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EXAME NACIONAL DE CURSOS
Sugestão: inverter procedimentos

J.S.Faro (*)

De tudo quanto se disse até agora sobre o provão, parece que há consenso apenas em torno de duas coisas: a primeira é que todos concordam com a necessidade de algum instrumento de avaliação dos cursos superiores; a segunda é que a alternativa criada pelo governo federal, para que consiga se legitimar no amplo espectro da comunidade acadêmica brasileira, precisa ser aperfeiçoada. Portanto, a menos que surja alguma postura mais radical e contundente, é bem provável que essa iniciativa do Observatório da Imprensa em promover a comemoração dos "1000 dias" de debate em torno do Exame Nacional de Cursos acabe por repetir o que já é sabido, ou seja, o provão é necessário, mas não há um único interessado no tema que não tenha restrições a fazer à forma como ele é concebido e implementado.

Por que ele é necessário? Estou convencido de que sua necessidade se justifica pelo jeito apalermado que a vida universitária nacional ganhou depois que se intensificou o processo de privatização do ensino superior. É como se num curto período de quatro ou cinco anos a Universidade brasileira estivesse num tal estado de choque em decorrência da invasão dos interesses empresariais no seu meio, que não conseguiram escapar disso nem mesmo as instituições já tradicionais no campo do ensino e da pesquisa, até porque também elas acabaram sendo obliquamente atingidas pelo processo, ainda que se possa subestimar os efeitos da evasão de quadros de docentes-pesquisadores afugentados pelo medo das reformas na Previdência ou atraídos pelos salários que lhes ofereciam as novas empresas de educação, carentes de massa crítica que as credenciasse. Seja como for, de qualquer ângulo que essa conjuntura possa ser vista, o fato concreto é que a desmontagem do papel do Estado no âmbito universitário e a transferência dessa responsabilidade para as mãos de parcela dos empresários do ensino, acabaram gerando um monstro de contornos assustadores, irreconhecível até mesmo pelos mais ortodoxos técnicos do BIRD ou do BID.

Nessa medida, o governo federal não tinha mesmo outra saída. Ninguém tinha: era preciso alguma forma de mensuração dos efeitos e essa sempre era uma cobrança que partia tanto da própria dinâmica das opções políticas feitas pelo MEC quanto dos próprios segmentos sociais envolvidos com alguma seriedade no problema. De outra forma, que interesse pode ter o estudante de uma instituição de ensino pública ou comunitária na possibilidade de que o seu diploma possa valer a mesma coisa que o obtido numa rudimentar empresa de educação? E se é verdade que o nosso ensino universitário forma quadros para os múltiplos setores da atividade econômica, como gerenciar recursos humanos oferecidos ao mercado de forma indiferenciada? Ou ainda: como distinguir o empenho do professor/investigador debruçado sobre o estado mais atual da sua área de conhecimento daquele outro professor, horista, que vive pulando de sala abarrotada de alunos em sala abarrotada de alunos?

Consenso nas causas

Uma das respostas para esse conjunto de perguntas que passou a se estender – e ainda se estende – universalmente sobre a comunidade universitária nacional foi o provão. E eu tenho a impressão de que é possível um certo consenso em relação a essas suas causas, inclusive porque se sistemas de avaliação são processos absolutamente normais e corriqueiros em outras partes do mundo, com quais argumentos se poderia rejeitá-los numa situação de inchaço como era – e ainda é – a brasileira? E mais: para os professores da rede das empresas privadas de educação superior, a notícia de que as difíceis condições de seu trabalho pudessem agora ser detectadas e tornadas públicas (regime aulista, desestímulo ao aperfeiçoamento acadêmico e à titulação) o provão soou como uma gostosa possibilidade de acerto de contas.

