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DIRETÓRIO ACADÊMICO
TEORIA DA COMUNICAÇÃO Manuel Muñiz (*) Gostaria de meter minha colher de pau na polêmica entre o jornalista Nilson Lage e os defensores da teoria da comunicação, a qual Lage desconsidera para o ensino da profissão nas escolas e que gerou rusgas acaloradas. Deixo bem claro que o interesse aqui é de, apenas, discutir a importante questão para a formação profissional. Que ninguém se sinta ferido nos seus brios, por favor. O jornalismo é uma atividade controversa, sem dúvida. Há 23 anos sou jornalista de fato, embora há 19 tenha me formado. Durante esse tempo, me deparei com todo tipo de pessoas e interesses, em grandes, médias e pequenas empresas de comunicação e de jornalismo. Em nenhum lugar consegui participar de debates que levassem em conta o resultado "teórico" do meu trabalho, muito embora tivesse gerado conflitos de várias ordens. A primeira vez que utilizei uma teoria para desenvolver meu serviço foi quando obtive o arcabouço de um projeto editorial, que mais tarde desenvolvi e montei com informações colhidas por mim mesmo, levando em conta o público-alvo, o seu contexto social, além de meus conhecimentos sobre comunicação. O resultado não poderia ter sido melhor. A publicação cumpriu a sua missão, avaliada em cartas de leitores e no incremento do próprio veículo. Depois disso, passei a me valer desse expediente para criar e desenvolver publicações, com a certeza de que a resposta seria proporcional ao plano elaborado. Atualmente, sou professor de Jornalismo da FIB (Faculdades Integradas da Bahia), onde me ocupo dos estudos da teoria da comunicação, embora minhas disciplinas sejam práticas e voltadas apenas ao jornalismo. É com essa experiência prática, e agora tendo que me valer da teoria para ensinar, que faço a crítica desta questão. Perda de referências Um ponto fundamental para a análise da importância da teoria da comunicação é o estudo do ambiente midiático. Segundo Joe L. Kincheloe, a hiper-realidade é um mundo de saturação social – criada pela difusão sem limite da mídia, sem critério de análise da informação. Para ele, passamos por uma vertigem social. Como muitos analistas pós-modernos têm colocado, nos tornamos pastiches e imitadores uns dos outros. Nilson Lage talvez não admita que a mídia seja capaz de disseminar toda essa saturação e ache que isso seja irrelevante para o aprendizado da profissão. Eu discordo e percebo que a falta de consciência dessa teoria – ou de outras que vislumbrem os resultados da comunicação – é que permite, por exemplo, a ausência de atitude dos jornalistas diante de questões importantes no dia-a-dia das redações, embora haja a percepção do fato. Falta preparo teórico e até mesmo ética profissional. Discutir a tal objetividade nos textos jornalísticos pode não ser imperioso para o aprendizado do ofício, mas até isso é questionável. Principalmente, porque a formação profissional é feita ao largo de muitos anos de experiência, que muitas vezes é rala, empobrecida de acordo com o ambiente, a cidade e a região. Quanto mais pobre é o lugar, mais se necessita de uma opinião avalizada, de um centro maior para irradiar "idéias válidas" para que sejam consumidas, seja em razão da técnica de redação ou pelo poder de convencimento político das agências de notícias. A influência delas, aliás, é cada dia maior em centros menores e nem tão pequenos assim. Os textos são encaixados nas publicações sem o mínimo tratamento, sem o cuidado de ser analisado, criticado. Porque o pacote é comprado como mercadoria e, a bem da verdade, a cada nova fornada de jornalistas, que chega cada vez menos preparada para mexer nas matérias, fica difícil entender o não-incentivo da reflexão sobre a teoria da comunicação, tenha ela qualquer tipo de viés. Enquanto isso, o mundo se transforma numa "aldeia global", segundo McLuhan. E, assim, o Oriente vira Ocidente, embora haja perda de referências culturais, cada dia menos perceptível, seja aqui, seja no Oriente mesmo. As conseqüências vão desde a perda dos valores da família até a mudança na forma da construção das consciências, modificando também o jeito com que se dão os investimentos emocionais, diferentemente da maneira afirmada pela maioria dos educadores (Gergem 1991, 15, 71; Poster 1989, 168). No ensino médio Creio que muitos já viram ou ouviram falar de pessoas que confundem atores com seus personagens. Ou sabe de gente que percebe a realidade dos telejornais como um show, onde o decretado pelos