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COMISSÃO DE ESPECIALISTAS
MEC altera política para
o ensino de Jornalismo

Victor Gentilli

Com a divulgação da nova Comissão de Especialistas de Ensino de Comunicação, a SESu (Secretaria de Ensino Superior do MEC) altera sua política para os cursos de Jornalismo.

Desde 1997, quando o MEC anunciou que Jornalismo seria um curso avaliado pelo Provão, a política do governo para o ensino de Jornalismo deixou de ver o jornalismo como mera habilitação de Comunicação Social, e passou a tratá-lo como curso específico.

Inicialmente, o MEC agregou mais jornalistas como membros ad hoc à Comissão de Especialistas. Ainda em dezembro de 1998, anunciou que faria avaliação in loco de todos os cursos de Jornalismo que se submeteram ao Provão. Na ocasião, a Comissão de Comunicação indicou meu nome para coordenar esta atividade.

Em fevereiro, a primeira versão das Diretrizes Curriculares gerada pela Comissão de Comunicação, em debate com várias entidades, surpreendeu os jornalistas pois a profissão praticamente desaparecia naquela primeira versão do documento.

Este fato provocou dois movimentos simultâneos, embora desarticulados entre si.

Pela sociedade, estimulados e organizados pela Fenaj, pelo Fórum de Professores de Jornalismo, pelo GT de Jornalismo da Intercom, pelo Observatório da Imprensa, e por outras entidades, professores de Jornalismo organizaram o Seminário de Campinas, que resultou numa consolidação dos debates sobre ensino de Jornalismo acumulados há vários anos, sem romper – ao contrário, somando – o movimento das diretrizes gerais, mas especificando claramente as bases do ensino de Jornalismo.

Pelo governo, o MEC enviou ao Conselho Nacional de Educação a proposta de criação de uma Comissão Específica de Especialistas no Ensino de Jornalismo. Embora o CNE tenha rejeitado a proposta, e o governo continuar convicto desta necessidade, os integrantes desta comissão, além de serem designados para compor Comissão Especial para realizar a Avaliação das Condições de Oferta, tornaram-se também assessores informais da SESu. Autorizações e reconhecimentos de cursos de Jornalismo passaram a ser analisados por comissões verificadores específicas, compostas apenas por professores-jornalistas, baseados em padrões de qualidade também específicos, desde então e até agora, disponibilizados no site do MEC.

No mesmo ano de 1999, os demais integrantes da Comissão de Comunicação, por motivos diversos, afastaram-se da comissão. Dois (Hélio Schuch e Victor Gentilli) saíram para compor a nova Comissão de Jornalismo, e outros três (André Parente, Dóris Fagundes Haussen e Sidinéia Gomes Freitas) optaram por não mais participar das atividades da Comissão, que passou a contar com um único integrante, o professor José Salvador Faro.

Para a homologação dos processos, a Comissão de Comunicação foi composta pelos participantes das duas comissões.

No final do ano passado, o MEC abriu o processo para indicação dos integrantes das novas comissões de especialistas. Embora a convocação falasse em Comunicação sem sequer citar as habilitações, os dirigentes da SESu informavam com segurança que, na renovação dos mandatos, seria criada uma nova Comissão de Jornalismo e uma nova Comissão de Comunicação.

No dia 12 de junho, dirigentes da Compós reuniram-se com o novo secretário da SESu, MacDowell de Figueiredo.

No dia 14, a SESu emitiu a Portaria 1.815, com a nova composição da Comissão de Comunicação. No dia 16, o Diário Oficial publicou a portaria.

Não há evidências de que os dois fatos tenham relação entre si.

Nova Comissão de Especialistas do Ensino de Comunicação do MEC

Ana Arruda Callado, PUC-RJ; Waldenyr Caldas, USP; Venerando Ribeiro de Campos, UFGO; Ruth Penha Alves Viana, UFMS; Tupã Gomes Corrêa, USP; José Salvador Faro, UMESP; Dirceu Tavares de Carvalho Lima Filho, UFPE.

 

ENTREVISTA: JOSÉ SALVADOR FARO
"Nova comissão deve trabalhar
com Documento de Campinas"

Entrevista concedida a Victor Gentilli

Professor, como o senhor vê a nova composição da Comissão de Especialistas?

José Salvador Faro – É uma composição quase totalmente renovada, mas ainda é cedo para definir ou imaginar como ela irá atuar frente à variedade de problemas que foram colocados desde o início dos debates que tomaram conta de nossa comunidade acadêmica por mais de um ano. Um ponto positivo é o fato de que se trata de professores que pertencem a instituições bastante diferenciadas, com experiências regionais e didático-pedagógicas diversas, o que certamente vai contribuir para que o universo de compreensão da nova Comissão seja amplo e favoreça uma visão mais refinada do que ocorre hoje com o ensino das várias especialidades da área de Comunicação. Mas, por outro lado, como a maioria dos novos membros não teve participação ativa na polêmica que envolveu essa aparente dicotomia existente entre "comunicação" versus "jornalismo", acredito que essa comissão deva atualizar a polêmica, sob pena de passar por cima de uma questão que não está totalmente resolvida, embora a conjuntura de agora talvez permita um entendimento resultante do próprio amadurecimento da discussão.

Jornalistas e comunicadores, temos um passado recente de conflitos mas também de bons debates. O que pensa fazer para que o conflito não se reinstale e o debate continue?

J. S. Faro – Acredito que o saldo de todo o debate ocorrido em torno dessa suposta divisão entre "jornalistas" e "comunicadores" foi extremamente enriquecedor, embora em seu início ele tenha tomado uma feição de antagonismo insuperável. De imediato, portanto, como parte de seu aggiornamento com o estágio a que chegou essa polêmica, a nova comissão deve estar atenta para o que de mais construtivo esse debate produziu, recolhendo as principais contribuições que surgiram dos dois lados, identificando todos os pontos comuns e convergentes das discussões que se deram em torno da definição das diretrizes curriculares. Suponho que esse princípio, aliado a um processo sistemático de consultas às áreas profissionais envolvidas, pode evitar a reinstalação do conflito ao mesmo tempo em que preserva a manutenção do debate. O melhor exemplo disso é o documento que surgiu no Seminário de Campinas, organizado e liderado por você, e que me parece ser a consolidação mais apurada das demandas de professores dos cursos de Jornalismo e de profissionais preocupados com as questões do ensino. Particularmente considero que a nova Comissão, no caso dos cursos de Jornalismo, deve levar em conta não só o documento final das diretrizes curriculares encaminhado ao CNE, mas todo o conteúdo do documento feito em abril de 99 – porque não se trata de visões que se excluem.

Os jornalistas, por um conjunto de entidades, protocolaram no MEC um documento com suas críticas ao texto final das diretrizes. As novas diretrizes ainda estão no CNE, mas as consultas públicas não estão se dando. Como enfrentar esta questão?

J. S. Faro – A conjuntura que marcou a oposição das entidades dos jornalistas ao documento final das diretrizes me parece bem diferente daquela existente hoje – razão pela qual, na hipótese de que o CNE abra consultas por áreas antes de aprovar a versão final da nova orientação curricular, considero perfeitamente possível que o documento entregue ao Conselho possa ser ampliado com a incorporação de novas demandas, embora esta seja uma posição absolutamente pessoal. Dou um exemplo específico, ainda relacionado ao Seminário de Campinas. No congresso da Intercom realizado no Rio de Janeiro no ano passado, o professor Eduardo Meditsch, da UFSC, passou às minhas mãos uma versão comentada do Documento de Campinas onde ele aponta todos os tópicos que não teriam sido abordados no documento feito pelas entidades que finalizaram as diretrizes. Passei um bom tempo confrontando os dois textos e conclui que a inserção das observações de Meditsch não desfiguram o documento que está no CNE. Naturalmente será preciso criar alguma espécie de fórum pelo qual essa interação seja possível e buscar um novo consenso em torno disso, mas se não estivermos lidando com concepções de natureza diferente, imagino que o caminho é perfeitamente viável. Além disso, nossa comunidade hoje dispõe dessa espécie de tribuna em que o Observatório de Imprensa – especificamente o Diretório Acadêmico – se transformou, e se isso não se pode perder. Minha impressão é que já temos até condições objetivas de assegurar esse entendimento.

Na última tentativa de entendimento, uma conversa em São Paulo, as entidades de Comunicação recusaram-se a mexer no texto enviado ao CNE. Como sair deste impasse?