A segunda coisa sobre a qual parece haver consenso é mais complicada, porque se houve alívio em relação à avaliação, o estresse em relação a esta avaliação tem sido considerável. Os motivos são muitos, mas todos têm em comum críticas a algum de seus aspectos, desconsiderando-se obviamente aquela que vem do empresário pego em flagrante e que agora amarga um mau conceito no mercado, embora esse tipo também tenha encontrado uma forma de sobrevivência, como se verá adiante.

Resumo esse conjunto de críticas a três itens. Aquelas que vêm dos estudantes; aquelas que decorrem da natureza universal que se pretende dar ao provão num universo que se caracteriza por sua heterogeneidade; e aquelas que permitem que toda a seriedade com que se pretende tratar o assunto seja burlada pelas empresas que se encontram desqualificadas para trabalhar com o ensino.

Não menosprezar as críticas dos estudantes

As críticas que vêm dos estudantes são sérias, e engana-se quem pretenda ver nelas uma motivação política inconseqüente. Na verdade, como já deixaram claro as sucessivas manifestações da ENECOS (para que se fique no exemplo dos cursos de Comunicação dos quais uma habilitação – a de Jornalismo – foi incluída no provão), em se tratando de um exame que é aplicado ao aluno que se encontra numa situação "terminal", a surpresa de que, afinal, ele se encontra despreparado para dar conta de uma prova desse tipo, provoca uma situação de prejuízo incontornável, já que não lhe resta outra alternativa senão concluir o curso que não o preparou, gerando-se aqui uma idéia que considero equivocada e que o provão reforça: a transferência da responsabilidade pelo baixo conceito eventualmente obtido pelo curso aos seus alunos – ou porque preferiram aquele curso estigmatizado como desqualificado, ou porque o desqualificado é o próprio aluno. Essa é, na minha opinião, a espinha dorsal da crítica dos estudantes, e me parece que eles têm razão, porque são duplamente vitimados pelo estado de desmazelo em que se encontra a grande maioria das faculdades e universidades do país. Deixo de analisar aqui outros aspectos da crítica dos universitários, especialmente aquelas que dizem respeito ao fato de que o provão não identifica as vicissitudes do sistema e, por isso, não resolve os problemas. Na verdade, tratar disso significaria enveredar por uma discussão que não cabe nos limites deste artigo, mas posso adiantar o que penso: levando em conta a extraordinária capacidade de adaptação da estrutura universitária que aí está, penso que o provão, da forma como vem sendo concebido, pode é consolidar os vícios e não erradicá-los.

A mesma régua para todas as medidas?

O outro conjunto de críticas diz respeito à oposição que consigo perceber entre os critérios universais de avaliação versus a heterogeneidade das situações concretas. Aqui não se trata apenas da oposição existente entre as instituições públicas ou comunitárias de ensino – que atravessam dificuldades materiais históricas, e as empresas de educação – que dispõem até de créditos subsidiados e buscam se equiparar aos shoppings centers. Embora as primeiras e as segundas estejam apresentando, no provão, resultados diametralmente opostos à sua condição física conforme se pode concluir, contraditoriamente, de todo o trabalho da Comissão de Avaliação das Condições de Oferta dos cursos de Jornalismo, o fato é que, no prazo médio, a escassez de recursos físicos e humanos tem um efeito devastador sobre os projetos pedagógicos das primeiras, enfraquecendo-os, privando-os de estrutura laboratorial e até de professores, enquanto que a fartura de capital das segundas não consegue estruturar seus projetos pedagógicos. Ora, o provão desconsidera essa diversidade de situações, o que compromete seus resultados.

