Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

RESULTADOS DO PROVÃO
Jornalismo nas manchetes

Victor Gentilli

Foi de surpresa: um release à imprensa na manhã de terça-feira, 15 de fevereiro, e uma entrevista coletiva ao meio-dia. Falaram apenas o ministro Paulo Renato Souza e o diretor da Secretaria de Ensino Superior, Abílio Baeta Neves. Os jornalistas receberam um livro que chamava a atenção pelo vermelho da capa. O MEC anunciava finalmente o resultado da Avaliação das Condições de Oferta dos Cursos de Graduação realizada em 1999. Equipes de professores treinados pelo ministério visitaram praticamente todos os cursos de Economia, Engenharia Mecânica, Engenharia Elétrica e Jornalismo do país. A divulgação das avaliações dos cursos de Letras, Matemática e Medicina ficou para mais tarde, provavelmente maio.

A Folha de S.Paulo deu manchete principal para a avaliação global: "MEC ameaça 94 cursos superiores" (16/2/00). Todos os jornalões deram chamada na primeira e abriram manchete de página para os cursos de jornalismo.

O Globo: "Jornalismo da UFRJ é reprovado pelo MEC" (pág. 10)

O Estado de S. Paulo: "Cursos de jornalismo têm avaliação ruim do MEC" (pág. A13)

Jornal do Brasil: "MEC reprova 93 cursos"

Globo e Estadão, portanto, deram sua faturadinha nas deficiências dos cursos de jornalismo. Os demais não privilegiaram um ou outro curso. Evidente: o fato de os cursos de jornalismo terem acumulado incidência maior de conceitos "insuficiente" foi destacado por todos.

Alguns esclareceram os critérios de avaliação e mostraram as escolas mais deficientes, como a Folha. O Estadão preferiu listar os melhores cursos do Brasil. De jornalismo havia apenas dois: Universidade Federal da Bahia e PUC Campinas. Mesmo assim, nenhum com três conceitos CMB – sigla para "condições muito boas".

Cada jornal foi ver a realidade de sua região. O Globo abriu com a contradição entre as boas notas do provão e os conceitos "insuficiente" do curso da UFRJ. Não há contradição. Primeiro, porque a UFRJ, no seu vestibular, já seleciona os melhores alunos vocacionados para o jornalismo. Segundo, como o Estadão mostrou a partir do próprio relatório do MEC, "(...) as deficiências reveladas pelas escolas, particularmente nas rubricas organização didático-pedagógico e instalações, mostram que os êxitos alcançados por jovens jornalistas no Brasil devem ser atribuídos, com certeza, ao esforço de professores competentes e dedicados e ao talento individual destes estudantes que, apesar das dificuldades e deficiências, sustentam ao longo do curso o sonho de exercer com brilho a profissão".

 

Avaliação rigorosa

V.G.

O instrumento de avaliação dos cursos de jornalismo era de fato muito rigoroso. O rigor não significava um projeto único e quem não se enquadrasse nele entrava necessariamente no rol das escolas deficientes. Tanto que as duas escolas que conseguiram dois CMB (Condições Muito Boas) têm projetos pedagógicos bastante diferentes. Do conjunto de critérios, a grande maioria permitia o conceito máximo em quem conquistasse cerca de 70% dos quesitos. Escolas voltadas para pesquisa, escolas voltadas para a prática, todas as visões possíveis foram contempladas.

A preocupação maior daqueles que trabalharam nos quesitos foi oferecer um padrão que permitisse mostrar as várias possibilidades do que seria um curso de jornalismo de boa qualidade. Quem buscar as variáveis e experimentar cruzá-las vai encontrar diversos modelos ideais de cursos, com conceitos muito bons em todos os quesitos. A ênfase no jornalismo, no entanto, foi sempre preservada.

A maior preocupação foi, evidentemente, tentar valorizar todos os aspectos que possam eventualmente ser meritórios num curso. A pioneira Faculdade Cásper Líbero obteve um bom conceito geral porque a experiência profissional dos professores também era valorizada e, num certo sentido, compensava a deficiência em titulação de alguns de seus professores.

