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EXAME NACIONAL DOS CURSOS
Kafka não morreu!
Antonio Fernando Beraldo (*)
A vida inteira tenho ouvido a mesma ladainha: o vestibular é injusto, é errado, é uma crueldade que não faz mais nenhum sentido etc. e tal. Todo mundo concorda: os candidatos passam um ano ou mais se entupindo de "estratégias" de como fazer provas de "cruzinha" (múltipla escolha), tentando aderir aos frágeis neurônios tudo o que não aprenderam ou desaprenderam nos anos anteriores (se balançar a cabecinha, mistura tudo). Depois de meses e meses de apostilas, de "resumo-do-resumo-do-resumo", decoreba, musiquinhas "instrutivas", "baterias de testes", lá vão eles, autômatos desbotados e insones, para o massacre, competindo a taxa de 60 candidatos/vaga, para perder um ano na vida "por causa de um pontinho"... O índice de reprovação beira os 97%!
As autoridades em ensino sempre desceram o pau neste tipo de exame, com toda a razão. As propostas para amenizar esta tragédia são muitas: vão desde a "reserva" de vagas para os "sem-cursinho" até a chamada avaliação seriada quando os meninos são avaliados nas últimas séries do ensino médio, o ENEM. Muito bem: é imprescindível colocar mais gente nas Universidades (atualmente, só 1% dos brasileiros freqüenta cursos de ensino superior). Mas o que eu não entendo é que estes mesmos sujeitos que bolaram o ENEM inventaram um tal de Exame Nacional dos Cursos, o Provão, que consegue ser de uma estupidez ainda maior do que o vestibular.
Se for de uma universidade pública, o coitado do examinando está no último ano, atolado em estágios, tendo que terminar a monografia de fim de curso, desesperado porque não pode tomar pau e ainda tendo que se sujeitar a uma prova para ter "direito" a receber o diploma. Se estiver numa privada (sem trocadilho), o jovem sobrenadante encara este detalhe como uma formalidade a mais para pegar o canudo que, enfim, foi pago e muito bem pago durante uns bons quatro ou cinco anos.
O conjunto das notas dos graduandos serve, dizem, para avaliar o curso e a Universidade onde ele estuda, não importando se os alunos comparecem ao Provão e escrevem qualquer bobagem (ou mesmo entregam a prova em branco, o que é menos vergonhoso). Não têm o menor compromisso com a nota depois é só esperar a hora de ir embora e encontrar com os amigos para uma cervejinha (e vociferar contra mais essa chatura). É óbvio que as médias são baixíssimas, não refletindo nem de longe a realidade dos alunos, dos cursos e das instituições. Por outro lado, sabe-se que existem faculdades "espertas" que montaram "cursinhos preparatórios" para o Provão por motivos que o caro leitor há de advinhar.
Críticas múltiplas
No dia 8 de dezembro passado, principais jornais do país divulgaram o resultado do Provão (Exame Nacional dos Cursos) e o ranking das Universidades brasileiras, versão 99. Nos dias que se seguiram, foi publicada uma torrente de besteiras que só deve ter sido menor do que as escritas pelas vítimas do Provão. Como a mídia impressa tem uma extraordinária capacidade de engolir sem mastigar as "informações" vindas do MEC, viu-se de tudo: de "análises estatísticas" (cruzes!) até "interpretações" de tabelas.
O Jornal do Brasil, com todo seu vigor oficialista, tinha escrito, na semana anterior, "MEC põe 12 cursos em lista negra". "Lista negra"? O artigo, depois de errar alguns nomes de instituições que "entraram para a UTI" (UTI??) e alguns errinhos de português, falava até em cursos que obtiveram "notas negativas" (???). Que falta faz uma boa revisão nos textos do JB... Já o editorial do dia 11, "O longo caminho" foi uma pérola de pré-conceitos, falácias e generalidades que deveria ser emoldurado.