J. S. Faro – Como você diz: o que ocorreu em São Paulo foi apenas uma conversa, mas eu me lembro de minha particular insistência junto à Fenaj para que retomássemos nossos entendimentos visando a elaboração de uma pauta bastante concreta em torno do documento das diretrizes. O acadêmico João Brant, por exemplo, também esteve presente ao encontro e em várias oportunidades manifestou a mim sua intenção de avançar nesses entendimentos. Ocorre que há oportunidades que escapam das nossas mãos, e a responsabilidade por essa perda não deve ser atribuída a uma postura reticente deste ou daquele grupo; é apenas uma questão de amadurecimento. Talvez agora as condições sejam outras – como eu acredito que de fato são – e, portanto, seja possível recuperar esse espaço deixado vazio.

Hoje temos padrões de qualidade para as habilitações de Comunicação, excetuando Jornalismo, e padrões específicos para Jornalismo. Tais padrões são a referência para a abertura de novos cursos e para o seu reconhecimento. Por outro lado, são padrões que necessitam de atualização e também de um maior rigor. Como fazer?

J. S. Faro – A antiga Comissão de Comunicação trabalhou durante mais de dois anos com um universo de referências absolutamente disperso e superado, como alguns de nós conseguimos verificar já no final de 99. Essas referências se materializavam em padrões de qualidade e em indicadores que devem ser aperfeiçoados, de forma a permitir que as comissões verificadoras que autorizam ou reconhecem cursos possam trabalhar com parâmetros mais objetivos e rigorosos. Esses padrões de qualidade discutidos pela Comissão que organizou toda a Avaliação das Condições de Oferta devem ser recuperados pela nova Comissão de Especialistas e, na medida em que isso for pertinente às demais habilitações, adaptá-los. Quando isso não for possível, devemos ter padrões específicos de cada habilitação. O que eu acho fundamental é que o critério da qualidade do projeto pedagógico, as condições do corpo docente e a infra-estrutura laboratorial de todos os cursos sejam criteriosamente avaliados em função das demandas acadêmicas e técnico-profissionais.

Mas há diferenças de fundo entre estas visões. Como superá-las?

J. S. Faro – Há um elemento que me parece fundamental: o trabalho da Comissão de Especialistas não pode estar divorciado do trabalho feito pela Comissão do Exame Nacional de Cursos, muito menos do trabalho feito pela Comissão da Avaliação das Condições de Oferta. Penso que o aperfeiçoamento dos padrões de qualidade, bem como sua permanente atualização, são coisas que devem ser vistas de forma convergente com as outras propostas de avaliação do MEC. O que não pode ocorrer é uma dispersão de critérios, fato que confunde as instituições de ensino, os professores e os alunos.

Durante cerca de um ano, novas escolas só puderam receber autorização para o curso de Jornalismo se seus projetos estivessem condizentes com os padrões de Jornalismo. Há vários processos ainda em andamento. Como pensa tratar tais processos?

J. S. Faro – Vou reiterar aqui uma proposta que tenho feito sistematicamente em todo o processo de discussão que nos ocupou desde julho do ano passado. Não é uma idéia minha; na verdade me parece que ela foi formulada pelo professor Nilson Lage ou por você; não me lembro. A Comissão de Especialistas da área de Comunicação não tem condições de se constituir numa federação de habilitações. É preciso que, no âmbito dessa perspectiva integradora, haja um processo de identificação das demandas específicas de cada habilitação profissional. Acho que a Comissão da SESu só tem condições de aferir essa interação entre o geral e o específico se puder criar, para cada uma das habilidades profissionais, uma câmara virtual de consultas com os vários segmentos acadêmicos e profissionais. E hoje temos recursos para isso. Dessa forma, a curto prazo, eu imagino que os projetos em andamento não poderão ser encaminhados, não poderão receber pareceres, senão na medida em que a nova comissão puder operacionalizar essa perspectiva. Em termos práticos, o trabalho deixado pela Comissão de Avaliação das Condições de Oferta dos cursos de Jornalismo, e que serviram para nortear pareceres de autorização dos cursos, deve ser agora recuperado pela nova Comissão de Comunicação.

Fala-se muito em boom de criação de novos cursos. Temos os dados do Provão de Jornalismo, que avalia escolas com novos formandos. Eram 80 em 98 e 133 em 2000. Como vê esta questão?

J. S. Faro – Na verdade, o boom dos novos cursos é um fenômeno que está ocorrendo em todas as áreas do conhecimento. Não tenho dados que me digam se no caso da Comunicação ele tem sido maior que em outras áreas. De qualquer forma, minha impressão sobre esse problema difere um pouco daquela que imagina que o processo seletivo se dará através de uma espécie de "lei natural" da expansão, um darwinismo pedagógico que acabaria por provocar a eliminação de todos os cursos desqualificados que acabaram surgindo nos últimos anos. Estou convencido de que a ação da SESu, neste caso, é fundamental, no sentido de pré-qualificar os cursos que quiserem ser formados. Se a seleção natural ocorrer, que ocorra entre aqueles que foram pré-qualificados. E essa minha convicção advém de um fato que tem dimensões sociais: os prejuízos que uma autorização concedida de forma indevida acaba provocando na própria comunidade que se envolve com o curso, especialmente os estudantes, os alunos e o próprio mercado de trabalho. Como as instituições privadas dispõem de inúmeras formas de contornar as carências de ordem educacional que muitos cursos apresentam, sem necessariamente torná-los cursos de qualidade, as exigências e os padrões de qualificação têm que ser absolutamente rigorosos, de forma a assegurar que a expansão se dê pela qualidade ou se paute por ela. Nesse sentido, a antiga comissão deixa uma boa experiência para a nova: apesar dos números da pergunta, um levantamento preliminar que fiz dos processos que foram encaminhados à CEE/COM indica que, em 1999, foram negados 2/3 de pedidos de novos cursos – número que demonstra a existência de um critério de rigor no mínimo em construção. Se isso é verdade, o rigor deve ser aperfeiçoado.

O que fazer com a memória deste trabalho da Comissão de Jornalismo?

J. S. Faro – Eu insisto no fato de que, da forma como essas questões estão colocadas hoje na área de Comunicação, nenhuma comissão está em condições de exercer seu papel de forma independente, como se fosse possível ignorar a reflexão acumulada de qualquer lado. Não dá para imaginar que uma comissão de ensino atue de forma a ignorar essa variedade de análises – especialmente no caso de Jornalismo – que o debate sobre as diretrizes produziu. Neste caso específico, houve uma espécie de seqüência de efeitos, porque no Seminário de Campinas, que foi anterior à formação da Comissão de Avaliação das Condições de Oferta, já estavam presentes as indicações curriculares que haviam sido elaboradas pela primeira Comissão do Provão. Portanto, os critérios e as diretrizes com as quais a Comissão de Jornalismo vinha trabalhando eram uma espécie de resultado cumulativo. A primeira impressão pode ser a de que isso se perdeu, impressão que eu rejeito. O mesmo pode ser dito em relação ao processo que resultou na confecção do documento das diretrizes curriculares, também ele fruto de um processo de discussões que envolveu uma gama bastante ampla de entidades, cada qual com a sua concepção, conjunto afinal formatado no documento enviado ao CNE. Nessa medida, a nova Comissão não vai poder trabalhar desconsiderando esse duplo processo, não porque se trata de uma questão formal, mas porque se trata de uma questão de formar a substância daquilo que dela vai resultar como parâmetro para as habilitações. Em princípio eu rejeitaria a idéia de que a constituição de uma Comissão de Comunicação possa significar o desperdício desse processo. Desperdício será se a nova Comissão não tiver sensibilidade para interpretar e expressar essa variedade de contribuições.

 

ASPAS

"Mercado dirá o que é preciso mudar" Copyright ABI <http//www.abi.org.br>

"Não conheço ainda a sistemática de trabalho da Comissão para a qual fui nomeada Portanto, vou apenas dizer aqui o que penso do esforço que vem sendo feito para a melhoria dos cursos de Comunicação em todo o país.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que as falhas dos cursos sempre foram apontadas pelos próprios professores e pelos alunos. O fato de o MEC estar agora preocupado é auspicioso. Acho, porém, muito difícil a avaliação de um curso pelas medições que estão sendo feitas. Creio que só a médio prazo e com a participação do mercado, isto é, dos profissionais que contratam os formados pelos cursos, será possível uma visão clara do que é preciso mudar.

Isto não significa que as escolas devam se transformar em fornecedoras de mão-de-obra. Elas têm que ser muito mais. Têm que formar cabeças críticas, pessoas que entrem no mercado para melhorar a qualidade dos veículos, para elevar a dignidade da profissão. É com este objetivo em vista que sempre trabalhei dentro das faculdades, públicas ou particulares, e que trabalharei nesta comissão."

