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REVISTAS
Lugares-comuns da internet
Rafael Evangelista (*)
As influências da popularização da internet para a sociedade e para as relações humanas ainda são incógnitas. A forma como a imprensa brasileira trata o assunto, porém, costuma oscilar entre as previsões catastróficas de que todos nos tornaremos seres "virtuais" inaptos ao convívio social e o deslumbramento com o progresso tecnológico: a agilidade no envio de informações, a interatividade, a "prosperidade" da economia virtual e coisas similares. Estas duas visões costumam estar presentes na maioria dos textos sobre o assunto, às vezes ao mesmo tempo.
O lançamento no mês de abril de um livro chamado Geração Digital, do canadense Don Tapscott, foi o motivo que levou as revistas Veja e IstoÉ a abordar o assunto. Veja (19/4/00), em seu suplemento Vida Digital, fez entrevista com Tapscott, em Nova York. Na entrevista, Tapscott afirma que a geração que é filha dos baby-boomers, a qual chama de "geração net", é, por causa de sua ligação com a internet, fundamentalmente diferente de seus pais com relação aos valores, aos ideais, ao modo como trabalham e como pensam o mundo. Segundo ele, esta geração será responsável por um mundo mais democrático e socialmente mais justo. Apresentado pela Veja como trabalho de um cientista social e consultor – na verdade ele é formado em Psicologia e Estatística –, o livro de Tapscott, entretanto, dá a impressão de estar mais para futurologia do que para trabalho científico. Ao que parece, o mérito do livro se resume a ser um best seller, e não um trabalho científico reconhecido. Veja, em vez de questionar as conclusões contidas no livro, faz perguntas que funcionam apenas como "deixas" para o autor.
Queda pelo estereótipo
A IstoÉ realizou um trabalho mais aprofundado. Com o título "Geração digital", buscou em sua reportagem exemplos de alguns pressupostos de Tapscott na realidade brasileira. A reportagem da IstoÉ entrevistou pessoas que trabalham ligadas à internet e outras que são apenas viciados na rede, não se pautando no lançamento do livro como seu assunto principal. Também ouviu especialistas brasileiros e do exterior, que puderam opinar sobre o futuro das relações humanas após a internet e se contrapor às opiniões de Tapscott. Em vez de simplesmente divulgar o livro do canadense, IstoÉ fez uma reflexão sobre o assunto, apesar de também utilizar-se de muitos dos lugares comuns relacionados ao tema. Chegou até mesmo a lembrar da dificuldade da internet atingir as camadas sociais mais baixas, utilizando-se, para isso, de uma declaração de Tapscott. Já Veja, na sua entrevista com Tapscott, simplesmente ignorou este problema tão caraterístico da realidade brasileira.
Os próprios jornalistas da IstoÉ parecem ter consciência dos lugares comuns quando o assunto é internet. Na conclusão da reportagem, afirmam: "Numa realidade cheia de nuances e ainda em construção, a visão boa e ingênua da rede, assim como a visão cínica e má, são apostas no escuro". Entretanto, no próprio texto estas duas visões opostas estão presentes, seja nas palavras dos jornalistas ou nas declarações transcritas dos entrevistados. Ao que parece, construir um texto que fuja destes estereótipos é uma tarefa difícil, o que não tira os méritos da reportagem da IstoÉ com relação à da Veja.
(*) Antropólogo
VIDA INTELIGENTE
O Globo
"Millôr online", copyright O Globo, 29/5/00
"Há quatro anos, quando o primeiro modem foi instalado num dos seus computadores, Millôr Fernandes estudou com cuidado a novidade. Revirou o Eudora e deu umas voltinhas no Netscape, mas não chegou a ficar propriamente empolgado com a coisa.
‘A Internet ainda não está pronta – disse aos amigos internautas. – Quando estiver, vou ficar sabendo. Ela vai chegar sozinha.’
