|
DIRETÓRIO ACADÊMICO
DIRETRIZES CURRICULARES
Entidades questionam projeto
Victor Gentilli
As entidades que bancaram o Seminário de Campinas, realizado em abril deste ano, estão ultimando um documento com críticas ao novo projeto de diretrizes curriculares protocolado no MEC pela Comissão de Especialistas de Ensino de Comunicação. Elas consideram que as "Diretrizes Curriculares da Área de Comunicação e Suas Habilitações", elaboradas por alguns membros da Comissão de Especialistas em Ensino da Comunicação da Secretaria de Ensino Superior do MEC, e publicadas na Internet pelo Ministério, não satisfazem as condições mínimas aceitáveis para orientar as escolas na elaboração de seu projeto pedagógico visando o ensino de Jornalismo.
A Federação Nacional dos Jornalistas, o GT de Jornalismo da Intercom, o Fórum Nacional de Professores e este Observatório elaboraram conjuntamente uma proposta de Diretrizes Curriculares para o Ensino Profissional de Jornalismo, a partir de um Seminário Nacional realizado na PUC-Campinas. Foi o coroamento de um longo processo de amadurecimento e construção de consenso sobre a questão, iniciado dois anos antes, no Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado em Vila Velha (ES), convocado para debater o tema específico da formação profissional.
A proposta de Diretrizes Curriculares elaborada pelas entidades da Área de Jornalismo foi considerada apenas em alguns aspectos na versão publicada pelo Ministério. Da forma como foram incorporadas pela Comissão de Especialistas em Comunicação, as decisões de Campinas cumprem um efeito meramente ornamental. Embora o documento faça referências elogiosas ao Seminário de Campinas, o texto incorpora apenas suas propostas de perfil profissional e habilidades, propostas estas que perdem todo o sentido quando ignoradas suas condicionantes fundamentais. Tomemos como exemplos:
- A proposta de um percentual de disciplinas e conteúdos específicos de jornalismo não foi contemplado no documento elaborado pela Comissão de Comunicação. As entidades entendem que um mínimo de 50% é imprescindível para a formação plena do jornalista profissional.
- É ignorada toda a preocupação expressa claramente no documento de Campinas com a existência de disciplinas teóricas de jornalismo. Embora aparente combater, o documento da Comissão de Comunicação reproduz o velho modelo de teoria comum para comunicação e apenas prática de jornalismo (o que, sem limitações claras, pode ser dada em apenas uma disciplina no último semestre).
- A possibilidade de cursos autônomos de jornalismo aprovada em Campinas não é contemplada nas diretrizes da Comissão de Comunicação. Se a política do MEC para o ensino superior consagra a liberdade e a autonomia dentro dos limites estabelecidos pelas diretrizes, a impossibilidade de cursos autônomos é uma agressão a esta liberdade.
As entidades advertem ainda que as "Diretrizes Curriculares da Área de Comunicação e Suas Habilitações", elaboradas sem a participação dos representantes da área de Jornalismo, constituem uma grave ameaça à formação universitária de jornalistas, ao não contemplarem os princípios teóricos, éticos e técnicos considerados imprescindíveis na educação para o exercício do Jornalismo e de sua função social. A adoção destas diretrizes pelo MEC irá provocar uma crise profissional no país, com conseqüências indesejáveis para a credibilidade das instituições universitárias.
Tendo em vista a gravidade da situação, as entidades solicitam uma urgente solução para a questão. No entender das entidades signatárias, a melhor solução é a criação de uma Comissão específica de Especialistas no Ensino de Jornalismo pela Secretaria de Ensino Superior, como forma de garantir a qualidade da formação profissional em área tão sensível e estratégica para o exercício da cidadania numa sociedade democrática.
PROVÃO
Jornalismo imaginário
Sylvia Moretzsohn (*)
O provão de jornalismo deste ano repetiu um vício já passível de identificação no ano anterior: a quase total ausência de questões da área de fundamentos, responsável pela metade do curso e que teria, pela lei e pela lógica, de ser contemplada num teste que pretende aferir os conhecimentos básicos do formando. Mas, ainda mais importante, este provão ofereceu informações preciosas a respeito de algo que costuma ficar acima de qualquer suspeita: a concepção que a "comissão de especialistas" tem da profissão.
