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ENSINO DE JORNALISMO Disposição de ouvir críticas
Victor
Gentilli
A edição passada deste Observatório (nº 85, 5/3/00), e sua
atualização de 10/3/00, bateram o recorde de participação no
Diretório Acadêmico. Nunca se escreveu tanto sobre ensino de
Jornalismo. A quase totalidade dos textos comentava a avaliação das
condições de oferta dos cursos - avaliação esta em que, pela
primeira vez na história brasileira, professores de Jornalismo
visitaram praticamente todas as escolas para checar suas condições.
Das 92 escolas que fizeram o provão no ano passado, 86 foram
avaliadas. O resultado, de um modo geral, foi muito ruim, e o que se
viu na maioria dos textos foi reclamação.
É normal que nesses momentos cada um olhe para sua árvore, mas é
preciso que haja quem se disponha a olhar para a floresta. Mais do
que isso: uma reflexão, uma análise, uma vontade de compreender o
que de fato está a ocorrer e quais as medidas necessárias para que
as coisas andem bem.
A grande maioria das reclamações questionava aspectos específicos
da avaliação de sua escola. Mesmo a Universidade Federal Fluminense,
que corajosamente entrou no debate questionando a avaliação em seu
mérito - e muito antes de conhecer os resultados -, o fez tomando
como exemplo fatos que teriam ocorrido durante a avaliação de sua
escola e não critérios e parâmetros para a avaliação.
A floresta cresce
O prof. J.S. Faro, este sim, pôs o dedo na ferida, mas há de
confessar que retirou-o sem manchas de sangue. Faro mostrou os
conflitos entre os que defendem a separação dos cursos de Jornalismo
daqueles de Comunicação (falando genericamente), e disse que aí
estaria o problema. Não está. Quem pôde se debruçar sobre critérios
e parâmetros da avaliação viu que um bom curso seria reconhecido
como tal, independentemente da "linha" em que estivesse inserido. E
foi o que fato ocorreu. Quem se dispuser a analisar os resultados
vai ver isso claramente.
O que surpreende - e isso é amplo, geral e irrestrito - é a
indisponibilidade de aceitar críticas, fenômeno que atinge a todos,
indistintamente.
Se tivéssemos gente disposta efetivamente a extrair lições destas
experiências, não estaríamos no silêncio, no escuro, como estamos,
mas já discutindo os primeiros textos que avaliam, refletem,
repercutem os resultados. Textos que se voltam para a floresta, não
para a "sua" árvore.
Aliás, como já apontara em texto anterior, uma floresta que
cresce cerca de 30% ao ano.
É de arrepiar.
Para uma escola poder inscrever-se no provão é preciso que haja
uma turma de formandos neste ano.
Em 1999, 92 cursos fizeram o provão.
Em 2000, 133 vão fazer o provão.
Neste ritmo, em 2001 teremos pelo menos 180 cursos.
Em 2002, mais de 250 cursos - cursos já autorizados e
funcionando, aguardando apenas a formatura das primeiras turmas.
É de arrepiar.
Carta aberta à Comissão
Marcelo Bolshaw Gomes (*)
Estudando atentamente o relatório da Avaliação das Condições de
Oferta dos Cursos de Jornalismo - 1999, referente ao Curso de
Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
qualificando como "insuficientes" tanto seu corpo docente como suas
instalações e seu projeto didático-pedagógico, destacamos dois
grandes conjuntos de questões a serem encaminhadas.
1) O documento contém preciosas informações sobre as
deficiências do curso e os pontos em que são necessárias mudanças e
ajustes. 2) Há uma série de
contradições e informações duvidosas na avaliação, cujo conteúdo é
necessário esclarecer melhor - pois diminuem sensivelmente a
pontuação do Curso.
