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DIPLOMA EM XEQUE
Jornalismo e construção social da realidade

Alfredo Vizeu (*)

A propósito da decisão recente da juíza substituta da 16ª Vara da Justiça Federal de São Paulo, Carla Abrantkoski Rister, que suspendeu a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para obtenção do registro profissional no Ministério do Trabalho, argumentando na sentença que "...o jornalista deve possuir formação cultural sólida e diversificada, o que não se adquire apenas com a freqüência a uma faculdade (muito embora seja forçoso reconhecer que aquele que o faz poderá enriquecer tal formação cultural), mas sim pelo hábito e pelo próprio exercício da prática profissional", gostaria de levantar algumas questões que julgo importantes na defesa da formação universitária do futuro profissional do jornalismo.

De uma maneira geral, sem a preocupação de aprofundarmos o tema, podemos resumir as definições de jornalismo e notícia a partir de dois grandes grupos: os que defendem a notícia como um espelho da realidade e aqueles que concebem a notícia como uma construção social da realidade.

Num estudo clássico sobre a produção da notícia, Tuchman (1983), tendo como pressuposto a concepção sociológica dos atores sociais, argumenta que por um lado a sociedade ajuda a formar a consciência e, por outro, mediante uma apreensão intencional dos fenômenos do mundo social compartilhado – mediante seu trabalho efetivo –, os homens e as mulheres constroem e constituem os fenômenos sociais coletivamente. Segundo a autora, cada uma destas perspectivas, ao atuarem sobre os atores sociais, determinam uma abordagem diferente da notícia.

A idéia da notícia como um espelho da realidade corresponderia à concepção tradicional das notícias. Este ponto de vista defende a "objetividade" como um elemento-chave da atividade jornalística. Dentro desta concepção, o máximo que se admite é a possibilidade de que as notícias reflitam o ponto de vista do jornalista (STAMM, 1976).

Já Gaye Tuchman defende que a notícia não espelha a realidade. Para a autora, a notícia ajuda a constituí-la como um fenômeno social compartilhado, uma vez que no processo de definir um acontecimento a notícia define e dá forma a este acontecimento. Ou seja, a notícia está permanentemente definindo e redefinindo, constituindo e reconstituindo fenômenos sociais.

No Brasil, a concepção de que o jornalismo é um simples espelho da realidade ainda encontra um grande espaço nas redações, em algumas faculdades de Jornalismo e naquelas pessoas que não compreendem a função social do jornalismo. Consideramos uma atitude reducionista definir o jornalismo como uma simples técnica, reduzindo-a a uma operação meramente mecânica de meia dúzia de regras – os tradicionais quem?, quê?, quando?, onde?, como?, e por quê ? –; ou considerar que é lendo que se aprende, ou que é na redação que formamos jornalistas.

Em oposição a essa visão mecanicista temos um campo de estudos ainda em construção que procura entender o jornalismo como uma forma de conhecimento (MEDITSCH, 1992). Grosso modo, o jornalista não seria alguém que comunica a outrem o conhecimento da realidade, mas também quem o produz e o reproduz.

O estudo do discurso que se interessa pela utilização concreta das linguagens mostra que todo o enunciado que se refere à realidade, ao refleti-la de certa maneira, também necessariamente a refrata de certa maneira (BAKHTIN,1992).

No dia-a-dia de sua atividade, o jornalista é servido pela língua, códigos e regras do campo das linguagens, para, no trabalho da enunciação, produzir discursos. Em outras palavras, o jornalismo tem uma dimensão simbólica (FAUSTO NETO, 1991).

Partindo do pressuposto de que o ato de discursar resulta do contato do jornalista com o campo do código, é possível se afirmar que o "ato jornalístico" mais do que trabalhar com "regras", "leis" ou "dicas", estrutura-se a partir de dois momentos estratégicos: operação e construção, cujas regras são pensadas, independentes do sujeito, pois quando ele as aciona elas já estão estruturadas no campo da linguagem.

Na elaboração do seu texto, o jornalista vai utilizar procedimentos de seleção e combinação, mediante unidades que, articuladas, vão se transformar em mensagens, ou de um modo mais abrangente, em discursos sociais. Este trabalho de operação não se dá apenas no campo restrito do código, uma vez que o sujeito se defronta com outros códigos – ou outros discursos – de que empresta também para a constituição de suas unidades discursivas. Do trabalho de operar com vários discursos resultam construções, que, no jargão jornalístico, podem ser chamadas de notícias.

A dimensão do jornalismo

Este trabalho do sujeito, a partir e através do outro, não é algo mecânico e não pode repousar sobre a idéia de que do simples recurso à língua resultaria a transparência das mensagens. O grau de nomeação das coisas pelas palavras não se dá apenas pelo recurso da justaposição, mas por algo que decorre do investimento do trabalho da enunciação, isto é pelo sujeito (BENVENISTE, 1995).

A enunciação é uma espécie de tomada de posição, a instância que estrutura o valor do dito – as mensagens que ganham formas de matérias, segundo economias específicas a cada sistema e/ou suporte(veículo) de comunicação e que produzem dimensões classificatórias da realidade.

Com relação às formas de enunciação jornalística, como mostra Lopes (1990), elas são norteadas por processos de raciocínio ou cadeias de razão que visam determinados efeitos de reconhecimento (apreensão e compreensão pelo leitor) e podem restringir-se a anúncio, descrição e demonstração, ou lançar mão de argumentações de persuasão, manipulação e sedução com objetivos de convencimento.

O processo de enunciação jornalística é regulamentado através de procedimentos mais generalizados e que se encontram estabelecidos em espécies de "macrocódigos": a língua, as matrizes culturais, as regras sociais, a ética e as ideologias. Mas também há os "microcódigos", como os dispositivos que são criados dentro dos próprios veículos de comunicação que estabelecem regras e servem de guia para um fazer jornalismo – "fazer um bom jornalismo", "asséptico" e "desobrigado" – por exemplo, os manuais de redação.

Nesse sentido, acreditamos que fica difícil pensar o jornalismo como uma mera reprodução do real. Como podemos ver são tantos os "discursos" – não cometeríamos uma heresia se disséssemos que são infinitos – que atravessam o campo jornalístico, são tantas as tensões, as "vozes", as práticas discursivas, que reduzi-lo a uma simples técnica, ao simples acionamento de regras "mecânicas" seria perder sua própria dimensão, seu próprio objeto.

(* ) Jornalista, professor de Telejornalismo da Unicamp e doutorando em Comunicação Social da ECO/UFRJ

Referências bibliográficas

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral I. 4.ed. Campinas: Pontes, 1995.

FAUSTO NETO, Antônio. Mortes em derrapagem. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1991.

LOPES, Sônia Aguiar. Sobre o discurso jornalístico. Verdade, legitimidade e identidade. Rio de Janeiro, março de 1990. Dissertação(Mestrado em Comunicação) – Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

MEDITSCH, E. O conhecimento do jornalismo. Florianópolis:UFSC, 1992.

RODRIGUES, Adriano Duarte. O campo dos media. Lisboa: Vega, 1988.

STAMM, K.R. The nature of news-news concepts. In: McCOMBS, Maxwell; SHAW, Donald Lewis; GREY, David(orgs.) Handbook of reporting methods. Houtghton Mifflin Company: Londres, 1976.

TUCHMAN, Gaye. La producción de la noticia: estudio sobre la construcción de la realidade. Barcelona: Bosch, 1993.



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