O desrespeito à lei é conseqüência de uma disputa política: constituída por professores e jornalistas empenhados na luta pela criação de cursos específicos de Jornalismo (e contra a formação em Comunicação Social, considerada genérica e alienante), a comissão responsável pela orientação geral do provão procura impor a "sua" concepção de jornalismo. Em texto veiculado pela Internet, o professor Nilson Lage, membro da comissão, falou sobre o teste do ano passado, resumindo assim os objetivos:
"A prova que resultou de nosso trabalho foi um exame simples, constituído, em 60 por cento, da redação de notícia para jornal, rádio e televisão e pela discussão de uma questão ética. E, no restante, por perguntas, relacionadas, na maioria, à rotina da profissão. Preocupamo-nos em recomendar a quem iria preparar as questões (uma empresa, contratada por licitação) que permitisse aos estudantes contextualizar a informação a ser redigida porque é nesta hora, na hora do contexto e não em outra, que entra a formação teórica do jornalista."
Critério curioso
Bem, a julgar que as idéias da comissão não devem ter mudado tanto, podemos verificar que tipo de contextualização foi proposto no provão de 99. Assim, destacamos duas das quatro perguntas mais valorizadas da prova, que indicam o curioso critério do que se poderia chamar "jornalismo imaginário".
A primeira apresenta trechos de uma entrevista de Caetano Veloso e de um livro de Alberto Dines (aliás, um dos membros da comissão do provão) [N.R.: Alberto Dines é ex-membro da comissão do provão] e pede que, a partir desses depoimentos (são depoimentos? Bem, o candidato a repórter deve fazer de conta que sim), o aluno redija uma matéria, simulando uma reportagem para jornal, com cerca de 15 linhas (...), com lead (de até cinco linhas), título (com até 30 caracteres) e duas legendas (com até 70 caracteres cada) para hipotéticas fotografias dos autores dos textos (grifos nossos)
A segunda vai pelo mesmo caminho: apresenta dois artigos publicados no primeiro semestre de 1999 na Folha de S.Paulo, sobre as controvérsias a respeito da redução do IPI para automóveis. A seguir, solicita: "Considere-os como se fossem a transcrição de depoimentos dos autores gravados em vídeo. A partir deles e de outras imagens de arquivos a seu critério, produza um script de matéria de telejornalismo sobre a polêmica em questão, com dois minutos de duração, incluindo colunas indicadoras de vídeo e áudio, cabeça para o apresentador, trechos editados dos depoimentos em vídeo, passagens e indicações de caracteres."
Exercício formalista
Como se vê, num e noutro caso as condições de produção do discurso são ignoradas. Trata-se de responder "tecnicamente" (o que certamente revela uma determinada concepção de técnica), como se o jornalismo fosse um exercício formalista. Pior ainda, um exercício de imaginação. O estudante é convidado a desconhecer coisas essenciais como a relação (e interação) entre repórter e fonte, entre texto e imagem. Nem se fale nas distinções discursivas entre um texto impresso e seu "correspondente" em entrevista para TV. Mas sugerir legendas para "hipotéticas" fotos ou a utilização de imagens de arquivo que existem apenas na cabeça do candidato (e, talvez, na de quem formulou as questões...) é insinuar a esse pobre e perplexo jovem que o jornalismo lida com idéias preconcebidas e trata as imagens como adereços. Que fotos "ilustrariam" os "depoimentos" de Caetano e Dines? Um boneco, evidentemente, com sua óbvia legenda. Que "imagens de arquivo" seriam utilizadas para, igualmente, "ilustrar" os tais depoimentos sobre a redução do IPI para automóveis? Ah, imagens dos dois articulistas (aliás, dos dois supostos "entrevistados"), mais imagens genéricas de trabalhadores nas fábricas de automóveis... E depois reclamam que o jornalismo praticado hoje em dia seja tão redundante.
