DIRETÓRIO ACADÊMICO


PROVÃO 2000
A hora da verdade

Victor Gentilli

Com a divulgação pública, na segunda-feira 18/12/00, dos resultados do Provão 2000, o ensino de Jornalismo no Brasil entra na sua hora da verdade. Agora, as escolas que acumularam conceitos negativos nos três provões ou na Avaliação das Condições de Oferta vão receber no ano de 2001 nova visita de avaliação – cujo resultado pode vir a ser, nos casos mais dramáticos, o fechamento dos cursos.

É verdade que o MEC, até agora, não conseguiu fechar uma única fábrica de diplomas, de curso algum. Mas é fato que dois cursos de Direito tiveram seu fechamento recomendado neste ano, mas encontraram no Conselho Nacional de Educação um órgão mais manso que, mesmo depois de passados todos os prazos legais, ainda estendeu um pouco mais a tolerância.

As reavaliações dos cursos de Jornalismo vão enfrentar pressões de toda sorte. Boas escolas devem ter alcançado conceitos D ou E (escrevo antes de conhecer os resultados em detalhe) graças ao boicote dos alunos. E os questionamentos ao Provão e à Avaliação, fortes particularmente em 1999, poderão ser reapresentados com vigor caso a condução do processo não esteja atenta às particularidades políticas da área.

O boicote ao Provão, que praticamente tornou-se inexpressivo no conjunto dos estudantes brasileiros, cresceu entre os formandos de Jornalismo. Na média geral, o boicote do Provão 2000 manteve os mesmos 1,4% de adesão que apresentou em 1999. Números insignificantes. No caso de Jornalismo, cresceu de 11% em 1999 para 14%, em 2000. São números que não podem ser desprezados e revelam uma intensa politização dos estudantes. Valores desta grandeza não são alcançados somente pelo movimento estudantil. É claro que há um certo apoio institucional e docente. Será pelo debate político e pelo convencimento que as autoridades vão conseguir adesão ao seu projeto de avaliação do ensino superior brasileiro.

Além da nota

Insistir no Provão não é negar diálogo. Os instrumentos alternativos propostos por aqueles que boicotam devem ser estudados e compreendidos. Mas se aqueles que propõem o entendem alternativo, as autoridades devem entender como complementares.

Tão logo o governo anunciou que os cursos de Jornalismo seriam submetidos ao Provão, este Observatório abriu o debate e mostrou-se ostensivamente favorável ao exame. Verdade que muitos que inicialmente viram o Provão com certo preconceito, hoje defendem esta criativa forma de avaliação desenhada pelo MEC. Mas a Federação Nacional dos Jornalistas, que de início forneceu os nomes de quase a metade da primeira Comissão do Provão, retirou o seu apoio institucional.

Não dá mais para negar o fato de que o Provão é uma coisa que mexe com os cursos de Jornalismo, ninguém fica neutro diante dele.

Entendo que o Provão é um instrumento de avaliação com algumas falhas, mas de um modo geral trata-se de um instrumento incorporado e aceito pela maioria das instituições. Tanto que boa parte delas espera e deseja um bom resultado – e acredita que possa ser útil para elevar a imagem pública do curso.

Em 2000, a nota média dos alunos que fizeram o provão subiu um pouco em relação aos anos anteriores, mas isso não significa necessariamente que os alunos estão melhores. A prova pode ter sido mais fácil ou a equipe de correção mais generosa. A média dos alunos avaliados em 1998 foi 3,7; em 1999 caiu para 3,1; e, em 2000, subiu para 4,7. Mas em cada ano a prova teve um formato diferente. O fato de sequer o formato da prova ter sido mantido nos três anos de exame apenas reforça a idéia de que as três baterias de avaliação não podem ser comparados pela nota.

Pressão por qualidade

O ensino de Jornalismo continua indo mal, mas não porque a média dos formandos continua baixa. O esforço – inegável – que os cursos vêm fazendo para mudar e melhorar ainda não foi capaz de produzir alterações de curto prazo. Afinal, o aluno graduado em 2000 ingressou no ensino superior em 1997, antes ainda do primeiro Provão.

A explosão no aumento de vagas no ensino superior atingiu praticamente na mesma proporção o ensino de Jornalismo. Todos os anos surgem novos cursos que trazem sua primeira fornada de alunos para o Provão. De um modo geral, essas primeiras turmas ainda são deficientes.

Veja (edição 1680, de 20 de dezembro, pág. 98) chama a atenção para o crescimento dos cursos superiores no Brasil. O número de estabelecimentos de ensino superior aumentou 41% nos últimos três anos. Se a esses dados acrescentarmos os números de cursos que fizeram o Provão de Jornalismo – 80 em 1998, 92 em 1999 e 133 em 2000 – veremos que, no caso de Jornalismo, os números tendem a ser bem maiores que a média nacional. Observe-se que os dados de Veja tratam de cursos novos. O Provão avalia cursos que já contam pelo menos com uma turma por formar no ano. De modo que o número de cursos que farão os próximos provões deverá crescer na mesma proporção.

É certo que em 2000 aumentou muito o rigor do MEC quanto à abertura de novos cursos. E o rigor vai aumentar mais [veja próximo texto]. Mas o caminho a percorrer ainda é bastante longo.



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Diretório Acadêmico – próximo texto



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