Pacto de mediocridade

O último conjunto de críticas vem ganhando corpo a propósito do verdadeiro "pacto de mediocridade" que está se instalando nas empresas de educação através de "cursinhos preparatórios para o provão", com o perigo de que a idéia se alastre para todo o sistema, contaminando até mesmo as instituições de ensino que até agora rejeitaram soluções paliativas – ou remendos – na formação de seus alunos. Há casos que assumem ares de verdadeiro escândalo: cargas horárias das disciplinas do último ano reduzidas para que se abra espaço para programas de "conferências" com temas específicos já abordados em provões anteriores. Assustados com a possibilidade de que um mau conceito de sua escola possa ter efeitos negativos na briga pelo emprego, são os próprios alunos os seduzidos a concordar com o engodo. Se isso já não está acontecendo, não é impossível prever o surgimento até de empresas especializadas em ocupar a lacuna da formação obtida na graduação do estudante, oferecendo "pacotes" para o Exame Nacional de Cursos. Não é preciso dizer que esses artifícios comprometem todo o processo porque acabam por garantir a sobrevivência de quem nunca teve competência para estar no "ramo" do ensino superior. Mas é preciso dizer que são justamente os sobreviventes desse pacto aqueles que terão maior chance de legitimar sua existência acadêmica, sem que tenham movido uma única palha para dotar seus cursos de qualidade. Se isso for verdade, o provão pode estar construindo um verniz sobre a vida universitária nacional que pode acabar por ocultar suas verdadeiras mazelas.

Feitas essas considerações, o que é possível sugerir? Eu não tenho dúvidas em torno dos propósitos de todos os envolvidos no Exame Nacional de Cursos, especialmente dos professores que assumem a tarefa de trabalhar na ponta do processo. No caso do exame de Jornalismo, até agora não encontrei ninguém que desmontasse a coerência da prova que foi aplicada, embora se possa argüir sobre a sustentação, digamos, "filosófica" do que foi pedido aos alunos, mas qualquer outra hipótese encerraria essa mesma polêmica. Eu tenho dúvidas é em torno dos equívocos que são subjacentes ao processo e que podem significar um desperdício de vontade, porque é real a vontade da comunidade acadêmica em cobrar seriedade da vida universitária. Aliás, penso que só lhe resta isso. É em torno disso que eu posso sugerir a inversão dos procedimentos de avaliação do MEC: primeiro, as condições de oferta e todos os quesitos que ela pode encerrar, naturalmente com a discussão do que foi a experiência vivida pela habilitação de Jornalismo em 1999. Só depois o provão, exclusivamente para aquelas que obtivessem um patamar mínimo de qualificação no seu projeto pedagógico, nas suas condições físicas, na qualificação e nas condições de trabalho de seus professores. É claro que não é tão simples, mas a simples inversão desses procedimentos pode acabar com essa quadratura do círculo em que estamos envolvidos.

(*) Professor da Universidade Metodista de São Paulo e membro da Comissão de Especialistas de Ensino de Comunicação da SESU/MEC

 

É hora da práxis

Graça Caldas

Em junho próximo os estudantes dos cursos de Jornalismo de todo o país realizarão o terceiro Exame Nacional de Cursos, o famoso Provão, regulamentado em março de 1996 pela Portaria 249 do Ministério da Educação. O Provão está inserido na filosofia do Projeto de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (PAIUB). Trata-se de um instrumento adicional de análise da realidade dos cursos de graduação, ao lado das Avaliações das Condições de Oferta.

Estruturados para contribuir para a melhoria da qualidade de ensino dos cursos de graduação no país, o Provão e as visitas para as Avaliações das Condições de Oferta têm gerado uma série de debates em todo o país e, principalmente, neste Diretório Acadêmico do Observatório da Imprensa. Com certeza os critérios de Avaliação das Condições de Oferta precisam ser revistos e aprimorados como já afirmei neste espaço. Já o Provão é outra história. A dificuldade consiste na própria elaboração de uma prova nacional onde os conteúdos e habilidades requeridas na formação do jornalista devem estar presente, a despeito das diferenças regionais.

Tenho repetido inúmeras vezes que os problemas principais detectados nas escolas são de natureza institucional. Problemas, na verdade, que o próprio Ministério da Educação durante anos deixou de lado. Como formar jornalistas sem o exercício cotidiano da prática em laboratórios de informática, estúdios de rádio e de televisão? Todos sabem que o calcanhar de Aquiles está na falta de uma infra-estrutura laboratorial compatível com as especificidades do curso, na ausência de um regime de dedicação no regime de trabalho dos jornalistas-professores e principalmente no excessivo número de alunos em salas de aula.

