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DEVER DE CASA
A verdade no jornalismo

Ricardo Wollmer (*)

Que aspecto tem o seu vaso?

Para tentar acabar com a briga dos dois irmãos, o pai, preocupado com a educação dos filhos, chamou-os à sala de jantar do apartamento para uma conversa. Colocou-os sentados na mesa grande de vidro, frente à frente. Era a pior posição para eles, pois teriam que olhar um nos olhos do outro, cara a cara.

Espertos, e bem bravos, os dois desviaram o olhar para baixo, vendo os detalhes das impressões digitais que a mesa concentrava. O pai, antes de começar o sermão, colocou um vaso vermelho em cima da mesa, separando os dois garotos. Perguntou ao primeiro: "O que você está vendo?" Ele respondeu que via um vaso vermelho, com aspecto arredondado, e flores brancas, de plástico, no topo.

O pai, então, fez a mesma pergunta ao filho mais velho, que respondeu dizendo que também via um vaso vermelho, mas com o desenho de uma orquídea no centro do objeto. Ao fim da frase, o patriarca da família Simões saiu da sala e retomou os afazeres no computador, deixando os filhos num vazio de pensamento. Logo após, eles entenderam o recado do pai, e também retomaram seus afazeres, agora menos rancorosos.

A lição apresentada pelo chefe dos Simões demonstra exatamente como o conceito de verdade deveria ser aplicado no jornalismo. É desta maneira, ouvindo os dois ou mais lados envolvidos no acontecimento a ser noticiado, que o jornalismo tem que apresentar as verdades aos interessados em informação.

E digo que são verdades – no plural – que precisam ser mostradas, porque são essas várias narrações sobre o mesmo fato, contadas a partir de pontos de vista semelhantes do acontecimento, mas diferentes em relação aos detalhes, que vão "se entrelaçar" e "se misturar" na narrativa final do repórter, que apontará claramente as versões que apurou. Desse modo, o receptor (leitor/ouvinte/internauta/telespectador) receberá as informações para tirar conclusões próprias. É deste modo que a liberdade de expressão e a democracia de visões têm que ser respeitadas.

Em certas matérias ou reportagens há como se ter certeza de que uma das fontes ouvidas pelo profissional não está contando exatamente a verdade. Nesses casos é que a "lei" que estabelece que "lugar de repórter é na rua" tem que ser cumprida com rigor. São casos simples, como uma reclamação de um morador contra a administração municipal: para o reclamante, o buraco que foi feito na rua da casa dela é enorme, "monstruoso". Quando o repórter vai checar a informação, in loco, vê que a situação não é tão ruim, que o buraco é pequeno e não prejudica tanto a pessoa.

Mas também pode ocorrer o inverso: e se houver uma cratera, em que duas crianças já se machucaram e uma idosa quebrou o pé? Como fica a consciência do repórter que, por preguiça ou imposição do chefe de redação, fez a matéria pelo telefone, apenas pegando os dados e redigindo a notícia com a resposta da prefeitura, sem checar mais profundamente? Pode ser que o material usado no asfalto seja de péssima qualidade e o secretário de Obras tenha fraudado a licitação. E aí? Fica apenas na conversa por telefone e na publicação de uma nota, sem foto?

Por razões como essas é que o repórter deve procurar incessantemente a verdade, mesmo que a tão aclamada verdade absoluta não exista. Mesmo que o mundo não possa se transformar num lugar melhor da noite para o dia – como defendem vários colegas de profissão. Ainda assim é possível buscar as várias verdades para chegar a um denominador comum. Pelo menos apresentando ao leitor as possibilidades da verdade do fato tratado. É esta a função da profissão: informar, da melhor maneira possível. E até impossível, às vezes.

(*) Aluno do 4º semestre de Jornalismo do Isca Faculdades, em Limeira (SP)

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