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JORNALISMO DIGITAL
Novos paradigmas de produção,
emissão e recepção do discurso

Pedro Celso Campos (*)

"...a coisa não é a coisa da nossa experiência, é a imagem que se obtém projetando-a num universo onde a experiência não se ligaria a coisa alguma, onde o espectador se afastaria do espetáculo, numa palavra: confrontando-a com a possibilidade do nada."

Merleau-Ponty, O visível e o invisível

Resumo

Este trabalho pretende estudar as mudanças que estão surgindo na produção, emissão e recepção do discurso jornalístico veiculado através da internet. Com o jornalismo digital surgem novos paradigmas tanto no fazer jornalístico como no modo de consumir a informação. Habitado especialmente por jovens nas duas pontas, o webjornalismo proporciona ao internauta condições especiais de interagir com o emissor da mensagem e com as fontes, podendo redirecionar a informação segundo seus interesses, além de acessar ampla base de dados para ficar bem informado. Fazendo uma síntese das demais mídias, o HTML é a nova linguagem do jornalismo. Torna-se necessário e urgente, portanto, estudar os novos rumos da comunicação, inclusive a nível de ensino acadêmico.

Durante os últimos cinco séculos o homem testemunhou a evolução e a crescente importância da comunicação, desde que Gutenberg imprimiu, em 1455, a famosa Bíblia de 42 linhas por coluna, aperfeiçoando, assim, a tipografia que fundidores europeus já conheciam desde 1260. Livros impressos, com caracteres móveis, datando das primeiras décadas do século XV, foram descobertos na Coréia. Mas é a partir da segunda metade do século XVI que o livro impresso corta, definitivamente, suas ligações com o livro manuscrito. Com o livro impresso, o alvorecer do século XVI também registra o surgimento da imprensa. Nos primeiros anos desse século, mais de 50 cidades alemãs já tinham jornais.

O que possibilitou o rápido crescimento da imprensa, naqueles primeiros anos, foi a ação dos chamados "impressores ambulantes" que levaram a "invenção de Gutenberg", isto é, a arte de imprimir com tipos móveis (tipografia), para 247 cidades européias, das quais 78 italianas. É em Roma que surge a imprensa latina, tal qual conhecemos, porque ali os impressores abandonam a influência gótica dos escritos medievais e adotam os caracteres romanos.

Por 400 anos a arte de imprimir livros e jornais conheceu poucos aperfeiçoamentos, mas no final do século XIX surgiu um sistema automático de produção de tipos gráficos para acelerar a montagem do texto a ser impresso: era a Linotipo, inventada por Ottmar Mergenthaller em 1884, em Baltimore, EUA. A partir daí, ao invés dos tipos individuais, montados à mão, era possível compor a linha inteira que era fundida em chumbo depois de "digitada" no teclado da própria máquina.

Paralelamente foram sendo introduzidas novas tecnologias também no sistema de impressão. As máquinas planas, que imprimiam o jornal folha por folha, foram sendo substituídas pelas rotativas que usavam bobinas de papel e já finalizavam a encadernação e o empacotamento do jornal impresso.

Entretanto, foi a substituição da linotipia pela computação eletrônica e, por outro lado, a substituição da impressão tipográfica pela impressão em off-set que permitiram, no século XX, a transformação dos jornais em grandes empresas de comunicação.

As demais mudanças ocorridas no jornalismo foram provocadas, também no início do século XX, pela concorrência com os meios eletrônicos: o rádio, a televisão e, mais recentemente, a internet.

Dos "tipos romanos" que os fundidores alemães disseminaram pela Itália no século XV, ao "Times New Roman" deste texto eletrônico, composto em corpo 12, no computador, de forma instantânea, com possibilidade de reprodução a cores, também de forma instantânea mesmo que a impressora esteja situada do outro lado do planeta, a evolução foi notável.

Mas os aperfeiçoamentos não cessam porque é próprio da inteligência humana buscar novas formas de melhorar ainda mais o que faz. Uma tecnologia acaba influenciando a outra, num processo contínuo e interminável.

Se no século XX os sistemas de produção e impressão de textos atingiram grande avanço do ponto de vista mecânico, foi também nessa época que os conhecimentos da lingüística, da semiótica e da própria ética passaram a ser levados em conta no que se refere à produção jornalística, ao mesmo tempo em que os veículos de comunicação, inicialmente tímidos e personalistas, foram sendo transformados em grandes empresas comerciais, com lucratividade garantida e com enorme poder de comunicação.

A produção de massa crítica nos meios acadêmicos sobre o papel dos meios de comunicação, no século XX, levaram estudiosos como os frankfurtianos de 1923 Adorno, Benjamim, Marcuse, Horkheimer e, mais recentemente, Habermas, a discutir a influência social dos meios que acabaram se orquestrando num conjunto de atividades que regulam e impõem padrões de comportamento sobre a sociedade, o que eles chamam de "indústria cultural". Assim, o receptor da mensagem ficaria à mercê da manipulação política e ideológica dos meios, sem condições de interagir com eles para expor o que pensa, para discordar, para contestar, para propor. Náufrago indefeso num "mar de notícias" emitidas por meia dúzia de agências em torno do mundo, o ser humano do século XX viveria, permanentemente, como o personagem do Show de Truman, o filme dialético de Peter Weir que denuncia a manipulação social pela mídia.

