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V FÓRUM DOS PROFESSORES DE JORNALISMO
Desafios para o ensino superior privado
Antonio Queiroga (*)
O clichê é quase inevitável: vivemos hoje em uma sociedade da informação e do conhecimento. A importância e o papel capital que a informação, sua circulação e conseqüente transformação em conhecimento assumem atualmente já se tornaram paradigma nos mais diversos campos da atuação humana, principalmente a partir da última década. No entanto, dentro dessa idéia já bastante batida de que o conhecimento é o valor diferencial entre o sucesso e o fracasso, muito ainda pode ser discutido.
Na atualidade, com a crescente produção de conhecimento técnico-científico, uma parte muito expressiva das trocas simbólicas se dá a partir do campo da pedagogia. Isto é, na maior parte das vezes o conhecimento é produzido e disseminado em instituições escolares de diversos tipos. A dimensão pedagógica da vida se torna cada dia mais forte e a educação formal passa a ser um valor firmemente difundido nas sociedades.
Com isso, conceitos como ensino continuado e formação ao longo da vida passam a ser "verdades" contra as quais não se pode ir. A razão básica para a maior importância dos processos permanentes de aprendizado é que hoje em dia o que se sabe sobre o mundo social e do trabalho se torna obsoleto em um espaço de tempo muito curto. O saber não mais dura uma geração, de modo que não podemos mais confiar a apenas uma pequena etapa da vida o processo de aprender. O conhecimento nos toma a vida toda; temos que estar sempre em aprendizado. A escola formal passa a ser somente uma etapa inicial (talvez nem a primeira) e nela não se vai transferir apenas um conjunto mais ou menos estanque de conteúdos com os quais se podia dar conta da vida. Agora, ela vai principalmente desenvolver a capacidade de aprender por si só. Aprender a aprender é o desafio.
É positivo que existam cada vez mais, durante toda a vida dos indivíduos, o maior contato com práticas de formação e educação, o trabalho incessante de atualização, a intensificação da fruição cultural, que permitirão uma melhor relação com toda a potencialidade da vida. A complexidade cada vez maior do mundo assim o exige.
A constatação de que é o capital humano, educado e preparado fator primordial para o desenvolvimento econômico e social em um mundo cada vez mais integrado tem conseqüências em todo lugar.
No Brasil, país em construção e repleto de carências, resulta desse panorama o sentimento de urgência em aumentarmos rapidamente o nível educacional da nossa população. Tornou-se estratégico permitir o acesso de uma grande massa de pessoas à educação formal nos mais diversos níveis. Isso é uma realidade facilmente constatada em números na última década: houve uma explosão de matrículas no ensino médio e superior, além da tentativa de se universalizar o ensino básico.
Vamos tratar do atual ensino superior.
Até o final da década de 70 e início dos anos 80, o ensino universitário era praticamente monopolizado pelo Estado, que oferecia uma gama de cursos em instituições federais, estaduais e municipais. No entanto, com o aumento gradativo da demanda por vagas, a incapacidade de aumento da oferta oficial e o "colapso" do papel do Estado na última década, a oferta pública se tornou insuficiente. É dessa época o aumento da participação das instituições privadas. Mas, é somente a partir do meio da última década que esse cenário se torna mais evidente.
Desde então, as matrículas no ensino médio têm tido um crescimento vertiginoso, aumentando a pressão na porta das universidades. Nunca tantas pessoas se habilitaram a fazer um curso superior, bem como se viram incentivadas a isso, seja pelo mercado, seja pela ideologia pedagógica que tomou a sociedade. Resultado, entre outras coisas, de um ambiente onde a educação é tomada como um dos bens sociais mais necessários e desejados.
Em 2002, estima-se que as matrículas no ensino médio estejam por volta dos 10 milhões de alunos. Parece muito, mas estamos ainda muito aquém de outros países. Enquanto a porcentagem de alunos nesse nível pode chegar a mais de 90% da população na faixa de 15/17 anos em países do Primeiro Mundo, ainda estamos limitados a apenas cerca de 30% da população na mesma faixa. O diagnóstico não é diferente no ensino superior.
Hoje, segundo dados do censo da educação superior, realizado pelo INEP, o Brasil tem cerca de 2,7 milhões de alunos no ensino superior, sendo que cerca de 65% deles estão nas instituições privadas. O número de alunos vem crescendo a taxas de 10% nos últimos anos, a maior parte conseguindo vaga em universidades particulares – embora essa tendência já mostre alguma mudança.
