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ASPAS
INTERNET EM CRISE
Ethevaldo Siqueira
"Surrealismo levou ao fim da bolha", copyright O
Estado de S. Paulo, 17/06/01
"Quais foram as verdadeiras razões que conduziram ao fim da bolha da Internet e à queda das ações da Nasdaq? O que teria acontecido com empresas como a Cisco, a Amazon, PSINet ou Yahoo? E com praticamente todos as gigantes das telecomunicações, como Nortel, Lucent ou Alcatel?
Mais do que os grandes projetos de telecomunicações, essas foram algumas das questões mais debatidas entre os especialistas que participaram na semana passada da Supercomm 2001 - o maior evento de telecomunicações dos EUA.
Depois de ouvir alguns gurus e líderes da indústria de tecnologia da informação, aí incluídos analistas da Webmergers.com, arrisco minhas conclusões.
O surrealismo - Começo pelos negócios surrealistas desencadeados pelas empresas pontocom. Aliás, nunca um provérbio caipira - ‘Quem chega primeiro bebe água limpa’ - foi tão verdadeiro para retratar essa fase gloriosa da bolha da Internet.
Um dos casos mais incríveis foi o de Michael Barach, sócio principal da empresa Reel.com, uma loja de vídeo online que levantou US$ 7,5 milhões de capital de risco e apostou tudo num negócio maluco: comprar cópias no atacado do filme Titanic, então megassucesso, logo após o lançamento em vídeo, pagando US$ 15 cada fita, para revendê-las a US$ 9,99 cada uma. As vendas estouraram mas, em poucos meses, a empresa estava às portas da falência porque perdia US$ 600 mil por semana. Exatamente nesse momento aparece a Hollywood Entertainment, uma empresa interessada em comprar por US$ 100 milhões a Reel.com - então conhecida nacionalmente nos EUA entre quase 1 milhão de clientes cadastrados.
Eis aí: Michael Barach ousou, chegou primeiro, bebeu água limpa, ficou rico e caiu fora dos negócios virtuais. Mesmo sem ter nenhum plano consistente para apoiar a estratégia quase suicida, ele confiou apenas em sua intuição.
Numa entrevista, explicou que havia planejado o negócio com a certeza inexplicada de que, no último minuto, iria vender a empresa por mais de US$ 7,5 milhões e, com isso, lucrar uns trocados. ‘Nunca sonhei que o lucro pudesse chegar a US$ 92,5 milhões. Não me peçam para teorizar. Tudo que sei é que ganhei muito dinheiro com o negócio.’
Na grande onda da Web, outros portais e provedores cresceram com menor risco, sem loucura, mas foram beneficiados pelo entusiasmo de boa parte do público ávido por descobrir a Internet ou, simplesmente, por obter um endereço de e-mail pelo menor custo possível. No Brasil, os dois melhores exemplos foram o da Zip.net e o IG. Marcos Morais, por exemplo, vendeu por US$ 350 milhões o Zip, que contava com mais de meio milhão de assinantes cadastrados, embora tivesse investido menos do que um décimo do preço obtido.
Enchendo a bolha - Enquanto a bolha se espandia a um ritmo jamais experimentado na economia mundial, as vendas dos maiores fornecedores de software e sistemas - entre os quais Cisco, Sun Microsystems, Nortel, Lucent ou Alcatel - explodiam, chegando a níveis nunca sequer sonhados. Mas, com o naufrágio de milhares de provedores pontocom, dois fenômenos começam a infernizar a vida dos grandes fornecedores. O primeiro deles é a inadimplência de milhares de clientes pequenos e médios.
Em segundo lugar, a queda violenta das vendas. Em terceiro: o mercado se inunda de equipamentos e os preços se aviltam pois a maioria dos clientes inadimplentes, antes de quebrar, vende a preço de banana seus roteadores e switches (equipamentos de comutação e transmissão).
Com isso, as ações de alguns desses fabricantes despencam a menos de um décimo do valor de um ano atrás.