Também nos meios acadêmicos debate-se o papel do produtor de notícias dentro do contexto empresarial dos meios de comunicação. Num mundo eletronicamente globalizado, onde textos e imagens digitalizadas viajam vertiginosamente em torno do planeta através dos satélites e das fibras óticas, sendo "decodificadas" na outra ponta através das mais variáveis interfaces que tanto podem ser um minúsculo telefone celular, como uma enorme impressora de jornal comandada à distância, ou ainda um monitor de TV ou de computador, ou um aparelho de rádio, pergunta-se qual o espaço que sobra, afinal, para o jornalista, para o profissional encarregado de produzir, processar e emitir o discurso. Um discurso que já não pode ser meramente informativo porque também precisa ser interpretativo. Um discurso que envolve a necessidade de opinar – porque este é um dever do comunicador que deseja prestar serviço ao receptor. Um discurso que não pode descuidar, ainda, da sua finalidade lúdica, enquanto texto "recreativo" para amenizar o stress desse náufrago cercado de informação por todos os lados que é o homem do século XXI.

Ao mesmo tempo, os estudiosos discutem o futuro de todo esse processo, questionando se a invenção de Gutenberg terá lugar nesse futuro, agora que os pesados tipos móveis se converteram em fluidas letrinhas que piscam no vídeo enquanto escrevemos, parecendo "sombras luminosas" de um passado longínquo. Perguntam-se para onde vai o jornal depois da Internet e até para onde vai o próprio computador enquanto "objeto de mesa". Outros querem saber se a Internet um dia vai chegar a todos os habitantes da terra, se todos poderão mandar e-mails com o mesmo custo de uma simples carta de correio ou até de graça...Também se pergunta qual o papel dos meios impressos depois que os meios eletrônicos se aperfeiçoaram tanto.

Os pesquisadores da linguagem buscam novas formas de tornar o discurso jornalístico mais leve e, ao mesmo tempo, mais informativo, mesmo diante da rapidez com que precisa ser produzido e da "objetividade" com que precisa ser apresentado para ser consumido pelo receptor apressado que já é "disputado" por tantos canais de comunicação.

Na verdade, muitos querem saber o que se entende, afinal, por "objetividade" ou por "imparcialidade". Será que os dias de hoje ainda comportam os mesmos critérios de quando a moderna imprensa foi criada? Ainda se pode falar em "lead", "sub-lead", "pirâmide invertida" etc?

E quanto à Ética? Num mundo em que os meios têm tanta influência, será que o respeito às minorias, aos direitos inalienáveis do cidadão, à verdade, à transparência, à dignidade humana...são respeitados? Ou ainda achamos que o "furo" vale qualquer sacrifício? Diante do menor baleado na rua, queremos a foto dele ou levá-lo para o hospital mais próximo? O que vale mais: A notícia ou a vida? Será que os jornalistas não estão tão confusos como os próprios consumidores de notícias neste estonteante início de novo milênio?

Também se discute se o objetivo das corporações jornalísticas é fazer o marketing de resultados para ter lucro ou fazer jornalismo para servir. É um debate relevante porque se a primeira hipótese for a verdadeira, então é possível que o Departamento de Marketing terá todos os recursos e toda a atenção da empresa, sobrando para a redação o mesmo status de qualquer outra repartição do jornal, como o quartinho de guardar vassouras, por exemplo, apenas em tamanho maior, isto é, sem qualquer poder de decisão.

Com os novos meios, o modo de produção da notícia já não é o mesmo. Trabalha-se muito mais, por muito menos. O que têm a dizer os sindicatos? A pressa de produzir a informação leva a erros, muitas vezes graves. Na conta de quem o erro é debitado?

Do ponto de vista do receptor muita coisa também mudou. O avanço tecnológico da mídia acabou gerando um receptor mais informado, mais seletivo, mais exigente, mais participativo, mais conhecedor dos seus direitos, mais preparado para exercer de corpo inteiro a cidadania. A qualidade técnica dos produtos, tanto quanto os seus conteúdos, são cotejados, são comparados, são avaliados o tempo todo por esse receptor do novo século que já não se deixa enganar. Ele muda de canal quando o programa de rádio ou de TV está excessivamente chato, verborrágico, desagradável, agressivo, falso etc Este é o seu modo de punir a informação de má qualidade.

Os semioticistas analisam, inclusive, os novos modos de leitura que o receptor atual emprega para consumir informação. Ele já não faz a leitura tradicional da esquerda para a direita, como aprendemos no mundo ocidental. No texto verbal, ele primeiro busca os elementos visuais que o "aproximam" da leitura, tais como retrancas, títulos, linhas finas, janelas, legendas, infográficos, fotos etc. Só depois começa a leitura, muitas vezes lendo pedaços alternados da notícia, nem sempre pelo parágrafo inicial, em busca da essência informativa, na pressa de apenas checar o que já viu em outro veículo, para confirmar a informação ou para ter algum detalhe adicional, num tipo de "leitura complementar".

A análise semiótica de imagens já constatou, também, que o olhar do receptor já não penetra a imagem de forma linear, mas através de "linhas de força" que conduzem a leitura através do contraste de cores e luzes, ora puxando o olhar para dentro da foto, ora empurrando-o para fora.

Como se pode perceber nesta introdução sobre os novos paradigmas que regem o jornalismo na era digital, os contextos de produção, emissão e recepção do discurso informativo já não são os mesmos. As novas tecnologias exigem dos profissionais a atualização constante do modo de ver, captar, codificar e transmitir a notícia.

Resta saber se nossas Faculdades de Comunicação estão preparadas para produzir o novo profissional do verdadeiro Mundo Novo e Digital.

Contexto de produção

Tradicionalmente, no jornal-empresa, as rotinas do jornalista obedecem a uma hierarquização de funções de modo a permitir a cobertura eficiente de todos os fatos, tanto os previsíveis – como na cobertura de "setores", palavra do jargão jornalístico que tem a ver com o trabalho especializado do profissional na mesma repartição como palácios governamentais, ministérios, autarquias etc – como os imprevisíveis.

Quem planeja a estratégia de cobertura diária e também a produção de matérias "frias", isto é, que não "envelhecem" quando publicadas em outra data ou em data pré-determinada como na celebração de eventos históricos, é o pauteiro. Lendo todos os jornais do dia, mantendo-se ligado na mídia, conversando com os "setoristas", com os editores e com os repórteres de rua, o pauteiro é capaz de armar diariamente a captação de notícias que vai definir a edição do dia seguinte, no caso do impresso.