O maior desastre se deu mesmo foi no quesito "Instalações". Os padrões do MEC eram extremamente rigorosos. As universidades públicas, sofrendo há anos com a falta de verbas, foram as mais prejudicadas.

Quanto ao projeto didático-pedagógico, buscou-se valorizar a teoria, a prática, as atividades laboratoriais etc.

O vazio legal em que nos encontramos – o velho currículo mínimo de 1984 já não mais está vigindo, mas as novas Diretrizes Curriculares ainda não foram aprovadas – pode ter prejudicado um ou outro curso menos ousado, que preferiu manter inalterado seu velho currículo com um ou outro remendo.

Cerca de cinqüenta professores foram treinados para participar da avaliação e coordenaram as equipes que mobilizaram quase cem professores, todos jornalistas, todos pelo menos com o título de mestre.

 

O ovo e a galinha

Marcia Benetti Machado (*)

A bomba em que se converteu a divulgação dos conceitos obtidos pelos cursos de jornalismo na avaliação promovida pelo MEC está pipocando e pode estourar em muitas mãos. No caso das universidades federais, a situação é quase esquizofrênica. O governo federal mantém uma política de contenção de verbas, deixando as instituições à míngua, e é a sua própria política que acaba agora refletida no espelho da avaliação.

Passei os últimos dias dando explicações à imprensa e acalmando corações assustados com os conceitos obtidos pelo curso de Jornalismo da UFRGS. Não é uma tarefa fácil, já que as explicações deveriam ser cobradas mais do provedor - o MEC - do que da própria instituição, e também porque nós, professores, nos sentimos humilhados, desconfortáveis, impotentes e até indigentes. É o caso de perguntar: basta avaliar o ovo, quando a responsabilidade é essencialmente da galinha?

A avaliação é um procedimento correto e necessário. As instituições de ensino superior não estão acima do bem e do mal e devem ser analisadas. Um grande avanço, nesse sentido, é a implementação das avaliações in loco, que em primeira instância inibem os eventuais relatórios fraudulentos. No entanto, este é o momento de dirigir os nossos esforços para duas frentes: de um lado, para a política de educação superior do governo federal; de outro, para a própria metodologia de avaliação. Se o MEC estiver de fato interessado na qualificação dos cursos de Jornalismo, então a avaliação será um instrumento para garantir a formação, em todo o país, de jornalistas competentes, criativos, críticos e capazes de intervir no mercado de trabalho com ética e responsabilidade. Se, ao contrário, o MEC tiver a intenção de utilizar a avaliação para desmoralizar as instituições públicas de ensino superior, preparando o terreno para o seu desmonte e a sua privatização, então é bom saber que enfrentará uma guerra sem precedentes.

Considerando que a avaliação tenha o objetivo de qualificar os cursos, é hora de pôr a mão na massa e fazer a sua parte. Primeiro, o governo federal terá que entender a avaliação como uma autocrítica. Segundo, terá que liberar verbas para os cursos de jornalismo das federais. Na UFRGS, há anos lutamos por equipamentos para nossos laboratórios de informática, fotografia, rádio e TV. Não esperávamos outro resultado, no item "instalações", que não o CI (condições insuficientes) obtido. Sabemos que as condições são insuficientes, nossos alunos o sabem. Como preparar um aluno para intervir no mercado da mídia eletrônica sem computadores? Como ensinar fotojornalismo sem câmeras? Não é terrivelmente revelador que, das 24 federais avaliadas no caso do Jornalismo, 22 tenham obtido CI em instalações? O que isso significa? Eu digo: significa o caos. Gerenciamos o caos todos os dias nas universidades federais, sem professores, funcionários, equipamentos e espaço físico suficientes.