Assim, seguindo os pontos indicados pelo relatório, encaminhamos
à chefia do Departamento de Comunicação as seguintes providências:
a) acelerar o projeto interinstitucional de pós-graduação (mestrado
e doutorado) e do projeto institucional- pedagógico do curso; b)
determinar a criação de duas novas comissões permanentes - de
Extensão (formada pelos chefes de laboratório e com o objetivo de
consolidar a empresa- júnior) e de Avaliação (responsável pelo
acompanhamento do provão, da GED e das visitas do MEC); c) solicitar
a urgente elaboração dos documentos Plano anual de
investimentos e Plano de capacitação docente completo
(com três subprogramas) às comissões permanente de equipamentos e
pós-graduação, respectivamente; d) expedimos circular solicitando
aos professores o envio de livros e artigos para publicação, bem
como a elaboração de um currículo dentro do modelo determinado pela
avaliação e de uma bibliografia atualizada - com a indicação dos
livros que devem ser adquiridos para um acervo setorial; e) nomear
uma comissão especial para organização da Semana da Comunicação
ainda este ano; f) encaminhar pedido para conectar todos os
computadores do curso à Internet, contratação de um programador
(webdesigner), um técnico em manutenção e de serviços de consultoria
na área de análise de sistemas; e, finalmente, g) colocar para
Coordenação e para o Colegiado do curso a necessidade de limitar o
número de alunos matriculados em disciplinas técnicas (se necessário
criando novas turmas) e de melhor distribuição da carga horária e de
diminuição da RM.
Desta forma, consideramos positivo o fato de a avaliação
institucional ter apontado as nossas principais deficiências e
criado as condições para minimiza-las - pelas inúmeras manifestações
de solidariedade de parte de professores de outros cursos, da
administração da UFRN e da sociedade civil local.
Porém, feita nossa autocrítica, não podemos deixar de perceber
algumas injustiças ou mal- entendidos. Por exemplo: no quesito
H, "Critérios para progressão da carreira docente", diversas
progressões por titulação acadêmica (de pelos menos três professores
nos últimos anos, Marcelo Bolshaw, Josimey Costa e Graça Pinto, e
todas as progressões por produção técnico-científica na área de
jornalismo apresentada aos avaliadores foram ignoradas pelo
relatório. Os projetos de extensão realizados nos últimos anos
também não foram computados.
No quesito B da avaliação docente (titulação acadêmica dos
professores de disciplinas não- técnicas), é afirmado que 55% dos
professores são graduados, 30% são especialistas e apenas 15% têm
mestrado. No entanto, havia pelo menos cinco mestres dando
disciplinas teóricas durante o período de avaliação (Marcelo
Bolshaw, Josimey Costa, Graça Pinto, Jânio Vidal e Newton Avelino),
o que daria um percentual superior ao aferido pela avaliação do
MEC.
Porém, é na análise individual da Comissão em Qualificação do
corpo docente que encontramos nossas principais dúvidas e
questionamentos. Pelo relatório de avaliação do MEC, os professores
Josimey Costa, Marcelo Bolshaw, Miriam Moema, Tânia Mendes, Sheila
Accioly e Renata Silveira não têm qualquer experiência profissional
nem produção jornalística.
Mesmo levando em conta que esses professores podem ter organizado
seus currículos apenas com suas atividades acadêmicas, excluindo a
vida profissional pregressa (que de fato aconteceu em alguns casos,
uma vez que os critérios da avaliação docente não foram informados),
não há como explicar o fato de a comissão imputar apenas dois anos
de experiência profissional ao professor Emanuel Barreto e de
considerar o professor Ricardo Rosado sem nenhuma experiência
profissional ou produção técnica na área de comunicação - quando
ambos têm currículos predominantemente técnicos. Assim, contrariando
seu próprio parecer geral (que considerou positivo o fato de o corpo
docente ter grande atuação no mercado jornalístico local), o
documento (no quesito L da avaliação do corpo docente)
inexplicavelmente conceitua como D a experiência profissional
de mais da metade dos professores que ministram disciplinas técnicas
de jornalismo (10%).
Os avaliadores ignoraram ainda em seu relatório a existência de
um projeto de mestrado interinstitucional para qualificação do corpo
docente, que lhes foi apresentado e do qual receberam cópia.
Projeto Pedagógico e Instalações
Além da inversão dos quesitos Instalações Gerais e
Instalações
Específicas na avaliação das instalações do curso
(prontamente corrigidos pela Comissão Nacional e sem efeito para o
resultado final da avaliação), os avaliadores ignoraram ainda todo
processo que vinha sendo encaminhado a respeito da compra de
equipamentos novos e de elaboração de nosso projeto pedagógico,
considerando esses documentos inexistentes. Aliás, a professora
Miriam Moema, então coordenadora do Curso, foi até "tranqüilizada
quanto à urgência de mudanças curriculares" pelo avaliador Silas
José de Paula, que afirmou que o projeto pedagógico não seria
avaliado.