Somente com condições laboratoriais satisfatórias os professores, ao lado dos alunos, poderão desenvolver projetos de jornalismo impresso (murais, jornais, revistas), jornalismo on line (cuja demanda no mercado exige da universidade uma modificação rápida em seus currículos para sobreviverem), de jornalismo de rádio e de televisão (para emissoras públicas, privadas, comunitárias, universitárias), incluindo aí não apenas os boletins noticiosos, mas também programas de fôlego, estilo revista, com debates para que os jovens estudantes consigam desenvolver uma de suas principais habilidades para exercer a profissão: a de entrevistador. Sem informações não há redator, por melhor que seja, que consiga escrever uma boa reportagem.

Não dá mais depositar nas largas costas dos professores a responsabilidade dos problemas existentes nos cursos. Na verdade, os professores fazem verdadeiros "milagres" considerando-se as precárias condições oferecidas pelas instituições. Não dá para ensinar jornalismo sem produtos laboratoriais concretos que possibilitem aos alunos o exercício pleno do fazer jornalismo em suas diferentes modalidades.

Experiências inovadoras

No Estado de São Paulo, algumas experiências-piloto de estágio em empresas de comunicação começam a movimentar as redações e os bancos das universidades. Por iniciativa do Sindicato de Jornalistas do Estado de São Paulo foi instituída uma Comissão de Qualidade do Ensino – em setembro de 1999 – que criou o Projeto Piloto de Estágio. O resultado é estimulante. Em São Bernardo do Campo, o curso de Jornalismo da Universidade Metodista assinou convênio com o Diário do Grande ABC e cinco estudantes do 4Ί ano começaram um estágio oficial. E em Bauru, também no interior de São Paulo, outro convênio teve início entre a UNESP, a Universidade Sagrado Coração e o Jornal da Cidade, a Editora Alto Astral e a TV Modelo (Globo).

Se essas experiências que envolvem o acompanhamento do estágio por um professor-monitor e um jornalista da empresa forem bem sucedidas, é possível que o retorno oficial do estágio seja aprovado na Bahia, em setembro próximo, durante o Congresso Nacional dos Jornalistas. Está na hora de as universidades, empresas de comunicação e sindicatos do Brasil inteiro trabalharem juntos pela melhoria dos cursos em lugar das críticas continuadas a que temos assistido ao longo dos anos. Sem isso, não há Provão, por mais bem elaborado que seja, que possa resolver ou avaliar adequadamente os cursos.

Jornalismo se aprende nas disciplinas de conteúdos gerais (história, política, economia, arte, filosofia, ética, antropologia etc), oferecidas nos bancos das universidades; no exercício laboratorial; na reflexão crítica da mídia; na elaboração de projetos experimentais que não se limitem a reproduzir o mercado e em estágios práticos nas redações dos veículos de comunicação. Não há saliva e giz que resolva os problemas dos cursos de jornalismo, nem cursinhos preparatórios para os provões. A verdadeira prova dos noves está em verificar a absorção e o desempenho dos alunos no mercado, seja ele formal ou informal.

O Provão, na verdade, deve ser visto e interpretado pela sociedade como apenas um dos instrumentos de aferição da qualidade dos cursos. De qualquer maneira, seu grande mérito – como, aliás, o deste Diretório Acadêmico tão polêmico – é possibilitar o debate para que as diferentes experiências possam ser compartilhadas e cada curso encontre seu caminho, sem a tutela do Ministério da Educação. Neste sentido, assim como o Provão, as Diretrizes Curriculares devem ser vistas apenas como princípios a serem perseguidos e não como normas. Acredito que os resultados do Provão logo serão relativizados e colocados no seu devido contexto, ao lado do processo de Avaliação das Condições de Oferta. A realidade dos cursos é sempre muito mais complexa que os instrumentos de avaliação. Vamos, portanto, diminuir a retórica e partir para a práxis do fazer jornalismo nas escolas.