 

PROVÃO DE JORNALISMO
Hora de desatar o nó

Marcia Benetti Machado (*)

Contrariando a norma, vou começar por uma obviedade. O Provão é detestado pelos alunos de Jornalismo. Eles desprezam a prova porque são coagidos a fazê-la, porque precisam redigir matérias a mão e porque crêem que a prova no final das contas não avalia coisa alguma. Isso é do conhecimento de todos, mas parece que nós, professores das universidades, não estamos levando essas queixas muito a sério, caindo na armadilha de esperar por um "A" que venha nos redimir diante da sociedade – esta outra, por sua vez, parece que já caiu na cilada de enquadrar os cursos por meio das notas obtidas pelos alunos em uma tarde de domingo. Esses dados têm sido desprezados por muitos, mas eles são decisivos.

Fiz a prova. Tentei fazê-la em condições semelhantes às oferecidas aos alunos. Que desgraça! Só para responder à questão 4, que pede um texto de 20 a 25 linhas para revista, mais título e subtítulo, levei uma hora, entre decifrar os dados, encontrar o ângulo certo, redigir e "passar a limpo". E olhem que eu adoro redigir, tenho experiência, incluindo anos de redação nas editorias de Política e Primeira Página da Folha de S. Paulo. Mas escrever a mão, com base em dados tão insuficientes, e tendo como parâmetro uma tabela de quatro anos atrás, desculpem-me, não é exercício de jornalismo, é quase ficção. É por isso que muitos dos alunos da UFRGS com quem conversei deixaram de responder a essa questão – que valia 20 pontos e pesou no final. Eles não sabiam como fazer? Eles sabiam, mas estavam cansados e desmotivados, sem contar que o uso do computador mudou completamente as nossas capacidades de percepção, cognição e elaboração, e hoje quase não concebemos redigir uma matéria sem ir e vir, copiar, mover e deletar.

A questão 2, que pede o planejamento de uma cobertura de televisão regional para o dia nacional de vacinação, tem um outro problema: é extensa demais. Para quem não viu a prova, reproduzo parte do enunciado: "Defina os espaços de programação que serão usados nesta cobertura; os formatos dos programas; as estratégias que orientarão a equipe de produção e de reportagem (incluindo pautas e ângulos de cobertura); os possíveis entrevistados; os recursos humanos; os equipamentos necessários e serviços auxiliares a serem mobilizados". Ufa! Pelo menos 45 minutos são necessários para respondê-la. Aposto que muitos desistiram antes disso.

A questão 1, que pede uma matéria de 1 minuto e 40 segundos para rádio, em tese é mais simples, mas ainda assim me parece inadequada. Ninguém faz radiojornalismo a partir de falas tão longas, a menos que esteja cobrindo um debate, e ainda assim é de se esperar que o repórter entreviste alguém. O tema – os provedores de acesso gratuito à internet e o futuro dos pequenos provedores – é árido para rádio, mas esse problema poderia ser superado se, em vez de dois artigos, tivéssemos uma apresentação escrita que simulasse duas entrevistas feitas pelo repórter com os dois autores. De novo, muito tempo para ler e para redigir.

Quando o enfoque se desloca para a ética, a coisa muda de figura. As questões 3 e 10 são mais bem-elaboradas. A primeira pede que o aluno se posicione sobre a realidade do jornalismo brasileiro e o dever de ouvir todos os lados envolvidos nos fatos. Ela supõe uma avaliação crítica do aluno a respeito do problema "complexidade, imparcialidade e tempo", vivido nas redações pelos jornalistas que muitas vezes não conseguem cumprir suas pautas da forma abrangente como deveriam, e que se vêem obrigados a fechar a matéria de qualquer modo. O que se ensina na universidade é que jamais um repórter pode deixar de contemplar as diversas versões, mas no jornalismo diário os paradigmas tempo e espaço acabam definindo o texto final – é um erro, é contestável, mas quem trabalha em jornal sabe que é assim. Cabe perguntar se os avaliadores do Provão querem um posicionamento crítico dos alunos a respeito de sua responsabilidade social ou uma breve teorização sobre a distância entre o que é certo e o que é usualmente praticado nas redações.

Já a questão 10 trata da Lei da Mordaça, e pede um argumento a favor e um contra a sua criação. Qualquer aluno razoavelmente bem-informado seria capaz de respondê-la, e ela me parece bem formulada.

Argumentação consistente

A Teoria da Informação é o tema da pergunta 9. Pede ao aluno que critique o modelo de Shannon e Weaver com base nos "estudos recentes sobre a comunicação humana" e suas "aplicações" no jornalismo. A questão diz ainda que os estudos de recepção e cognição da notícia têm colocado o modelo da década de 40 em xeque. Bem, sou professora de Teoria da Comunicação, e precisaria de bastante tempo para responder a essa questão – a essas alturas, o leitor deste artigo deve estar achando que sou meio "lenta", mas asseguro que estou apenas tentando ver a prova sob o aspecto de suas condições de execução e sob o ângulo dos critérios de correção. A questão envolve conhecimentos sobre Estudos Culturais, Estudos de Recepção e talvez Análise do Discurso, só para citar algumas teorias que superam a idéia de que o texto jornalístico, como de resto qualquer texto, seria transparente e que superam também o eixo linear da Teoria da Informação.

As mediações que interferem no processo comunicacional são inumeráveis, e vão desde o lugar de onde o jornalista fala até o lugar de onde o receptor lê essa fala, passando pela cultura, pela ideologia, pela tecnologia e pelas competências de cada um, entre outras mediações possíveis. No meu entender, a crítica a Shannon e Weaver não pode ser banalizada, e torna-se complexa quando exige uma argumentação teórica consistente. Não vamos também esquecer que este modelo geralmente é visto pelos alunos no início do curso e, exatamente por não ser simplesmente "aplicável" no jornalismo, não é fruto de sua atenção em monografias ou textos teóricos gerais. Em outras palavras, podemos contestar a relevância dessa pergunta.

Mas minha grande ressalva cai mesmo sobre a questão 5.

Ela traz uma capa do Jornal do Brasil com uma excelente foto – a única da página – de Ronaldinho caído no campo, gritando de dor, no momento em que machucou o joelho. O enunciado é: "Analise as funções do fotojornalismo na edição gráfica da seguinte página". Fiquei pensando o que, afinal, queriam saber os avaliadores. É evidente que nenhum editor de primeira página deixaria de usar esta foto com destaque. Em termos de fotojornalismo, é o registro de um fato que tem relevância. Ela tem informação e mobiliza o leitor até mesmo emocionalmente. Depois de cinco meses se recuperando de uma lesão, acontece o que ninguém esperava: Ronaldinho se machuca sozinho. É quase o homem mordendo o cachorro.

Mas a pergunta é em relação à edição gráfica da página. Ou seja, o lugar em que a foto está, o recorte feito, o uso de um fio que pretende emoldurar a notícia. O que dizer sobre a edição? Que a foto deveria ser usada no alto da página, que a imagem foi decisiva para que o fato se tornasse a manchete do jornal? Não sei qual a resposta correta para esta questão, e acredito que muitos alunos tenham "parado" diante dela com as mesmas dúvidas. Provavelmente o enunciado seja genérico demais.

Uma última crítica: a pergunta 8 diz que o jornalismo investigativo é um "gênero" cada vez mais presente no dia-a-dia da mídia brasileira, e solicita que o aluno avalie seu papel. Embora eu compreenda que o jornalismo investigativo esteja tradicionalmente restrito à "grande" reportagem que traz luz aos bastidores e ajuda a decifrar conexões entre fatos, pessoas e poderes, investigando profundamente, eu sempre me lembro de uma entrevista com Janio de Freitas. Para ele, o jornalismo investigativo é uma invenção teórica, já que todo jornalismo exige algum tipo de investigação, e criar essa categoria parece mais uma estratégia para estabelecer nas redações uma camada "especial" de jornalistas – como a Swat, dizia ele. Excetuando-se as pequenas notícias, e que ainda assim exigem apuração e checagem, todo o resto pode hoje ser classificado como jornalismo investigativo – deixando de fora, evidentemente, o jornalismo subserviente, preguiçoso, burocrático e chapa-branca. Como essa questão será corrigida? Janio de Freitas passaria por ela?

Ferramenta inadequada

Entre os méritos da prova deste ano, está a inclusão de uma pergunta relativamente simples sobre jornalismo online, além de outra que exige que o aluno sistematize algumas das variáveis que interferem na produção da notícia.

Mas, no geral, a prova continua estranha, longa e realizada em contexto político desfavorável à participação dos alunos. Transportando a prova para o real contexto em que ela acontece, acho impossível que se possa inferir, a partir das respostas, uma nota sobre os cursos de Jornalismo. Este é o grande nó do exame.