A Folha de São Paulo esperou até o sábado e o domingo, dias 11 e 12/12/99, para dedicar páginas detalhadas com a situação das universidades paulistas e das melhores brasileiras. Contou o caso do curso de jornalismo da USP (os alunos boicotaram a prova); o caso da UFSCar e da Unifesp; mostrou como é feito o ranking; procurou reitores das universidades que "caíram" e que "subiram"; publicou as críticas ao critério do MEC e coisa e tal. Jogou públicas e particulares no mesmo saco, tratou indistintamente cursos tão diferentes como jornalismo e medicina enfim, uma mistura de bananas, maçãs e abacates que não fazem meia vitamina.
Distraída pelo bairrismo que a contamina desde sempre, a Folha "esqueceu-se" de apontar que, nas "10 mais", havia três instituições de Minas (UFJF, UFV e UFMG), duas paulistas (USP e Unicamp) e duas paranaenses (UEL e Oeste) o número de universidades paulistas nas "10 mais" é muito desproporcional ao número de universidades existentes em São Paulo. Mas, deixa pra lá. Tudo muito bacana, só que, "ôrra meu", completamente errado. Isso mesmo, prezado leitor, tudo errado. Um desconhecimento absoluto do que seja um "ranqueamento" (puxa! por que não "classificação"?), do que seja média, quartis, percentis, padronização, normalização, ponderação... o mínimo do que seja de Estatística.
É tedioso enumerar as mancadas, mas pelo menos uma é bastante significativa: o tal do "critério de classificação", a partir do qual se classificou universidades pelo percentual em notas A, B, C etc., não importando se a tal universidade teve 22 cursos (USP) ou 10 cursos (UnB) avaliados. A USP teve 19 cursos nota A, 2 cursos nota B e um curso (o de jornalismo), nota C. A UnB teve 9 cursos nota A e 1 curso nota B. Na sua opinião, qual é a universidade que produz mais? O critério da Folha é mais "furado" do que previsão de economista.
O que mais entristece é ter que discordar de pessoas que, há muito tempo, admiro e respeito. Alberto Dines, no artigo do Jornal do Brasil de 18/12, deixou-se levar pela justificada ira contra as fábricas de diplomas e, a meu ver, escorregou: não são apenas "o PSTU e o PC do B que se insurgem contra o Provão". Até o Conselho Nacional de Educação defende mudanças (Folha, 30/07, p.3-2) e o Conselho Estadual de Educação está elaborando um provão com metodologia mais consistente (Folha, 12/12, p.3-2). Praticamente todos os professores que eu conheço, de muitas universidades, criticam seriamente o provão. Em 1998, os alunos da UFMG (a segunda universidade federal, em tamanho, do país), por decisão judicial, não precisaram fazer o exame.
Escorregadelas e sacadas
Os critérios de "aferidor de qualidade" do Provão tomam bomba em qualquer exame estatístico mas Kafka ficaria orgulhoso. Para começo de conversa, não é divulgado o desvio padrão das notas e a distribuição de freqüência é apenas esboçada, com o uso de quartis. Resumindo, "faltam dados". O Provão, também, não é "prova dos nove" de excelência dos futuros profissionais, uma vez que não existe correlação entre o desempenho do aluno (em apenas uma prova) na universidade, e o que ele vai ser "lá fora". Estou cansado de ver "paradoxos" e já nem me espanto mais.
(Abre parênteses: no primeiro Provão, dei-me ao trabalho de resolver as questões propostas para o curso de Engenharia. Desisti quando me deparei com uma questão em que se pedia o valor da integral do seno de x, de zero a pi. Para se ter uma idéia, é a mesma coisa que perguntar o que é bisturi, para um graduando em Medicina. Fecha parênteses.)
Já Elio Gaspari derrapou quando comparou duas médias que, estatísticamente, são iguais (quando se referia a estudantes filhos de pais pós-graduados e estudantes filhos de pessoas com alta renda). Outra escorregada feia foi quando Gaspari afirmou que seria possível construir uma série histórica dos resultados do ENEM. Isto não é possível, em termos de Estatística, uma vez que os resultados são provenientes de provas diferentes, de ano para ano. Enganou-se ao afirmar que ninguém tirou 10 em redação e agora gasta espaço em sua coluna de domingo para corrigir a lista. Não deu atenção ao fato de que muitos dos "primeiros lugares" do ENEM já tinham completado o ensino médio, sendo que alguns já cursavam faculdade. Aí não vale, mas como Kafka é Kafka...