apresentadores se torna a última verdade do dia. Não raro, há estudantes e até mesmo profissionais de jornalismo que acreditam que o capitalismo encerra toda a verdade, daí confundir objetividade com falta de análise e interpretação dos fatos. Não creio, por exemplo, que o homem nasça bandido, ladrão ou que haja uma escola que cobre por ensinar esse tipo de coisa. A mídia brasileira, no entanto, já deixou de analisar a origem da nossa violência urbana, seja porque acha impossível inverter o processo ou porque acredita que o capitalismo não concentra riqueza e não incentiva, ao mesmo tempo, o consumo do descartável, criando o ambiente propício para um nó cego entre a razão e as necessidades emocionais arquitetadas pelo capital. Se fosse diferente, se houvesse sensatez na análise jornalística sobre as necessidades reais da sociedade, a corrida pelo "ter" não seria maior que para o "ser". Há, entretanto, um desconhecimento na imprensa sobre história, ciência social e até mesmo uma falta de interesse por qualquer coisa que não seja a realidade objetiva, recortada do contexto; que não traga "lucro imediato" ou que não seja justificada pela ansiedade de atingir as mentes que anseiam por respostas prontas, tipo self-service, a serem consumidas pelo leitor no título ou, no máximo, no lead da matéria. De fato, tais preocupações não podem ser levadas apenas para o curso de Jornalismo. Seria necessário outro ambiente, outro mundo que não parece estar mais no presente. O problema seria menos complexo se essa realidade midiática estivesse sendo forjada por genes ou por outro fator natural, mas não está. Há uma pressa injustificada, uma corrida para não sei onde, para não sei o quê. A crítica da mídia, por isso, deve ser processada não só entre os estudantes de Jornalismo, mas em todas as escolas do ensino médio da rede particular e pública do país; incrustar nas artérias das disciplinas e de cursos superiores para que a "realidade" possa ser criticada e refletida, para que os paradigmas sejam interpretados, para que haja maior igualdade entre o que a sociedade anseia e o que pode ser realizado para a conquista das muitas necessidades. Pressupostos éticos O certo é que há supremacia dos mais fortes ante os mais fracos – que pode ser observada pelo domínio da mídia pelos poderosos. Sobretudo se a razão de força for medida à base do capital. Haja objetividade para explicar as tais armas químicas e de destruição em massa, razões pelas quais os Estados Unidos invadiram e pilharam o Iraque. Ao que consta, as novas formas de colonização persistem sem o menor sinal de resistência emocional e até mesmo intelectual por parte dos oprimidos, já que a simbologia não rima com imagem e aparatos técnicos empregados pela mídia, já que não é discutida e nem mesmo aceita entre nós. Para a imprensa, bastam as explicações dos porta-vozes. Depois de duas décadas envolvido na batalha diária pela informação, tenho a preocupação de rever as razões do exercício da minha profissão. E percebo que a responsabilidade do meu ofício é (bem) maior do que se possa supor. O problema é que a classe não reivindica essa responsabilidade. Seja por omissão ou por falta de preparo teórico. Costumo comparar a classe jornalística à dos jogadores de futebol. Eles fazem o espetáculo, mas não se organizam a ponto de cuidar dos seus interesses. Deixam que cartolas e federações façam isso ao bel-prazer. Falta-nos também representatividade diante de fatos, de instituições e da sociedade. Talvez por falta de um maior entendimento teórico sobre o resultado de nosso trabalho ou mesmo por falta de compreensão do papel da profissão, deixamos que os donos das empresas façam a política que lhes convém. Recordo as palavras do colega Pedro Celso Campos, que analisa o trabalho do educador Paulo Freire: "(...) Considerando a motivação capitalista dos meios de comunicação e o fato de que existem em função do mercado e não da sociedade, o resgate da cidadania e dos pressupostos éticos devessem situar-se primeiramente entre os próprios comunicadores. Melhor, entre os futuros jornalistas, quando ainda estão nos bancos da faculdade. Despertar no jovem essa visão crítica em relação ao mundo e ao mercado talvez possa contribuir, de algum modo, para um jornalismo se não meramente literário, como quer Habermas, pelo menos mais voltado para a conscientização do ser humano e para a humanização das estruturas em que todos estão inseridos." (*) Professor de Jornalismo da FIB (Faculdades Integradas da Bahia) | ||