E chegou mesmo. No começo pelo e-mail, ao qual resistiu enquanto pode, mas que hoje considera indispensável à sua sobrevivência; depois, através de um convite do UOL para que fizesse, lá, o seu website. Nos três meses de trabalho com os webmasters da Casulo, Millôr surfou muito e experimentou todas as misérias e delícias da vida online.
Sofreu com a insuperável telefonia carioca e com erros 404; mas deslumbrou-se ao perceber as infinitas possibilidades de comunicação oferecidas pela rede e, sobretudo, ao se dar conta de que era justamente para um veículo assim – interativo, multimídia e em tempo real – que ele, Millôr, havia sido projetado. E vice-versa.
– Aos poucos descobri que a Internet, essa oitava maravilha não sei de quê, foi inventada pra mim, – observa, com a autoridade de quem escreve, desenha, filosofa, faz música e poesia, e tem, como ninguém, a raríssima qualidade do bate-pronto: aconteceu, ele vai em cima. Isso não significa, é claro, que vá se transformar num escravo do meio: Millôr dando sopa online, disponível para papo, só em raríssimas (bota raríssimas nisso!) circunstâncias. – Tenho minhas próprias determinações e, ao mesmo tempo, vou me deixar levar pelos caminhos.
Mas, honra seja feita, ninguém vai precisar de chat para encontrar, a qualquer momento, algo de radicalmente diferente no Millôr Online – primeiro caso conhecido de portal de um homem só. Afinal, são (por enquanto!) mais de 40 mil itens, de frases à íntegra de peças para download, passando por desenhos, hai-kais, homenagens a amigos, vídeos e o que mais se imagine, distribuídos em 30 diferentes seções, como ‘Informações inúteis’, ‘Ecmenésia’ e ‘UOLpaper’ ou clássicos como ‘Fábulas fabulosas’ e ‘Perguntas cretinas’.
Pelo contrato com o UOL, o site deve ser atualizado duas vezes por semana, mas quem conhece Millôr sabe que essa periodicidade é um quesito apenas teórico. Ele simplesmente não vai resistir à tentação de usar a grande arma que a Internet lhe dá, a presença em cima do laço. A tal ponto isso é verdade que o próprio Millôr informa, logo na página de abertura: ‘Este site será atualizado às terças e quintas-feiras, ou a qualquer momento em edição extraordinária.’
Pensando nas mil possibilidades da rede, ele já planeja inúmeras novidades. Quer explorar as possibilidades oferecidas pelos arquivos de som e, eventualmente, inventar alguma coisa usando fotografia digital. É bom que se diga, aliás, que Millôr nunca usou uma máquina fotográfica na vida... Também estão no forno várias idéias para interatividade com o que ele chama de ‘teleitores’:
– A palavra, já acadêmica, é internauta – explica. – Prefiro, e vou usar, teleitor, mais moderna porque mais clássica: da mesma origem de telefone, televisão, telegrama e, o que todos somos, teleguiados."
PROVEDORES GRATUITOS
De todo tipo e qualidade
Roberto Góes Monteiro
Nunca uma mídia foi tão badalada como a www, erroneamente chamada de internet – esta é o substrato físico da primeira, que é virtual, não? Até pouco tempo era assunto apenas das revistas especializadas. Hoje, até a chamada "grande imprensa" parece fascinada pela novidade. As bancas estão cheias de revistas sobre a rede. Não tenho nada contra isto. Pelo contrário. Mas, dizer-se que quem não está na www está fora do mundo, é um exagero.
O que me preocupa é a criação dos recentíssimos provedores gratuitos. Existem com vários aromas e sabores, para qualquer gosto. Mas todos eles estão absolutamente abaixo dos padrões mínimos de prestadores de serviços. E são realmente gratuitos? Quem está na rede – fora o custo do computador, dos periféricos e da linha telefônica – normalmente paga a taxa mensal do provedor e a conta dos impulsos telefônicos. Para um "internauta" médio, a conta do telefone é geralmente superior à taxa do provedor pago. Quem paga os custos dos provedores gratuitos? Será que a publicidade nos sítios seria suficiente? Creio que não. Uma hipótese é que teriam fonte oculta de faturamento: o patrocínio das empresas de telefonia. Se essa afirmação é verdadeira, o serviço não é gratuito.
