tarô." (Trecho do texto de Nilson Lage)
O 23 Enecom não foi (nem deveria
ser) o evento de maior densidade política do qual participei. Ainda
assim, foi possível trazer dele uma série de experiências
que, sem dúvida, me servirão para o resto da vida. O professor
Nilson Lage (da UFSC), ao que parece, está longe de saber o que
é a realidade de um Enecom. Principalmente deste Enecom, particularmente
muito bem organizado. Certamente o professor Nilson não sabe da
produção das oficinas, do quanto os estudantes aprenderam
em painéis, palestras e mesas-redondas. Do quanto puderam expressar
e aprender no convívio com outros estudantes de vários cantos
desse imenso Brasil. Desconhece a importância de ouvir, da boca de
outros alunos, relatos de como são as faculdades de Comunicação
do Brasil: em algumas, há material à vontade. Em outras,
falta praticamente tudo: bons professores, computadores etc.
O professor Nilson Lage não
deve ter ouvido sobre o grupo de estudantes que alugou um carro e dirigiu
durante horas em direção ao sertão. Viram, ouviram
e aprenderam, in loco , o que é a miséria do sertão,
da qual só ouvimos falar pelos meios de comunicação.
Não devem ter contado ao professor que alguns estudantes fizeram
um vídeo na favela ao lado do campus da UFAL.
O professor Nilson Lage provavelmente
não sabe que um grupo de estudantes do Rio, assustado e estimulado
pelo contato com a miséria como disse o Mário, da delegação
da Facha: "No Rio, nos acostumamos a ver pobreza; em Maceió, vimos
miséria" , resolveu se organizar para ajudar os que precisam.
O professor Nilson Lage, provavelmente,
não se deu ao trabalho de olhar sequer a programação
do Enecom, listada no folder que provavelmente chegou à universidade
onde ele dá aula. Tampouco deve ter visto a página do evento,
na rede há meses. Enfim, parece não ter a mínima idéia
do assunto sobre o qual escrevia. O que, convenhamos, não pega bem
para um professor.
Principalmente sendo um professor
de Jornalismo.
(*) Aluno do
6 período do Curso de Comunicação Social (habilitação
Jornalismo) da UFF <rfortes@nitnet.com.br>
Encontro é
o que fazemos dele
Carolina Ribeiro (*)
Fiquei receosa em comentar
a respeito da polêmica Enecom, pelo tempo já decorrido. Esse
caráter atualizatório da profissão jornalística
inibe algumas manifestações. Porém, sendo jovem e,
conseqüentemente, contestadora, resolvi opinar. Que seja essa uma
opinião "fria", quem sabe entra na ordem do dia se tiver uma vaguinha
sobrando. Afinal, Enecoms existem há mais de 20 anos, e creio que
não serão extintos tão cedo.
Bem... Maceió, agosto
de 1999. Dois mil estudantes de Comunicação reunidos na terra
de "Malboro", uma das localidades mais miseráveis do país,
aptas a participar do Encontro Nacional dos Estudantes. Além de
praia, maconha, sexo, bebidas alcoólicas e amnésias, tivemos
discussão, integração, aprendizado, trabalho comunitário,
vivência da realidade local e ato público. Nas "planárias"
algumas discussões, entre elas a de Diretrizes Curriculares, tão
insignificante que está pautada também neste fórum.
Uma outra discussão, também descartável, foi sobre
autonomia universitária, que adentrou em temas ridículos
como política educacional do governo, educação como
mera produtora de robôs subservientes ao justíssimo sistema
capitalista e o papel fantástico que os grandes meios de comunicação
desempenham na nossa maravilhosa sociedade de consumo. Uma grande inutilidade,
não é mesmo?
Após discutir essas
imbecilidades nas planárias, ops! plenárias, as poucas planárias,
ops! de novo, as poucas pessoas que não se renderam ao feitiço
das belas praias de Maceió andaram (vejam como são imbecis!)
30 metros até chegar a uma favela conhecida como Cidade de Lona,
na qual cerca de 1.000 famílias vivem em barracos cobertos de lona.
Pois é, enquanto isso o sol brilhava na Praia do Gunga. Um fato
curioso foi existirem uma escola e uma igreja na favela. Uma escola particular!
Muitas famílias não podiam colocar os filhos para estudar
lá, pois o dinheiro que arrecadavam no sinal de trânsito não
era suficiente para pagar os 4 reais de mensalidade. E ficaram lá,
aquelas planárias, brincando com crianças sujas e mal-alimentadas,
conversando com gente que não tinha a menor formação.
Pessoas que não faziam a menor
idéia de que a Antarctica e a Brahma haviam se fundido, mas sabiam
que existia muita coisa bizarra no mundo, graças ao único
eletrodoméstico existente na casa: a TV (funcionando às custas
de gatos que colocavam em risco toda a comunidade). Sim, não
pegava muito bem, mas assistiam ao Ratinho todo dia. "É um homem
bom, ajuda as pessoas. E diverte a gente." E alguns minutos depois, "com
a graça de Deus somos felizes, a única coisa que às
veiz incomoda é ficar com fome".
