| ||
|
DIRETÓRIO ACADEMICO GREVE NAS UNIVERSIDADES Deonísio da Silva (*)A Folha de S. Paulo vinha sendo acusada pela Associação Nacional de Docentes (ANDES) de ignorar a greve dos professores das universidades federais. Alguns líderes do movimento chegaram a dizer que o jornal se transformara num porta-voz do governo. Como respondeu o matutino paulista? Não foi desta vez que o jornal fez a reportagem clássica, mandando repórteres aos campi das universidades em greve, onde poderiam atestar que a luta dos docentes ultrapassa reivindicações salariais e quer a correção de problemas como laboratórios abandonados, professores comprando estantes, mesas, cadeiras e, principalmente, livros com recursos próprios, para emprestar aos alunos e eles fazerem fotocópias (ilegais, aliás!), porque os acervos bibliográficos jazem como cemitérios onde não há entra um morto novo há anos. "Nós que aqui estamos por vós esperamos", um dístico que encima várias entradas de cemitérios e dá título a recente filme brasileiro, sintetiza o descaso do MEC para com as bibliotecas das universidades. Os livros velhos esperam, mas os novos não chegam. Temos educação de qualidade quando a biblioteca é uma ilha de excelência cercada de docentes qualificados e alunos dispostos a aprender. Este é o bê-á-bá de qualquer escola que se preze. Mas a Folha, se não foi aos campi, foi à fonte pagadora, o próprio MEC, por meio de Marta Salomon, secretária de redação da sucursal de Brasília, e mostrou as coisas como as coisas são, isto é, qual é o salário dos professores. O artigo abria com uma clareza dolorosa para o ministro: "Mais da metade dos quase 70 mil professores das universidades federais ganha menos de R$ 3.000. Dados do Ministério da Educação sobre o perfil salarial nas universidades mostram que 16,8% dos professores em atividade (que não estão aposentados) ganham menos de R$1.000". Em reunião com o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Educação dissera que a maioria dos professores universitários recebia entre R$ 4.000 e R$ 5.000. Não é o caso de incluir o retrato do ministro junto ao personagem Pinóquio, do romance homônimo de Carlos Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini (1826-1890), porque é preciso reconhecer que, por seu passado, o ministro pode ter-se enganado, mas não mentido. Cada vez que Pinóquio mente, cresce-lhe o nariz. Paulo Renato Souza não mentiu ao presidente, mas errou o diagnóstico. A falha é grave porque seus relatos vinham sendo o pilar das recusas governamentais em rever a situação. Tanto é verdade que no caso dos servidores (funcionários que não exercem docência), o ministro teve a humildade de reconhecer que trabalhava sobre dados equivocados. E a greve deles acabou. Não é foi a primeira vez que os assessores conduziram o ministro por caminhos tortuosos. Eles o levaram de roldão, e ele levou o presidente a embarcar na mesma canoa furada. Boletim de ocorrência O corte dos salários em plena fase de negociações foi outro equívoco. Os docentes continuaram trabalhando por boa vontade. O ministro, que é professor, sabe que, além das aulas, os professores fazem pesquisa e extensão. E muitas dessas atividades não foram suspensas, mesmo porque algumas delas, se fossem suspensas, teriam um triste fim. A matéria de Marta Salomon levou o ministro Paulo Renato Souza a dar explicações em extensa carta que enviou à redação. A emenda foi pior do que o soneto. A Folha manteve as informações publicadas. Ia fazer o quê? A fonte tinha sido o próprio MEC. A qualidade das informações obtidas mudou o rumo das conversações. É verdade que há salários superiores a R$ 30.000 entre os docentes. Dois professores (aposentados) num quadro de 69.864 docentes recebem esta quantia, que é vergonhosa para eles e para seus colegas, e deveria ensejar um B.O.(boletim de ocorrência). A desculpa de terem chegado a esses salários por meio de chicanas judiciais não se sustenta. E a ética, onde fica? As universidades precisam explicar também o motivo de 504 docentes receberem salários superiores a R$ 10.000, quando 69.360 ganham menos do que eles, muito menos, alguns dos quais – exatos 20.499 docentes – ganham menos de R$ 2.000. Nada como a conversa clara para se chegar ao trato justo. A matéria produziu um bom recomeço nas negociações. E a imprensa fez a sua parte: informou. (*) Escritor e professor da Universidade Federal de São Carlos, doutor em Letras pela USP; escreve regularmente nas revistas Época e Caras, e em <www.eptv.com.br>. Seus livros mais recentes são o romance Os Guerreiros do Campo e De Onde Vêm as Palavras | ||