Outra contradição que não conseguimos compreender: a comissão
considerou, no seu relatório, como "positiva" a existência de uma TV
e de uma editora universitárias "para o processo de aprendizagem do
curso", mas condenou a tese do compartilhamento dos equipamentos com
o sistema de comunicação da universidade e apontou "novos
investimentos" como a saída para a dramática situação tecnológica de
nossos laboratórios - em vez do aproveitamento da infra-estrutura já
existente.
Resta ainda respeitosamente protestar pela forma como a avaliação
foi divulgada diretamente na imprensa. Nós, como profissionais da
mídia e da educação que somos, lamentamos profundamente este duplo
equívoco do informar/ensinar, pois sabemos que não se deve educar
pelo constrangimento nem se noticiar sem confirmar as informações.
Ou seja: a avaliação da Comissão de Especialistas do MEC também
merece o conceito de "Insuficiente". E, pelo exposto acima e para
que não nos percamos em uma guerra de reprovações recíprocas,
acreditamos que não é apenas o Curso de Comunicação Social da UFRN
que merece uma segunda avaliação, mas todas as instâncias envolvidas
no ensino de Comunicação/Jornalismo.
(*) Professor de Comunicação
DIPLOMA & ÉTICA Jornalistas e marceneiros
Cláudio
Buongermino
Na Última Hora de 10/3/00, o colega cearense Plínio
Bortolotti e uma jornalista ligada à Umesp (Universidade Metodista),
Graça Caldas, comentam a exigência do diploma para exercer a
profissão de jornalista. O curioso é que, em seus próprios artigos,
tanto Plínio quanto a representante da Metodista simplesmente
admitem que o curso de graduação em Jornalismo é algo prescindível.
Transcrevo os dois trechos que provam isso: Plínio afirma que é
aceitável "dar direito a exercer a profissão a quem detém qualquer
curso superior, exigindo-se uma pós-graduação ou um curso de dois
anos - reafirmando: para quem já é graduado em algum curso
superior". Já Graça escreve que "se a briga é para que profissionais
de outras áreas ingressem na profissão, tudo bem. Nada contra. É
necessário, porém, não acabar com os cursos de graduação mas abrir,
em paralelo, o tão falado mestrado profissionalizante em Jornalismo.
Num curso de especialização, no âmbito da pós-graduação, físicos,
químicos, biólogos, historiadores, engenheiros, entre tantos outros
profissionais, poderão, legalmente, exercer a profissão, cujo ofício
não pode ser reduzido à confecção de textos bem elaborados com
declarações de autoridades ou relatos do cotidiano. Ser repórter é
muito mais do que isso".
O que ambos estão dizendo, em suma, é que é perfeitamente
razoável um cidadão graduado em qualquer coisa fazer uma pós em
Jornalismo e então exercer a profissão legalmente. Donde se conclui,
de modo inequívoco, que Plínio e Graça afirmam (embora sem dizê-lo
textualmente) ser desnecessário o curso de graduação em Jornalismo,
já que este poderia ser substituído por uma outra coisa
completamente diferente na essência e na estrutura (o mestrado nessa
área).
Operário da informação
Mesmo estas inesperadas adesões à minha luta antidiploma não me
satisfizeram, porque acho que mestrado em Jornalismo é conversa para
boi dormir (e para aluno de pós pagar mensalidade). Para mim, a
solução é desregulamentar e ponto final. É fato que, às vezes, sinto
que não se está dizendo - aqui no O. I. e em outros fóruns -
o que de fato deve ser dito sobre essa questão. Tentarei ser o mais
direto possível: afinal, o que querem (ou podem) ensinar os cursos
de Jornalismo?