Um Enecom é aquilo que
fazemos dele. Já estou cansada dessa discussão entre o bem
e o mal, entre os engajados e os apáticos. As pessoas que se preocupam
com a realidade, que percebem as injustiças sociais e sentem uma
enorme necessidade de coletividade vão continuar tentando construir
um encontro em que existam espaços de discussão, seja sobre
formação do comunicador ou realidade sóciopolítica
brasileira. Vão continuar promovendo oficinas culturais de forma
a proporcionar a integração dos estudantes e despertar o
sentimento de conjunto. Vão continuar abrindo espaços para
que as realidades nuas e cruas sejam observadas, e sentidas!
Antes de finalizar, gostaria de comentar
a superficialidade com que o professor Nilson Lage tratou o tema do encontro
de Alagoas. A idéia, professor, era utilizar a Holística
como símbolo de convergência. Enfatizar os estudos interdisciplinares,
relacionar política mundial com realidade local e fazer uma ponte
entre as diversas possibilidades da Comunicação Social. Sua
postura foi lamentavelmente preconceituosa e infundada, justo o senhor,
um professor de uma profissão cuja premissa básica é
a verdadeira apuração dos fatos.
O próximo Enecom será
em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. O tema promete ser mais facilmemte
assimilado, e quem sabe mais chamativo à participação:
"Social, como única Ação". Quem sabe o frio e a falta
de praias deixem as planárias, ou melhor, as reuniões e reflexões
mais interessantes. O que não dispensa de forma alguma um bom vinho
tinto, quem sabe, à luz de velas...
(*) Estudante de Jornalismo
da Universidade Federal do Espírito Santo <hbika@nutecnet.com.br>.
Nota do O.I.: Procurado,
o professor Nilson Lage preferiu nada comentar.
Perdeu quem
não curtiu
Eduardo Sol (*)
O caro Buongermino foi extremamente
preconceituoso com minha cidade, Belo Horizonte, logo nas primeira linhas
de seu texto [veja remissão abaixo ]. Azar dele. Não
deve ter conseguido arrumar nenhuma das belas mulheres que temos por essas
bandas alterosas, ou tomado uma boa cachacinha mineira, ou comido um pão-de-queijo
bem quentinho, ou simplesmente andado pelos belos lugares que temos aqui.
Sobre movimento estudantil, tão
debatido pelos dois textos anteriores, nada tenho a acrescentar, a não
ser que está completamente morto, nas mãos de grupelhos chatos
e pouco inteligentes, que disputam quem berra mais e quem faz o encontro
mais desorganizado. É perda de tempo, pelo menos na forma em que
está.
Sobre o Enecom, fui a quatro
(um deles depois de formado, no ano passado, em Curitiba), e a mais outros
três tipos de encontros, e confesso que foram algumas das mais fantásticas
experiências que tive. Conselho: vá a todos que puder, fique
longe da Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação)
e de debates e mesas-redondas e seminários. São todos ruins,
a verba é curta e não chamam ninguém bacana para dar
uma palestra ou fazer um workshop. Quem já foi, sabe.
Apenas curta o Enecom, faça
amigos, namore bastante. Fazendo isso você estará exercendo
a mais bela das comunicações, que é o relacionamento
humano. E isto, a Enecos e a UNE (e outras siglas inúteis como as
duas) jamais poderão propiciar, pois não enxergam um palmo
à frente da próxima eleição e não compreendem
ninguém que não comece um diálogo por "companheiro".
E, mais uma vez, ao fraco Buongermino:
Belo Horizonte é linda, meu caro. Você não sabe o que
perdeu.
(*) Jornalista, Belo
Horizonte <edusol@mailbr.com.br>
CARTAS
Ação afirmativa
O artigo de Fernando Conceição,
"O debate ganha corpo" [ver remissão abaixo ], discute muito
bem a necessidade de correção dos erros da exclusão
social. Não basta reconhecer as discriminações e seus
efeitos danosos, é necessário corrigir imediatamente esses
efeitos com ações afirmativas. Por elas, a sociedade como
um todo reconhece seu erro e se dispõe a diminuir as diferenças
existentes: no caso, determinando que 50% das vagas nas universidades públicas
sejam reservadas aos alunos das escolas públicas de segundo grau.
Dizer que isto é uma
ação demagógica é ignorar que a grande maioria
dos alunos das escolas públicas, embora possa estar bem preparada,
não tem dinheiro para se "adestrar" e aprender os truques necessários
para "passar no vestibular". Dizer que os negros não "precisam de
proteção", porque são capazes de lutar, é ignorar
que integram o contingente dos mais pobres em maior proporção.
Dizer que as mulheres não precisam da proteção de
leis afirmativas, porque são agentes de sua própria dominação,
é ignorar que ainda recebem salários menores por trabalhos
iguais. Etc. etc.
Assim, as ações
afirmativas são o caminho mais claro de reconhecimento de que uma
parte da sociedade se beneficiou indevidamente da exclusão de outra
e que deve subsidiar socialmente a sua inclusão.
Vera
Silva

Jornalismo
imaginário
Enecom
1e 2
O
debate ganha corpo
|
|