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DIRETÓRIO ACADÊMICO
CURSOS DE JORNALISMO
Avaliação e qualificação
Margarethe Born Steinberger-Elias (*)
O processo de avaliação das condições de oferta de cursos de Jornalismo desencadeado pela SeSu/MEC nos meses de outubro e novembro revelou-se muito produtivo e capaz de dar expressiva contribuição para a melhoria da formação do jornalista brasileiro. Não só por permitir à SeSu/MEC um diagnóstico sem precedentes sobre a realidade e as condições de trabalho nas várias instituições, mas também por gerar, como subproduto menos palpável e, no entanto, igualmente valioso, uma oportunidade rara para a profunda troca de informações entre professores de diferentes escolas.
Nessa troca, além da discussão de soluções para problemas comuns, delineiam-se mais claramente concepções acerca do que deve ser o ensino de Jornalismo no Brasil, hoje. Cada avaliador tomou contato com pelo menos três escolas além da sua, considerando que, além das duas avaliadas, também passou a conhecer o trabalho da instituição do colega de comissão.
A margem de subjetividade do instrumento elaborado pela SeSu/MEC, ainda que bastante estreita, leva os avaliadores a discutir a aplicação concreta e in loco de parâmetros curriculares e políticas de contratação de docentes na área.
A meu ver, no que diz respeito às contratações, há pelo menos três categorias de docentes desejáveis para os nossos cursos:
a) os que estão no mercado e dedicam-se apenas como horistas às aulas no curso;
b) os que têm experiência jornalística, mas estão afastados do mercado, podendo dedicar-se ao curso em tempo integral, preservando ainda alguma atividade jornalística internamente na universidade através de projetos de assessoria institucional, etc;
c) os que têm experiência jornalística, estão afastados do mercado e preferem dedicar-se a uma reflexão mais teórica tomando como referência seu conhecimento acerca das práticas do mercado. Tais contratações devem ser incentivadas pela SeSu/MEC através de pontuações mais altas.
No que se refere aos currículos, menciono a seguir algumas primeiras reflexões gerais a partir do que pude observar.
Pós e especialização
Ficou bastante claro que ainda há uma forte cisão entre disciplinas teóricas e práticas e que os professores de disciplinas não-técnicas deveriam passar pelo menos seis meses em uma redação para compreender melhor qual é o processo de produção da notícia e quais as condições cotidianas de trabalho do jornalista. Só assim o conteúdo das disciplinas teóricas poderia ser melhor encaminhado e atender mais adequadamente à formação do jornalista. Sugiro que a SeSu/MEC pense em implementar um programa de qualificação em prática jornalística para professores que não passaram por essa experiência junto a empresas e veículos de comunicação.
A mencionada cisão entre disciplinas teóricas e práticas se traduz mais claramente na disciplina de Projetos Experimentais. Observei que a combinação entre trabalho acadêmico de pesquisa e trabalho de produção jornalística se dá em pelo menos duas opções: ou o aluno faz uma monografia e uma produção jornalística; ou o aluno faz a monografia ou a produção jornalística. Há cursos que levam o aluno a optar apenas por uma das modalidades.
Em todos os casos, contudo, só muito raramente se dá uma correlação entre os dois tipos de trabalho. Disso resultam, de um lado, monografias que mais parecem trabalhos de iniciação científica ou, de outro, produções jornalísticas muito superficiais e sem a fundamentação mínima de uma pesquisa de background. Sugiro que os projetos experimentais resultem de orientação conjunta de professores de disciplinas técnicas e não-técnicas.
Também as disciplinas oferecidas por outros departamentos – geralmente nas áreas de Economia, História, Antropologia, Psicologia, Lingüística etc – deveriam sofrer um ajuste visando ao interesse do futuro jornalista. Programas dessas áreas devem ser cuidadosamente avaliados por profissionais do Jornalismo. Cabe-lhes "pautar" tais disciplinas e não ser "pautados" a partir dos interesses acadêmicos dos professores daquelas áreas. O problema mais comum que se encontra aqui é o despreparo dos profissionais para orientar os programas acadêmicos segundo os interesses da área jornalística.