Transcrevo mais um pouco do texto de Graça Caldas: "O ofício do
jornalista, do operário da palavra, é contribuir para a formação de
um leitor-cidadão com veículos que ajudem a refletir e transformar a
realidade, em lugar de manter apenas o leitor-consumidor. Para isso,
queiram ou não nossos opositores, é necessário o exercício da
reflexão sobre a informação, tarefa difícil no cotidiano das
redações e cujo locus adequado e intransferível ainda é a academia,
que não pode abrir mão de seu papel em função das meras demandas
transitórias de mercado."
Primeiro ponto: jornalista não é "operário da palavra", porque o
uso da palavra pelo jornalista não é um fim em si, mas um meio para
transmitir a informação ao leitor.
Reflexão em poucas linhas
Segundo ponto: vamos parar com essa mistificação de fingir que
faculdades formam donos de jornal. Faculdades (em tese) formam
jornalistas, que serão empregados dos donos dos jornais, e são
estes, e somente estes, que decidem se suas empresas querem
leitor-cidadão ou leitor- consumidor. Garanto a todos que eu
adoraria melhorar o mundo com meu trabalho, mas no último segundo
meu patrão não vai deixar. Nunca deixa. Não deixou em 1989, 1994 e
1998, só para citar exemplos óbvios e recentes. Lição básica, então:
o jornalista faz o que pode. Se quiser fazer mais, vai ter de virar
patrão (vide os exemplos de Caros Amigos e Bundas), ou
suar para conquistar o direito de publicar textos contrários à
ideologia da empresa (coisa restrita a medalhões: Verissimo, Millôr,
Janio de Freitas, Cony).
Terceiro ponto: o exercício da reflexão sobre a informação é uma
falácia. Simplesmente não existe como uma categoria ético-filosófica
à parte. Existe, na verdade, como componente do caráter e da posição
política de cada um.
Cláudio Abramo - um jornalista de certo nível, que talvez alguns
professores até conheçam - dizia que gostava de fabricar móveis como
hobby, e afirmava que sua ética como marceneiro era a mesma que como
jornalista. Ou seja, um ser humano não contém (e não deve conter)
duas éticas. Existem alguns procedimentos diferentes em cada
profissão; no caso do jornalismo, cabem numa folha de papel (sigilo
da fonte, ouvir o outro lado, essas coisas tão óbvias) e não fogem à
regra do bom senso. Um marceneiro não deve vender uma mesa com pés
frouxos, ou usar uma madeira vagabunda e dizer que é nobre. Por sua
vez, um jornalista não deve publicar o que não tem certeza, ou ferir
a reputação de alguém injustamente. Em suma, não se deve mentir nem
corromper. Esta é a reflexão primordial, e foi feita em algumas
linhas desse texto. Não precisou de quatro anos de faculdade.
Termino por aqui, mas ainda ouso sugerir aos alunos de Jornalismo
que porventura leiam este artigo alguns livros fundamentais para
aprender o que é, de fato, essa profissão: Minha razão de
viver, de Samuel Wainer; A regra do jogo, de Cláudio
Abramo; O relógio de Pascal, de Caio Túlio Costa; Um
jornal assassinado, de cujo autor não me lembro agora, mas que
trata do jornal Correio da Manhã; Jornalistas e
revolucionários, de Bernardo Kucinski; e Trinta anos esta
noite, de Paulo Francis. Depois de um tempo trabalhando numa
redação, acho que a maioria vai me dar razão. Mas aí será tarde para
recuperar o tempo perdido.
CARTAS Em defesa
da Umesp
Estudo na mesma classe (1º ano de Jornalismo) do aluno Márcio
Alexandre Silva, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Sempre acesso o site do Observaóorio, e fiquei indignado com
o que este aluno declarou em sua carta, não sei o motivo, tentando
sujar a brilhante imagem do curso de Jornalismo da Metodista. O
aluno afirmou que um professor, cujo nome não quis citar, fala mal o
português, e os alunos estão perdidos em sala de aula. Estou aqui
para afirmar exatamente o contrário: não me lembro de nenhum
professor falando como disse o aluno, e se o fez tratou-se apenas de
linguagem coloquial oral, o que não atrapalha em nada o rendimento
do professor, que comunica muito bem sua matéria.
Pago mensalidade e gosto muito do curso que estou fazendo. A
faculdade tem me trazido muito prazer em estudar, coisa que não
tinha antes. Assim, gostaria de tentar "limpar" o nome da faculdade
que escolhi, e não me arrependo da escolha.