A loucura da 3G - Os leilões para vendas de licenças para operadoras da futura terceira geração do celular (3G) na Europa e em outras partes do mundo absorveram quase US$ 150 bilhões no ano passado. Na Inglaterra, o governo arrecadou US$ 35 bilhões com esses leilões. Na Alemanha, US$ 46 bilhões. Como a 3G parece não se tornar realidade antes de 2004 nem suas perspectivas de rentabilidade se mostram animadoras, esses grupos investidores (entre os quais Vodafone, Deutsche Telekom, Telia, Telecom Italia ou NTT-Do-Co-Mo) tentam hoje reescalonar seus compromissos na liquidação daqueles lances de bilhões de dólares. Enquanto isso, reduzem suas encomendas, passando a comprar menos de empresas como a Lucent, Nortel, Alcatel, Siemens, Ericsson, Cisco ou Motorola.
Andy Grove, presidente da Intel, em entrevista de capa da revista Wired deste mês, mostra que chegou a hora do realismo. Sua advertência central: ‘Acreditem na Internet, mais do que nunca.’"
E-BOOK
Carlos Alberto Montaner
"Adeus aos livros", copyright O Estado de S. Paulo,
17/06/01
"Nasci, cresci e envelheci entre livros. Poucos meses atrás, ao mudar de escritório, vi-me obrigado a doar uns 8 mil títulos a diversas bibliotecas. Não foi um ato de generosidade, mas de desespero: não tinha onde colocá-los. Mas não foi fácil. Gosto do cheiro dos livros, do contato com o papel e da estranha vida que eles dão aos cômodos e corredores. Sabia que jamais voltaria a abrir 95% desses livros, mas estavam ali, nas prateleiras, dispostos a servir-me a qualquer momento, e isso sempre conforta. Aliás, há mais de 30 anos, quando cheguei à Espanha, exilado, para ganhar a vida escolhi a profissão de editor. Era uma forma de misturar prazer e trabalho.
A declaração anterior tem um propósito muito claro. O que se segue foi escrito com bastante melancolia: os livros, como os conhecemos, estão acabando. Sei que no ano passado, só na Espanha foram editorados ou reeditados 62 mil títulos, mas isso não muda as coisas. É o canto do cisne.
Os livros de cartão, papel e tinta estão em sua etapa final. Serão substituídos pelos e-books. O que é isso? É uma tela leve, do tamanho e espessura de um livro convencional, que se alimenta de cartões eletrônicos capazes de conter uma assombrosa quantidade de informação. Em vez de empilhar - por exemplo - os 128 tomos da obra de Balzac numa estante empenada pelo tempo, todo esse material, ‘digitalizado’ num CD-ROM do tamanho de um cartão de crédito, é inserido numa ranhura do e-book.
Aperta-se um botão e na tela surge um índice. Seleciona-se La Piel de Zapa ou Eugenia Grandet e aparece a primeira página. Quando se termina de lê-la, aperta-se um botão e se passa para a segunda ou para a 20.ª. Ou se volta à primeira. Com outro botão se podem fazer anotações, como em qualquer agenda eletrônica.
E até se pode ler à noite, deitado, sem acender a luz: basta a iluminação da tela. Uma biblioteca de 20 mil volumes pode ser arrumada numa prateleira de um metro de comprimento por 20 centímetros de largura. Contra essa imensa facilidade tecnológica, expressa em preço e espaço, não há amor ao livro capaz de resistir à investida.
Não é a primeira vez que o hábito de ler é sacudido por mudanças bruscas.
Durante séculos, os seres humanos escreveram em rolos, sobre folhas maceradas de papiro. Quando os egípcios - grandes produtores de papiro - proibiram a exportação desse material ‘estratégico’ para certas cidades gregas, uma delas, Pérgamo, começou a curtir a pele dos carneiros para destiná-la a esse mister. Surgiu o pergaminho. Várias centúrias mais tarde, no século 4.º d. C., começou a popularizar-se outra forma de leitura: os códices, quase sempre escritos sobre pergaminho e encadernados como nossos livros. Houve então nostálgicos amantes dos rolos que quiseram resistir à inovação dos códices, mas as vantagens para a cópia, o transporte e o armazenamento dos novos livros eram imbatíveis. Para isso contribuiu também um inesperado fator psicológico: como os códices coincidiram com a expansão do catolicismo, os rolos foram associados aos costumes pagãos. Isso contribuiu para liquidá-los.