Eu me dispus a analisar a prova, pois fui pautada para isso, mas na verdade esse não deve ser o centro do debate. Muitas mediações precisam ser analisadas nesse processo todo que acaba resultando em um simples conceito divulgado para todo o país com status de paradigma de avaliação. Precisamos considerar que:

1) Os alunos não estão motivados para fazer o Provão e não reconhecem sua legitimidade;

2) Nem todas as questões são bem formuladas ou adequadas à realidade;

3) Nenhum jornalista redige a mão atualmente;

4) O tempo continua exíguo para questões tão extensas.

E então chegaremos a uma conclusão simples: o Provão não é um instrumento adequado para avaliar os cursos de Jornalismo. Ele não mede realmente o conhecimento dos alunos, que simplesmente deixam de responder a algumas questões pelo cansaço ou por um entendimento político de como os cursos devam ser avaliados.

Se não mede esse conhecimento, então não pode ser considerado legítimo para avaliar os cursos desses alunos. É um raciocínio lógico que os idealizadores do Provão teriam a obrigação de considerar. Mas, ao que parece, persistiremos todos no erro: o Ministério da Educação continuará acreditando na farsa da prova como método de avaliação; as universidades perman ecerão caladas e acuadas, à espera dos conceitos; e a sociedade continuará na escuridão de quem só tem acesso às notas finais.

Para encerrar esta já muito longa análise, é hora de tentar desatar este nó. Por que não nos concentramos todos em ajustar os critérios da Avaliação das Condições de Oferta, esta sim capaz de se transformar, dentro de algum tempo, em paradigma de avaliação? É hora de parar de impor métodos questionáveis de medição do conhecimento, e de fato ouvir os alunos e as escolas de Jornalismo, sob pena de o Provão se tornar uma farsa tomada como verdade apenas porque já formalmente instituída.

(*) Jornalista e professora do Departamento de Comunicação da UFRGS

 

Quem entende é contra

Giselle Koszo (*)

No dia 11 de junho 12 faculdades de Jornalismo, como Metodista, ECA/USP, Cásper Líbero, Unimep, PUC-SP, UFES, entre outras, mostraram que repudiam o ranking do Exame Nacional de Cursos, o Provão, entregando as provas em branco. O boicote é a única alternativa frente ao autoritarismo do MEC para os estudantes que lutam por uma avaliação verdadeiramente institucional.

Por que se contesta o Provão? É a qualidade do ensino superior que está em questão. O Exame Nacional de Cursos é só mais um instrumento para o sucateamento e a privatização da educação no Brasil.

Mente quem afirma que o Provão não gerou nenhum benefício. Ele está resgatando a função questionadora da Universidade. O boicote é a prova disso. Além de comprovar a necessidade de um método de avaliação efetivo, e expor o quanto esse sistema precário pode não melhorar, mas solidificar os defeitos e aumentar a mediocridade. Cada prova entregue em branco é fruto de um acúmulo de debates e informações. As escolas que abraçam a campanha da Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social) põem em pauta, em seu feudo acadêmico, o ideal de ensino superior e que tipo de avaliação nos ajudaria a chegar lá.

É assustador ver professores e formandos em Jornalismo não saberem ou não se interessarem pelo que é realmente o Provão. Mérito da falta de informações claras sobre a origem e os objetivos do exame e campanhas publicitárias caríssimas (num momento em que o Estado diz não ter verba para a Educação) que mascaram a realidade e tentam impor o exame como algo inquestionável.

Chamam de "baderneiros" e "rebeldes sem causa" àqueles que não calam frente a uma política educacional antisocial de descaso, que acena para um ensino mercantilizado: de resultados. A "avaliação institucional" do Provão não passa de uma comparação quantitativa entre faculdades, assegurada por uma camisa de força chamada Curva de Gauss. Este critério estatístico de distribuição de notas predetermina que, independentemente da nota, sempre, 12% das faculdades receberão A, 18% terão B, as 40% seguintes C, 18% D e as 12 restantes, E.

Esses dados se tornam referência para a mídia, a sociedade e o mercado. Mas o que é uma nota A? Aponta um ensino excelente que não precise melhorar nada? Ou a faculdade fez um bom cursinho pré-Provão? Talvez a empresa de educação esteja sorteando um caro 0Km se a turma obtiver a nota máxima...

E os professores, a pesquisa, as atividades de extensão, a infra-estrutura de uma escola que tirar C? O Provão ignora toda a complexidade da Universidade. Divulgam como avaliação institucional uma prova de quatro horas de duração, obrigatória para os formandos (com a ameaça de não receberem seus diplomas) e unificada para todo o país.

O fato de o exame não levar em conta as diferenças regionais é baseado em argumentos como a validade do diploma em todo território nacional. Explicações como esta podem ser encontradas na revista oficial do Provão, expedida pelo MEC, em sua quinta edição, de 750 mil exemplares.

"Provão investindo em qualidade" é a chamada de capa dessa revista, que nos permite ler discursos como este do ministro da Educação – ex-presidente do BID e ex-reitor da Unicamp – Paulo Renato: "O Provão é um dos meios que vão nos levar nessa passagem de um sistema de ensino por vezes simples reprodutor de conhecimentos a uma Universidade criativa e geradora de novos saberes dos quadros profissionais indispensáveis à transformação do Brasil e à melhoria da qualidade de vida dos brasileiros."

Falas como esta poderiam até convencer, mas só àqueles que não vêem a abertura indiscriminada de cursos, a greve das universidades públicas por um ensino decente, o corte do financiamento da pesquisa, a redução mutiladora do orçamento federal destinado às universidades públicas, os mais de cinco anos sem contratação de professores e sem concessão de aumento. Sem falar de declarações como a da secretária de Estado da Educação, Rose Neubauer, de que "um salário médio de R$ 1.050 por uma jornada de 40 horas semanais é suficiente para dar um ensino de qualidade", e do tratamento que recebem professores que lutam pela melhoria do ensino: a tropa de choque.

É deprimente pensar que os defensores dessa política educacional já foram um dia professores...

O Provão é financiado pelo BIRD – o mesmo que critica os gastos sociais, a democracia e os investimentos em educação como "ineficientes no combate à pobreza". Estudo disponível na homepage do Banco Mundial e publicado na Folha de S. Paulo em 6/6/2000.

O boicote subiu no curso de Jornalismo de 10,3% para 11% em 1999, sendo que em números absolutos a adesão é bem mais expressiva que o 0,6%, pois o número de escolas avaliadas aumentou mais de 50% em dois anos. Em 1998, 80 escolas fizeram o exame, em 99, foram 92, e em 2000 foram 133 inscritas. O boicote esperado para 2000 é ainda maior.

Entretanto, a estratégia de ocultar e manipular as informações é comprovada na revista oficial, enviada a todos os formandos e as faculdades avaliadas do país, em trechos como: "Hoje, ninguém mais discute a importância dele (Provão). Mesmo aqueles críticos mais renitentes se renderam. O Provão cumpre não apenas essa função avaliadora, mas também mostra a complexa realidade do ensino universitário no país, nos seus diversos segmentos" (pág. 59).

Na mesma revista oficial e em entrevistas do ministro da Educação à imprensa podemos encontrar frases como: "O provão só tem gerado benefícios" e "Não foi imposto verticalmente". Será?

(*) Giselle Koszo é estudante de Comunicação Social habilitação em Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

 

GREVE NAS UNIVERSIDADES
Vamos mudar a cantilena

Carlos Vogt

A greve nas universidades estaduais de São Paulo acabou, está acabando ou acabará em breve. Depende, um pouco, do momento em que este texto estiver sendo lido. Agora, que o escrevo, a situação está em vias de.

O fim da greve não significa, contudo, o fim dos problemas que essas instituições têm de enfrentar e que, se não o fizerem urgentemente, o risco será o do comprometimento definitivo da qualidade acadêmica de suas atividades de ensino, pesquisa e extensão.

O resumo desses problemas está contido nesta simples frase nominal: falta de gestão.

E se há falta de gestão adequada ao que é próprio e constitutivo – razão de ser deste tipo de instituição, que são os seus fins acadêmicos –, a responsabilidade maior pelo vazio de poder e pela omissão diante dos graves acontecimentos que marcaram essa longa greve é, antes de tudo, das autoridades a quem foram conferidos e outorgados direitos e deveres para sua condução institucional, pelos mandatos dos reitores que as dirigem.

Dialetos de populismo

Os jornais e a imprensa, de um modo geral, têm repercutido o movimento sob várias formas, sendo que alguns deles, como O Estado de S. Paulo, têm produzido constantes editoriais contra os exageros do movimento.

No editorial de domingo, 11/6/2000, p. A3 – "A omissão dos docentes da USP" –, o jornal faz vigorosa imprecação contra os professores e contra a Adusp (Associação de Docentes da USP) por não tentarem impedir os atos extremos de piquetes e constrangimentos físicos e morais, inclusive do próprio reitor, que já há quase uma semana pernoita no prédio da reitoria com medo de, se sair, não conseguir voltar aos despachos de sua rotina de trabalho.