Mas, pelo visto, é disso mesmo que se trata: se o importante é fechar o jornal, devemos fazer o movimento exatamente inverso do que seria percorrido se considerássemos uma pauta como um roteiro de investigação para, de fato, descobrir alguma coisa. Não, devemos partir do que já sabemos, tomar uma estrutura de texto previamente conhecida, pegar um ou outro depoimento que se encaixe no que queremos e, pronto, está aí uma matéria "nova", concluída a tempo de ser saboreada na hora do jantar. Ou do café da manhã seguinte.
Quem sabe, para o próximo provão, a comissão de especialistas não sugere a elaboração de uma entrevista pingue-pongue a partir de um texto qualquer, "como se fosse" um depoimento? Aí teremos chegado ao requinte da manipulação: elaborar as perguntas a partir das respostas. Nada mais prático, nada mais adequado, nada mais próprio a uma linha de montagem. Afinal de contas, um jornal é um produto industrial.
Perplexidade
O atônito formando que aprendeu alguma coisa sobre análise do discurso e produção de sentido e sobre as questões éticas aí implicadas pode ter pensado nessas coisas ao ler o provão. E terá ficado ainda mais perplexo com a última pergunta: "Pode-se dizer que a compreensão científica da atividade jornalística se apóia sobre um tripé constituído pelas ciências humanas, as ciências da linguagem e as tecnologias. De que forma as teorias da linguagem Semiótica, Semiologia e Lingüística, por exemplo contribuem para o entendimento da prática jornalística?"
A julgar pelos exemplos acima, valeria mesmo a pena discorrer um pouco sobre essa compreensão "científica" do jornalismo. Pois é em nome dela que se pretende impor os cursos específicos de jornalismo como exigência para a formação do bom profissional.
(*) Jornalista, professora de Jornalismo e chefe do Departamento de Comunicação Social da UFF. Artigo publicado na revista-laboratório Casarão
AÇÃO AFIRMATIVA
O debate ganha corpo
Fernando Conceição
Affirmative action: nos Estados Unidos, um esforço ativo para melhorar as oportunidades de emprego ou educação para membros de grupos minoritários e mulheres. A ação afirmativa foi empreendida pelo governo para reparar os efeitos da discriminação do passado contra tais grupos. Isto consiste de políticas, programas e procedimentos que dão preferência às minorias e às mulheres na contratação de mão-de-obra, admissão em instituições de ensino superior, na concessão de contratos governamentais e outras alocações de beneficios sociais. Os principais critérios para ação afirmativa são raça, gênero, origem étnica, religião e idade". [Enciclopédia Britânica, 1999].
A epígrafe vem a propósito do debate gerado em torno da proposta do Senado Federal de que 50% das vagas discentes das universidades públicas brasileiras sejam preenchidas por estudantes oriundos das escolas públicas secundárias, como medida profilática de ação afirmativa. No editorial "Escola publica e demagogia" (5/09/99), a Folha de S.Paulo ataca a proposição. E sentencia: "(...) reservar cotas para estudantes do Estado não ataca o problema, mas pode reservar votos para os defensores de tal projeto".
Colocadas as coisas do jeito como faz o editorial, a conversa poderia encerrar-se aqui mesmo. Ocorre que tem sido a Folha o jornal que mais espaço tem dado a essa discussão, desde quando ela realmente tornou-se séria. Isto foi por volta de 1994, quando o Núcleo de Consciência Negra na Universidade de São Paulo implantou um cursinho pré-vestibular "preferencialmente" para negros, por isso gratuito.
O debate cresceu mesmo, nas páginas da Folha, nos dois anos seguintes por um par de motivos. Primeiro, 1995 registrou-se o tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares. Esse jornal foi o único que fez um pesado investimento de cobertura do assunto, que resultou em ampla exposição de questões antes represadas na grande mídia como a embricação da exclusão social e o racismo. Esta iniciativa da Folha tem sido analisada pela pesquisa de doutorado que estou desenvolvendo na Escola de Comunicações e Artes da USP.