Outro fato me preocupa. No capitalismo, a meta é sempre o lucro. Como é possível a maior empresa de comércio eletrônico do mundo, a Amazon Books, ter grandes prejuízos por 5 anos? E suas ações chegarem a valer bilhões de dólares, mesmo depois das chuvas e trovoadas da Bolsa de Nova York. Será que o capitalismo está ficando burro? Não. O que tem valor é o nome da empresa, que pode custar mil vezes mais do que o capital imobilizado da empresa. Ou, então, a "teoria da bolha" é verdadeira.
Aqui no Brasil temos fenômeno parecido. Uma empresa de correio eletrônico foi vendida por 300 milhões. Era sabidamente ineficiente e mal planejada – teve de trocar o sistema operacional poucos meses depois de inaugurada. Se somarmos todo o seu equipamento, não valeria mais do que 2 milhões. Agora, um provedor gratuito – que tem de publicitários a jornalistas como executivos – está querendo se lançar na Bolsa de Nova York. Segundo algumas publicações, poderia valer 100 milhões de dólares! O serviço é absolutamente infame. Só escapa o cachorrinho mascote, que é lindo. Coitadinho, foi contratado por cachê milionário. E sofre a concorrência de coelhinho salário-mínimo...
E por onde anda a mídia? Faturando com a publicidade dos provedores gratuitos. Está ajudando a criar junto ao público consumidor o conceito de que sem Internet ele é um zero à esquerda. Não se vêm críticas abertas à má qualidade dos serviços. Nem a advertência de que ele, consumidor, é a massa de manobra para enriquecer rapidamente especuladores. Qual órgão da imprensa – de qualquer tipo – procurou investigar a verdadeira fonte de renda dos provedores gratuitos? Não está na hora de se abrir os olhos dos brasileiros?
ONLINE, OFFLINE
Melhores do que eles
Paulo Reis Aruca (*)
A propósito de nota neste Observatório sobre os jornais online, que estariam sendo "preenchidos pela metade e atualizados às pressas" e "mostrando-se incapazes de sustentar os mesmos padrões éticos de seus companheiros offline" ["A ética das e-notícias", sobre reportagem de Janet Kornblum no USA Today, 16/5/00].
Aponto-lhes um exemplo em São Paulo que destoa do estudo sobre jornalismo, de Janna Anderson e David Arant, ambos da Universidade de Memphis. Trata-se da Agência Interior, um veículo online <www.aginterior.com.br>, com o qual trocamos informações, baseado em Araçatuba, que desde abril retatra o cotidiano das principais cidades do Noroeste Paulista.
A Agência Interior contraria as informações dadas por 203 editores americanos à pesquisa referida na nota: 47% dos entrevistados "concordaram que a habilidade de publicar informações imediatas pelo sistema online levou a uma erosão nos padrões de verificação". Na Agência Interior, as matérias são completas e com inúmeras informações, inclusive com reportagens divididas em várias retrancas, como a que abordou novas invasões de terra, pelo MST, no Pontal do Paranapanema.
"37% disseram que seria mais fácil aderir a padrões éticos específicos se houvesse maiores equipes." A Agência Interior tem uma numerosa equipe de jornalistas, todos com qualidade profissional comprovada. Em sua maioria, oriundos do jornal Folha da Região, um dos mais conceituados veículos de mídia impressa do interior paulista. Na equipe também estão ex-jornalistas da TV Globo e de outras mídias de destaque na região.
"30% afirmaram que vias online não são tão favoráveis ao seguimento de padrões éticos gerais do jornalismo quanto os jornais tradicionais." A julgar pela atuação inquestionável, em seus empregos anteriores, os profissionais contratados pela Agência Interior devem contrariar também essa estatística.
(*) Jornalista, Jales, SP
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