A isso – não que o aconselhe – prefiro mil vezes a temeridade do governador Mario Covas, mesmo achando, como sempre achei e pratiquei, que o esforço maior, nessas situações de alta tensão, tem de ser o de buscar o ponto de diálogo e de entendimento entre a linguagem institucional e a linguagem sindical, e não a sua confusão num dialeto de populismos que ninguém entende.

Faltam metas

Como disse nos artigos anteriores que tenho publicado sobre o tema, neste Observatório [veja remissões abaixo], o caso das universidades estaduais paulistas é muito específico por força da autonomia de gestão financeira, de que gozam essas instituições desde fevereiro de 1989.

As análises que fazem vários dos articulistas que a Folha de S. Paulo reuniu no Mais, de 4/6/2000, são, em geral, pertinentes e expressam, em alguns casos, como no artigo de Laymert Garcia dos Santos, um sentimento legítimo de decepção dos docentes diante do quadro de crescente abandono das grandes metas acadêmicas que deveriam nortear, sustentando-a, a grandeza do melhor sistema público de ensino superior da América Latina.

Falta-lhes, contudo, a devida atenção para aquela peculiaridade que, conferindo ao sistema autonomia, passa-lhe também, com o direito, a responsabilidade pelo bom cumprimento das metas e pela justa execução dos recursos que possibilita que elas sejam cumpridas.

Em outras palavras, a responsabilidade é dos dirigentes universitários e a eles cabe a condução das políticas institucionais para o bom andamento do ensino, da pesquisa e dos serviços prestados pelos centros universitários à sociedade.

Crime de lesa-pátria

Se nos perguntarmos hoje quais as políticas institucionais de cada uma de nossas três universidades e quais, dentre elas, seriam comuns às três, pelas ações integradoras do Conselho de Reitores das Universidades do Estado de São Paulo (CRUESP), duvido que algum de nós, mesmo os que convivemos com o cotidiano de suas atividades, conseguiria dar uma resposta clara a essa questão. E não por desconhecimento, mas simplesmente porque tais políticas não foram formuladas, não existem e ninguém, entre as autoridades constituídas, se esforça para fazê-las emergir.

Ninguém agüenta mais ouvir falar da culpa dos aposentados pelo alto índice de comprometimento dos recursos orçamentários com o pagamento de pessoal. As pessoas se aposentaram, se aposentam, vão se aposentar. É um direito delas, mas são execradas como se tivessem ou estivessem para cometer um crime de lesa-pátria.

Crime contra a instituição universitária é adiar por mais tempo a constituição de seu Fundo de Aposentadoria e Pensão. Isto sim é uma meta clara, inadiável e urgente da política institucional universitária, de cuja implementação imediata nossos reitores não podem se furtar, sob pena de ficarem recitando, em ladainha, o rap do aposentado, e acabarem, sem solução, se aposentando e engrossando o coro daqueles a quem são imputadas todas as penas da falta de recursos nas universidades.

Vamos mudar a cantilena.

Que os reitores apresentem sua proposta de política salarial para servidores e docentes das universidades paulistas; que os reitores escrevam, com pingos e vírgulas, seus projetos acadêmicos para as instituições; que os reitores publiquem, com circunstância, mas sem pompa, os seus programas de gestão; que os reitores cumpram e façam cumprir metas objetivas de desenvolvimento institucional; que os reitores contribuam, de forma crescente, para a institucionalidade das relações no seio de nossas universidades.

Para isso têm o seu mandato. Para o seu cumprimento responsável, as universidades têm a sua autonomia.

 

UNESP
Cultura comunicacional
e difusão científica

Cláudia Chiste

Em 1998/99 desenvolvi o projeto: "A Cultura Comunicacional na UNESP: uma proposta para difusão de ciência e tecnologia", durante o curso de pós-graduação em Gestão de Processos Comunicacionais na ECA/USP. A seleção deste tema deve-se a sua atualidade no contexto universitário. A necessidade de desenvolver procedimentos que capacitem o pesquisador a relacionar-se com a sociedade, em nível regional, estadual, nacional ou internacional, leva-nos a pensar em estratégias de comunicação que concretizem ações democráticas e que envolvam os vários segmentos da Instituição.

A UNESP tem como finalidade o ensino, a pesquisa e a extensão de serviços. Cada vez mais, à universidade se impõe o compromisso de contribuir para a melhoria da qualidade de vida, para a solução de problemas e conflitos sociais e para a construção compartilhada do consenso e da coesão sociais. O desafio a enfrentar é o processo de modernização da cultura universitária e, nele, o requisito fundamental do desenvolvimento da capacidade de implementar conceitos e planos em programas de gestão estratégica. Neste contexto situa-se a cultura comunicacional como um dos instrumentos mais poderosos para o aprimoramento da relação Universidade/ Sociedade e, em conseqüência um ingrediente essencial em programas estratégicos de gestão acadêmica.

O fato de a UNESP ter sido criada a partir de instituições educacionais e/ou de pesquisa já existentes, e em alguns casos consolidadas, permite também um maior comprometimento entre a comunidade local e os distintos campus. Daí, a "construção de uma identidade muito peculiar no que se refere ao reconhecimento das características e vocações das unidades que a compõem" [Gestão da Cooperação Internacional em uma Universidade Multi-campus. Palestra proferida pela profª Dra. Lígia Maria Vettorato Trevisan, Assessora Chefe da AREX- Assessoria de Relações Externas da UNESP, Argentina, 1997]. Fato que, contraditoriamente, pode estar prejudicando o posicionamento e a composição de sua imagem institucional. A distribuição geográfica da UNESP caracteriza uma situação natural de "reforço do isolamento" dos atores sociais que nela atuam. Esta situação dificulta o intercâmbio, as inter-relações e, sobretudo, a abertura para o mundo globalizado de hoje.

A distribuição dos campus da UNESP, em 15 diferentes cidades, funciona inegavelmente como agente dificultador do processo de divulgação científica da instituição. A distância entre os mesmos e a capital, por exemplo, inviabiliza o envio de um mesmo jornalista para cobrir duas matérias supostamente interessantes em um mesmo dia. Mas além da distância real da Universidade do maior centro urbano do país, lembramos ainda que, segundo Ferreira [José Roberto Ferreira, Assessor Chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da UNESP] "existe um problema cultural em que o jornalista procura em princípio a fonte que está mais presente em sua memória, no caso a USP, a PUC, o Mackenzie, enquanto que a UNESP até pouco tempo atrás era totalmente desconhecida neste cenário. O jornalista muitas vezes não compreende a UNESP, o que é uma universidade multi-campus por exemplo. Normalmente ele não conhece esse modelo, sua dimensão, é difícil visualizar a Unesp, ela não está na cultura deles" [idem].

José Silvio nos fala que "as universidades tradicionais têm a seu favor a experiência, a acumulação de excelência, uma imagem positiva e prestígio na sociedade, um grande potencial de recursos para o ensino e aprendizagem, enquanto as universidades e organizações mais recentes têm a seu favor a flexibilidade, a ausência de tradição, rotinas e hábitos acumulados em sua estrutura e funcionamento organizacional" [Sílvio, José. A virtualização da Educação Superior: alcances, possibilidades e limitações. In Educación Superior y Sociedad. IESALC, 1998. 9 v.]. Hoje, as universidades passaram a pensar nas transformações necessárias para o contínuo atendimento, fomento, armazenamento e distribuição dos estudos referentes às condições humanas e materiais. Ao invés de guardar o conhecimento em bibliotecas, mais do que nunca ela terá que considerar a prática como parte do seu processo de estudo, aproximando-se da sociedade de maneira democrática, de modo que os interesses de ambas sejam contemplados. A agilidade na troca de informações vem promovendo a interação e a necessidade de aplicação do saber, seja para comprovar teorias, auto-afirmar-se ou para promover a integração entre as diversas áreas ou disciplinas, favorecendo enfim a agregação do valor conhecimento ao cotidiano, como forma de democratização do primeiro.