Mas também fomos pegos de surpresa, como outras instituições, no item "organização didático-pedagógica". Apesar da consciência de que devemos reformular o currículo, não achamos o conceito CI justo, e não estamos aqui colocando em dúvida a competência ou a qualificação de nossos avaliadores. O que se deve repensar com tranqüilidade e maturidade são os critérios de avaliação. De minha parte, é difícil compreender o que significa o item que trata do "atendimento do projeto pedagógico do curso às condições e perspectivas do mercado de trabalho regional e às demandas gerais da sociedade, preservando o papel formativo e crítico da Universidade". Poucos cursos gaúchos são tão formadores de profissionais críticos quanto o Jornalismo da UFRGS, e é virtualmente impossível definir consensualmente o que sejam as "demandas gerais da sociedade". Além disso, de que mercado de trabalho regional estamos falando? A UFRGS deve formar jornalistas para os jornais gaúchos e para o complexo RBS? Discordo integralmente, e lembro que o Rio Grande do Sul é um tradicional exportador de talentos para outros lugares do país. Sob o ponto de vista que embasa o item da avaliação, isso seria um demérito. No entanto, o jornalista de hoje deve ser um profissional que fale pelo menos uma língua estrangeira e seja capaz de atuar em qualquer região. No caso da UFRGS, recebemos uma avaliação "não suficiente" nesse item, e só a reversão desse ponto teria nos colocado em condições regulares (CR). Há pelo menos mais dois itens na estrutura curricular dos quais discordamos, e levanto a questão apenas para exemplificar a grande responsabilidade que os avaliadores têm nesse processo.

De modo geral, aceitamos a avaliação - que nos concedeu ainda um CB em corpo docente - , mas vamos recorrer no que julgamos que seja incorreta. Os recursos, que deverão chegar de todos os lados, também devem ser encarados, pelo MEC, como parte do processo de crescimento da avaliação. O que temos pela frente é um longo trabalho, que deve ser realizado coletivamente e com maturidade. Senão, corremos o risco de matar o ovo e deixar impune a galinha.

(*) Jornalista e chefe do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

À beira da irresponsabilidade

Edvaldo Pereira Lima
(*)

A avaliação do MEC, atribuindo "CI" aos itens corpo docente, projeto pedagógico e instalações da habilitação Jornalismo, do nosso Curso de Comunicação Social, não reflete em absoluto o esforço, o investimento e o programa de melhoria em curso, por parte da instituição e das equipes de trabalho. Tomando por objetivo um interesse comum a todos e uma boa intenção – melhorar o ensino superior no país –, o MEC consegue distorcer esse propósito, ao adotar um critério básico de avaliação exageradamente tecnicista, sem o mínimo de sensibilidade para com aspectos sistêmicos de processos em andamento. Demonstra, também, carência de bom senso, ao não considerar que a realidade do país é constituída de múltiplas e diferenciadas condições regionais. Não se pode uniformizar um padrão único de caráter nacional.

As incoerências danosas dos critérios adotados pelo MEC para a chamada Avaliação das Condições de Oferta (do ensino superior) já eram apontadas, com grande preocupação, pelo relatório encaminhado a esse Ministério pela Câmara de Ensino Superior, do Conselho Nacional de Educação, em 23/11/99. Alguns dos aspectos preocupantes apontados pelos conselheiros:

1. A análise dos processos, por parte das Comissões de Especialistas e de Verificação, "tem revelado um excesso de rigor"..."que não encontra amparo legal nem é necessária para assegurar a qualidade desejável para os cursos de uma determinada área."

2. Critica a exigência draconiana de um excesso de professores titulados. Diz o texto: "É perfeitamente possível a existências de bons cursos de graduação"... "que não incluam no corpo docente elevado percentual de mestres e doutores." Entretanto, os "... critérios de avaliação ...não levam em consideração essa diferenciação" ...(entre cursos que se dedicam à pesquisa e os que profissionalizam futuros especialistas).

3. Ao adotar um critério uniforme para o país todo, o MEC também é criticado no documento: "Em áreas nos quais o número de doutores é reduzido e nos estabelecimentos situados no interior dos Estados, as exigências são freqüentemente inviáveis."

4. Aponta uma confusão comum nessas avaliações: "...é preciso considerar que planos de qualificação docente se aplicam propriamente à instituição e não ao curso."

5. Quanto aos currículos, o relatório diz que "... nem devem as comissões exigir a rígida obediência nem aos antigos currículos mínimos nem às diretrizes provisórias que vêm sendo publicadas pelas comissões."