Artur
***
É fácil julgar as pessoas, identificar seus erros, chamá-las de
"burras". Isso tudo na visão de uma pessoa como o Sr. Márcio
Alexandre Silva, estudante do 1º ano de Jornalismo da Universidade
Metodista de São Paulo, que aqui teve espaço com a carta "Baixo
nível" (10/3/00). Não o acuso. Todos têm direito a se expressar
livremente e a ter a opinião que quiser. Mas o que machuca é que ele
generalizou quando disse que todos são "burros". Aproveitando também
o espaço, faço duas perguntas: por que apenas um aluno se manifestou
quanto à má qualidade de seus professores num espaço como este, ao
qual a maioria dos alunos da faculdade tem acesso? O que faz o Sr.
Márcio Alexandre Silva num ambiente em que todos são "burros"? Na
minha opinião, quem baixou o nível foi ele.
Augusto Sabóia
Em defesa da Unesp
Meu nome é Gustavo Viegas Marcondes, e sou estudante de Direito
da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Franca (SP).
Meu protesto, se bem que nem mesmo eu o chamaria desse modo,
dirige-se a um dos mais respeitados periódicos deste país - a
Folha de S.Paulo. Em seus encartes de cunho cultural, como o
caderno Mais!, ou no próprio jornal de resenhas, há pouquíssimo,
para dizer o menos, espaço aos docentes da Unesp. Há um monopólio da
onipresente e onipotente USP, quando muito alguma participação das
universidades cariocas, e aqui leia-se UFRJ. Não me atrevo a
protestar contra os artigos de Marielena Chauí e seus colegas
uspianos, mesmo porque isto seria algo muito próximo da insanidade.
No entanto, é preciso ter em mente que a produção intelectual,
especialmente a paulista, não se limita àquela universidade
paulistana, casa de inegáveis unanimidades da cultura nacional. O
que venho reivindicar é que se ouça também o que se diz no interior
de São Paulo, Minas Gerais... A Unesp tem plenas condições de
figurar ao lado da USP nos cadernos culturais da Folha, basta
que se dê o merecido espaço.
Gustavo Viegas
Marcondes
ASPAS DIPLOMA PRA QUÊ? Marina
Lemle
"Nova mídia, diploma
obrigatório?", copyright O Globo, 3/3/00
"A reprovação, pelo MEC, de algumas das principais faculdades de
jornalismo do Rio de Janeiro revelou à população o que já não era
novidade para as empresas de comunicação: o ensino de jornalismo
está longe de preparar o aluno adequadamente para o mercado de
trabalho. A carência de micros conectados à Internet nos
laboratórios aumenta ainda mais a defasagem dos cursos em relação às
demandas do mercado. O futuro das faculdades está ameaçado também
pelo fato de a mídia on line estar acabando, na prática, com a
polêmica obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Depois da onda de
contratações de analistas de sistemas, programadores e designers
como webmasters e webdesigners, agora é a vez dos jornalistas
invadirem este mercado como ‘produtores de conteúdo’.
A proliferação dos portais e a chegada dos provedores gratuitos
está revolucionando o mercado de jornalismo. Nos últimos meses,
jornais e revistas têm assistido ao êxodo de bons profissionais sem
esboçar muita reação, porque as propostas das novas empresas de
Internet são realmente difíceis de cobrir. Profissionais de todos
os níveis hierárquicos, de editores-executivos a estagiários, mesmo
sem experiência em Internet, estão mudando de emprego e de mídia,
atraídos por bons salários e pelo desafio de vencer num mercado cada
vez mais competitivo.
Segundo pesquisa da Andersen Consulting, até dezembro de 1999 a
Internet já havia empregado quase 300 mil pessoas no Brasil, e os
postos devem dobrar de número a cada seis meses no próximo ano e
meio, chegando a 2,4 milhões no fim do primeiro semestre do ano que
vem. Depois do boom dos portais de conteúdo e serviços, agora é a
vez do comércio eletrônico (e-commerce) atrair investimentos pesados
de grupos nacionais e estrangeiros. Dezenas de grandes projetos
de comércio business-to-business (B2B) - de empresas para empresas -
e business-to-consumer (B2C) - de empresas para o consumidor final -
têm sido lançados mensalmente, e as fusões de grandes portais
mostram que o mercado está fervilhando. As ações de empresas que
usam Internet direta ou indiretamente em seus negócios estão se
valorizando, e os fundos que investem em projetos on line são dos
mais rentáveis hoje.