Outra parte substancial do material noticioso chega, durante todo o dia, dos mais variados lugares, filtrado pelas agências de notícia.

Cabe ao editor de cada área (política, economia, polícia, esporte, segundo-caderno, local, nacional, internacional etc.) selecionar o material que interessa à sua editoria, sob supervisão geral do secretário de Redação, que se reportará ao diretor de Redação que, por sua vez, fará a ligação entre a Redação e a Direção da empresa.

A rapidez com que milhares de informações precisam ser editadas, revisadas, completadas, corrigidas, checadas, resumidas para as chamadas de primeira página, trabalhadas com infográficos e demais processos de ilustração (foto, gráficos, legendas, retrancas, janelas, linhas finas etc.) bem como o universo de pessoas envolvidas no processo de produção a tempo de entregar as páginas na hora determinada para a impressão (setor onde se desenvolve outra logística muito complexa para que o jornal possa "amanhecer" a milhares de quilômetros de distância, devidamente atualizado, contextualizado, sem "fazer feio" perante a concorrência – apesar de se tratar de um produto perecível em 24 horas) dá bem a idéia daquilo que Umberto Eco chama de "caixa preta". Seria de se esperar elevadíssima taxa de erros. Realmente alguns acontecem, até nas casas mais conceituadas, porém são mínimos – do ponto de vista técnico – diante do monumental processo que se desencadeia em cada jornal, todos os dias, a partir do momento que o pauteiro começa o seu trabalho, bem cedo, na redação, até o instante em que a impressora despeja, automaticamente, sobre os veículos de transporte, o jornal do dia colorido, empacotado e amarrado, pronto para ser exibido nas bancas ou para a entrega domiciliar.

No jornalismo digital essa dinâmica de trabalho se repete, com exceção dos processos de impressão e distribuição convencionais. Na internet a pressa é ainda maior porque trata-se de sair na frente com "jatos" de informação, com pedaços de notícia, com atualização constante à medida que o fato está acontecendo. Munido de celular e câmera digital, o repórter ou a equipe transforma-se em unidade geradora de texto e imagem, de modo que o receptor receba não apenas o cenário dos fatos, mas o texto com dados, números, detalhes etc explicando o que se passa. Isto é: A internet vai além da TV quando une texto e imagem, transmissão ao vivo com reportagem impressa.

É natural que toda essa "disparada" em busca da atualização permanente acaba gerando informações erradas, dados incorretos, deturpações, interpretações equivocadas e todo tipo de problema. Entretanto, manda a ética que os portais não apenas substituam os arquivos que contém erros causados pela pressa, mas que veiculem erratas – como se faz no impresso – de modo a ressalvar a credibilidade e a transparência do portal, além de se precaver, inclusive, contra processos judiciais por calúnia, injúria e difamação.

À medida que a internet vai se transformando na mais possante mídia (pesquisas revelam que no dia do atentado terrorista nos EUA, 11/9/01, os sites de jornalismo bateram a audiência da TV e do rádio), cresce o número de pesquisadores que procuram estudar, no mercado e na área acadêmica, as características do contexto de produção do discurso jornalístico, agora sob o paradigma de um veículo que sintetiza todas as mídias veiculando informações praticamente ao vivo, em suporte eletrônico, com as vantagens visuais da TV, a mobilidade do rádio e o poder de documentação ou de verificação de detalhes proporcionado pelo impresso. Esta é uma área de estudos que tende a crescer substancialmente porque a internet não significa apenas uma convergência de mídias, mas exige a necessidade de profissionais multimídias, habilitados a lidar com as linguagens do rádio, da TV e do jornal para dar conta de manter no ar um site bem informado e atualizado.

Sintetizando as mídias, o jornalismo digital exige uma linguagem de fácil entendimento, clara, eficiente, sem desperdício de palavras, afinal, um texto capaz de resumir o fato para prender a atenção do internauta e conduzi-lo para o "leia mais" e, no final da noite, para a edição impressa do dia seguinte. Isto significa não esgotar o assunto na rede mas, ao mesmo tempo, manter o receptor interessado no assunto passando-lhe informações mais urgentes.

Toda essa ginástica de produção que envolve tantos profissionais, está mudando radicalmente o modo de produzir notícia, daí o interesse dos estudiosos em pesquisá-la. No XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2001, realizado em Campo Grande-MT, no mês de setembro, a professora e jornalista Zélia Leal Adghirni, da Universidade de Brasília, analisou a produção de notícias disponibilizadas em sites de jornalismo online pelos jornalistas do Distrito Federal, onde trabalham 6.700 profissionais, conforme registros no Ministério do Trabalho.

Segundo ela, a primeira experiência brasileira com o webjornalismo surgiu em 1991 com a criação da agência de notícias Broadcast, do jornal O Estado de S. Paulo, que hoje conta com cerca de 10 mil clientes, entre empresas de comunicação de todo o país, às quais transmite notícias em tempo real. Por volta de 1995, "com a democratização da Internet e a criação do sistema WWW, praticamente todos os jornais do país passaram a ter edições online de seus veículos. Aos poucos a versão online descolou-se do modelo de papel para se tornar uma mídia independente, com equipes próprias e autônomas. Este modelo de jornalismo agitou o mercado profissional. Repórteres e fontes passaram a ter contato mais assíduo no intuito de alimentar os sites com notícias em fluxo contínuo. A média de atualização dos sites noticiosos, hoje, é de quatro minutos".