Ora, além desses critérios questionáveis, o MEC cometeu o descalabaro tecnocrata de ser incoerente para consigo mesmo em outro aspecto. Pelo que entendo, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação concede até 2004 para as instituições reestruturarem seu corpo docente. Assim, quando leva em conta nas avaliações apenas o número de mestres e doutores já titulados, desprezando o fato das instituições contarem com docentes em processo de titulação, torna-se injustamente rigoroso, inconseqüente e quase leviano.

No nosso caso, quando a Comissão visitou o curso, no segundo semestre de 1999, contávamos no corpo docente com dois doutores, dois mestres, dois doutorandos, seis mestrandos. Desses, uma docente tem título de doutor por instituição norte-americana, um pela USP. Os dois mestres têm seus títulos obtidos na USP. Dos pós-graduandos, nada menos que seis realizavam seu programa de titulação na Escola de Comunicações e Artes da USP, seguramente uma instituição reconhecida nacional e internacionalmente pela excelência de seus cursos de pós-graduação. Ao não considerar este aspecto, demonstra uma visão estanque da evolução dinâmica do processo educacional, desprezando o empenho em progresso da Universidade de Uberaba, procurando atingir excelência fora dos grandes centros do país.

Ao mesmo tempo, parece não ter levado em conta que o nosso jornal-laboratório Revelação é um dos pouquíssimos do país, em sua categoria, com periodicidade semanal. Na ocasião da visita do MEC circulava, como encarte, em dois dos três jornais diários da cidade. Ora, quantos cursos no país podem apresentar esta condição privilegiada?

Mantemos, também, um programa semanal de rádio, produzido didaticamente no Curso, que vai ao ar em emissora comercial local. Quantos cursos no Brasil podem se dar esse privilégio, principalmente fora das metrópoles?

Quanto ao projeto pedagógico, é irônico que o MEC tenha atribuído também sua nota mais baixa, quando um dos aspectos que o Ministério pede é que os cursos encontrem seu diferencial, procurando oferecer aos estudantes aspectos particulares de qualidade que inovem o ensino e o encaminhamento para a vida profissional. O nosso projeto ousa lapidar um caminho diferenciador que recentemente conquistou reconhecimento nacional. Um de seus instrumentos mais importantes na estratégia de renovação do curso, a cujo projeto demos o nome de "O Jornal-Laboratório Revelação e a Humanização da Narrativa Jornalística", foi agraciado com menção honrosa, pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, no Prêmio Top Educacional Professor Mário Palmério 1999. E isso o MEC não considera?

Que visão retrógada é essa, que se mantém indiferente ao esforço de um punhado de docentes e administradores empenhados e idealistas? Que poder sacrosanto é este que tenta impor uma visão monolítica, sem flexibilidade para considerar condições pertinentes a casos meritórios?

Não se discute a fragilidade momentânea de certos aspectos do nosso Curso. A auto-crítica existe. O que é justo, aceita-se com serenidade, apontando-se os trabalhos em progresso para essas correções. Tudo bem neste aspecto. O que não se aceita é uma avaliação míope, fossilizada em números e estatísticas, em aspectos relevantes.

Demasiado técnico

As reações de várias instituições hoje, conforme os jornais mostram ao longo do país, refletem essa incoerência absurda e prejudicial do MEC. Instituições de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, manifestaram uma desagradável surpresa pelo resultado negativo.

Pelo menos uma das instituições já declarou que vai recorrer. De "piada de mau gosto" a "exigências exageradas", há várias declarações nos diários que apontam o espanto com que a comunidade recebeu um trabalho mal conduzido, em aspectos essenciais.