Tanto o Dines quanto o Gaspari (perdão pela intimidade) cometeram os mesmos erros básicos: confiar na amostragem, misturar ensino público com o privado e, principalmente, aceitar cegamente as estatísticas e a "metodologia" oficiais. A amostragem é fajuta e viciada, o método é tendencioso, existem "segundas intenções", o buraco é bem mais embaixo. O ensino privado, com raríssimas exceções, é uma espécie de agrupamento de cursos profissionalizantes essa é uma arapuca na qual as escolas públicas, acredito, não irão cair. Nas públicas, existem, além do Ensino, as atividades de Pesquisa e a Extensão, como todo mundo está cansado de saber. As estatísticas do MEC são "políticas": já tiveram até a cara-de-pau de comparar a carga de trabalho de um professor brasileiro com um dos EUA, usando a taxa "alunos/professor" (essa foi de lascar!). Não se espera, é claro, que todo mundo seja doutor em Estatística, mas há que se tratar o número-notícia de forma técnica, uma vez que as cifras permeiam todo o noticiário dos jornais, da seção de esportes às colunas sociais.
O repórter José Roberto de Toledo, da Folha, escreveu para a ombudsman do mesmo jornal, que publicou em 26/12/99: "Se não houver reflexão e mais diálogo com sociólogos e estatísticos, para avaliar ranking dos outros, e criar os nossos, corremos o risco de trocar o vazio do jornalismo declaratório pelo fetiche numerológico". Assino embaixo. Aliás, por falar nisso, é preciso ler a coluna da ombudsman no domingo anterior (19/12), criticando a "pesquisite" e falta de jeito da Folha com as estatísticas. Os dois textos foram um presente de Natal para a discussão sobre como a impresa trata os números.
(*) Professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora
Bola fora. Outra vez.
João Brant (*)
Em 13 de junho último foi realizado mais um provão. Mais uma vez um teste simplista, pretensamente "uma avaliação de mais de 90 cursos de jornalismo". Mais uma vez um engodo. Uma avaliação mal feita? Certamente não. O provão serve exatamente para os objetivos deste governo, com esta política educacional. Uma visão de educação que privilegia conceitos como produtividade, retorno financeiro ou competitividade. A educação em que acreditamos? É necessário dizer novamente: certamente não. Acreditamos numa educação voltada aos interesses da sociedade, que seja questionadora, formuladora, estimulante, que nos exercite o pensamento e a ação crítica. Uma educação que certamente não tem como ser avaliada por apenas uma prova ao final do curso. Para avaliarmos a Universidade, precisamos enxergá-la amplamente, em todos os seus aspectos, e não desejarmos obter dessa avaliação um ranking ou um conceito. Como é que apenas uma nota pode apontar os pontos positivos e negativos de um curso, de uma universidade? Ou não é esse o objetivo? Não concebemos uma avaliação que não tenha o intuito de apontar as deficiências, sugerir soluções, contribuir para a real melhoria do curso. O provão pretende, em apenas uma prova para o formando, avaliar um curso de quatro anos. Passa a não importar o processo, vale apenas o "produto final". O que queremos de uma avaliação não é saber se nossa escola é melhor que outra, mas se ela se aproxima do que consideramos ideal. O que falar de uma avaliação em que, mesmo se todas as escolas tirarem notas abaixo de 4, sempre haverá 12% com A, 18% com B, 40% com C, 18% com D e 12% com E? Sinceramente, não nos serve.