O webjornalismo atrai cada vez mais os jornalistas e já exerce influência dentro das próprias escolas de Comunicação onde, já no primeiro ano, os futuros comunicadores criam sites de jornalismo online e, antes do quarto ano, já estão trabalhando regularmente para algum portal de internet, o que, naturalmente, significa um novo desafio para o próprio sistema de ensino superior, principalmente na área pública onde o sucateamento das instalações nem sempre permite ao professor contar com os recursos de software disponíveis no mercado. Surge, então, um hiato entre ensino e aprendizado que precisa ser preenchido, inclusive através da requalificação e atualização profissionais.

No documento apresentado à Intercom, a professora Zélia Leal também observa que o jornalismo digital está provocando profundas alterações na regulamentação do trabalho profissional. Ela registra experiências bem-sucedidas de jornalismo online citando entre as páginas web mais bem elaboradas do DF a agência de notícias do Senado Federal e a Agência Brasil (Radiobrás), através das quais é possível ter acesso a todas as informações relativas ao governo, aos serviços de cidadania, além do internauta poder fazer link com qualquer site da grande imprensa online.

A agência do Senado conta com cem jornalistas e divulga com rapidez e rigor os atos e decisões dos senadores, buscando eficiência cada vez maior, a ponto de já ter conseguido "furar" em três minutos à frente a agência Broadcasting, conforme Zélia Leal. Na outra agência oficial, da Radiobrás, uma equipe de jovens recém formados trabalha em rodízio de cinco horas, produzindo 300 notícias por dia que são reproduzidas pelos grandes jornais do país. As 30 notícias principais de cada dia são veiculadas em espanhol, inglês e alemão.

No que se refere à regulamentação do trabalho profissional, entretanto, os webjornalistas oficiais levam vantagem sobre os colegas que trabalham em sites privados onde a jornada pode se estender até 12 ou 14 horas, o que vem atraindo a atenção do Sindicato e das associações de jornalistas.

O trabalho revela que vem crescendo em Brasília – como ocorre em todo o país – o número de sites independentes, o que gera outro problema para as organizações de classe, pois qualquer pessoa pode fazer um clip de notícias da Web e colocar um site de jornalismo no ar sem ser jornalista, auferindo lucros como produtores de conteúdo, de forma ilegal.

Entre os sites especializados em jornalismo digital de Brasília, a pesquisadora cita o do jornal Correio Braziliense <www.correioweb.com.br> que tem uma equipe de 27 pessoas, das quais apenas sete são jornalistas. Também nesse site os intervalos de atualização são de três minutos. O material informativo é fornecido por agências nacionais e internacionais, por repórteres da redação-papel e pela própria equipe de webjornalistas. A equipe tem características multidisciplinares, contando com web designers, produtores de Internet, jornalistas, publicitários e equipe de vendas. O site conta com oito milhões de acesso/mês.

No webjornalismo, "o que se privilegia, em matéria de atualização imediata, são as notícias relacionadas com os grandes fatos sociais, políticos e econômicos que podem colocar em risco a estabilidade das instituições. Mas o que prevalece no tempo real são notícias econômicas de interesse do mercado financeiro", diz.

Para dar conta da atualização permanente desse fluxo de notícias, é preciso cumprir jornadas de trabalho "infernais", como descreve uma profissional do Valor Econômico que trabalha das 9h às 21h. Entretanto, as jornadas plenas são recompensadas com altos salários e uma imagem plenamente consolidada antes dos 30 anos, observa a professora, lembrando que o Sindicato não dispõe de dados sobre a idade média dos webjornalistas, mas estima-se que a maioria não passa de 30 anos.

A Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), órgão que agrupa todos os sindicatos de jornalistas do país, defende a jornada legal de cinco horas, bem como o cumprimento das convenções e acordos coletivos de trabalho (pisos etc) para os webjornalistas, tal como se dá no jornal de papel, prometendo se empenhar, também, no combate ao exercício ilegal da profissão.

É um desafio e tanto para a Fenaj, sabendo que o jornalismo digital vem atraindo um número cada vez maior dos oito mil jornalistas que as 120 faculdades de comunicação colocam no mercado todos os anos.

Em sua pesquisa, Zélia Leal informa que, segundo o American Journalism Review News, os EUA lideram o número de publicações online: sos 4.925 sites de notícias existentes até setembro de 1998, 3.622 pertencem a empresas de comunicação. Entretanto, no Brasil a audiência dos jornais online é maior: segundo dados do Ibope, pesquisa realizada em 1999 revela que 50% dos 25 mil internautas entrevistados afirmaram que navegam na Internet em busca de informações.

A pesquisadora conclui que os investimentos no webjornalismo mostram o interesse da grande imprensa em fazer da Internet uma aliada ao invés de tê-la como concorrente. Sobre o acelerado crescimento da rede, não há o que discutir. No momento, apesar da Internet estar apenas engatinhando entre nós, 9% dos brasileiros declaram que preferem a rede mundial de computadores para se manterem informados (o que não é pouco se levarmos em conta que para 160 milhões de habitantes nosso país produz menos de 7 milhões de jornais impressos por dia), segundo pesquisa do Datafolha, divulgada no 3º Congresso da Associação Nacional de Jornais (ANJ), em agosto último, no Rio.

Entretanto, do ponto de vista profissional, com tanta alteração no modo de produzir notícia, todos se perguntam sobre o papel do jornalista. Será que ele vai se tornar um chip de computador passando a escrever com o automatismo da máquina, com um texto frio, ciberneticamente distante do ser humano, da emoção, da vida? Como serão os futuros profissionais à medida que o jornalismo digital se desenvolve cada vez mais? A pressa de informar matará a apuração no ninho? Pode haver jornalismo sério, ético e correto sem apuração? Quais os novos modos de apurar com atenção e, ao mesmo tempo, passar a informação no tempo mais curto possível?

Alguém já perguntou se há vida depois da internet.