Apesar desse salto significativo em termos nacionais, continuamos deficitários se comparados a outros países, principalmente os desenvolvidos. Na faixa etária de 20/24 anos, a Argentina tem cerca de 30% da população cursando o ensino superior; já os EUA têm 60%. No Brasil ainda estamos abaixo dos 10% da população na mesma faixa. Isso dá a medida de como ainda estamos longe de um nível de educação que possa impulsionar definitivamente o desenvolvimento do país e aponta para as nossas necessidades futuras imediatas.
Resumindo, hoje vivemos em um mundo onde a educação, principalmente a formal, se tornou um valor hegemônico para o desenvolvimento dos indivíduos e países. No Brasil, essa situação transformou o panorama em todos os níveis de ensino, principalmente na explosão de alunos no nível médio que passaram a bater às portas das universidades. Com a impossibilidade de o Estado oferecer vagas a esse grande número de novos estudantes, a abertura de vagas pela iniciativa privada tem sido a resposta ao avanço da educação superior no país. Esse fenômeno tornou-se mais agudo nos últimos sete anos, quando o governo, incentivando as instituições particulares, adota a política de redução do papel do Estado como fornecedor desse serviço social e assume a função de regulador e fiscalizador do ensino superior.
Por outro lado, o espaço deixado pelo Estado é rapidamente tomado pelo capital privado, não por outra razão do que a educação superior ter se tornado um promissor campo da atividade econômica.
Porém, hoje em dia, a ampliação de oferta de vagas no ensino superior privado, nas suas mais variadas modalidades, já parece ter chegado a um limite. Cerca de 30% das vagas oferecidas são ociosas. O problema aqui não é a falta de pretendentes a essas vagas, mas sim a inexistência de suporte econômico para pagar por elas. Essa estagnação tem duas saídas possíveis: ou se aumentam a criação e distribuição de renda pela população, de modo que possa pagar pelos estudos, ou se incrementa uma política ousada de crédito público que financiaria a entrada desses alunos na universidade particular. É uma questão importante e ainda sem resposta.
O desafio do ensino superior privado
A corrida contra a ignorância no país está repleta de desafios. Embora tenhamos conseguido bons resultados com o aumento da adesão aos vários níveis da educação formal, e mesmo que ainda estejamos longe dos números razoavelmente necessários, estamos por ora tratando apenas de quantidade. O problema da qualidade ainda é mais grave.
Com o início de uma presença maior da avaliação do ensino, uma conquista, sem dúvida, podemos mensurar a questão da qualidade com mais precisão. Os resultados por ora ainda deixam a desejar. No entanto, entendemos que a leitura simplista desse diagnóstico tem causado uma visão deturpada.
A constatação de que o aluno egresso do ensino superior ainda é deficiente geralmente coloca a "culpa" (se é possível falar assim) nos responsáveis por essa última etapa da formação escolar do nosso povo. Se, indubitavelmente, cabe às instituições superiores parcela de responsabilidade, é inegável também que sua capacidade de melhorar a formação dos alunos que, cada vez mais, chegam à escola superior fica limitada na medida em que o ensino básico e médio deixaram de cumprir a função de dar a base de capacitação necessária ao avanço que a última etapa deveria consolidar.
Dessa forma, os cursos universitários, principalmente os privados, passaram a ser vistos – com a publicidade que o Exame Nacional de Cursos trouxe – como deficientes na sua generalidade. Isto é meia verdade. Em última análise, o resultado do processo escolar ao fim do ensino superior é uma soma dos processos anteriores, do ensino básico e médio.
Ora, não é a universidade, pública ou privada, a maior responsável pelas deficiências do estudante brasileiro. Os resultados dos "provões" são fotografias dos nossos problemas orgânicos no ensino em todos os níveis. Portanto, é enganoso ver as deficiências apenas nas universidades, estigma particularmente imputado às particulares.
Enquanto a escola básica e média não tiverem uma qualidade melhor, o ensino superior estará sofrendo, sem responsabilidade exclusiva, de deficiências. Esse retrato nada mais é do que o reflexo amplo das condições sociais do Brasil, onde a grande maioria da nossa população ainda não tem acesso razoável ao alimento, à moradia, à saúde, à higiene e à educação dignos.
Assim, na tarefa de construir um país, cabe ao ensino universitário, independentemente de sua natureza, uma tarefa hercúlea: a de tentar recuperar os problemas educacionais básicos que os alunos trazem como herança. Entre nós, entender esse papel talvez seja um dos maiores impedimentos para que se possa dar uma resposta.
