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DIRETΣRIO ACADEMICO DIPLOMA EM XEQUE Tattiana Teixeira (*) Lembro que há uns 10 anos, quando ingressei na Faculdade de Jornalismo, algumas pessoas ficaram assustadas. Afinal, deixava o curso de Direito onde questões como obrigatoriedade do diploma nunca são questionadas para seguir por uma carreira incerta, inglória, cuja remuneração deixava muito a desejar. Era isto que pensavam. Os mais leigos até diziam que era uma bobagem investir em um curso universitário, pois o caminho das pedras já estava traçado: ler, ler, ler para ampliar a bagagem cultural e aprender a escrever e enviar com freqüência cartas aos veículos, pois de tanto insistir alguém acabaria lendo, gostaria do texto e me chamaria para ser repórter. Tudo assim, simples, simples e sem precisar de aulas de técnicas de edição, redação, teoria do jornalismo etc. etc. etc. Não sei o porquê, mas não acreditei em nada disto e investi na minha formação profissional. Aliás, continuo investindo. Não sou a única, ainda bem! Entretanto, diante da sentença da juíza substituta Carla Rister, voltei a ter que responder desta vez a alunos, ex-alunos e curiosos ao mesmo questionamento de 10 anos atrás: por que jornalista precisa de diploma? A resposta, para alguns, reside no corporativismo de uma categoria que insiste em não ver o óbvio: Claudio Abramo ingressou na carreira aos 22 anos e não tinha diploma de jornalista, José de Alencar também não, assim como Líbero Badaró, Rubem Braga, entre tantos outros. Quem defende esta tese, não raro, alega que a escola não é capaz de formar profissionais mais qualificados que aqueles que, de algum modo, se consolidaram como ícones nestes 200 anos de imprensa nacional. A comparação é tola e desnecessária, porque ninguém pretende ou pretendeu negar o papel e a importância que estes nomes tiveram. O que não podemos é perder a noção da história da luta de profissionais iniciada há décadas que não querem garantir ou promover a reserva de mercado, mas o reconhecimento de que o jornalismo não é e, aliás, nunca foi uma mera questão de formação cultural. Defender a inexistência de especificidades técnicas e teóricas para o exercício da profissão é ir contra as próprias lições que jornalistas de antanho mesmo sem diploma nos legaram. Ou, se assim não fosse, por que tantas reformas, reestruturações e avanços na imprensa brasileira, que já viveu as mais variadas fases? O tempo da juíza Não é de hoje, aliás, que muitos estudos sobre a prática e a essência do jornalismo têm consolidado a necessidade de formação específica. O interessante é observar que os brasileiros que se destacam nesta área têm, em sua maioria, ampla carreira em jornais, revista, TVs e/ou rádios, o que não os impediu de serem acadêmicos sérios, com sólida formação. São estes estudos frutos de pesquisas muitas vezes financiadas por órgãos nacionais e internacionais que nos mostram que o jornalismo não é um simples relato de fatos, algo sem conseqüências ou função social e, portanto, dispensável à proteção da coletividade. Ao contrário, ao informar com responsabilidade e respeitando o que determina a técnica, os repórteres dos mais variados veículos contribuem para a cidadania, podendo levar seus leitores, telespectadores e ouvintes à ação, à mobilização necessária para a manutenção ou a conquista de todo e qualquer regime democrático. A leitura, ainda que superficial, destes textos, livros, dissertações e teses, desenvolvidos durante tantos anos de avanço nos estudos do jornalismo no Brasil, mostra-nos que o exercício da profissão está centrado em uma série de procedimentos que precisam ser ensinados, discutidos e rediscutidos permanentemente nos cursos universitários. O diploma, se não pode garantir que todos os diplomados venham a exercer sua profissão seguindo o mais alto rigor ético e técnico o que não é nenhuma novidade, pois os jornais estão repletos de matérias que mostram que há médicos, advogados e engenheiros que não honram o diploma que obtiveram um dia , é o símbolo maior de que o jornalismo não pode ser definido como uma profissão para os que escrevem ou falam bem, como muita gente ingênua ainda supõe. O diploma não é uma dádiva concedida por este ou por aquele governo, mas uma conquista histórica. O diploma não é elitista, afinal ele não é capaz de garantir o emprego de ninguém como nos provam ex-repórteres e editores da Folha, do Estadão, da Gazeta e de outros tantos veículos, alguns dos quais em campanha permanente pelo fim da regulamentação da profissão. O diploma não restringe a liberdade de expressão: se assim fosse, os jornais não dariam espaço a articulistas, cronistas, chargistas, comentaristas que não têm formação superior na área, mas podem contribuir para que se compreenda melhor a realidade na qual estamos inseridos. Aliás, sejamos honestos, se não fosse o diploma um tema importante, por que uma magistrada dedicaria o tempo da fugaz interinidade de seu cargo para avaliá-lo, enquanto dezenas, talvez centenas, de processos certamente aguardam pela sua preciosa atenção? (*) Jornalista, coordenadora do Curso de Jornalismo da Faculdade Integrada da Bahia e aluna do Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Facom/UFBA | ||