A reação dos estudantes
O resultado do exame, divulgado no início de dezembro, não nos surpreendeu. O boicote promovido pela ENECOS encontrou ressonância em formandos de diversas escolas, que não compactuam com esse tipo de política para a educação brasileira. O conceito "E" obtido pela USP, UFAL e UFPA foi a expressão maior dessa insatisfação. Só assim conseguimos manter o debate aceso, chamar atenção para a ineficácia de uma avaliação como essa, que é divulgada como "ação efetiva pela educação superior". É lamentável acompanharmos a divulgação dos resultados como uma competição entre as escolas, em que o que interessa é ser a primeira, estar à frente das outras. Segundo o MEC, existem outras formas de avaliação. No entanto, o que é divulgado publicamente, que serve como referência para a concessão de crédito educativo e é usado como publicidade pelas escolas, é o provão. Nem os conceitos de titulação de professores e de infra-estrutura - que já eram analisados de forma superficial - são divulgados mais. Os estudantes de Comunicação não têm se acomodado diante dessa questão. O projeto Avaliação pra Valer, criado em 98, pretende implementar uma avaliação que abranja todos os aspectos da formação universitária, incluindo aí ensino, pesquisa e extensão. Uma avaliação que privilegie aspectos qualitativos em lugar dos quantitativos, que não tenha como objetivo maior comparar e punir, mas contribuir para que as escolas alcancem uma boa qualidade de ensino ou, melhor ainda, uma boa qualidade na formação. Contamos com a participação de professores, acadêmicos e profissionais nesse processo. Não compreendemos uma avaliação sem a participação de todos os setores da Universidade, sem o envolvimento de toda a comunidade interna. O que os estudantes querem, o que todos queremos, são avaliações pertinentes e justas, que de fato possam mostrar caminhos para a melhoria do ensino superior no Brasil.
(*) Coordenador geral da ENECOS - Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
EDUCAÇÃO
Lamentos de Jeremias?
Isak Bejzman (*)
O Dr. Cláudio Souza, presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, diz: "Sem educação não há saúde." Está convicto de que embora o Brasil some 500 anos de existência é um país tímido em sustentabilidade. E acrescenta: "Não é possível existirem dignidade humana e desenvolvimento sem uma política que garanta, a todos, acesso aos programas de educação, saúde e habitação."
Para um grupo de administradores de capitais daqui de Porto Alegre metamorfoseados em comunicadores, o Dr. Cláudio Souza deve ser um "Fidel Castro assassino", quando diz: "Infelizmente, nossos índices de mortalidade infantil por doenças infecto-contagiosas são, no mínimo, constrangedores, impedindo-nos de aspirar a qualquer ascensão no ranking mundial de desenvolvimento."
A maioria dos brasileiros ignora a existência no Brasil de um núcleo nacional que se preocupa com educação popular em saúde. Esse grupo andava atrás de uma epistemologia para sua nova ciência: Educação Popular em Saúde. Pois o Dr. Cláudio Souza a tem formulada: "Imaginemos que os 233.436 médicos brasileiros atendam, em média, três consultas por dia e dediquem três minutos a informações básicas de saúde, segundo as necessidades que pressentirem em cada paciente. Este simples ato fará com que 700.308 indivíduos recebam algum tipo de informação por dia, 3.501.540 por semana e 14.006.160 por mês." E, eu modestamente acrescento: imaginem se cada professor desse a seus alunos uma única informação diária sobre saúde?
Ricos e maus estudantes
Dos 51 milhões de estudantes brasileiros dos níveis fundamental e médio, 315 mil fizeram as provas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Só cinco tiraram nota 10, sendo que a média obtida pelos alunos oriundos de escolas públicas foi 4,5, enquanto os procedentes de escolas particulares alcançaram em média nota 5,7. Os jovens de renda familiar abaixo dos 10 salários mínimos metade deles ficaram com as notas menores. Assim mesmo, o universo do Enem não é uma amostra da sociedade brasileira, pois 84% das famílias dos inscritos moram em casa própria, 77% têm carro em casa, 76,5% consideram-se brancos e 52% têm computador.
O Enem é dirigido a estudantes que concluíram ou estão por concluir o ensino médio. Não é obrigatório e tem taxa de inscrição. O MEC dá uma dica importante: "O Enem só avalia conteúdos associados às competências e habilidades. Prepare-se para o exame lendo jornais e revistas, conversando com seus colegas, pais e professores sobre temas atuais de natureza científica, política, artística, histórica, entre outras. Tente construir argumentações consistentes em torno de suas idéias e procure compreender pontos de vista diferentes do seu. Se puder, escreva suas idéias e apresente-as a seus colegas."