Recepção

A Teoria Estética da Recepção, em Jauss, mostra-nos a importância do receptor do discurso em qualquer processo. Todos sabemos que foi a cobrança dos leitores americanos a respeito de melhores esclarecimentos sobre as guerras na Europa que deram origem ao Novo Jornalismo nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX. Tratava-se de um jornalismo mais interpretativo, capaz de proporcionar ao receptor todas as nuances sobre as origens e as conseqüências do fato, em vez de ficar apenas no meramente informativo.

Ao longo do século o receptor do discurso jornalístico foi se tornando tanto mais seletivo e exigente, quanto maiores as opções de comunicação à sua disposição. Estudos revelam que um receptor de TV por assinatura, por exemplo, tem um nível de exigência superior ao do receptor de TV aberta. O leitor de jornais especializados é mais exigente que o leitor dos demais jornais. O consumidor de artigos opinativos e de editoriais cobra mais qualidade quando se vê exposto aos demais gêneros do jornalismo ou aos demais produtos da mídia. Isto é uma conseqüência natural do que a Teoria da Literatura chama de "horizonte de expectativa". Um conhecimento maior demanda um conhecimento maior, que, por sua vez, busca um conhecimento maior e assim por diante, de modo que este mesmo é o motor do progresso humano. A Teoria da Psicanálise vê contrapontos nessa "formulação binária" do progresso. Para Freud, é o apelo da Morte (Tanathos), de um lado, e o apelo da Vida (Eros), do outro lado, que impulsionam o homem para a frente enquanto ser pensante.

No que se refere ao consumidor de notícias – que é o tema deste tópico –, sabemos que o perfil do receptor do discurso jornalístico vem mudando drasticamente, de modo especial na última década. Cabe indagar, então, quem é o receptor-padrão do webjornalismo já que a Estética da Recepção nos aconselha a levar em conta o receptor como sujeito da informação – isto é, como determinante do próprio contexto produtor do discurso – se queremos ter êxito no processo de comunicação.

Se é verdade que a busca do conhecimento é um movimento contínuo no ser humano, também está correta a observação de Johnson (2.001) segundo a qual os jovens da geração do videogame tiveram maior facilidade em lidar com a internet, a ponto de aprenderem a lidar com o computador e com a web simplesmente mexendo nos controles e jogando fora os manuais, enquanto os velhos jornalistas das máquinas de escrever só a muito custo conseguiram aderir à nova mídia, ainda que com bastante insegurança e timidez.

É esse público constituído de jovens, os primeiros a se familiarizarem com a parafernália eletrônica do século XX – muitas vezes ensinando aos pais e aos professores como operar os sistemas – que forma o grande público receptor de informações no jornalismo online. Em todos os congressos realizados no país desde o surgimento da internet, em 1995, os estudos mostram que os jovens preferem a Internet para se manterem informados.

A pesquisa Datafolha divulgada no 3º Congresso de Jornais, no Rio, mostrou que 80% dos consumidores de notícias via internet têm menos de 40 anos de idade e 33% não passam dos 24 anos. Enquanto isto, 43% dos leitores de jornais de papel têm mais de 41 anos. Em média, são mais velhos que a população brasileira.

Nas cidades pesquisadas (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e Recife) 34% dos entrevistados disseram que acessam a Internet, o que dá um total de 5,4 milhões de pessoas. Deles, 30% entram na rede diariamente e 27% pelo menos uma vez por semana. Sua escolaridade é mais alta que a dos leitores de jornais de papel: 63% dos usuários da internet, contra 31% dos que preferem o papel, têm curso superior. Sua renda, também: 43% ganham mais de 20 salários mínimos por mês, contra 20% no caso dos jornais. Segundo o Datafolha, "o jornal impresso é preferido pelos mais velhos e menos escolarizados".

Por que o público jovem prefere a internet para se informar? A pesquisa Datafolha também responde a essa questão: em média 65% dos internautas lêem notícias na rede. Talvez porque 33% dos que se converteram ao jornalismo virtual e mesmo 30% dos que não largam o papel de cada dia acham que na Internet o noticiário é mais confiável. Ao mesmo tempo, 77% dos internautas e 68% dos leitores de jornais afirmam, na pesquisa, que encontram mais rapidamente na internet as notícias que procuram.

Também a variedade de assuntos é maior na rede, segundo 77% dos entrevistados. E 58% dos leitores de jornais concordam com eles. E quem pensa que é nos jornais de papel que o receptor consegue se aprofundar mais nos assuntos está totalmente enganado: 62% dos internautas acham que o hipertexto da internet é mais completo que as colunas do jornal. Aliás, 54% dos leitores de jornais concordam que a internet tem mais conteúdo, dando mais informação em menos tempo. Na verdade os leitores dos jornais de papel reclamam – conforme 57% dos entrevistados – que a mídia impressa dá espaço demais à economia e à política.

Pode-se concluir que não se pode comparar a internet como uma mídia eletrônica apenas. Ela não é como o Rádio ou a TV que precisam resumir o fato para transmiti-lo rapidamente em tempo curto, isto é, usando pouco espaço para a emissão não se tornar enfadonha. Na Internet, além das imagens atualizadas e até do som se for o caso, o receptor conta com várias "camadas" de texto que formam o hiperlink, possibilitando acesso a todo tipo de detalhe, a edições anteriores, a bancos de dados, a pesquisas de todo tipo, inclusive em outras línguas, de modo a poder confrontar a informação recebida da mesma maneira que o bom jornalista confronta, isto é, "checa" a informação recebida de suas fontes.

O fato de a maioria dos webjornalistas ser jovem – como vimos na pesquisa sobre o jornalismo digital de Brasília – e a comprovação da pesquisa Datafolha, indicando que são igualmente jovens os consumidores de notícias virtuais, estão a mostrar um universo de Produção (ou captação), Emissão (ou manipulação) e Recepção (ou leitura) do discurso jornalístico quase que paralelo ao "mundo real" dos leitores cinqüentões e sessentões que "assistem" ao show de tecnologia que vai tomando conta dos processos de comunicação, no exato instante em que se aguarda o ingresso da tecnologia digital também nos aparelhos de TV e até no cinema.