 

PACOTE DO GOVERNO
Luz no fim do túnel?

Luiz Fernando Castro
(*)

O governo federal anunciou em 3 de abril um pacote voltado para o investimento em infra-estrutura e pesquisa em universidades federais e centros de investigação e para o fomento da parceria entre unidades de ensino superior e empresas. No projeto encaminhado ao Congresso, a principal idéia é criar fundos setoriais para investimento em ciência e tecnologia.

Inicialmente, oito fundos vão captar recursos para setores como o elétrico, o de transportes e o de recursos hídricos. Dois fundos de caráter mais genérico estão voltados para a infra-estrutura das universidades. A fórmula de recolhimento dos recursos varia, mas em geral os fundos são constituídos com dinheiro oriundo de concessões do Estado à iniciativa privada. O modelo geral foi baseado na iniciativa da Agência Nacional do Petróleo de destinar parte dos royalties da prospecção a um fundo de pesquisa no setor.

Outra parte importante é a reestruturação das universidades federais que, impedidas de realizar concursos há cinco anos enfrentam problemas graves, fruto do descaso e da redução da participação do Estado no setor: a falta de professores. No pacote anunciado pelo MEC está previsto um concurso nacional para preencher 6 mil vagas. Os novos professores serão contratados sob as regras da CLT e poderão ser demitidos pelos reitores. Hoje, só na Universidade Federal Fluminense (UFF) faltam 700 professores e 200 são provisórios. Na UFRJ, a situação não é diferente. Na Escola de Comunicação faltam mais de 10 professores, e muitas disciplinas ainda não tiveram suas aulas iniciadas.

Para os cientistas, as medidas devem ser vistas com cautela. Glaci Zancan, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), afirma que o projeto é uma "sinalização de que o governo agora considera ciência e tecnologia uma prioridade". José Fernandez Perez, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), ressalta que "só a implantação adequada pode trazer benefícios". Para alguns professores, entretanto, o projeto representa uma ameaça. O Sindicato dos Docentes da UFRJ acredita que as medidas, inicialmente de caráter salvador, passam a preocupantes quando se nota que os fundos serão vinculados ao avanço das privatizações, que os projetos ficarão à mercê das forças do mercado e que os professores universitários perderão a estabilidade e a aposentadoria integral.

Longe de representar um grande avanço para as universidades e centros de pesquisa, o conjunto de medidas é sem dúvida uma luz no fim do túnel – que pode ou não representar uma saída. Antes de tudo é preciso aprovar o pacote no Congresso.

(*) Estudante de Economia e Jornalismo

 

JORNALISMO & SOCIEDADE
Discriminação e capitulação

Adalberto de A. Barreto Filho
(*)

É consenso, nas diferentes esferas da sociedade, que a mídia passou a ocupar, de fato, o espaço designado como Quarto Poder. Ao lado desta constatação, colocada em discussão sobretudo pelos que formulam propostas para a democratização deste poder, há a tendência de os meios eletrônicos, e crescentemente a internet, avançarem irresistivelmente sobre o espaço hoje ocupado pelos meios impressos de comunicação. A ética, ou o comportamento ético dos profissionais do meio, conduz à questão fundamental: o papel do jornalista como agente cultural, político e econômico.

É certo que o dinamismo das telas cinescópicas, videomonitores e o processamento digital de informação cresce e ganha cada vez mais espaço, enquanto os meios impressos sofrem tendências declinantes. Decorrerá muito tempo ainda até que a periferia, o terceiro e o quarto mundos venham a marcar presença competitiva neste novo espaço globalizado de comunicação. Aí então é que a postura de jornais e revistas como fontes de leitura, releitura e reflexão, como documento que não se degrada na instantaneidade de um clique de desconexão, revela seu papel de intermediário informativo e documental. Os grandes jornais de todo o mundo e as revistas não capitularam ainda diante do fluxo gigantesco do sinal eletrônico na transmissão de mensagens.