Segundo os jornais, a Universidade de Pouso Alegre teve seu projeto didático-pedagógico considerado modelo num congresso no Rio de Janeiro. Para o MEC, porém, é "insuficiente". Na Unesp, a diretora Cleide Biancarde declarou à imprensa que a análise foi muito técnica. Sua fala é similar ao que poderíamos dizer: "...contaram quantos computadores há para cada aluno, mas não avaliaram nossa formação humanística, que é muito importante no mercado." O Centro Universitário de Belo Horizonte possui 15 laboratórios para a habilitação Jornalismo, segundo os jornais, mas mesmo assim o MEC não ficou satisfeito. A Universidade Federal do Rio de Janeiro obteve conceito A nas duas edições anteriores do Provão. Paradoxalmente, o MEC atribuiu-lhe dois conceitos CI (condições insuficientes). Algo está profundamente falho nessa avaliação.

Parece que o MEC não atua num país cheio de contrastes como o Brasil. Parece que existe um universo só nas mentes dos tecnocratas do Ministério e outro aqui, real, no âmbito do cotidiano de milhares de brasileiros que ensinam, pesquisam e estudam Jornalismo.

Por esses fatores, sou favorável a que a Universidade de Uberaba questione a avaliação do MEC em todas as instâncias devidas. E que este cumpra seu papel ético de fornecer às instituições a íntegra dos relatórios técnicos das Comissões. Tal medida, por sinal, deveria ter acontecido em paralelo ao anúncio público dos resultados, em respeito à comunidade de professores de Comunicação Social de todo o país e à opinião pública.

(*) Diretor do Curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba. Doutor em Ciências da Comunicação pela USP. E-mail: edpl@uol.com.br

 

A dor da gente não sai no jornal

Antonio Fernando Beraldo

Sou contra o Provão. Não por antipatia gratuita, mas principalmente pelas deficiências técnicas e a falta de robustez estatística, já apontadas aqui, por mim e por muitos outros [veja remissões abaixo]: não-padronização das notas, rigidez da categorização em A, B, C etc., confusão entre médias e quartis, tratamento uniforme para instituições absolutamente desiguais, e por aí vai – chega de termos técnicos. Não custa lembrar que estas deficiências têm sido reconhecidas por comissões dentro do próprio MEC, que estudam a reformulação do exame.

Além disso, os resultados divulgados pelo MEC foram adotados in natura pela mídia, como sempre despreparada, que toma as universidades como se fossem times de futebol e o Provão uma espécie de campeonato nacional – e dá-lhe bairrismo, paixonites, implicâncias, distorções, juízos congelados ... O estabelecimento precipitado e leviano de rankings de universidades pela mídia impressa, além de prolongar a estupidez, faz um estrago ainda maior, distraindo a atenção dos verdadeiros problemas das universidades públicas. Aliás, se existe um setor que a mídia nacional não consegue abordar, nem de longe, é o das universidades.

Victor Gentilli, no Observatório de 5 de fevereiro [veja remissão abaixo], lembra que nem eu, nem a Mônica Macedo nem o João Brant abordamos a questão política do Provão – a disposição do MEC de avaliar o ensino superior. E que não fizemos referência às Comissões de Avaliação, também do MEC, que têm visitado quase todas as faculdades. Foi o que realmente ocorreu e, de minha parte, explico: mais do que o fato em si, o que critico é o tratamento que lhe dá a mídia, as distorções, os erros, e a incompetência que geralmente acontece – daí escrever para um veículo com este nome: Observatório da Imprensa.

Três lógicas

Acompanhei, com níveis diferentes de participação, a avaliação de três cursos da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde trabalho. Na avaliação do curso de Psicologia, fui um dos docentes convocados a "depor". E posso garantir que o pessoal é sério, conhece o assunto e fez um trabalho excelente, pelo menos aqui na UFJF. Espero que seja assim com todas, federais ou não. Creio que este trabalho, muitissimo mais importante do que o Provão, vai acabar com muito "achismo" existente no nosso meio. E se a imprensa fizer o mesmo carnaval com o resultado das avaliações das universidades, vai chumbo do mesmo jeito.