A revolução seguinte ocorreu no século 8.º. As tropas árabes entraram em Samarcanda, então território chinês, e passaram pelo fio da faca quase todos os varões, mas deixaram vivos dois, que haviam despertado a curiosidade dos chefes. Eram os capatazes de uma estranha fábrica que transformava lã numa substância sobre a qual se podia escrever: era o papel, o nosso papel.
Desmontaram a maquinaria e a levaram com eles. Foi um alívio. Para copiar o Alcorão sobre pergaminho era necessária a pele de cem carneiros.
Quando Gutemberg aperfeiçoou a imprensa de tipos móveis - conhecida pelos coreanos 500 anos antes -, a indústria do papel já era importante na Europa.
Houve muita resistência à invenção do alemão por parte dos copistas, e principalmente da Igreja, que viu reduzir-se sua renda, pois uma das formas de obter indulgências para os defuntos era encomendar aos conventos - e pagar-lhes por isso boas quantias - cópias de belos livros religiosos, mas as vantagens que trazia o artefato eram impossíveis de derrotar. Em uma geração, todas as cidades européias de porte médio já tinham imprensa. Os velhos leitores, amantes dos textos manuscritos, queixaram-se com amargura da produção industrial, plebeiamente uniforme, mas o preço e a rapidez acabaram se impondo: os livros ficaram 20 vezes mais baratos.
Estamos numa nova era. A expressão cunhada ‘galáxia de Gutemberg’ - o mundo surgido da revolução da imprensa - dará lugar à ‘galáxia dos e-books’. A substituição da velha forma de ler durará várias décadas, mas paulatinamente se irá impondo. A venerável Enciclopédia Britânica - 30 volumes de informação precisa -, que me deu de comer quando eu era estudante e a vendia de porta em porta, já não é impressa. É consultada por meio da Internet. É virtual. Como quase tudo neste milênio que começa. (Carlos Alberto Montaner, jornalista e escritor cubano, é co-autor do livro Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano)"
QUALIDADE NA NET
Robson Pereira
"As reinações de Monteiro Lobato na Internet",
copyright O Estado de S. Paulo, 14/06/01
"O brasileiro tem dedicado cerca de 486 minutos do seu tempo livre mensal conectado à Internet. São quase 6 milhões de pessoas que permanecem em média oito horas em casa, na frente de um computador. É um número considerável. Dá algo em torno de 34 bilhões de minutos de conexão e muitos milhões de dólares debitados anualmente na conta telefônica do UAI - o tal Usuário Ativo da Internet.
Para o perfil do brasileiro, é prematuro afirmar-se quanto deste tempo seria dedicado à novela das oito ou à leitura de um bom livro não fosse a Internet. Até porque, ao contrário do que se apregoava até recentemente, o internauta continua lendo jornais e revistas, assinando TV a cabo e indo ao cinema. Não se isolou nem foi tragado pelos fantasmas do mundo virtual.
Os números mais recentes sobre o comportamento do usuário diante de uma tela de computador apontam nessa direção. O de sites que simplesmente deixaram de existir nos últimos meses, também. Com a melhoria dos serviços, tarifas telefônicas mais baixas e a ampliação da banda larga, é possível que o usuário se torne mais seletivo ainda, fazendo com que a oferta de conteúdos de boa qualidade aumente na mesma proporção.
A separação do joio do trigo virtual ocorre naturalmente. Basta comparar o conteúdo que existia na Internet há quatro anos com o que existe hoje. Uma boa dica para isso seria pesquisar, em um bom site de buscas, quantas vezes um determinado tema aparece disponível na Internet brasileira. A consulta que acabei de fazer revelou, por exemplo, quase 14 mil referências a Monteiro Lobato.
Refinei a pesquisa e alguns minutos depois, estava de posse das resenhas dos 23 livros escritos por Lobato. Um pouco mais de paciência e descobri um site que chega ao requinte de apresentar os perfis psicológicos dos sete personagens fixos criados pelo escritor. Teria parado por aí, não fosse um curioso despacho do administrador da Casa de Detenção de São Paulo.
‘Liberdade em 20.06.41 de conformidade com os dizeres do ofício de 20.06.41, do dr. delegado de Ordem Política e Social e conforme os dizeres do telegrama nº 2.237 expedido pelo juiz-presidente do Tribunal de Segurança Nacional, visto haver sido, por decreto do exmo. sr. dr. presidente da República, datado de 17.06.41, indultado do resto da pena de seis meses de prisão celular que lhe foi imposta pelo delito contra a Segurança Nacional.’
