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SPEEDY
Novas regras anulam
vantagens da conexão rápida

Adriano Ribeiro (*)

Já comentei em matéria publicada no Superdownloads as diversas desvantagens de assinar o Speedy, serviço de acesso rápido à internet da Telefônica. Trata-se de um produto que nasceu bom, mas que foi piorando aos poucos, devido às constantes mudanças de regras da empresa. A novidade é que agora somente é possível assinar o serviço concordando com planos que limitam, de maneira extremamente predatória à livre navegação, a quantidade de dados que poderão trafegar entre a internet e a sua máquina [ver remissão abaixo para o artigo "Banda larga com taxímetro", de Rogério Gonçalves].

No mês passado, vazou na internet documento confidencial destinado à área comercial da Telefônica com planos, objetivos e estratégias para vender o novo produto, com lançamento previsto no primeiro dia de setembro de 2003. Batizado de Relançamento Speedy, apresentava como principais novidades novas velocidades com novos preços, opção de venda do modem, planos de consumo e o lançamento de um novo serviço, o Speedy Zone, uma espécie de portal exclusivo aos clientes Speedy.

A assessoria de imprensa da empresa imediatamente tratou de desmentir o conteúdo do documento, alegando que as informações não eram procedentes, além de desatualizadas. Informou, também, que ainda não definira a data de lançamento dos novos serviços. Além disso, todos os sites que publicaram o documento, como o Abusar.org (Associação Brasileira dos Usuários de Acesso Rápido) receberam notificação extrajudicial em nome da Telesp, exigindo que fosse retirado imediatamente do ar.

Pagando pelos chatos

Menos de um mês se passou, e o novo Speedy já é realidade para todos há pelo menos uma semana. Ainda não há informação sobre o que vai acontecer com quem já é assinante, mas provedores como o UOL agora somente fornecem acesso ao Speedy baseado nos novos planos. Banda ilimitada para novos assinantes, nunca mais... Mas o que há de tão absurdo nas novas regras? A resposta é muito simples: elas simplesmente anulam as vantagens da conexão rápida. Por que é o que veremos a seguir.

Os novos planos de consumo estabelecem limites contratuais que controlam o tráfego, ou seja, tudo o que entrar ou sair de seu computador é medido byte a byte e, se esses limites forem ultrapassados, implicam cobrança adicional. Para o usuário do plano mais básico, agora com a nova velocidade de 300 Kbps, esse limite foi estabelecido em 3 GB por mês, podendo chegar a 15 GB nos planos de maior velocidade (e mais caros).

Na prática, quem tem acesso à internet rápida optou por esse serviço justamente por não agüentar mais downloads demorados e acesso a conteúdos streaming multimídia com os engasgos inevitáveis das linhas telefônicas convencionais. Agora, tudo isso vem um pouco mais rápido, mas de forma extremamente comprometida. Pode significar também acabar pagando por tráfego gerado por vírus ou programas que tentam invadir sua máquina, por aqueles e-mails intermináveis que alguns amigos insistem em enviar, por apresentações insuportáveis em flash, ou por janelas de propaganda chatas que insistem em aparecer em sua tela durante a navegação.

Cálculo interessante

Com a popularização de softwares como Napster, Morpheus, Kazaa e eMule, os internautas descobriram que é possível trazer para seus computadores todo tipo de novidade, como filmes geralmente codificados em DivX. Você faz uma pesquisa e descobre que 10 novos e bons filmes foram lançados. Beleza! Com sua "poderosa" conexão rápida, poderá baixar e assistir a todos eles, aumentando ainda mais o prejuízo das videolocadoras, certo? Errado! Um único filme ocupa no mínimo 650 MB, o que significa limitar o internauta a baixar somente quatro filmes por mês (sobrando ainda 472 MB) quando, no sistema antigo e sem limitações, era possível, em teoria, baixar 120 filmes, se o computador ficasse ligado e baixando os arquivos 24 horas por dia. Claro, provavelmente ninguém conhece alguém capaz de baixar 120 filmes num mês, mas o simples fato de poder fazê-lo se resume a uma única palavra: liberdade! A mesma liberdade que está sendo retirada dos novos assinantes do Speedy.

Receber e enviar 5 MB de e-mail por dia, o que não é nenhum absurdo, consome 150 MB ao mês. Jogar online pode significar uns 30 MB por hora. Assistir a uma transmissão ao vivo ou utilizar a webcam, até 50 MB por hora. Baixar um arquivo Mp3, uns 4 MB. Baixar o jogo America’s Army: Operations Recon 1.9 significa gastar 604 MB... Vá fazendo as contas, ou utilize um software como o DUMeter para observar o tráfego gerado por sua máquina durante a navegação: você descobrirá que 3, ou mesmo 15 GB, não são nada. Talvez seja demais apenas para quem utiliza pouco a internet, o que é cada dia mais raro.

Mas observemos um cálculo interessante. Quem pode acessar a internet de madrugada sabe que é cobrado apenas um pulso telefônico por ligação entre meia-noite e 6h. Se alguém realizar downloads em tempo integral nesse período totalizará cerca de 80 MB por madrugada. Como há 30 madrugadas num mês, isso significa 2,34 GB. Mas nos fins de semana também é cobrado um pulso por ligação entre 14h de sábado e 6h de segunda-feira, o mesmo valendo para feriados nacionais. Sendo assim, há ainda mais 112 horas por mês de pulso quase grátis, o que significa mais 890 MB, totalizando 3,2 GB. Conclusão: como há uma franquia de 100 pulsos por mês, acessar a internet por linha discada utilizando somente os horários "livres" permite baixar mais dados do que o "poderoso" Speedy, e por valor inferior.

Só resta rezar

A empresa ainda poderia tentar justificar os novos planos de consumo alegando que a maioria subsidia a minoria, gerando preço injusto. Isso significa que pessoas que usam a internet apenas para ler e-mails e notícias ou bater papo em chats pagavam a mesma quantia que os heavy users, que ficam baixando tudo o que vêem pela frente 24 horas por dia: filmes, jogos, programas, Mp3 e o que mais a internet tem de bom a oferecer. Mas será que os preços baixaram significativamente nos novos planos para quem utiliza pouco a internet? Ou será que apenas aumentaram para os heavy users?

Gozado isso acontecer justamente quando a empresa resolveu investir na internet gratuita via acesso discado, através do provedor i-Telefônica. Será que esses usuários que acessam gratuitamente não geram tráfego e custos? Será que os usuários do Speedy não estão pagando para que os usuários de modems convencionais acessem à internet, e gerem mais pulsos em suas contas telefônicas? São perguntas de difícil resposta...

E o Speedy nem é tão rápido assim. Em Goiânia e outras localidades é possível contratar serviços que oferecem velocidades de até 1 Mbps por preços realmente acessíveis, e sem franquia. É realmente uma pena que isso ainda não tenha chegado a São Paulo, mas certamente a concorrência saberá aproveitar essa mudança de postura da telefônica, captando qualquer assinante Speedy que tenha respeito por si mesmo. Aos antigos assinantes, só resta rezar para que a empresa assuma postura decente, não alterando as regras para os usuários existentes.

(*) Diretor de conteúdo (http://www.superdownloads.com.br)

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Banda larga com taxímetro – Rogério Gonçalves

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