Nesse sentido, caberia incentivar que os jornalistas-professores freqüentem programas de pós-graduação/especialização em outras áreas além da de Comunicação. Ou, melhor ainda, estimular a criação de programas de pós-graduação/especialização que se configurem a partir, por exemplo, da relação entre Jornalismo e História, Jornalismo e Economia, Jornalismo e Cultura, etc.
Programas de qualificação
Ainda no que se refere aos currículos, a prática da adoção de um tronco comum para Jornalismo e Publicidade nos dois primeiros anos do curso significa menos custos para as universidades, mas onera a formação dos profissionais nas áreas específicas.
Do meu ponto de vista, a organização de turmas conjuntas de Publicidade e Jornalismo em disciplinas teóricas da Comunicação faz prevalecer uma concepção genérica de comunicação em termos semióticos e/ou lingüísticos e em geral não "aterrissa" nas situações concretas de comunicação jornalística ou publicitária. Acaba, inclusive, levando o aluno a supor que haja uma certa identidade dos dois campos, em detrimento da visibilidade de diferenças ideológicas cruciais que estão na raiz da concepção das duas áreas.
Em contraponto às teorias genéricas da comunicação, falta nitidamente desenvolver teorias do jornalismo (ou teorias da comunicação jornalística) que discutam os modos como o jornalismo constrói suas representações de mundo e como forma opiniões interagindo com o público na produção e recepção da notícia. De novo é o despreparo dos nossos profissionais que acaba abrindo espaço para abordagens mais genéricas. Sugiro que o MEC implemente um programa de qualificação na área de teorias do jornalismo para os docentes de disciplinas específicas não-técnicas.
Em resumo, minhas observações levam à defesa da hipótese de que o ensino de Jornalismo no Brasil de hoje pode melhorar muito se houver uma política sistemática de qualificação dos docentes. Ao que sei, os investimentos das escolas têm se voltado mais para a parte de instalações, na suposição de que a capacitação dos professores já tem uma trajetória dada.
É claro que as instalações laboratoriais adequadas são fundamentais para o funcionamento do curso. Mas urge investir também em um programa de qualificação docente. Não basta que o docente se engaje genericamente em programas de especialização, mestrado e doutorado. A formação continuada deve respeitar a especificidade da área jornalística.
(*) Jornalista, professora do Departamento de Comunicação Jornalística da PUC de São Paulo e coordenadora do Programa de Especialização em Comunicação Jornalística do Cogeae/PUC-SP
O primeiro ranking do MEC
Victor Gentilli
No início de dezembro, o MEC vai divulgar os resultados do Provão 99 e da Avaliação das Condições de Oferta de diversos cursos de graduação – dentre eles o de Jornalismo. Quase cem professores de jornalismo participaram da equipe que avaliou as escolas.
Certamente vai ter muito barulho.
Os bons cursos vão festejar, os cursos problemáticos vão chiar, reclamar, questionar.
É assim mesmo.
Mas antes de se debruçar sobre os diversos rankings, vale a pena analisar com cuidado e atenção os dados. Alguns cursos recebem o MEC depois de mais de 15 ou 20 anos de ausência. A presença do Estado como agente fiscalizador incomodou, mexeu em interesses, alterou realidades cristalizadas há anos.
Algumas escolas reagiram positivamente e se mexeram. Aproveitaram para rever e reavaliar, fizeram sua auto-avaliação.
Outras, chegaram quase a destratar os avaliadores do MEC.
As escolas com problemas certamente vão reagir. Aqueles que defendem a comunicação, também.
Se houver dois movimentos de questionamento, tanto melhor. Se houver um movimento uníssono contra o trabalho significa que definitivamente se consolidou a aliança entre os picaretas e os defensores da "comunicação".
MÍDIA & EDUCAÇÃO
Pela qualidade da informação
Virgílio Alvarez Aragón (**) e
Guilherme Canela de Souza Godoi (***)
A pesquisa "Mídia e Educação – perspectivas para a qualidade da informação" foi realizada pelo Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP), da Universidade de Brasília, e apresentada recentemente num seminário homônimo ocorrido em São Paulo, entre os dias 11 e 13 de novembro, o qual contou com a participação de 150 jornalistas, educadores, representantes do governo e da sociedade civil empenhados em construir um novo jornalismo de educação no Brasil.