Mas, em vez de enfrentar o problema, grande parte das universidades continua operando como se tivesse recebido do ensino médio um aluno "ideal". Isso é, ao contrário de enfrentar as deficiências tentando superá-las, é comum as escolas se absterem de qualquer responsabilidade pela situação, o que apenas agrava o quadro e aumenta a distância entre o aluno "real" e a universidade "ideal".
Outras arestas
De uma forma menos urgente, podemos também colocar algumas oposições que o ensino superior levanta no Brasil. Elas estariam exatamente no atrito e nas diferenças entre o mundo social e a academia; em um certo antagonismo entre a prática e a teoria.
Uma questão importante é o dito afastamento dos cursos de graduação das necessidades reais do mercado de trabalho. Muito tem sido colocado sobre uma esquizofrenia entre o que se ensina nas universidades e sua inutilidade para a obtenção e o desempenho no emprego.
Não se advoga aqui o despropósito de contato entre a preparação acadêmica e sua aplicação no mercado, muito pelo contrário. A prática profissional deve ser objetivo importante na universidade, pois depende dela o domínio da complexidade dos processos tecnológicos que hoje o comunicador não pode prescindir.
No entanto, transformar a universidade em um simples ensaio do mundo do trabalho é perigoso. A universidade é, e deverá continuar sendo, o espaço da utopia, da liberdade e da crítica. Isso se dá praticamente como oposição à racionalidade domesticada das trocas econômicas.
Tentar replicar, pura e simplesmente, nas escolas a lógica que encontramos no mercado é um erro grave.
Como conseqüência chegamos a uma outra oposição. Qual é a função maior do ensino superior: formar a mão-de-obra capacitada para o mercado de trabalho ou o cidadão ativo, elemento básico de qualquer democracia?
Entendemos que uma coisa não exclua a outra, mas que uma formação humanista, menos pragmática, não pode deixar de ser a orientação para se formar os indivíduos capacitados não apenas a encontrar o seu lugar nos processos econômicos, mas também atuar nas mais diversas dimensões sociais que hoje se oferecem.
Principalmente em um país como o nosso, pensamos que a finalidade última de uma universidade é formar o cidadão, por mais urgente que possa parecer que o Brasil precise de especialistas bem treinados. Isto é, antes de apenas um profissional, formar o homem completo – no homem completo já está o profissional competente. Nessa tarefa, os professores temos um papel muito importante. Antes de formarmos "profissionais para o mercado" a nossa função é preparar um melhor cidadão para integrar e transformar a sociedade.
Infelizmente, esse aspecto da formação total dos alunos – origem até mesmo do termo universidade, instituições que desde o início da Idade Média se propunham a pensar o mundo de uma forma universal, tentando abarcar todo o conhecimento existente –, acabou ficando em segundo plano, principalmente com o desenvolvimento da ciência e a necessidade de especialização.
O resultado disso é que parte dos cursos de graduação hoje se preocupa mais com a técnica, esquecendo uma visão mais ampla do mundo, uma visão mais humanista, cultural e integrada. Existe então uma supervalorização do aspecto técnico-profissional em detrimento de uma formação mais completa. Esse é um aspecto que precisa ser levado em consideração na hora de se pensar o ensino superior.
Pensando a formação do comunicador
Como esse panorama se reflete na graduação em comunicação social, principalmente nos cursos privados? Primeiro de tudo, acreditamos que a formação de um bom comunicador, mais ainda do que em outras carreiras, está calcada em uma forte base de conhecimentos humanistas e culturais.
Podemos até admitir que um bom engenheiro ou dentista possa prescindir de uma visão mais ampla do mundo em que vivemos; não seria o desejado, mas é possível. O mesmo não é verdade para o comunicador; é impossível que ele deixe de ter um contato intenso e crítico com a realidade social em que está incluído.
Além disso, para superar a visão cartesiana e especialista dos programas de graduação – onde grande parte das disciplinas acaba parecendo isolada aos alunos –, não existindo uma visão orgânica e integrada entre os conhecimentos, é necessário acreditar que uma formação, uma graduação superior não é apenas o somatório de disciplinas, horas/aula, provas e trabalhos etc. que acontecem durante o curso.
