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SALA DE AULA
A informação como fonte de desinformação

Clarice Lopes Gentilli (*)

O capitalismo contemporâneo superdimensionou um novo tipo de mercadoria, a informação. Há um culto à informação, vivemos na "sociedade da informação".

Para se tornar um profissional apto ao mercado de trabalho, exige-se de cada um que seja "antenado". Isto significa acompanhar noticiários, ler jornais e revistas, saber vários assuntos e ser um profundo conhecedor de sua área. No entanto, essa exigência de "saber tudo", paradoxalmente, nos torna ingênuos e alienados frente à realidade.

A vasta quantidade de informação a ser assimilada nos impede de compreender qualquer uma delas. Portanto, a ideologia moderna da sede de conhecimento inevitavelmente nos leva à superficialidade e à incompetência crítica. Nos noticiários, por exemplo, as chamadas e as matérias são curtas e desconectadas de suas causas e conseqüências. Antes mesmo que o telespectador inicie a sua tentativa de assimilá-la com outros fatos, os jornais mudam de assunto.

Outro exemplo é o temido vestibular, que exige dos estudantes conhecimento sobre um grande volume de matérias – o que também dificulta o aprendizado profundo. Por que, afinal, os corretores das provas reclamam da ausência de criticidade dos alunos e, ironicamente, em um semestre dentro da faculdade essa capacidade é aumentada exponencialmente? A resposta é simples: o menor número de matérias cujos assuntos geralmente se inter-relacionam e o maior tempo dedicado para cada assunto.

Isto leva a crer que o conhecimento distribuído é de pouca qualidade e dificilmente é bem compreendido. Exatamente da mesma forma como as informações são passadas nos meios de comunicação.

Leitura desvalorizada

É impressionante como a internet faz sucesso por nos conectar a qualquer lugar do mundo e a todo tipo de informação. Por isso mesmo, ela também pode se mostrar inconfiável e superficial. Claro, não se pode ignorar o potencial que ela tem e ainda pode vir a ter.

Mas, surge novamente o paradoxo: o volume de informações que somos obrigados a digerir todos os dias nos dificulta ser bem informados. Usando a prerrogativa de que existem textos bons na internet, tente encontra-los. Quanto tempo leva para achar? Quem é capaz de selecionar o material sério daquilo que é mentira ou enganação?

Outro fato marcante é que as novas gerações treinam apenas as suas aptidões cinético-visuais. Em outras palavras, as crianças aprendem normalmente a identificar imagens e movimentos. Os adultos, com a escrita, exercitam a racionalidade e a reflexão. Infelizmente, esse exercício da razão e da reflexão não são mais estimulados nos jovens de hoje – tal como as antigas gerações não exercitavam (até por deficiência tecnológica) as competências cinético-visuais.

Assim, as atividades que exigem concentração, paciência, atenção e criticidade estão cada vez menos valorizadas. Por que a supervalorização da internet como a solução para tudo e não como um moderno suporte para o conhecimento complexo da atualidade? Por que a leitura densa é desvalorizada? A informação diluída dos meios de comunicação está substituindo a leitura de livros. Isso é muito grave, pois impede o desenvolvimento de formas mais complexas de o homem conhecer o mundo.

O grande volume de informação é fonte de desinformação. Se no passado a dificuldade foi ter acesso à informação, hoje a dificuldade é compreendê-la.

(*) Estudante de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

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