A evolução dos meios é vertiginosa. Enquanto o rádio demorou 38 anos para conquistar 50 milhões de usuários nos EUA, a TV aberta demorou 13, a TV a cabo levou 10 e a internet, apenas 5. Especialistas prevêem que os EUA terão 600 milhões de webfones em 2006. No Brasil haverá 58 milhões de webfones até 2005. A terceira geração de telefones celulares, o 3G, foi lançada este ano no Japão e até 2005 alcançará todo o planeta, através de 288 satélites, transmitindo dados digitalizados a uma velocidade 40 vezes superior à internet atual (Magnoni 2001).

Segundo o Ibope, mais de 14 milhões de brasileiros navegam, hoje, pela internet. Mas este número vai crescer muito, à medida que o computador vai sendo popularizado, com preços mais baixos e amplas facilidades de pagamento. Com o tempo a tecnologia prevê que a Internet será totalmente gratuita, à medida que vai conquistando os anunciantes que emigram da TV aberta. Outro fato determinante é a miniaturização dos equipamentos, permitindo ao internauta livrar-se do pesado volume formado pelo monitor de vídeo e pela CPU sobre a mesa do escritório doméstico ou comercial, podendo acessar a rede e as notícias a partir do carro, do ônibus, do avião, afinal, de onde quiser.

Mas o mais importante não é que o consumidor de notícias digitais pode acessar o webjornalismo. Enquanto na TV seu único instrumento de manipulação interativa era o controle remoto para "interferir" na programação, algo equivalente aos telefonemas e cartas-dos-leitores no contato com os jornais (e também com o rádio e a própria TV), agora o receptor da informação pode ser, ele próprio, um gerador de conteúdos, enviando informações por e-mail, criando sites especializados, ou até mesmo imprimindo em casa, a cores, as notícias que julgar do seu interesse ou do interesse de pessoas da família ou das suas relações comerciais, de amizade etc. É uma capacidade de interação muito mais expressiva, muito mais significativa, algo que chega a preocupar as entidades representativas dos jornalistas, como vimos, algo que pode comprometer a ética, pois se antes se dizia que "o papel aceita tudo", é o mesmo que se pode afirmar hoje, da internet, onde trafega também muito lixo, exigindo maturidade do internauta para que não consuma "gato por lebre". Uma orientação certa é procurar sempre os portais mais confiáveis, geralmente ligados a publicações e autores sérios, evitando material sem referência ou mesmo anônimo.

Ainda no que se refere ao posicionamento do receptor diante da internet, parece certo afirmar que o jornalismo online possibilita ao internauta exercer de forma plena a sua cidadania diante das possibilidades que tem de interferir na mensagem recebida, redirecionando-a por e-mail ou colocando-a em debate nos chats, ou enviando comentários a respeito ao próprio emissor do discurso recebido, bastando clicar no e-mail do emitente. Essa liberdade de se expressar confere novas possibilidades no exercício da cidadania plena.

Na aula inaugural do programa de pós-graduação da Faculdade de Artes e Comunicação-FAAC da Unesp/Bauru, em agosto último, o professor e consultor da CAPES, Wilson Gomes, discutiu a liberdade de expressão na internet, tratando-a como "uma forma de assegurar, ao cidadão comum, chances efetivas de intervenção na esfera da discussão pública, mais precisamente, uma forma de fazer com que ele valha como parceiro da disputa argumentativa sobre os negócios políticos comuns na esfera em que esses negócios deveriam ser decididos. Garantir liberdade para a expressão de cada indivíduo equivale a assegurar-lhe as possibilidades de sua existência como sujeito de direitos, como cidadão pleno".

Mas o professor também alerta para os deslizes éticos que se pode cometer através da livre manifestação do pensamento ou da liberdade de expressão, seja na Internet ou em qualquer meio, valendo dizer que a Internet não está imune às leis e aos imperativos de ordem moral que regem a convivência entre os homens, podendo o autor de crimes de imprensa responder perante a lei:

"Certas opiniões, livremente expressas, podem ser imorais, enquanto podem ser lesivas da dignidade de outros homens ou de qualquer das suas classes. Atenta-se contra a dignidade dos outros homens com o discurso ofensivo, a infâmia, a difamação".

Portanto, quando o receptor da informação a reutiliza repassando seus conteúdos para outros destinatários, ele pode incorrer – da mesma forma que o webjornalista – nos crimes previstos na Lei 5.250, a Lei de Imprensa. Afinal, a internet possibilita ao receptor da notícia transformar-se em emissor dela mesma em outras direções ou devolvendo-a ao autor com seus comentários especiais, bastando clicar nos ícones disponíveis no final do texto eletrônico, num processo de interação total e instantâneo.

Conclusão

Vimos neste trabalho que o modo de fazer, veicular e consumir notícias está mudando drasticamente na era do jornalismo digital e que essas mudanças desafiam os pesquisadores e estudiosos a encontrarem meios de analisar e discutir as novas linguagens, inclusive para adequar os centros de ensino superior no estudo dos novos paradigmas e na preparação dos futuros comunicadores.

Constata-se, na verdade, uma situação inusitada: ao mesmo tempo em que as estatísticas mundiais apontam para o envelhecimento da população – devido ao controle da natalidade e aos processos modernos de preservação da vida – também se observa que o webjornalismo é produzido por jovens – com uma linguagem adequada aos tempos modernos, isto é, de estilo ligeiro e de fácil entendimento – e igualmente consumido por jovens internautas que são os novos receptores do discurso jornalístico, jovens com boa formação intelectual, interessados em saber tudo sobre tudo do modo mais rápido e instantâneo possível, jovens que não concordam em esperar a edição de papel do dia seguinte para saber o que está acontecendo no mundo hoje - neste exato momento - jovens que têm pressa.