A graduação universitária é muito mais que isso. É, ou deveria ser, uma experiência muito mais ampla. Os cursos não podem se resumir às atividades dentro de classe, às aulas. Uma formação completa implica uma organicidade entre os conteúdos e disciplinas, bem como a existência de um ambiente propício para a irradiação dos conhecimentos para os mais diferentes aspectos da vida. Um campus universitário deve oferecer esse tipo de experiência, de vivência, que vai muito além da sala.
Cabe agora fazermos uma distinção clara entre o diagnóstico dos problemas na maioria dos cursos privados em relação aos públicos para podermos pensar uma solução. Embora não se possa generalizar, é notório que a grande parcela dos novos alunos que tem acesso à universidade é o mesmo aluno que teve algum tipo de deficiência na formação anterior. Em resumo, ele tem aprendizado menos qualificado do que o aluno da universidade pública. Mesmo que isso não signifique diretamente melhor nível socioeconômico.
Pensar um curso para esse aluno é bem diferente – contempla outros problemas – do que um curso para aquele aluno mais bem preparado. Genericamente, um curso que é bom para um aluno público não necessariamente o é para o aluno privado. Temos que ter coragem de enfrentar essas desigualdades. Elas são fruto da nossa realidade.
Dessa forma, pensando em como recuperar débitos antigos dos novos alunos, entendemos que se um curso de Comunicação conseguir, ao cabo de quatro anos, que seus alunos tenham um bom texto (dominem a expressão escrita em diversos níveis), tenham forte ligação com a leitura (hábitos regulares de leitura e informação), além de conseguir ampliar sua bagagem cultural, esse curso já fez uma grande parcela da formação de um comunicador.
No cenário ideal, essas habilidades já seriam pré-requisitos obrigatórios para o ingresso na universidade. Infelizmente isso não ocorre. Nas instituições particulares, que acabam absorvendo a maior parte dos alunos com deficiências, esse problema é ainda mais grave. Assim, as habilidades do ler/escrever, que deveriam apenas ser ampliadas na universidade, precisam ser alcançadas às vezes no seu nível mínimo, superando os problemas anteriores.
Em resumo, acreditamos que, além de um importante núcleo duro de matérias técnicas (coração da formação profissional), uma proposta eficiente para um curso de Comunicação privado deve ter como objetivo o domínio do ler/escrever e a ampliação da cultura geral dos alunos, construindo assim uma sólida base humanista. Essa formação desenvolvida garante um profissional com o domínio dos elementos necessários para o trato do social na vertente da comunicação.
Esse tipo de formação aponta para um ideal de comunicador que seria algo como a combinação balanceada entre um cientista social light, um escritor e um esteta.
Uma proposta
Dadas essas questões, a proposta que temos tentado implantar, em uma instituição particular no Rio de Janeiro, é um curso balanceado entre uma exigente formação técnico-profissional, dentro das habilitações que oferecemos, e uma grande preocupação com a superação dos problemas detectados nas habilidades do ler/escrever e o forte incentivo e a oferta de uma maior fruição cultural.
A primeira etapa é a constatação de que grande parte dos alunos que entram no curso tem sérias deficiências no ler/escrever. Antes de acharmos que esse não é um problema nosso, que a falha está lá atrás no processo educacional, ou de simplesmente fechar os olhos e reprovar indiscriminadamente ou aprovar sem merecimento, a orientação é detectar o problema e combatê-lo. A todos os alunos devem ser dados meios para identificar e recuperar as deficiências.
Para sistematizar isso, a coordenação do curso estruturou a grade curricular em blocos. O primeiro, denominado ciclo básico, constituído dos três primeiros períodos, é onde é feita a identificação dos alunos e seus problemas. No ciclo seguinte, o médio, é onde temos a maioria das disciplinas técnico-profissionais. São os 4º, 5º e 6º períodos. O ciclo avançado, constituído pelos dois últimos períodos, é o polimento final do aluno e visa fazer sua transição para a atuação profissional.
No ciclo básico, apesar dos critérios rígidos de avaliação, os alunos que apresentam deficiências nas habilidades do ler/escrever são alertados e incentivados a tomar atitudes para sua superação. Esses resultados serão cobrados rigorosamente no ciclo seguinte.
Entre as opções oferecidas pela universidade está um curso específico de redação, de extensão, além das cinco disciplinas de Português e Texto, que fazem parte do currículo básico do curso. Todos os professores também são orientados a cobrar respostas discursivas em suas provas.