O ano de 1995 suscitou a organização da Marcha Zumbi em Brasília, quando o presidente da República criou um grupo de trabalho interministerial para propor medidas, nas varias áreas destacadamente no campo da Justica, do Trabalho e da Educação , visando incluir os afrodescendentes nessas estruturas. O uso da palavra incluir é proposital, pois se isto é necessário tem por base a constatação de que a sociedade brasileira funciona assentada em processos excludentes.
Por intermédio da Folha, o público tomou conhecimento das iniciativas do Movimento pelas Reparações dos afrodescendentes (MPR), lançado em célebre almoço no hotel Maksoud. Mas também foi a Folha que trouxe para a primeira página o Comitê Pró-Cotas para Negros na USP, a primeira ONG brasileira que assumiu especificamente a defesa para implantação de cotas para afrodescendentes nas universidades públicas (Folha, 14/05/96).
Como resultado das ações nada ortodoxas daquele Comitê, o estudante Mauro Gopfert Cetrone e este escrevinhador foram ameaçados pela reitoria linha-dura da USP, então sob o comando do reitor Fava de Moraes, respondendo a processo que poderia resultar em expulsão. Preso pela polícia da USP e levado para a delegacia do Butantã (por defender com uma pichação a implantação de cotas), nem sei como anda o processo criminal aberto por essa universidade contra mim, junto ao Fórum de Pinheiros.
Medidas somatórias
A Folha cobriu todos esses acontecimentos e sempre foi vista por setores do movimento social, entre os quais os integrantes do Comitê Pro-Cotas se incluem, como um jornal realista e pluralista em uma palavra, moderno. Realista ao apontar, como fez na pesquisa que patrocinou ("Racismo Cordial"), a existência do preconceito racial no país. Pluralista ao admitir, em sua pauta de cobertura, temas que muitos dos concorrentes encaravam como tabu até os verem publicados na Folha. Moderno, porque somente as velhas estruturas, portanto arcaicas, silenciam perante a necessidade urgente de resgatar a enorme dívida social que o Estado tem com os afrobrasileiros.
Implantar políticas de ação afirmativa no Brasil é tentar ajustar o país aos novos tempos. A medida do Senado Federal é benéfica para a sociedade, nesse sentido. As cotas, por exemplo, são apenas um aspecto limitado de tais políticas compensatórias. Sua adoção nas universidades não instauraria o paraíso sócio-racial mas seria um grande passo para a democratização do acesso ao ensino superior. Os números apresentados pelo editorialista da Folha apenas constatam o quanto isto é necessário.
Sequer foi preciso recorrer aos Estados Unidos como exemplo disso. O articulista Contardo Calligaris, que tem defendido no jornal alguma ação para "acabar com as castas sociais" (Folha, 26/8/99 e 9/9/99), não está totalmente enganado mas também não está certo quando escreve que a ação afirmativa nos EUA "está acabando". O mais correto seria dizer que há correntes que defendem o fim de tais políticas, mas a maioria dos estados norte-americanos continua seguindo-as, faz mais de 30 anos.
Perceba-se que o princípio dessas medidas é corrigir injustiças do passado. Hoje, no presente, os negros norte-americanos encontram-se em situação inquestionavelmente melhor do que três décadas atrás, quando o presidente Johnson instituiu as políticas de ação afirmativa, em 1964. Esta sociedade pode agora até mesmo dar-se ao luxo de ir-se desfazendo delas, mas não há consenso de nenhuma parte. Somente o estado da Califórnia, com a Proposição 209, de 1996, e a seguir Washington, distrito de Columbia, derrubaram aquele princípio.
Ainda assim, o atual governador da Califórnia tem sinalizado a favor da revogação da Proposição 209. O presidente Clinton reiteradamente defende as recomendações da Kerner Commission de 1968, que propôs ações anti-discriminatórias em amplos setores da sociedade, inclusive os meios de comunicação e a publicidade. Os dois principais candidados presidenciais, Bush (republicano) e Al Gore (democrata) publicamente vêm declarando-se a favor dos direitos das minorias. Ward Connerly (que é negro), o líder lobista que encabeça a campanha pelo fim das ações afirmativas, foi simplesmente rechaçado quando recentemente esteve fazendo proselitismo no estado de Flórida.