No Brasil, periferia do sistema capitalista, e a reboque das imposições do Primeiro Mundo, sendo os Estados Unidos detentores das formas pretensamente hegemônicas ditadas a proprietários e agentes da mídia local, o panorama é de predomínio de uma grande imprensa, grandes jornais, como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e o Jornal do Brasil, ao lado de revistas de grande circulação como Veja, Época e IstoÉ, entre outras.

Mídia orientada

Ao lado dessa realidade persiste a marcante resistência de um conjunto de jornalistas intensamente envolvidos na elaboração de propostas para o alargamento do acesso da população à informação e à cultura. Neste aspecto, os dados estatísticos nos são extremamente desfavoráveis, face a dimensão e as potencialidades de um país continental e exportador de matérias-primas naturais de seu vasto território: no Brasil se consomem 2,4 quilos por habitante/ano de papéis para impressão, contra 9,1 na Argentina e 46,7 nos EUA, segundo dados do Statistical Year Book da Unesco de 1994.

Aqui vigoram com extrema destreza as imposições desenvolvidas na matriz americana, a construção do consenso, a pauta ditada pelos detentores de jornais e revistas; a rede de factibilidade, por exemplo, quando ocorre a exaustiva repetição de matérias, freqüentemente originadas na rede oficial das agências governamentais. O que vem a se constituir numa receita comum, auto-referenciada, das equipes editoriais que geram a mesmice das manchete diárias dos grandes jornais. Fatos largamente estudados por críticos da comunicação como Noam Chomsky e Gaye Tuchman.

Falta muito para que seja conquistado um espaço verdadeiramente democrático por amplas camadas sociais. Jornalistas de renome revelam nos seus currículos o fel, às vezes duro e amargo do ofício, a exemplo do respeitado Janio de Freitas: "Não tenho visão simpática dos meios de comunicação", em entrevista concedida à revista Universidade e Sociedade, do Sindicato Nacional dos Docentes de Nível Superior (Andes). Já o decano Barbosa Lima Sobrinho defende, com a insistência dos seus mais de cem anos de resistência, a necessidade premente de defesa dos interesses nacionais, lembrando que nenhum país é tão protecionista como os EUA e advertindo que "o capital se faz em casa", e que "é preciso combater as forças econômicas que dominam o mercado", que geram uma mídia meramente orientada por ele, de forma asfixiante.

A questão da técnica

Como ter um ambiente livre e criativo de trabalho no meio jornalístico se ainda imperam formas feudais de controle sobre a produção jornalística, gerando no limite os grilhões invisíveis da autocensura? A busca de ascensão e elevação do status social cria um círculo vicioso de convivência e conivência com as fontes "credenciadas", "oficiais" ou detentoras do poder e dos anúncios, que limitam o alcance, a forma e o contexto das matérias. Merece compreensão os que fizeram do jornalismo não apenas um meio de sobrevivência e ascensão, mas um motivo para viver.

A difícil e árdua luta dos profissionais que se mantêm no equilíbrio entre a ética e a sobrevivência é igualmente digna do maior respeito e, apesar dos percalços, vai se expandindo. O profissionalismo então é usado como critério e garantia de uma qualidade mínima de trabalho. A questão hoje, contudo, é expressa sob uma forma mais aguda: no momento em que a "cabana eletrônica" acessa instantaneamente um volume de informação sequer imaginável, aumenta o volume de informação circulante e muito mais o de ruído, haja vista a preocupação crescente dos pedagogos com os efeitos perniciosos da medusa petrificante, a tela do computador e da TV, sobretudo a de feição eminentemente mercadológica, sobre a educação infantil.