Assim, entendemos que a atitude correta para resolver essa deficiência crônica dos alunos em instituições particulares é a identificação, a conscientização, o oferecimento de alternativas e a gradual cobrança de resultados. Dessa forma, pretendemos que os alunos alcancem um texto de boa qualidade, instrumento para a aprovação do aluno durante todo o curso e essencial no dia-a-dia do profissional.
A par do aprimoramento do texto está o incentivo à leitura e à informação. Como sabemos, ler e escrever são atividades gêmeas. Estar bem-informado sobre o mundo é fundamental para o comunicador. Os alunos são alertados – de forma difusa e intensa – para a necessidade de se informarem e de cultivar a leitura como hábito, não se limitando à mídia, mas estendendo os limites à literatura, ao ensaio etc.
Já quanto ao aumento da bagagem cultural dos futuros profissionais, a nossa proposta é de aumentar as atividades extra-classe, não só nos aspectos técnicos, mas principalmente nas atividades culturais de sentido amplo.
Vem daí um tema que é interessante tocar. Em parte das universidades e cursos superiores existe uma razoável oferta de eventos, mas que geralmente fazem confusão entre cultura e entretenimento. Embora esses limites sejam questionáveis, é claro que cabe à experiência universitária um foco na cultura, já que o entretenimento é privilegiado pelos mecanismos do mercado.
Assim, esse papel suplementar do curso, na tentativa de cobrir falhas na formação dos alunos privados, não pode se dar prioritariamente dentro de sala de aula, pois isso significaria um custo maior. A solução, mesmo que tenha que contar com a participação voluntária do aluno, é aumentar as atividades extra-classe, mais livres e diversificadas.
Na nossa experiência, para uma maior eficiência e melhor gestão dos diversos eventos extra-classe, foram criados projetos para estruturar as atividades do curso. Esses projetos permitem o planejamento semestral e o acompanhamento de todas as atividades de forma mais organizada. Os projetos são das mais diversas naturezas, versam sobre a realização de palestras (não apenas profissionais, mas também culturais), debates, concursos de campanhas, visitas técnicas, sessões de cinema e discussão, agenda cultural, visitas a mostras e museus etc.
Tentando aumentar o interesse e a adesão dos alunos nessas tarefas, está sendo criado, dentro de uma reformulação curricular maior, uma disciplina que vise incentivar ainda mais a participação. Denominada "Atividades Complementares", ela é cursada na medida em que os alunos somem 300 pontos. Isto é, durante os oito semestres da graduação, o aluno participa das mais diversas atividades, cada uma delas valendo determinado número de pontos, que é somado e controlado pela coordenação. Assim, quando o aluno tiver alcançado aquele total ele se inscreve na matéria, comprova sua pontuação e é considerado aprovado.
Fora essas propostas mais pontuais, só a partir de uma conscientização mais ampla, que não pode excluir os professores como vetores de transformação da realidade dos alunos, é que um curso de Comunicação privado pode criar um ambiente técnico-profissional e cultural, não apenas para a formação de um bom comunicador, mas para antes permitir a superação de parte dos débitos sociais anteriores.
Conclusão
Pensamos que, ao contrário de ignorar o problema mais amplo do ensino, cabe à universidade, principalmente à privada – muitas vezes destino preferencial daqueles menos privilegiados pelo ensino médio –, tentar mitigar os problemas dos ciclos anteriores, tarefa de modo algum fácil.
Em resumo, o desafio mais geral da universidade privada no Brasil é oferecer um bom curso superior (o que incluí uma especial atenção à formação do cidadão ativo, não se limitando apenas a formar mão-de-obra treinada para o mercado), tendo para isso que superar as deficiências dos ciclos básico e médio de ensino. Os problemas nas habilidades do ler/escrever estão na linha de frente desse desafio.
A nossa proposta contempla uma visão de comunicador na qual o conhecimento técnico está longe de ser o suficiente. A preocupação com a formação cultural e humanista é diretriz básica. Cabe à universidade papel fundamental no aprimoramento da formação completa do seu aluno, do cidadão completo, participante e transformador da sociedade democrática.
Em época na qual a globalização das economias e dos fluxos simbólicos entre os países reforça a educação/conhecimento como o maior capital das sociedades, é importante pensar os problemas que enfrentamos quando uma crescente massa de alunos chega ao ensino superior, trazendo com ela as deficiências ainda encontradas nos níveis anteriores.
(*) Professor universitário e coordenador do Curso de Comunicação Social da Universidade Veiga de Almeida (RJ), texto apresentando no último SIPEC e no V Fórum de Professores de Jornalismo
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