No Brasil, quando se fala disso, os oponentes costumam dizer que "o enfoque sério do problema deve ser o da melhoria da educação pública" fundamental. O editorialista da Folha acerta ao colocar a questão na condicional. Deve ser, mas infelizmente não tem sido assim (Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e outros ferozes e antigos defensores dessa melhoria do ensino de primeiro e segundo graus, desde pelo menos a década de 50, morreram pregando isso).
Tal assertiva (a melhoria do ensino básico) é óbvia, consensual e defensável, mas desonesta quando utilizada em contraposição às ações afirmativas como a proposta do Senado. São medidas somatórias, não excludentes. Nesse aspecto, o exemplo dos EUA é válido. Não se pode bloquear um gesto positivo como a exigência da reserva de vagas universitárias para alunos provenientes das escolas públicas (majoritariamente de baixa renda), somente porque a "revolução" do ensino fundamental ainda não aconteceu.
(*) Jornalista, autor de Negritude Favelada e Cala a Boca Calabar (Vozes), é membro do Comitê Pró-Cotas para Negros na USP. Atualmente é visiting scholar na New York University e um dos coordenadores do Etnomídia Grupo de Estudos em Mídia e Etnicidades da Facom/UFBA. E-mail:fc21@is9.nyu.edu
ESTUDANTES
Enecom não é o que
você está pensando
C. Buongermino
Caro Leonardo Ayres, assim como você, tenho algo a dizer sobre o Enecom. Fui a um único Enecom ao longo de toda a minha trajetória acadêmica numa faculdade de Comunicação. Foi em 1992, no primeiro ano de meu curso. O encontro foi realizado em Belo Horizonte (MG), uma das cidades mais chatas do planeta. E você ainda reclama de que, logo no seu primeiro Enecom, já teve praia, sol, cerveja e mulheres querendo fazer coisinhas?? Tá louco??!!
Deixa eu recapitular meu Enecom mineiro.
Acho que foram uns quatro dias. Ficamos hospedados no subsolo do estádio do Mineirão, aquele mesmo em que o glorioso São Paulo sagrou-se campeão brasileiro pela primeira vez, em 1977. Fora esse detalhe legal, o lugar era uma pocilga. Eu e meus colegas tivemos o bom senso de nos manter longe do alojamento o maior tempo possível.
Escolha o seu programa
Ocorre que, para matar o tempo, tínhamos de fazer alguma coisa. Algumas possibilidades eram: fumar maconha; tomar cerveja; tomar outras bebidas alcoólicas; tentar arrumar mulher (ou homem, no caso das coleguinhas); passear pela chatérrima BH; e, a mais remota de todas, participar das plenárias e palestras.
Bom, é claro que nós não participávamos de plenária e palestra coisa nenhuma. Aliás, chamávamos as plenárias de "planárias". De minha parte, eu tinha minha própria garrafinha de bebida, que nem lembro mais o que continha (era constantemente reabastecida), e também um suplemento de Epocler, um remédio para o fígado que posso jurar cortava as bebedeiras muito rapidamente (parece que foi proibido, não tenho certeza). Lembro que o Epocler tinha sabor abacaxi. A gente tomava um antes e um depois.
Ah, lembro também de que um desses grupelhos ridículos que vêm dominando a UNE há anos conseguiu utilizar a gente como massa de manobra para uma passeata, realizada no centro da "maletíssima" BH. Me foge agora a razão da manifestação, mas tinha algo a ver com o Collor, esse mesmo (para quem é jovem como o Leonardo, é preciso explicar) que está querendo voltar à política via Prefeitura de São Paulo, e que, como o eleitor paulistano é o mais escroto do Brasil, pode até conseguir. Mas naquela época ele estava começando a apodrecer. No fim do mesmo ano, cairia.