Segundo Brent Baker, reitor da Universidade de Comunicação de Boston-EUA, os 40 milhões de jovens americanos consumidores de notícias passarão a vida inteira usando a Internet para ler as notícias. "Esta é a primeira geração que não precisa de nós. Eles não lêem jornais (de papel)" disse Brent. Jovens de 18 a 20 anos concordam com o reitor. Eles reclamam de vários inconvenientes do jornal de papel que vão da tinta ao tempo que se leva para navegar num jornal impresso, comparando com um site da Web, que contém índices e é preocupado em orientar a seleção de leitura. "Internet é parte do meu estilo de vida, como comer, escovar dentes", disse um estudante. "Tudo se move tão rápido agora. Eu não tenho tempo para dormir, quanto mais para ler o jornal". Nos EUA um estudo prevê que 10 milhões de lares americanos terão conexão de banda larga até o final deste ano.

O embate das novas tecnologias, na área da informação, provoca choques naturais de opinião. Para uns a internet é a maior invenção desde a descoberta do fogo, enquanto outros pranteiam a morte da consciência mais lenta, mais introspectiva, da mídia impressa (Johnson 2001). Mas este é um debate que não ajuda muito quando se trata de utilizar a Internet como ferramenta essencial tanto para usuários tarimbados quanto para neófitos. Ela é um fato dos dias atuais e não há como ignorá-la como meio de acesso ao conhecimento e à informação. Mesmo os mais idosos acabam aprendendo a habitar os espaços-informação de vanguarda presentes na rede. "Após alguma aclimatação, a impressão de desorientação parecerá menos intimidante, mais um desafio do que um impedimento", estimula Johnson (2001), registrando, entretanto, a vantagem que os jovens levam na exploração destes mares nunca dantes navegados: "Já é possível ver essa atitude na meninada que cresceu com o videogame. Ela exibe certo destemor ao entrar no novo espaço-informação. Em vez de ler o manual, aprende os parâmetros de maneira mais improvisada, prática. Essas crianças aprendem fazendo, experimentando, e essa intrepidez vem do fato de terem decifrado o código de outros espaços digitais no passado".

A partir dessa constatação, seria curioso imaginar o potencial futuro da rede se hoje as crianças já lidam com o computador desde a mais tenra idade, substituindo o próprio videogame por ele, comunicando-se com os colegas de escola por e-mail, estudando com o computador, criando seus próprios sites, participando de fãs-clubes cibernéticos, lavrando protestos contra crimes ambientais, enfim, interagindo plenamente como cidadãos desde muito cedo. Os futuros internautas terão um potencial muito maior para melhorar não só a própria rede mas para mudar o mundo.

O mundo de possibilidades da internet não está aí para ser ignorado, mas para ser conhecido, aprendido, utilizado, dominado. No caso deste trabalho, trata-se de conhecer o potencial da rede no que se refere ao jornalismo digital.

Aprofundar estudos sobre essa nova realidade significa tentar compreender os novos paradigmas presentes no mundo da produção, emissão e recepção do discurso jornalístico. Muitas escolas de comunicação já contemplam, em sua grade curricular, a disciplina de Jornalismo Digital e não é preciso dar tratos à imaginação para compreender que muito em breve esse será um tema legalmente obrigatório em todas as escolas que queiram estar em dia com as novas tecnologias de informação. Pesquisando se verá que, talvez mesmo pelo fato da linguagem HTML ser tão recente, há vários problemas a serem discutidos e corrigidos em busca do aperfeiçoamento e da eficiência no jornalismo digital.

Para ilustrar esta conclusão, cabe citar, por exemplo, a pesquisa que o professor da Universidade Fernando Pessoa (Porto, em Portugal) Jorge Pedro Sousa apresentou no recente congresso da Intercom em Campo Grande. Ele organizou uma pesquisa entre estudantes brasileiros e portugueses, residentes em Portugal, sobre quatro jornais online do Brasil: O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, selecionados por serem considerados os jornais de informação de referência do Brasil. Tratava-se de testar as seguintes hipóteses: 1. Se os jornais online não aproveitam todas as potencialidades da Internet, então, provavelmente, a qualidade percebida desses jornais por usuários freqüentes da internet será reduzida; 2. Quanto menos os jornais online aproveitarem as potencialidades da internet, menos valorizados serão e, por conseqüência, menos vontade haverá, por parte dos usuários, de acessá-los novamente;3. Se os estudantes portugueses e brasileiros têm substratos culturais diferenciados, nomeadamente no campo mediático, então é provável que seja diferente a avaliação que fazem da qualidade dos jornais online.

Considerando que o jornalismo online está particularmente relacionado com conteúdos, design e navegação, a pesquisa incluía um inquérito específico sobre Conteúdo (qualidade dos conteúdos e sua adaptação à internet), Ergonomia (adaptação do sistema ao usuário) e Interatividade (possibilidade de interação do usuário com o jornal, os jornalistas e o meio).

Os resultados da pesquisa mostraram, segundo o professor, que o jornal Folha de S.Paulo apresentou conteúdos de melhor qualidade, sendo seguido por Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, sendo que a Folha era o único que possuía uma base de imagens. Tanto o grupo de estudantes brasileiros como o grupo de estudantes portugueses percebeu os jornais analisados como apresentando conteúdos de média qualidade, ficando claro que os dois grupos valorizam, em particular, os fatores atualidade, interesse, qualidade geral da informação e expressividade das fotografias. Ficou igualmente claro que as potencialidades da internet ainda são pouco aproveitadas pelos jornais digitais, e que isto os penaliza quanto à percepção de sua qualidade, uma vez que não são disponibilizados conteúdos audiovisuais e sonoros; há pouca informação de background, acessível, por exemplo, através de hiperligações; a redação não foi bem adaptada à internet.