Há quem defenda, como é o caso do jornalista e professor da UFSC Nilson Lage, a primazia do ensino universitário como padrão de referência a ser obedecido por "uma produção profissional de qualidade, inigualável por amadores" – segundo pronunciamento seu no II Encontro Latino-Americano de Ensino de Jornalismo, em São Paulo, de 8 a 11 de agosto do ano passado.

O que expõe a questão da técnica. Um fotógrafo amador fotografa sua percepção da imagem, sua humana emoção, por exemplo, necessitando do conhecimento para atingir objetivos, mobilizando recursos e efeitos. No caso do jornalismo, precisão, idoneidade, compromisso com o factual e independência. O problema se volta para sua dimensão maior, a necessária solidariedade social, como recurso contrário à apropriação do social por segmentos sociais, sobretudo pelos detentores do poder econômico e político, em detrimento da democratização do acesso à informação.

Jornalismo e sociedade

Acertado em sua proposta de recurso científico como forma de produção de um jornalismo sério e de qualidade profissional, que seja contrário a um certo individualismo místico que tem impregnado as preocupações acadêmicas da área, em seu pronunciamento o professor Lage peca pela discriminação do que não se pode definir com propriedade e precisão – o amador. Pois, assim como não é possível o estabelecimento da "credencial" de leitor para o leitor, a formação e a prática do jornalismo implica processo que antecede aos estudos superiores, como em qualquer arte, acrescenta-se com os recursos acadêmicos e continua por toda a vida, profissional ou não.

O que contraria a discriminação de uma minoria qualquer, mesmo aquela que se possa designar como culta – no Brasil, segundo manifestava o filólogo Antônio Houaiss pouco antes de sua morte, ano passado, lê-se menos de 1 livro por habitante/ano contra 24 na Finlândia. Pois a todos deve ser garantida a participação no processo de crítica e construção da atividade jornalística, sobretudo por ter se tornado o produto desta atividade um bem elevado, aceleradamente, à condição de primeira necessidade, na formação e na tomada de decisão, diante de um mundo cada vez mais impregnado de "globalizada" informação.

Parece mais feliz e acertada a proposição do filósofo Leandro Konder, ao formular a necessidade, sem preconceitos, de que "a sociedade deve se tornar mais crítica do jornalismo e o jornalismo mais crítico da sociedade".

(*) Professor da Udesc

 

Tudo por uma paixão

Lucas Stoque
(*)

Para muitos, jornalismo é mais do que profissão. É paixão. Quando se decide seguir essa profissão é preciso ter consciência de sua importância. Algumas pessoas têm visão equivocada em relação ao jornalismo. Acreditam que, para informar, deve-se saber um pouco de tudo, ter um conhecimento amplo. O que é importante, mas não o bastante. O jornalista é um pesquisador. Um profissional que busca o conhecimento e que principalmente consegue a informação antes de todas as outras pessoas. Se não é assim, deveria ser. E a obrigação do jornalista é passar a informação adiante, da forma mais coerente possível.

Infelizmente o curso de Comunicação habilitação em Jornalismo não oferece aos estudantes a bagagem de que um profissional precisa. O curso apenas repassa técnicas necessárias para escrever uma matéria, apresentar telejornal e até como fazer planejamento gráfico. O que é insuficiente.

As pessoas lêem jornais e revistas, assistem aos programas de televisão para se informar, divertir, conhecer o mundo. E os jornalistas são responsáveis por "levar esse mundo" até as pessoas. Isso significa que a responsabilidade é grande e a carga, árdua. Dizer que jornalista é formador de opinião é conceito banalizado. Se o jornalista passa credibilidade é capaz de chegar às pessoas. Então, por que não o fazer com seriedade e responsabilidade?

Jornalismo é paixão para aqueles que percebem o papel social da profissão. E exercer a profissão é acreditar na possibilidade de transformar o cotidiano de quem está a nossa volta. Dos que nos escutam. Que lêem nossas palavras, esperam ansiosamente nossa imagem na hora do jantar. Isso não tem preço.

(*) Estudante de Jornalismo em Uberlândia, MG

 



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