Descrição trabalhosa

A abrangência do assunto em questão nos levou a buscar modelos de estudo para análise. Foram encontrados dois documentos relacionados ao tema que nos interessaram. Ambos comentam a raridade de documentação nesta área, e ainda ressaltam "a respeito de um problema relacionado com esse - a imagem pública da ciência - conseguimos encontrar estudos que fornecem elementos de reflexão que nos permitem evitar a armadilha de uma visão simplista do problema. Esta consiste em identificar como único problema a falta de exposição na mídia dos trabalhos dos pesquisadores universitários, e como única solução o aumento dos esforços de divulgação científica junto ao grande público e aos políticos. Ao contrário de uma convicção que é muito comum, tanto dentro como fora dos meios acadêmicos, os pesquisadores universitários já gozam de uma visibilidade social relativamente importante" [Bulletin Cirst Envex. L’Image de la Recherche Universitaire et Vulgarization Cientifique. nov. 1997 <www.uquebec.ca/bri/envex/envex.htm>]. É preciso reconhecer, antes de mais nada, que nem todas as pesquisas universitárias podem ser traduzidas em descrições breves, acessíveis, sedutoras, e capazes de aumentar a tiragem dos jornais. O interesse da mídia pelo saber dos pesquisadores é motivado, em grande parte, por acontecimentos da atualidade, tão imprevisíveis quanto passageiros. Nunca o trabalho dos sismólogos, por exemplo, é tão interessante como na ocorrência de um terremoto.

Neste momento em que o poder público enfatiza a escassez de recursos induzindo e procurando orientar a discussão sobre a redefinição das prioridades de investimento, as instituições públicas – e, entre elas, notadamente a universidade – têm seu funcionamento, suas operações, sua gestão e suas políticas cada vez mais escrutinadas pelos diferentes segmentos sociais e pela mídia em geral. Em um cenário como este torna-se vital a necessidade de um esforço articulado de comunicação social que possibilite o diálogo entre os pesquisadores e a mídia, pois interessa a ambos divulgar para os diversos segmentos da sociedade as novas descobertas e os avanços em Ciência & Tecnologia.

Neste cenário, caracterizado por profundas mudanças, as políticas brasileiras de ciência e tecnologia têm sido executadas, em sua grande maioria, pelas universidades. É natural que estas sejam as instituições mais afetadas por aquelas transformações e, no limite, delas se exige uma participação mais intensa na prestação de serviços e geração de tecnologia. Ainda que estas sejam missões que as universidades, a rigor e pela sua própria definição, não devem cumprir sem que seus objetivos estejam claramente definidos, evidencia-se a importância estratégica da difusão da ciência como mecanismo que propicie à sociedade informação correta sobre os serviços e a tecnologia de que ela já usufrui como conseqüência de aplicação de resultados de pesquisas. Eduardo Martinez considera que "a popularização da ciência e da tecnologia requer que os amplos setores da população aceitem o desafio e a satisfação de entender o universo em que vivemos e, sobretudo, que possamos imaginar e construir, coletivamente, o mundo possível" [Martinez, Eduardo. La Pirâmide de La Popularization de La Ciência y La Tecnologia. Tradução livre da autora. Boletin Proyecto Principal de Educacion en América Latina y el Caribe, UNESCO, Santiago, Chile]. Assim, é importante que pensemos, sim, em políticas direcionadas às grandes populações, pois elas carecem do domínio desses novos códigos. Como pode a ciência frequentar os lares mais humildes senão pelos meios populares de comunicação? Como salienta Alves "acredito que houve um erro histórico no planejamento de políticas públicas que, ao invés de se voltarem às maiorias, eram definidas em função de uma elite" [Alves, Luiz R. Anotações de aulas do Núcleo Comunicação e Cultura, ministrado pelo prof. Dr. Luiz Roberto Alves. CCA/ECA/ USP, out. 1998].

O professor-pesquisador é ator fundamental para a construção de um mundo ético, digno, onde o seu trabalho de educador e sua produção científica são o resultado de um esforço que em última instância visa a melhoria da qualidade de vida e o bem estar da coletividade. "Os professores universitários que se preocupam com o destino da pesquisa reconhecem que pouco fizeram no passado para explicar aos políticos e ao público em geral o uso que fazem do seu tempo útil, assim como o valor e a pertinência de seus estudos (Winkler 1992, Shapiro 1990, Lewington 1996)" [Bulletin Cirst Envex. L’Image de la Recherche Universitaire et Vulgarization Scientifique. nov. 1997 <www.uquebec.ca/bri/envex/envex.htm, (nov. 1998)] . Um dos requisitos importantes para o conhecimento do impacto da pesquisa sobre a sociedade segundo Cozzens se refere aos pesquisadores, "se eles estiverem interessados em que um novo conhecimento provoque mudanças em determinados grupos sociais, eles precisam estar envolvidos com esses grupos, certificando-se da eficácia dos canais de comunicação com eles. Se estes canais existem, há pelo menos um indicador de que a pesquisa tem impacto positivo" [Cozzens S. Pesquisa e Sociedade.In Conferência publicada no Notícias FAPESP. n. 40. mar 1999].

Difusão de C&T

Constata-se daí a necessidade de se abordar o tema com a respectiva comunidade acadêmica, considerando sua atualidade e pretendendo não perder de vista a oportunidade de dialogar sobre o assunto em busca do amadurecimento de uma proposta estratégica para o setor, em que se pretende constituir um espaço para a inter-relação e amadurecimento de experiências entre os cientistas da UNESP. Neste caso, à comunidade acadêmica cabe o papel de mediadora entre os meios de comunicação de massa e a sociedade.

No trabalho em questão, foi proposta a implantação da Agência de Notícias Unesp, prática que, considerando as atividades já desenvolvidas pela Assessoria de Comunicação e Imprensa (ACI/UNESP) nestes últimos anos e que atendem as necessidades primeiras de relações com a mídia, propõe ampliar o espaço de interlocução entre os pesquisadores da UNESP e os diversos seguimentos da sociedade. Além de alimentar a mídia, como ocorre hoje, a Agência poderá ser a organizadora do espaço virtual em que se processam as trocas, onde se desenvolvem os processos comunicacionais direcionados à difusão de Ciência e Tecnologia, tornando-se um espaço que comporta mecanismos de inter-relação e um banco de dados, que com um modelo operacional simples e um custo baixo poderá atender aos objetivos propostos. Pretende-se com isso obter um fluxo contínuo, abrangente, interno e externo com as diversas Unidades da UNESP. A Agência apresenta uma abrangência com preocupações mais amplas no contexto comunicacional, facilita o intercâmbio nacional e internacional, estimula a troca de informações com agilidade, diminuindo distâncias e socializando, mesmo no âmbito da própria Universidade, a produção científica de seus pesquisadores. Os órgãos que divulgam Ciência e Tecnologia em Quebec, por exemplo, têm incentivado fortemente os pesquisadores a comunicar diretamente os resultados de seus trabalhos a um público o mais abrangente possível. Destacamos assim, a necessidade de um trabalho abrangente junto aos pesquisadores, no sentido de motivá-los para a inter-relação, divulgação, intercâmbio e cooperação científicos. E ainda, propiciar uma melhor compreensão da cultura científica na Universidade, obtendo dados que possibilitem o desenvolvimento de uma política estratégica para a inserção dos produtos da pesquisa da UNESP na mídia.

Neste mundo globalizado, "o que não passa pelos meios não existe". Este é o pensamento da profª Drª Maria de Lourdes Motter, onde "não existe" é a classificação assinalada a um fato, episódio ou produto que não atinge um grande contingente de pessoas simultaneamente e, por isso, não configura um conhecimento para todos. "O conhecimento permanece nos limites do espaço em que foi produzido. Sem existência, portanto, para a grande maioria que o desconhece. Ele só passará a existir para todos quando socializado através da difusão e propagação pela mídia" [Motter, M. L. Observação realizada pela professora durante o desenvolvimento deste trabalho no Curso de Pós-Graduação em Gestão de Processos Comunicacionais. CCA/ECA/ USP, jan. 1999].

No caso da UNESP, aqui se encontra um dos pontos mais delicados a ser solucionado, considerando que a grande mídia localiza-se nesta capital e a maioria dos campus da UNESP estão distribuídos pelo interior do Estado de São Paulo.

Para Tânia Belickas, jornalista da UNESP, a ACI – Assessoria de Comunicação e Imprensa, conseguiu estruturar a divulgação feita pela assessoria de imprensa por meio do UNESP na Imprensa que é veiculado semanalmente pela UNESP-L. Diz a jornalista:

"Por meio deste boletim eletrônico, lançado há um ano e que contém o resumo das pesquisas divulgadas pelos jornalistas da ACI naquela semana, docentes e funcionários têm noção de como a universidade está aparecendo na mídia. Os resultados tem sido excelentes. Professores têm enviado e-mails contando para quais veículos deram entrevistas, e que não foram contabilizados no boletim, ou até mesmo sugerindo as suas pesquisas como pautas. A idéia é usar esse expediente para dar informações de como os pesquisadores devem atender a imprensa e como melhorar o contato com o jornalista. Isso tem ajudado a mudar uma mentalidade mais retrógrada, a que sustenta que lugar de cientista é no laboratório. Tentamos fazer com que o pesquisador entenda que o trabalho de divulgação faz parte da sua atribuição como funcionário de uma universidade pública. Alguns têm entendido isso, na conversa por telefone, quando arduamente tentamos fazer com que compreenda a importância da veiculação. Outros entendem quando vêem o seu trabalho estampado nos jornais. Ligam agradecendo e, depois, querendo indexar esse material no seu relatório para a contagem de pontos".