Os dados que o atual exame do Enem apresentam, ainda que seja um exame elitista (dentro do contexto sócioeconômico brasileiro) são próprios do tiro que saiu pela culatra. Para o jornalista Elio Gaspari, seria lógico que os filhos de pais com curso de pós-graduação (cerca de 75% dos inscritos) formassem uma espécie de elite nos colégios, pois acumulam dois incentivos: a escolaridade dos pais e uma renda familiar folgada. Engano: eles conseguiram 5,8, uma nota ligeiramente inferior à média dos 8,7% que vivem em famílias com renda entre 30 e 50 salários mínimos.
Elite dentro da elite
Com justa razão Gaspari está preocupado com os dados. Salvo melhor juízo, o Enem visa preparar mão-de-obra para a produção industrial moderna. O exame não vai acabar com a indústria dos cursinhos pré-vestibular. Vão continuar ingressando nas universidades federais aqueles que podem mais.
Diploma para que, pergunta Dimenstein. Para ele, o universitário brasileiro habita "um buraco cultural devastador", 23% deles conseguem ler um livro por ano. Jornais e revistas? Nem pensar. Com tristeza, Dimenstein conclui que estes jovens aprofundam seus conhecimentos através de uma linguagem clipada: a da TV. Sabemos que esta é a elite cultural da nação que está para vir, são os que conseguem se graduar em alguma faculdade, e são eles que entendem que ler um jornal é dar uma passada de olhos, lamenta Dimenstein.
Algo de paradoxal acontece. Nesta elite existe uma super-elite, e para esta, sim, existe uma educação continuada. É dela que vão sair os grandes especialistas, que vão estudar no exterior e lá enriquecer suas técnicas e conhecimentos.
O império do prazer
Michael Do Myung Chang, acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, escreveu: "Este ano foi, decisivamente, o ano do estudante de Medicina. Assassinatos, depredações e crises de insanidade fizeram com que a sociedade se espantasse com os futuros profissionais que zelam pelo bem físico das pessoas." Chang se queixa da mídia e da sociedade. Para ele ambas estão equivocadas ao julgar que o estudante de Medicina deve seguir um estereótipo pré-estabelecido, devendo reformular suas posições. Ainda segundo Chang, "todo mundo está enganado ao pensar que todos acadêmicos se preocupam com questões sociais, se engajam em projetos que buscam a melhoria da saúde pública ou que tenham o ideal de ajudar o próximo por simples e pura vocação. (...) Portanto, é um erro pensar que temos um ideal de prática médica em comum".
Chang se queixa também de várias pressões. Estudantes impotentes frente ao sistema de saúde vigente no país, o desmoronamento das universidades públicas, um mercado saturado que cada vez mais desvaloriza o profissional e a luta consigo mesmo na busca de uma estrutura emocional adequada para enfrentar toda essa problemática e assumir as responsabilidades com a saúde da população.
O Dr. Renato Piltcher, médico-psiquiatra que trabalha com adolescentes em Porto Alegre, resolveu dividir com seus colegas de especialidade algumas das inquietações que o avassalam em suas atividades clínicas diárias. O Dr. Renato está profundamente preocupado com o estado emocional em que vivem os adolescentes de hoje. Seu artigo me chamou a atenção porque é como um grito de dor e uma atitude de engajamento. Diz o Dr. Renato: "Adaptando livremente um conceito paradigmático de Winnicott (o de mãe suficientemente boa), pode-se pensar estarmos vivendo um momento de carência de uma função paterna suficientemente boa, algo vital, especialmente na adolescência. Constatamos tanto em nível familiar quanto social um momento de ausência de limites precisos, no qual parece imperar o principio do prazer absoluto."
Fase louca da vida
O Dr. Renato percebeu em seu consultório que seu universo circundante, o "mundo adolescente", é um lugar onde não existe espaço para o contraditório, só vale o eu narcisista, onde prevalece o desprezo pelo outro e pela diversidade. Isso para mim é o aniquilamento da cultura, tanto é que o Dr. Renato acrescenta: "Verifica-se um apagamento das diferenças entre as novíssimas gerações de pais e filhos traço não por coincidência típico da perversão o grifo é meu. A experiência, a maturidade e o pensamento critico, isto é, o pensamento reflexivo, estão feito estacas no brejo.