Mas aprendi que existem, pelo menos, três "lógicas" para a tomada de decisões: a racional, a do bom senso, e a política (com p minúsculo). A racional é fria, atemporal, invariável (para as mesmas condições); o bom senso é "quente", considera todo o entorno do problema, variando de acordo com o tempo e as condições aparentes. A decisão política é sempre de conveniências, e freqüentemente não tem nada a ver com o problema em si, mas sim com outras "variáveis", se é que me entendem. No mais das vezes, é um atentado à racionalidade e ao bom senso – pelo menos aparentemente. Daí que me julgo incompetente para comentar os aspectos "políticos" de qualquer questão, além de não ter mais a menor paciência para isso.

O que se tem "plantado" e lido, na mídia, pode-se resumir no seguinte: as universidades públicas recebem um monte de dinheiro do contribuinte e "torram" essa grana com a folha de pagamento dos servidores públicos, uma casta superior montada em seus "privilégios". Seus alunos só conseguiram entrar ali depois que os pais gastaram uma nota preta em cursinhos – daí que só entram numa federal os filhos da elite sócio-econômica do país. E para estudar de graça. Quando dizem que fazem Pesquisa, é sobre temas tão afastados da "realidade prática" quanto "A transgeneralidade epistêmica no deuteronômio – Um olhar pré-cognitivo Piageto-Montessoriano". Quando são projetos de Extensão, são coisas como "Repensando o arquétipo da mendicância no Vale do Jequitinhonha".

Já as particulares, são uma máquina de fazer dinheiro e estão pouco se importando com qualidade do ensino, cultura universitária, pesquisa, esses detalhes. Sofrem um pouco com a inadimplência, mas nada que vá fazer o mundo acabar, pois proliferam pelo país às centenas – deve ser um excelente negócio. Seus professores são explorados no salário, as salas de aula estão entupidas de gente, as "chamadas" das turmas de formandos parecem páginas da lista telefônica. Ostentam pomposas denominações, como "Fundação Universitária Faculdades Reunidas de Sto. Antonio do Parahybuna". Têm um lobby no Congresso que consegue aprovar até criação de curso superior de manicure e pedicure (com especialização em unha encravada).

Queixar-se ao bispo

A realidade não é bem essa. É óbvio que existe picaretagem, e muita, tanto nas públicas quanto nas particulares. O que não aparece na mídia, é, por exemplo:

1. O MEC e o extinto MARE impediram, de 1996 em diante, o preenchimento de pouco mais de 8.000 vagas de docentes do ensino superior, originadas de aposentadorias, em grande parte precoces, de professores universitários funcionários públicos federais. Isto representa em torno de 15% dos cargos. Depois de muita negociação, foi acertado que essas vagas seriam liberadas em lotes de 2.100 vagas, numa escala que foi publicada no Diário Oficial da União. As primeiras 2.100 vagas foram efetivamente liberadas para concurso, em proporções diferenciadas para cada IFES, logo depois da greve de 1998, para preenchimento imediato. As universidades mais ágeis realizaram os concursos e conseguiram nomear muitos docentes, até que o MEC voltasse atrás, cancelando todas as nomeações durante o ano de 1999. Quem conseguiu contratar; ótimo, quem não conseguiu, que fosse se queixar ao bispo.

2. No começo do ano, o governo demorou um pouco para revalidar a medida. Algumas universidades aproveitaram-se deste lapso de tempo e efetivaram concursos já realizados. Entrou para a universidade mais uma penca de docentes, antes que a porta se fechasse outra vez. Já os restantes 6 mil e tantos, ficam para as calendas.

3. Até meados de 1998, existiam 17.000 cargos de servidores técnico-administrativos das IFES (cerca de 22% do total) vagos, por efeito de aposentadorias, exonerações, demissões etc. Esses cargos não foram repostos, a não ser em casos extremos, para evitar o colapso de hospitais universitários, por exemplo. Mesmo assim, essa reposição, ao que eu saiba, não chegou a 900 vagas.

4. Docentes continuam se aposentando, embora o ritmo tenha diminuído. Na "revoada" que ocorreu em 1996 a 1998, algumas universidades chegaram a perder 20% de seus quadros. Funcionários resistem há 5 anos sem reajustes salariai, às ameaças, desmotivados, revoltados, incapazes de se fazer ouvir.