A julgar pelo tempo que permaneci conectado e pelo volume de informações que recolhi, fica a impressão de que Monteiro Lobato influenciará as próximas estatísticas da Internet brasileira.
Confissões e pecados virtuais
O Vaticano está concluindo um documento para deixar mais clara a sua posição em relação à Internet. Alguns pontos parecem consensuais: a Igreja considera que a Internet apresenta mais pontos positivos do que negativos e que pode ser uma eficiente ferramenta de evangelização, principalmente nas sociedades que dificultam a prática religiosa. Mas não quer nem ouvir falar em confissões ou perdões on-line.
Pelo sim, pelo não, pode ser um alerta a determinados sites que têm avançado um pouco neste terreno, como o www.theconfessor.co.uk, que simula todo o rito confessional e dá ao usuário a opção de confessar seus pecados silenciosamente ou digitando-os em um formulário próprio. A penitência virtual imposta varia, de forma aleatória, sem levar em conta a intensidade do pecado confessado.
Por falar em sites religiosos, o www.catolicanet.com.br oferece aos seus usuários um serviço original: acender velas virtuais, em ação de graças alcançadas. Na segunda-feira, 174 velas estavam ‘acessas’ no site. O endereço também oferece um noticiário atualizado sobre fatos e personagens ligados à Igreja Católica no Brasil e no mundo.
Espertalhões Pelo visto, tem alguns picaretas nos Estados Unidos de olho nas regras definidas pelo governo brasileiro para o racionamento de energia elétrica.
Nos últimos dias, têm circulado entre internautas brasileiros um e-mail oferecendo um certo ‘guia secreto de medidores de serviços públicos’. Na prática, o tal guia se propõe a ensinar truques para fazer com que o relógio que mede o consumo de energia elétrica passe a girar em sentido contrário, ‘proporcionando uma fantástica economia na sua despesa mensal’.
Para conseguir o tal manual secreto, tudo que o consumidor brasileiro precisa fazer é enviar um cheque para uma caixa postal em Los Angeles. A cara-de-pau do anônimo vendedor, pelo visto, não tem limite, a julgar pelo parágrafo final da mensagem. ‘Observe que esta informação em si é perfeitamente legal, embora o uso de algum serviço contido nela possa ser caracterizado como ilegal.’ Na dúvida, o espertalhão sugere que o interessado consulte ‘as leis locais’.
Download gratuito pode ser isca
Por enquanto, não há notícias de que esteja acontecendo por aqui, mas convém prestar atenção no alerta feito nos Estados Unidos por entidades de defesa do consumidor: baixar software gratuito na Internet pode sair bem caro. De acordo com a Liga de Defesa do Consumidor, tem crescido o número de queixas de pessoas que foram atraídas por sites arapucas e acabaram surpreendidas com o tamanho da conta telefônica.
A fraude funciona assim: alguém está conectado à Internet por meio do seu provedor habitual - portanto pagando o custo de uma ligação local - e acaba atraído por uma oferta de vídeo (normalmente de sexo) ou mesmo um aparentemente inofensivo game. Ao começar o download, surge um aviso de que a conexão foi interrompida e que é preciso clicar em ok para reiniciá-la. É aí que a fraude ocorre, pois a nova conexão é feita em um servidor localizado em outro País. Vários minutos depois, o download é concluído e a conexão encerrada. Você ganhou o vídeo e uma bela conta telefônica.
Voluntário premiado
O Portal do Voluntário (www.portaldovoluntário.com.br) está na final do Stockholm Challenge Award 2001 (www.challenge.stockholm.se), uma versão eletrônica do Prêmio Nobel, destinado a premiar iniciativas na área de Internet em todo o mundo. Este ano, 742 projetos de 90 países foram analisados pelos jurados. Na primeira fase, 27 sites brasileiros foram pré-selecionados, mas, na relação dos 100 finalistas divulgada na semana passada, ficou apenas o site criado em parceria entre a Rede Globo e o Programa Comunidade Solidária. Os vencedores em cada uma das sete categorias serão conhecidos em setembro, em Estocolmo."

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