Contando com o apoio de parceiros como a Andi, Unicef, MEC, Instituto Ayrton Senna, FundEscola e revista Imprensa, essa pesquisa orientou-se em torno do objetivo geral de proporcionar elementos para um diagnóstico, ainda que preliminar, da freqüência e, sobretudo, da maneira como as questões educacionais vêm sendo tratadas pelos media brasileiros nos últimos anos. Aqui, vale ressaltar, estamos nos referindo tão-somente aos meios impressos.
A amostra pesquisada é estatisticamente representativa, abrangendo 62 diários de todo o país, entre os quais os cinco principais jornais de circulação nacional – Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil – além do Correio Braziliense, jornal de maior circulação em Brasília, capital administrativa e política do país.
Para analisar a cobertura educacional deste conjunto expressivo de jornais durante dois anos (1997 e 1998) optou-se pela metodologia de trabalhar com um mês composto para cada ano. Ou seja, foram escolhidos aleatoriamente 62 dias no período compreendido pela pesquisa. Com base nos clippings do MEC e da Andi foram, então, selecionadas 1.763 matérias publicadas nas datas que compõem o universo desta pesquisa, cujos resultados mais significativos foram analisados ao longo do Relatório Final [disponível abaixo, para download].
Resumidamente, pode-se afirmar que a pesquisa "Mídia e Educação – perspectivas para a qualidade da informação" constatou que a cobertura sobre as questões relativas à educação nos media impressos brasileiros apresenta as seguintes características principais:
- amplo predomínio das fontes oficiais, sobressaindo-se o Executivo Federal, por intermédio do Ministério da Educação, como primary definer privilegiado da pauta dos jornais sobre as questões educacionais;
- presença bastante limitada de fontes e atores não-governamentais, especialmente dos segmentos diretamente ligados à educação, como professores, pais e alunos, e das organizações que compõem o chamado Terceiro Setor envolvidas com projetos educacionais, o que restringe uma representação não oficial da realidade educacional;
- forte viés quantitativo e estrutural na seleção do que é noticiável em educação, o que se evidencia pelo destaque dado aos resultados de avaliações e às estatísticas e indicadores oficiais divulgados pelo MEC/INEP;
- ensino superior, isoladamente, é o nível que desperta maior atenção dos diários pesquisados, interesse que alcança maiores níveis entre os jornais das Regiões Sul e Sudeste;
- os jornais de circulação nacional mostram-se mais interessados pelos temas educacionais em geral, em comparação com os jornais locais e regionais, o que condiciona a cobertura sobre o tema de um ponto de vista das macropolíticas, em detrimento de uma abordagem mais próxima do que realmente acontece na escola;
- também são os jornais de circulação nacional que dão maior cobertura à questões educacionais na perspectiva da sociedade civil, em contraste com os jornais locais e regionais que privilegiam o enfoque centrado na relação Estado/Educação;
- a cobertura jornalística sobre educação é, majoritariamente, favorável ou neutra, o que confirma a tendência de valoração positiva intrínseca ao tema, característica que se acentua quando as matérias se referem a iniciativas governamentais.
É necessário que se compreendam essas características dentro do panorama da crescente centralidade dos media no mundo contemporâneo. Apesar de os media impressos serem apenas uma das partes de um ambiente simbólico maior e mais complexo – onde também estão a televisão (aberta e por assinatura), as revistas, o cinema e a Internet – os jornais certamente constituem uma parte importante na definição e na construção da imagem pública da Educação no Brasil.
Assim, cremos que os resultados dessa pesquisa, como ficou claro no seminário supramencionado, serão um ponto de partida fundamental para aqueles que estão se empenhando em fazer dos mídia atores mais qualificados na importante tarefa de contribuir para o aprimoramento da Educação nacional.
(*) Este texto é uma compilação do capítulo Considerações Finais constante do Relatório Final da pesquisa em questão. Ainda que essa compilação tenha sido feita pelos autores que assinam este artigo, o relatório como um todo é de responsabilidade dos pesquisadores do NEMP/CEAM/UnB que nele trabalharam.