A Agência USP de Notícias, vem implementando diversos produtos como o Notícias do Dia, o Boletim Eletrônico e o Boletim Mensal, visando atender o público interno e externo sobre o que acontece de importante na USP. Os resumos dos trabalhos são publicados acompanhados do endereço para contato com o pesquisador.

Dois produtos da UNESP se destacam ao considerarmos os propósitos da Agência USP de Notícias, o LinkNotícias e o Pró-pauta. O LinkNotícias UNESP é um informativo eletrônico destinado ao público em geral, inclusive a jornalistas, via e-mail ou fax contendo sugestões de pauta dos trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores da Unesp. E o Pró-pauta é um boletim destinado propriamente a jornalistas via fax ou e-mail, que visa despertar o interesse dos jornalistas pelos trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores da UNESP; a pauta costuma ser ainda reforçada com um telefonema.

A proposta da Agência USP é também pautar os jornalistas, basicamente pelo meio eletrônico. Os receptores da Agência USP de Notícias são os jornalistas. Quanto mais contínuo o fluxo de informações que estas pessoas estabelecem melhores são os resultados. As unidades mais "fiéis" no contato com a Agência, independente da linha de pesquisa realizada e da formação profissional deste contato, são as que apresentam os melhores resultados.

Pela complexidade destas questões configura-se a importância da realização de um trabalho junto aos pesquisadores, que nos permita conhecer melhor e mais profundamente suas dificuldades, suas preferências e demais características que compõem esse cenário. O Boletim da Universidade de Quebec, por exemplo, nos diz que "‘a divulgação científica prega aos convertidos’ e que ‘nos Estados Unidos o consumo de produtos de difusão científica (revistas científicas, museus de ciência, bibliotecas, etc.) está em íntima relação com o grau de escolaridade dos indivíduos’ (NSF 1996). Isso equivale dizer que os espaços em que a vulgarização científica se faz sentir com mais força são justamente aqueles freqüentados por pessoas que em geral já conhecem e valorizam a pesquisa científica" [Bulletin Cirst Envex. L’Image de la Recherche Universitaire et Vulgarization Scientifique. nov. 1997 <www.uquebec.ca/bri/envex/envex.htm>]. A vulgarização científica, no entanto, comporta elementos que interessam aos diversos segmentos sociais, seja na obtenção de simples informações via mídia ou de acordo com os interesses do setor produtivo. A acentuada cientificação da produção e dos meios produziu efeitos tais em nossa sociedade que ela hoje exige, cada vez mais, compreendê-los. Aqui está o importante papel da mídia para a coletividade.

O valor científico, econômico, cultural e social que se agrega à coletividade, direta ou indiretamente, com a realização de pesquisas, com a formação de recursos humanos altamente qualificados e com a prestação de serviços destinados ao atendimento de demandas sociais, poderá ser ampliado e valorizado pela difusão da produção acadêmica da UNESP.

 

CARTAS
Matéria mentirosa

O Diário do Grande ABC publicou matéria mentirosa sobre o boicote da Universidade Metodista de São Paulo ao Provão. Mandamos carta ao jornal pedindo provas concretas do que escreveu e retificação, com base na Lei da Imprensa. Gostaríamos que esta carta fosse publicada como crítica de mídia.

Samira

 

Carta ao Diário do Grande ABC:

"Fruto de um mau jornalismo, matéria sobre o boicote da Universidade Metodista de São Paulo ao Provão, publicada no Diário do Grande ABC do dia 12, assinada por Ana Macchi, trazia informações mal-apuradas e erros perigosos. A matéria se baseia numa grande mentira, pois afirma que 35, do 165 alunos de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, "ficam de fora da prova". Estivemos presentes até 40 minutos após o fechamento do portão nas duas escolas em que os alunos estavam inscritos. Somos testemunhas de que apenas um aluno do curso perdeu a prova por atraso.

O Exame Nacional de Cursos realizou-se no último domingo, dia 11 de junho, e os formandos de Jornalismo da Metodista compareceram a duas escolas de São Bernardo do Campo (E. E. Senador Robert Kennedy e E. E. Maria Iracema Munhoz) para assinar a lista de presença, já que é fator obrigatório para o recebimento do diploma.

Conscientes, após intensos debates sobre avaliação, realizados na universidade durante o semestre, os alunos decidiram pelo boicote à prova. Desmentindo os erros que creditamos à provável inexperiência na área, esclarecemos que o número de alunos inscritos no Exame não era 165, mas 189. Desses, apenas um perdeu a prova por causa de atraso, portanto, a manchete Alunos da Metodista perdem a hora para boicotar o Provão é uma mentira sem tamanho. A equipe do Diário sim, chegou atrasada e não conseguiu fazer a cobertura, pois todos os alunos já tinham entrado na escola.

Continuando a listagem de erros, a decisão pelo boicote foi anterior ao dia da Prova, e não "combinada em frente à escola com manifestação", mesmo porque, nenhum jornalista presenciou coisa alguma, pois, como já dissemos, atrasaram-se.

Outro problema sério é com respeito à entrevistada Melissa Rocha Gabarrone, que além do nome escrito errado teve sua opinião manipulada. Segundo ela, o que foi dito à jornalista foi que é "a favor do boicote porque não acha que este é o melhor método de avaliar a faculdade", e não que o curso não deve ser avaliado, conforme dá a entender a matéria do Diário.

A jornalista foi muitas vezes informada sobre o porquê de os alunos estarem contra o Provão, que é a certeza de que o Exame não é uma avaliação, mas sim um ranking; eles defendem uma avaliação verdadeiramente institucional, que não coloque nas costas do aluno a responsabilidade de dar a nota para a universidade. Deve-se avaliar, também, professores, projetos de extensão, pesquisa, currículo etc.

Provando a falta de conhecimento sobre a sua pauta, apesar de munida de muitas informações dadas pelos próprios alunos, a jornalista disse que "entregar os testes em branco dá nota zero", enquanto as notas do Provão são dadas em letras e, quando uma universidade boicota a prova tira "E".

Pedimos provas da existência dos 35 "fantasmas" que o Diário alega terem "ficado de fora da prova", com nomes e documentos e, baseadas na Lei de Imprensa, exigimos que a notícia seja retificada com o mesmo destaque.

Lamentamos que, mais uma vez, um ato político tenha sido tão manipulado por uma cobertura pífia da imprensa e estudamos seriamente a abertura de um processo contra o Diário do Grande ABC. [Samira Almeida e Giselle Koszo, representantes do Movimento pela Qualidade do Ensino Superior na UMESP e membros do Colegiado e Conselho da Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas]

 

Aluno em dúvida

Gostaria de saber se existem casos de ex-formandos que, mesmo sem passar pela "sabatinagem", puderam exercer a atividade profissional normalmente.

Nesse aspecto gostaria de saber sua posição frente a tal estorvo – imposto pelo governo federal, e que não leva em consideração a posição da comunidade acadêmica e portanto não colhe frutos fortes. O Provão é simplesmente um instrumento estatístico que nivela por baixo nossas instituições de ensino.

Além do abuso que é o próprio Provão, foi divulgado recentemente que o ministro da Educação solicitou à Gazeta Mercantil que levasse em conta o resultado obtido no exame para a contratação de novos jornalistas.

Tamanho abuso não pode de modo algum ser tolerado. Um aluno de Jornalismo não passa quatro anos à toa em uma faculdade. Além de um mínimo de bagagem pessoal, ou seja, de experiência de vida, que um estudante tem, inúmeras atividades são desenvolvidas no curso. Infelizmente o Provão não leva em conta tal bagagem, e se restringe a avaliar o potencial de um futuro foca via quatro horas de prova.

Frente a isso, considero que a conclusão de curso já explicita a formação jornalística, e nesse caso solicito sua colaboração, no anseio de ter uma solução que não seja a práxis imposta pelo governo.

Preciso saber especificamente se é possível ter o registro no Ministério do Trabalho mesmo sem o diploma, que obterei fazendo novo Provão (em 2001), ou mediante liminar judicial.