Passeatas e apertos
O engraçado foi que, nessa passeata, tive muita vontade de urinar. Habituado com a sem-cerimônia dos botecos paulistanos, entrei em vários bares para usar o banheiro. Fui sumariamente impedido. Em mais de dez. Em mais de dez!! Por isso, um amigo meu começou a repetir, sem parar, aquela tirada do José Wilker num filme baseado em Nelson Rodrigues: "É a frase do Otto: o mineiro só é solidário no câncer". Pura verdade.
Meu caro Leonardo, havia um outro motivo para não comparecer às planárias. Perdão, plenárias. E um motivo até bem simples: o que se discutia nelas era um monte de m....
Para você ter uma idéia, um colega meu, então estudante de Jornalismo (hoje, muito bem estabelecido num certo jornal localizado na Alameda Barão de Limeira), deu a cara a bater numa delas, ao defender, no meio de pelo menos 500 colegas de outras universidades, que jornalismo não é medicina e que diploma para exercê-lo é bobagem (verdade cristalina com a qual você, Leonardo, provavelmente não concorda). Foi vaiado como se vaiaria, meses mais tarde, o supracitado Collor. Foi tratado como um cachorro sarnento.
Nojos a granel
Eu, que naquela época estudava outra coisa, e que hoje acumulo cinco anos de jornalismo sem diploma, tive vontade de sair da planária pô, não dá pra evitar e vomitar os sete litros de cerveja tomados naquele dia até aquela hora. Corporativismo me dá nojo; burrice também.
Lembro ainda de que houve umas palestras com um bando de pessoas teoricamente bem- sucedidas nas respectivas profissões: de publicitários "criativos" a "diretores" de redação, eles estavam lá para nos comunicar suas gloriosas e fundamentais experiências.
Ainda bem que eu não fui. Leonardo, depois de um certo tempo em jornal ou, vamos colocar a coisa de modo mais abrangente, depois de um certo tempo na imprensa você começa a perceber que a distância entre você e seus superiores (e, portanto, entre você e as pessoas que mandam em você, e que ganham mais do que você, e que geralmente são as convidadas para falar em palestras no Enecom) muitas vezes se mede pelo puxa- saquismo de quem está por cima; você aprende rápido que tudo não passa de um clubinho, de um esquema onde lambem-se rabos e trocam-se miudezas, mesquinharias e proteção mútua por poder e prestígio. Rapidamente você percebe que não há nada a aprender, no âmbito estritamente jornalístico, com 98% dos medalhões da profissão, porque eles são tão idiotas quanto eu e você, só que tiveram uma oportunidade de subir e subiram, agarrados em sacos alheios ou valendo-se de seus menores ou maiores trambiques.
Louros custosos
Por outro lado, boa parte dos louros dos diretores e outros mandachuva de jornal são colhidos quando eles conseguem enxugar custos e racionalizar a empresa leia-se, mandar gente embora e aplicar na redação uma daquelas linhas gerenciais copiadas de livros de "management" para americanos e japoneses otários.
Naquela época eu nem poderia saber de tudo isso, mas acho que intuía que é assim. Tanto que não vi palestras no Enecom coisa que você, Leonardo, também deveria fazer. Isto é, não fazer...
Em suma, o que eu queria dizer é que quaisquer discussões sobre jornalismo a serem feitas num Enecom são discussões ociosas, porque nada será mudado por meio ou por causa delas; o que pode ser feito de prático para que se resgate um mínimo de dignidade e sentido na profissão é tentar mudar as coisas quando já se está atuando no mercado: quando você for trabalhar de verdade, Leonardo, procure se unir aos melhores e mais éticos jornalistas de sua redação; tente criar com eles um pólo de poder, um grupo de influência, um lobby, ou o que seja desde que seja em favor da qualidade e da ética no exercício de seu trabalho. É uma gota no oceano e, embora eu ache que quase certamente as coisas só se resolverão no Brasil (e no mundo, claro) com o fim do capitalismo, pelo menos pode-se minorar as injustiças.
Ouça um bom conselho, Leonardo: enquanto não chega a sua hora, aproveite. Praia, sol, cerva e mulheres NÃO são perda de tempo. Nunca. Mas planárias sempre são.