Melhor avaliação

É assim que se faz a política (com p minúsculo) de recursos humanos nas universidades federais. E é apenas uma gota deste oceano oculto que não consta dos editoriais e dos artigos acusando, a cada Provão, a nossa inutilidade. De vez em quando, surge uma reportagem esclarecedora, para quem sabe ler. Como a da Folha de S.Paulo de 13/02/00, pág. 1-12. Nela ficamos sabendo que o governo "seqüestrou" 80 milhões de reais das IFES, em 1997-1998. A pró-reitora da UFRGS declarou que sua universidade não recebe verbas para investimento há quatro anos. Que tal? Como dizia aquele samba do Haroldo Barbosa, "... a dor da gente não sai no jornal".

Voltando ao assunto: é para fazer um Provão decente? Então vai aqui uma sugestão, de graça. Todo profissional é formado ao longo de um curso em que os conteúdos são ministrados ao longo dos anos. Alguns conteúdos se complementam, o restante está interligado, formando um conjunto de conhecimentos – a tal da interdisciplinaridade – que possibilita o sujeito exercer a profissão.

Como sei quase nada de Jornalismo, vou ter que abusar da sua imaginação em transpor o raciocínio para a Engenharia. Um engenheiro civil tem que saber, por exemplo, Resistência dos Materiais, Saneamento, Estradas, Instalações Hidráulicas e Elétricas, Cálculo Estrutural e Programação e Controle de Obras. É para saber tudo isso que ele passou pelas Físicas e Cálculos Integrais da vida. Por que o MEC não institui umas duas ou três provas para cada "grupo de conhecimentos", valendo nota, e com os conceitos de "suficiente" ou "insuficiente", em que o aluno só poderia obter o diploma se passasse em todas? Não seria uma prova só, como é o Provão, mas o aluno poderia se submeter a qualquer uma delas no momento em que se considerasse apto, como ocorre hoje nos cursos supletivos. É claro que isso custaria muito dinheiro, e daria um trabalhão, mas seria um instrumento de avaliação muito melhor, tanto para o MEC quanto para os próprios cursos, que poderiam enfim saber ao certo onde estão suas deficiências.

 

O fim do preconceito
contra as particulares

Felipe Pena

Finalmente saiu o resultado da avaliação das condições de oferta realizada pelo MEC nos cursos de jornalismo, economia, engenharia elétrica e mecânica. E, como era de se esperar, as comissões de especialistas chegaram a conclusões drásticas. A pior avaliação foi em jornalismo, onde, dos 86 cursos examinados, 42 foram reprovados. O que significa que, dos três itens avaliados (corpo docente, instalações e organização pedagógica), estas faculdades receberam o conceito insuficiente em pelo menos dois. Se o MEC também considerasse como reprovadas as instituições com um conceito insuficiente, o resultado seria ainda pior: apenas 22 faculdades teriam condições de funcionar. No Rio de Janeiro, só sobrariam quatro.

Como diretor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, tenho orgulho de pertencer a este seleto grupo. Estamos entre as três melhores do Rio e as 10 melhores do Brasil. O que desmonta o obsoleto conceito de que só as universidades públicas podem oferecer ensino de qualidade. Entre as quatro melhores do Rio, apenas uma é pública. Na comunicação da Estácio de Sá, por exemplo, dois terços dos professores são mestres ou doutores, e o outro terço é formado por profissionais de mercado. Além disso, dispomos de equipamentos de última geração, como ilhas digitais de edição, estúdios de TV, laboratórios de multimídia e estúdios de fotografia. Estamos ligados por fibra ótica à NET Rio, onde veiculamos o único telejornal universitário diário e ao vivo do país, vencedor da EXPCOM (Exposição Nacional de Comunicação) nos últimos três anos. Também temos um jornal semanal com 300 mil exemplares, uma revista mensal e uma rádio on line, além de quatro programas de TV veiculados no Canal Universitário do Rio de Janeiro e uma agência de publicidade produzindo campanhas para estas mídias. E tudo feito por alunos, sob a supervisão de professores especialmente remunerados para esta atividade, que é extra-classe.