B.L., Paraná vinteedois"

 

Boicote custa caro

Vejam esta notícia no UOL:

Faculdade de Santos pune alunos que fizeram campanha contra Provão

Folha Online, 14/6/2000 - 21h21

<www.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u2510.shl>

Cristiano

"[‘Faculdade de Santos pune alunos que fizeram campanha contra Provão’, Rafael Garcia, repórter da Folha Online] A diretoria da Faculdade de Comunicação da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP), suspendeu por 20 dias dois alunos que fizeram campanha pelo boicote ao Exame Nacional de Cursos, o Provão, realizado no domingo, dia 11.

Os estudantes de Jornalismo Wellington Costa, 22 anos, e Cristiano Navarro, de 24, disseram que vinham sofrendo ameaças de retaliação do diretor Humberto Challoub desde a terça-feira anterior, quando pregaram cartazes convocando alunos para uma discussão sobre o boicote.

Wellington afirma que o coordenador do Curso de Jornalismo, Gerson Moreira de Lima, também pressionou os alunos. Lima também é membro da Comissão de Jornalismo do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), entidade ligada ao MEC responsável pelo Provão.

"No domingo, ele (Lima) entrou na escola onde estávamos fazendo o Provão e andou pelas salas para ver se tinha gente entregando prova em branco", diz Wellington.

O diretor Challoub afirma que a medida foi de caráter educativo, e não punitivo. "Não é admissível que alunos de 4º ano façam um panfleto apócrifo com mentiras", diz. Lima afirma que foi consultado pelo diretor sobre a punição e foi favorável. Mas que a razão não foi o boicote. "A suspensão não tem relação com o boicote ao Provão", diz.

Wellington e Cristiano se justificam falando que era de conhecimento geral na faculdade que eles eram autores dos cartazes. Os dois afirmam também que nunca negaram a autoria do texto, o que não justificaria a afirmação do diretor de que os panfletos eram "apócrifos (sem autenticidade)".

Lima afirma que não houve pressão para que os alunos fizessem o Provão. "Nós estamos abertos à discussão, e em nenhum momento eles vieram reclamar do curso. Eles têm o direito de se manifestar, mas têm de assumir o que fazem", diz.

Pressão

Wellington e Cristiano escreveram no cartaz que os alunos estavam sendo pressionados para que não boicotassem o Provão. Segundo Lima, o que os dois alunos chamam de pressão eram visitas às classes para alterar esquemas de aula. "Mencionava o assunto apenas de passagem", diz. "O coordenador disse que quem não faz a prova não tem caráter, porque está prejudicando a faculdade e os outros alunos que se esforçaram", rebate Cristiano.

O estudante Wellington também foi demitido do jornal online onde trabalhava, em Santos, dirigido por Challoub. "Lá, eu tenho essa liberdade", diz o diretor. Outra acusação que os estudantes fazem a Challoub é que ele teria ameaçado não assinar os diplomas dos dois. "O que eu disse é que ficaria triste de assinar o diploma de jornalistas que se manifestam apocrifamente", disse o diretor.

Boicote

Pela conta dos alunos, 12 dos 71 formandos da Universidade Santa Cecília boicotaram o exame. "Decidimos fazer o boicote porque a faculdade não tomou nenhuma providência para melhorar o curso", diz Wellington. No ano passado, a universidade obteve conceito C pela segunda vez no Provão de Jornalismo e apresentou queda de 6% na média, em relação à avaliação de 1998. Segundo Lima, o curso teve problemas na avaliação do corpo docente porque o MEC (Ministério da Educação) não apurou os currículos completos dos professores. Uma nova comissão de Brasília deve visitar a universidade novamente no final do mês."

 

ASPAS
Tereza Halliday

"Afinal, o que é um PhD?", copyright Diário de Pernambuco, 15/06/00

"Sempre pensei que as pessoas mais instruídas e arejadas soubessem o que é um Ph.D. Fiquei boquiaberta quando o empresário Sérgio Longman (em seu artigo de 7/6/2000 nesta página) distilou contra este atributo, o mesmo ódio e desinformação com que preconceituosos mais pedestres atribuem erros de conduta política ou pessoal ao fato de alguém ser ‘de esquerda’, ‘da Irmandade do Coração de Maria’, ‘judeu’, ou ‘gay’. Citando fábula narrada pelo escritor e psicanalista Rubem Alves, o ex-deputado chama de urubus os economistas do governo ‘com cursos e diplomas de famosas universidades, notadamente americanas’. Em contraposição aos sabiás, que têm talento de nascença e não precisam de diplomas para cantar. Talvez ignore que Rubem Alves é um sabiá dos melhores, que aprimorou ainda mais seu canto com um diploma de Ph.D. na Universidade de Princeton, New Jersey (EUA).

A raiva do empresário é contra economistas que estão no poder – ‘os especialistas, os espertos, os Ph.D., os sabe-tudo’ - bons cérebros da esquerda histórica brasileira, como o próprio Longman. Errou o alvo ao apedrejar o conhecimento implícito na formação de um Ph.D., em vez de mirar seu estilingue nas políticas que deseja criticar. Infelizmente, não é a única pessoa inteligente e educada a nutrir preconceito e hostilidade contra Ph.Ds, sem saber exatamente onde o galo cantou.

Ph.D. é a abreviatura de Philosophy Doctor, título de doutorado conferido por universidades britânicas, canadenses e americanas, em diversos campos do conhecimento. Em Odontologia, diz-se DD (Dentistry Doctor); em Direito, JD (Juris Doctor), Aliás, os advogados americanos só podem exercer a profissão depois de três anos de pós-graduação (Law School). O Ph.D. dos médicos se chama MD (Medical Doctor). Nos EUA, só é médico formado quem faz quatro anos de doutorado em ciências médicas, depois do bacharelado, geralmente em Ciências Biológicas, mas não necessariamente.

Até conseguir qualificação para receber um título de Ph.D. em universidade norteamericana, o caminho é árduo, cheio de cobranças. Estudar é prioridade um, mesmo em detrimento da vida afetiva, familiar e social. Para o americano, ou o estrangeiro que vai lá competir com ele sem apadrinhamentos nem jeitinhos, conseguir um Ph.D. é um sacrifício. O doutorando não tem domingo nem feriado, está sempre atrasado nas leituras requeridas, é obrigado a manter nota mínima B em todas as matérias e cumprir prazos inadiáveis de entrega de 3 a 4 trabalhos por semestre, 30-40 páginas cada um. Uma vez aceito como aluno, precisa vencer duas etapas iniciais: cumprir o número de créditos exigidos pelo seu programa (pode chegar a 50); e ser aprovado nos ‘exames abrangentes’ ou de qualificação, numa área de concentração (major) e numa afim (minor). Somente então é considerado aspirante ao doutorado. Falta-lhe ainda cumprir as duas últimas exigências: produzir a trabalhosa e sofrida tese e defendê-la em sessão pública. Leva de três anos e meio a cinco anos para completar todos estes requisitos.

Não se ‘adquire’, nem se ‘obtém’ um Ph.D., you earn it. O verbo ‘to earn’ significa conseguir algo como resultado de trabalho, esforço, mérito. Há um custo pessoal muito alto em receber este título. Ao voltar ao seu país, ansioso por contribuir para melhorá-lo, o brasileiro geralmente continua pagando pelo seu Ph.D. os juros da incompreensão, da falta de estímulo, da inveja, da patrulhagem, do respeito ambivalente que resulta em desrespeito prático.

Afinal, o que é um Ph.D.? Alguém que aprendeu a pensar dentro de parâmetros científicos e scholarly (sem tradução), mesmo quando seu doutorado é em área ‘qualitativa’, como literatura ou música. Um profissional que sabe bem aquilo que estudou e evita ‘achismos’. Está consciente dos limites de sua competência, ao contrário de alguns incompetentes. Um Ph.D. aprende a colocar os pontos dos ‘is’, a couper les cheveux en quatre, como dizem os franceses. É treinado para criticar e ser criticado, sem que isto implique em afronta nem demolição do ego de ninguém. Aprendeu a crítica como ferramenta de trabalho, para aprimorar seu campo de conhecimento e melhorar a sociedade. No Brasil, é ridicularizado como portador da abreviatura de ‘Papo Horrível e Deprimente’, porque foi formado para ser cético e analítico, e não um ideologicamente apaixonado. Pode ser políticamente engajado, mas se for um cara sério, não vai distorcer dados para escamotear a realidade em favor do ponto defendido.

O título de Ph.D. confere competência e certa erudição em âmbito específico, prudência nas inferências e independência de pensamento, que pode causar admiração ou irritação. O título não confere bom caráter a quem não já o tenha. Nem cura a arrogância de quem já a sorveu no sêmen do pai ou no leite da mãe. Assim, quando estiverem julgando comportamentos de gente do governo ou da oposição que detenha este título, podem crer que o Ph.D. é uma das melhores partes dessa pessoa. Então critiquem-na com justeza e justiça, naquilo em que ela merecer realmente ser criticada."

 

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