Resposta de Leonardo Ayres
Caro Buongermino, você disse que as coisas só se resolverão com o fim do capitalismo. Parece que você realmente acredita nisso, certo? E o que você faz para que isso se torne realidade? Me espanta um jornalista que também quer "mudar o mundo" pensar e agir como você. Mas vamos por partes.
Para começar, em momento algum falei de palestras e plenárias (apesar de serem muito importantes). Meu texto não é um protesto contra isso. Meu texto não é um protesto contra o Enecom em si, ou seja, organização, atividades propostas etc. (embora isso também poderia ser feito). O que me deixou triste e decepcionado foram os próprios estudantes. O que pedi no meu texto (além de ter sido veiculado no Observatório acabou entregue a 500 participantes do Enecom de Maceió) foi uma maior participação cultural e uma maior discussão da realidade do país e do mundo. E não creio que essa discussão tenha que ser feita necessariamente em plenárias. Essa atitude deveria partir dos próprios estudantes, nem que fosse na praia, tomando cerveja e fumando maconha.
Por falar nisso, em nenhum momento falei que praia, sol, "cerva" e mulheres são perda de tempo. Amo tudo isso. O que disse foi que isso não é tudo. Qual o motivo de se fazer um encontro de comunicação se nada é discutido? Melhor era fazer um encontro de solteiros, maconheiros e "bebuns". Além do mais, em Maceió tínhamos tempo reservado para ir a praias e festas todas as noites, o que não atrapalharia as outras atividades, caso os participantes fossem mais interessados.
Crença e preconceito
Além de não compreender bem o texto, você se mostrou preconceituoso em alguns momentos. Se você acha que todos os jovens são alienados, está enganado. Na verdade, os jovens são os mais (talvez os únicos) capazes de mudar alguma coisa neste mundo. E por isso são mantidos à parte do poder.
Concordo com você que para exercer o jornalismo não é necessário um diploma universitário. Mas, se mesmo dentro de uma universidade há tantos alienados, o que poderíamos esperar de jornalistas não-formados? O problema não é ter ou não diploma, é ter ou não conhecimento, interesse e consciência crítica.
Interesses e metas
Não creio que você "intuía" a realidade da profissão, e por isso não assistia às palestras. Você só não se interessava por isso porque estava preocupado com outras coisas (como beber, evitar a polícia na hora do baseado e passar o tempo). Se para você o sucesso na profissão é ser um "mandachuva" de um jornal, temos objetivos diferentes. O que eu quero é ter a liberdade e a possibilidade de transmitir minha mensagem e mostrar a todos a "verdadeira realidade". E isso dentro de um grande jornal é missão quase impossível.
Em tempo 1: Buongermino, olha como o mundo é injusto: em 1977 o Atlético Mineiro foi vice-campeão brasileiro invicto, perdendo para o seu time nos pênaltis.
Em tempo 2: BH não é chata. Talvez você não tenha conseguido aproveitá-la por não ser muito interessado em cultura, política e outros assuntos que passam por todas as rodas de boteco em BH.
Um abraço,
Leonardo Ayres
CARTAS
Ranking Playboy
Novamente caiu a máscara do curso de Jornalismo da PUC-RS! Depois do fiasco da classificação no provão do MEC no ano passado, a faculdade investiu muito (com direito a campanha publicitária sobre o provão) para que os alunos realizassem a prova até o fim, mas não adiantou muito. O curso ficou em segundo lugar no outro ranking das faculdades, o da revista Playboy.
Não é possível que todos os alunos estivessem errados em suas reclamações... era demais agüentar a falta de professores sem justificativa, sem substituto, com equipamentos insuficientes para as turmas grandes todos os semestres. Até o reitor reclamou depois do provão, e convocou os professores a uma "guerra santa" contra a acomodação.
O curso de Jornalismo da PUC-RS tem excelentes professores e funcionários, que não devem ser atingidos por essa crítica, porém muitas coisas podem melhorar com o dinheiro das caríssimas mensalidades.
Isabela Vargas, 8Ί semestre [[marroquin@cpovo.net]]

Meu primeiro Enecom
|
|