No trabalho apresentado à Intercom, o pesquisador destacou as amplas possibilidades que a internet oferece aos que produzem e veiculam o jornalismo online, notadamente quanto ao hipertexto, que "tecnicamente é um conjunto de nós conectados pelas ligações, nós esses que podem ser palavras, imagens, gráficos, seqüências sonoras ou documentos que podem ser eles próprios hipertexto; funcionalmente, um hipertexto é um software destinado à organização de conhecimentos ou de dados, à aquisição de informações e à comunicação. Navegar num hipertexto é, portanto, desenhar um percurso numa rede".

Em relação à ergonomia de um sistema hipermídia, segundo o mesmo autor, trata-se de um conjunto de variáveis que podem otimizar ou dificultar a recepção das mensagens: "Os sistemas hipermédia devem ser pensados como uma sucessão de estímulos icónicos, textuais e sonoros orientados para o usuário... a qualidade do design de um sistema hipermédia se funda na organização visual, na facilidade de navegação, na intuitividade de funcionamento e na uniformidade visual...que joga (esta última) um importante papel no acesso aos conteúdos. A facilidade de navegação desenvolve a sensação de fluir (sensação holística de felicidade) pelos conteúdos e a uniformidade visual dinamiza os comportamentos orientados e regulares no seio do sistema hipermédia."

Jorge Pedro Souza ensina ainda que "a ergonomia do sistema hipermédia também se prende à capacidade de transmissão sincronizada de uma mensagem num meio multimédia e ao grau de economia de tempo do usuário que se consegue através, por exemplo, da economia de palavras, imagens e sons. Na internet está-se num (ciber)espaço de interatividade, num (ciber)espaço de liberdade, num modelo de comunicação que em potência é de muitos para muitos. Portanto, quando se avalia a qualidade de jornais on-line é preciso avaliar também a interatividade e a implicação do usuário com o sistema hipermédia. Esta categoria tem um papel decisivo na satisfação global do usuário, pois nos ambientes de intensa informação é através da interação pessoal e da interação com o meio que podemos criar a percepção de valor acrescentado".

Fazer jornalismo online sem explorar todos os recursos do hiperlink seria como fazer jornal de papel e remeter o leitor à enciclopédia sempre que precisasse consultar uma base de dados. O acesso amplo e facilitado ao hipertexto (que inclui links e sites interessantes sobre o assunto tratado) estimulará a interatividade do internauta que poderá emitir constante feedback, enquanto navega, através de e-mails para os jornalistas, para as fontes citadas, para outros usuários, inclusive redirecionando a mensagem ou utilizando chat-room.

Conferencista do mesmo congresso da Intercom, o professor doutor Adenil Alfeu Domingues, da Unesp/Bauru, lembrou que "o hipertexto foi criado pelo professor da Universidade de Keio, Japão, Theodor Holm Nelson, na década de 60, cujo princípio era a interligação de textos verbais, imagens, animações, cenários tridimensionais, exibidos não de modo seqüencial, mas de acordo com os interesses do leitor, conforme as possibilidades de caminhos oferecidos para acesso".

Adenil esclareceu, porém, que o projeto de Nelson nunca saiu do papel e que foi Douglas Engelbert quem materializou o sistema e apresentou ao mundo o NLS (On-Line System), conjugando texto, imagem e vídeo, permitindo ao usuário acessar dados de maneira não –linear. Assim surgia, por volta de 1990, a World Wide Web, o mais importante dos sistemas de hipertexto na internet, reunindo milhares de páginas interligadas por hipertexto que utiliza todos os recursos disponíveis de multimídia. Tais recursos permitiram o nascimento de um novo jornal, o jornal digital.

Ninguém sabe para onde ou até onde vai a internet e, conseqüentemente, o jornalismo digital. Mas, pode-se concluir com Sven Birkerts, citado por Johnson (2001): "Como nossa cultura está se tornando rapidamente eletrônica, somos cada vez menos o que éramos, uma sociedade de indivíduos isolados. Estamos correndo para entrar na rede, e o corolário natural disso é que a idéia de individualidade deverá ficar ameaçada...Com o tempo vamos todos viver, pelo menos em parte, dentro de uma espécie de consciência de rede... Nossos períodos de imersão subjetiva não perturbada serão cada vez mais raros, e podem até desaparecer por completo".

O espaço-informação é a grande realização simbólica de nosso tempo. Passaremos as próximas décadas nos ajustando a ele (Johnson 2001) mas se isto vai ser melhor ou pior para a humanidade é muito cedo para dizer. Afinal, já não se trata de uma tecnologia como a de cinco séculos atrás, transmitida pelos "impressores ambulantes" que difundiam pela Europa a invenção de Gutenberg, mas de uma parafernália de inovações que se renovam a cada dia surpreendendo-nos e maravilhando-nos nessa cultura da interface em que o Sr. Bill Gates é o Gutenberg dos nossos dias, sempre com ferramentas, janelas e ícones reluzentes cada vez mais poderosos para o jornalismo digital e todos os milhões de usos possíveis da Web.

Em matéria de tecnologia da informação, mesmo sabendo que os demais veículos continuarão tendo seu papel na mídia, considerando o potencial do jornalismo digital, por sua capacidade de produzir notícias com rapidez, com imagens, com acesso a ampla base de dados e mesmo com sons, podemos "navegar", jubilosos, com Camões, lembrando a cultura acumulada pela literatura universal ao longo dos séculos:

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandrino e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A que Netuno e Marte obedeceram,

Cesse tudo que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.

"Os Lusíadas", Canto I-3

(*) Professor-mestre de Jornalismo Comunitário na Unesp-Bauru. Email: <pedrocelsocampos@terra.com.br>



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