Além dos salários altos, os jornalistas de renome são seduzidos
por vantagens como horário flexível, participação nos lucros do
negócio e direito de compra de ações por preços reduzidos, novidade
introduzida pelos americanos, que têm no mercado de ações o grande
financiador de projetos. As stock options são uma forma eficiente de
segurar os talentos na empresa.
Já o iniciante na Internet recebe salário nivelado ao de
estagiários e repórteres-juniores de jornais e revistas, mas o
próprio desenvolvimento da área lhe dá mais chances de crescer. O
perigo de ficar estagnado por longo tempo numa função possivelmente
maçante e repetitiva também existe, mas mudar de emprego é bem
mais fácil para quem já tem experiência em Internet. Como em todas
as áreas, é preciso cultivar bons contatos e estar atento às
oportunidades.
Acontece que, nos grandes portais, que requerem muita
mão-de-obra, boa parte dos profissionais responsáveis pela edição e
atualização do conteúdo não é jornalista, apesar de fazer trabalho
típico de jornalista. Muitos até são jornalistas formados,
desempenham função de jornalista, mas ocupam outros cargos. Sem
regulamentação específica, a Internet permite que as
empresas contratem profissionais para cargos com nomes genéricos,
como ‘produtor’. Nas redações on line, há produtores que apuram e
escrevem, produtores que editam áudio e vídeo, produtores que são
webdesigners e produtores que dão apoio técnico. Os ‘gerentes’ são
editores e os ‘pesquisadores de Internet’ são redatores. Como a
indústria da Internet ainda não tem modelos definidos, esse
improviso ainda será regra por um bom tempo.
A informação na Web é chamada de ‘conteúdo’. A palavra é ampla,
bem mais ampla do que ‘jornalismo’. Qualquer informação veiculada na
Internet é conteúdo, e não apenas aquelas com tratamento
jornalístico. É interessante notar que entre os sites mais visitados
do mundo não se encontra nenhuma versão on line de jornal ou
revista. A quantidade de acessos do ‘New York Times’, do ‘Wall
Street Journal’ ou da’ Time Magazine’ não chega nem perto dos da
Amazon.com, do Yahoo, da América On Line (AOL) e de outros sites
vitoriosos de conteúdo amplo. E mais: o número de internautas já
supera o número total de tiragem de jornais e revistas. A Internet
não vive de conteúdo jornalístico. Não é à toa que hoje a Time
Warner é parte da AOL.
0É verdade que jornalistas são mais indicados para escrever
notícias do que pessoas despreparadas, mas o fato é que transmitir
informação não é direito exclusivo de jornalistas, ainda mais na
Internet, que é livre na sua própria essência. De surfistas a
religiosos, de velhos a crianças, todos podem dar a sua contribuição
na Grande Rede. É natural, portanto, que pessoas com bom senso e
capacidade de síntese, mas sem diploma de jornalismo, produzam
conteúdo para a Web. Afinal, com ou sem ensino formal, é só no
mercado que um aprendiz se torna um profissional competente.
Essa abertura do mercado não deverá ameaçar o jornalista formado.
As empresas tendem a encarar esta qualificação como uma vantagem
decisiva no momento da contratação. Em risco real estão as
faculdades, que para não se desmoralizarem ainda mais e perderem de
vez a razão de ser, devem urgentemente levar em conta as demandas da
nova mídia, além de corrigir todas as falhas apontadas pelo MEC.
[Marina Lemle é editora do setor Saúde do portal Webb -
Negócios On line.]"

Avaliação
do MEC: O que está acontecendo agora - Victor Gentilli
Shopping centers e
barracões - J.S. Faro
Quem
forma o jornalista é a sociedade - Claudio Buongermino
A
exigência do diploma de jornalista - Graça Caldas
Diploma
sim, com ajustes - Plínio Bortolotti
Baixo
nível - Márcio Alexandre Silva
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