Mas não é porque obtivemos um conceito acima da média que vamos deixar de questionar os critérios de avaliação. Alguns deles revelam padrões finlandeses, ignorando a realidade senegalesa de grande parte dos setores de educação do país. Como o MEC pode exigir um computador por aluno em sala de aula enquanto diversas escolas federais, que são financiadas pelo mesmo órgão que avalia, não têm nem cadeiras suficientes? E o que dizer do corporativismo de classe, que reserva apenas para os professores formados em comunicação o direito de lecionar disciplinas que estariam muito melhor nas mão de docentes de outras áreas? É o caso, por exemplo, da disciplina Legislação e Ética Jornalística, que deveria ser lecionada por advogados, muito melhor ambientados com nossos labirínticos processos jurídicos. Ou de Produção Gráfica, cujas habilidades específicas estão muito mais para webmasters e comunicadores visuais do que para jornalistas.

Outro critério questionável é o tempo disponível para os avaliadores tirarem suas conclusões. Tomando como exemplo a Estácio de Sá, eles tiveram apenas dois dias para percorrer três distantes campi: Barra da Tijuca, Niterói e Rebouças. E, nesses dois dias, precisaram avaliar cada um dos 54 professores de jornalismo, analisar as ementas das disciplinas, verificar detalhadamente as instalações, examinar os diários de classe, entrevistar os alunos, conferir os livros da biblioteca, entender o método pedagógico, ver cinco fitas de vídeo com as produções dos alunos, ler um dos jornais e ouvir a programação da rádio, além de outros 54 ítens previstos no formulário do MEC. Só para preencher este documento, eles levaram cinco horas. Ou seja, quase 25 % do tempo disponível para a "visita". E eram apenas dois avaliadores.

Temos o dever de discutir os critérios da avaliação do MEC e questionar a forma como determinados quesitos são formulados. Também devemos pleitear uma maior participação daqueles que estão à frente das escolas superiores e dos próprios veículos de comunicação na elaboração destes critérios. Por que nenhum diretor de faculdade privada participa da Comissão de Especialistas? Ou ainda, por que não são ouvidos profissionais do mercado e diretores de empresas jornalísticas? Quero deixar claro o meu total apoio ao processo de avaliação, que é imprescindível para a melhoria do ensino superior no país, mesmo não concordando com alguns de seus critérios. E não é porque obtivemos um conceito favorável que vamos esquecer esta discordância. Nossa obrigação é aprimorar a metodologia da avaliação. Espero ter a oportunidade de participar de vários debates públicos sobre este processo, mas, desde já, gostaria de deixar registrado que, diante do resultado final e da análise comparativa entre as faculdades que conheço, pude concluir que o trabalho da comissão foi sério e rigoroso, embora precise de reformulações urgentes.

(*) Jornalista e doutorando em Letras pela PUC-Rio, diretor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá

 

CARTAS
Profissão de risco

Acredito ser viável a realização do Provão, não para medir a qualificação quantitativa dos formandos e suas respectivas universidades, mas sim para avaliar o conteúdo qualitativo das informações, técnicas e didáticas adquiridas no decorrer do curso. Convenhamos, egressos de cursos "técnicos" de 3Ί grau (Medicina, Engenharia, Informática e outros) devem ser avaliados até para se saber se estão aptos a exercer suas profissões, para que não matem, errem cálculos básicos ou dêem prejuízo à sociedade.

Então, por que não analisar o que nossos "jornalistas" poderão falar, escrever ou mostrar? Eles também podem oferecer risco, independentemente das empresas em que virão a trabalhar (, ou seja, as diferentes linhas editoriais de TVs, rádios e jornais).

Marcelo Romero Tavares

 

LEIA TAMBEM

Kafka não morreu! – Antonio Fernando Beraldo

Bola fora. Outra vez – João Brant

Uma visão política – Victor Gentilli

Provão, provinha – João B. de Almeida

Avaliação e qualificação – Margarethe Born Steinberger-Elias

O primeiro ranking do MEC – Victor Gentilli

Um novo olhar sobre os cursos de Jornalismo – Carmen Pereira

 



Início do Diretório acadêmico





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você