(**) Professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília/UnB e coordenador-geral da pesquisa "Mídia e Educação". É membro do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília/UnB
(***) Graduando em Relações Internacionais na Universidade de Brasília/UnB, foi coordenador de coleta e sistematização de dados da pesquisa "Mídia e Educação". É pesquisador do NEMP/CEAM/UnB
ASPAS
LUSOCOM
Sebastião Breguez
"Braga, Portugal – Consolidar a aproximação entre os países de língua portuguesa, sem perder de vista as singularidades que os enriquecem. Esse foi o principal propósito do 3º Encontro Lusófono de Ciências da Comunicação (Lusocom), que terminou ontem [29/10/99], na Universidade do Minho, em Braga, a 250 km de Lisboa, Portugal. O tema do encontro, que começou no dia 27, foi ‘Investigação: Convergências e Desafios’.
Com mais de 300 participantes (de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, além de convidados espanhóis) e cerca de 130 comunicações apresentadas em nove painéis simultâneos, o Lusocom, essa ‘promessa de comunidade lingüística e comunicativa’, encerrou com as seguintes propostas: a criação, a curto prazo, de uma revista comum (impressa ou on-line) aos países lusófonos; criação de bases de dados em Portugal destinadas a integrar o Centro de Documentação da Comunicação nos Países de Língua Portuguesa; e a intensificação de intercâmbio entre os países, como já acontece entre a Universidade do Minho e a de Sergipe. Sergipe, aliás, foi sede do 2º Encontro, quando foi constiutída a Federação Lusófona de Ciências da Comunicação, ano passado. A primeira reunião aconteceu em Lisboa, em abril de 97. O 4º Lusocom será realizado em São Vicente – a primeira Vila do Brasil – em São Paulo, de 19 a 22 de abril de 2000.
O presidente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, que também presidiu o 3º Lusocom, Moisés de Lemos Martins, qualifica esse momento como de irradiação dessa integração entre os países lusófonos, principalmente entre Brasil e Portugal. Para ele, o que aproxima os dois países, além da língua e do afeto comum, é uma certa vulnerabilidade, uma igual dependência em relação aos blocos econômicos. ‘Como países semi-periféricos, somos desafiados, em nossas sociedades distintas, a afirmar nossas diferenças mas, ao mesmo tempo, estimular a cooperação luso-afro-brasileira’.
Para o presidente da Lusocom, professor José Marques de Melo, que também dirige a Cátedra Unesco de Comunicação e Desenvolvimento Regional da UMESP, Brasil e Portugal já atingiram a maioridade em termos de desenvolvimento de sistemas de comunicação e estão integrados à modernidade comunicacional do mundo globalizado. Mas o mesmo não acontece com os cinco países africanos de língua portuguesa – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, sem falar de Timor Lorosae – que estão construindo o seu sistema acadêmico na área de Comunicação e estão penalizados pelos conflitos internos que impedem o avanço tecnológico. Assim, a integração ainda não é visível para eles, que particiapam timidamente do processo. No encontro de Braga, por exemplo, estavam presentes apenas professores e jornalistas de Angola e Moçambique. Mas a integração é para todos, sem exceção, frisa Marques de Melo.
Do ponto de vista do professor Joaquim Paulo da Conceição, do Instituto de Jornalismo de Angola, um dos participantes africanos, esses encontros são importantes para forçar o avanço interativo da integração lusófona não só em termos acadêmicos, mas também de absorção de tecnologias de comunicação na área de jornalismo impresso e audiovisual. ‘Afinal, somos os irmãos pobres de língua portuguesa e temos que formar as linhas de pesquisa para desenvolver o processo e participar da comunicação no mundo globalizado’, diz. E acentua: ‘Através da comunicação, os lusófonos se põem a nu e se conhecem mais intimamente’."
"Encontro investiga desafios da comunicação em países de língua portuguesa", copyright O Tempo, Belo Horizonte, MG, 30/10/99
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Informações sobre o Lusocom podem ser obtidas em http://www.lusocom.ics.uminho.pt">
Mais detalhes sobre o encontro com o jornalista Sebastião Breguez, e-mail: breguez@uai.com.br

Relatório final da pesquisa "Mídia e Educação – perspectivas para a qualidade da informação". Tamanho: 345 Kb
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