O Dr. Renato vê uma entidade impessoal, o "mercado globalizado", como o causador do bloqueio de que o adolescente padece e que limita sua criatividade por criar um vácuo de responsabilidade e autoridade (ele pede para não confundir com autoritarismo).
Infelizmente o Dr. Renato, em seu artigo, só fala de uma parcela dos adolescentes brasileiros, daqueles cujos problemas chegam ao seu consultório. Mas penso que algo mais deve ser acrescentado ao quadro.
De fato a adolescência é a fase louca da vida. Só nesta fase da vida eu, adolescente, posso ser louco, e posso justamente porque sou adolescente. Por isso a sociedade aceita minha loucura. Depois, bem, depois eu sou obrigado a ser adulto. E se eu não quero ser adulto? A solução é a loucura ou o suicídio, e um dos melhores suicídios é o acidente de trânsito.
À imensidão de jovens brasileiros que freqüentam consultórios psiquiátricos como os do Dr. Renato se somam muitos milhares de jovens brasileiros que não têm sequer o trabalho de se suicidar. Existem na periferia das grandes cidades brasileiras os "justiceiros", que dão conta do recado.
Este texto, ainda que imperfeito, é um convite à reflexão sobre o Brasil que desejamos.
Bibliografia
Souza, Cláudio Sem Educação Não Há Saúde; Medicina, Conselho Federal; Brasilia; Ano XIV NΊ111 Nov/99.
Gaspari, Elio Saiu o resultado do Enem: a garotada tirou 5,1; Zero Hora, Porto Alegre 12/12/99.
Dimenstein, Gilberto Por que o Diploma é uma bobagem, Folha de S.Paulo, 12/12/99.
Chang, Michael Do Myung O estudante de Medicina; Porto Alegre, Zero Hora, Opinião,
13/12/99.
Piltcher, Renato Mundo Adolescente; Jornal da Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Ano IX * 3Ί Tri/99 * NΊ35.
(*) Jornalista, médico-psiquiatra
Jornalismo, profissão corroída
Fabrício Francis (*)
O que é ser jornalista? Para os profissionais da área, minha pergunta pode parecer sem fundamento. Mas se analisarmos a questão veremos que nos dias de hoje está difícil exercer a profissão de jornalista. Um dos fatores é a maneira pela qual as fontes estão dominando os meios de comunicação. Atualmente, quando um jornalista sai para fazer matéria, a fonte quer direcionar o texto do repórter. E às vezes a fonte até liga para os chefes de redação e "manda" o que deve ser publicado. Pode-se dizer que os meios de comunicação estão desperdiçando dinheiro, pagando aos jornalistas. A coisa poderia ser simplificada: a fonte enviaria o texto à redação, o revisor faria a revisão, o editor, editaria a matéria e publicaria sem questionamentos, como aliás vem sendo feito.
Há algum tempo empresas ou assessores de comunicação mandavam releases à redação. Agora estão enviando "sugestão de pauta". Será que os jornalistas de hoje, ou melhor, alguns jornalistas, estão cansados da profissão? Ou esqueceram a ética?
Notamos estes problemas com mais evidência nas cidades do interior, onde as questões nacionais mais importantes ficam relegadas, e o que realmente interessa são as questões "interioranas".
Não podemos nos deixar corromper por esse modelo de jornalismo.
(*) Estudante de Jornalismo
CARTAS
Formados sem diploma
Gostaria de compartilhar minha angústia expondo o caso da Universidade Bandeirante de São Paulo, que até agora não obteve reconhecimento para o curso de Jornalismo. A turma está formada há um ano, e o que dizem é que estão aguardando a publicação pelo MEC.
Há pouco tempo a turma de Direito, que estava na mesma situação, teve que ir a Brasília (patrocinada pela universidade) para pressionar o MEC e pedir o reconhecimento do curso.
Universidade e MEC não dão esclarecimentos satisfatórios, nos deixando com muitas dúvidas. Acredito que os escândalos envolvendo a Uniban não sejam novidade, por isso estamos muito preocupados, pois não sabemos até que ponto os alunos podem ser prejudicados. Por enquanto nossa única arma é a imprensa e resolvemos começar por vocês.
Adriana Ezequiel
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