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JORNALISMO & INTERNET
Ciberespaço e mutações comunicacionais
Dênis de Moraes (*)
Segunda e última parte deste ensaio. Clique em TEXTO ANTERIOR, no pé desta página, para ler a primeira parte da matéria. Grifos em vermelho da redação do OI.
4. A ética por interações
Uma das pedras angulares da internet reside no fato de constituir uma esfera pública não-sujeita a regulamentações externas. Os estatutos éticos das comunidades virtuais se esboçam no interior de seus cosmos produtivos, por motivações cooperativas e coordenações de qualidades e vocações individuais. Os códigos informais de conduta não provêm de fora, das instâncias de poder; devem ser aceitos por consenso e adaptados às práticas e tradições dos grupos.
A inexistência de um comando central não impede que as coletividades construam suas estruturas de conhecimento. Perde vigência aquilo que conceituamos como o universal totalizante: o mundo da produção massiva e da distribuição estandardizada, onde cada indivíduo é percebido como unidade consumidora, sob a mira de pesquisas mercadológicas, sondagens de opinião e curvas estatísticas. As comunidades virtuais reorganizam, a todo instante, as massas de dados disponíveis online, por conexões transversais e interativas.
Na órbita da rede mundial de computadores, flutuam instrumentos privilegiados de inteligência coletiva, capazes de, gradual e processualmente, fomentar uma ética por interações, assentada em princípios de diálogo, de cooperação, de negociação e de participação. A ciberética infiltra-se nos grupos e listas de discussão, conferências eletrônicas e chats. Essas constelações de células independentes ou interdependentes ultrapassam fronteiras institucionais, geográficas e socioculturais, intercomunicando-se em vários idiomas, nacionalidades, raças e níveis de escolaridade [sobre grupos de discussão e comunidades virtuais, ler: Howard Rheingold. Les communautés virtuelles. Paris: Addison Wesley-France, 1995; Sherry Turkle. Life on the screen: identity in the age of Internet. Nova York: Touchstone, 1997].
Na ausência de uma ordem totalizante, pessoas, grupos ou entidades movem-se na web de acordo com seus valores e conveniências, consignados em escolhas individuais ou comunitárias. Os usuários formam comunidades autônomas, de tamanhos substantivos e predispostas a respostas a estímulos associativos. Devemos percebê-las como moléculas e partículas que inscrevem valores, em um campo aberto à repartição de gostos e aspirações.
O diferencial da internet consiste no fato de que as comunidades virtuais, enquanto corpos orgânicos, definem e objetivam valores éticos e códigos informais de conduta. Tais regras não provêm de fora, das estruturas de poder; devem ser aceitas por consenso e adaptadas às práticas e tradições dos grupos.
A singularidade de disponibilizar, em qualquer espaço-tempo, variadas atividades e expressões de vida, sem submetê-las a hierarquias de juízos e idiossincrasias, gera outro fenômeno sociocultural. Aprofundam-se na internet as experiências de defesa da cidadania e dos direitos humanos, de promoção de valores éticos e de revalorização da sociedade civil como espaço político.
O ciberespaço veio dinamizar esforços de intervenção de movimentos sociais e organizações não-governamentais (ONGs) na cena pública. No ciberespaço, as ONGs credenciam-se a produzir manifestações em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estarem presas a um lugar ou tempo em particular. Nessa perspectiva, as entidades compõem redes de organismos independentes ligados por aparatos tecnológicos, com o objetivo de repartirem competências, recursos e custos. As entidades civis valem-se da internet enquanto canal público de comunicação, livre de regulamentações e controles externos, para disseminar informações e análises que contribuam para o fortalecimento da cidadania e para o questionamento de hegemonias constituídas.
A internet oferece ao ativismo novas ferramentas de intervenção, como as campanhas virtuais, o correio eletrônico, grupos de discussão, fóruns, salas de conversação, boletins, manifestos online, murais, anéis de sites e árvores de links. É uma arena complementar de mobilização e politização, somando-se a assembléias, passeatas, atos públicos e panfletos. Um exemplo dessa junção de possibilidades: algumas ONGs reproduzem em seus sites as matérias de seus jornais impressos, às vezes com traduções em ou dois idiomas. O veículo convencional continua válido e necessário; o que se pretende é ampliar a circulação junto a entidades correlatas do mundo inteiro, a custo baixo – algo impensável em qualquer outro veículo, pelas despesas astronômicas [sobre os movimentos sociais na Internet, ver Dênis de Moraes. O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p. 125-148].
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Brasil, considera que a internet proporciona à causa da reforma agrária "um amplo canal de comunicação com a sociedade". Mas nem por isso deixou de imprimir, mensalmente, 1 milhão de exemplares de seu jornal Sem Terra. Com quatro páginas e em cores, o periódico é distribuído nos acampamentos pelo país, aonde a Internet ainda não chegou, e nos meios sindicais, estudantis, políticos e intelectuais. A homepage do MST (www.mst.org.br) registra objetivos, posicionamentos e comunicados, ampliando consideravelmente o noticiário mais imediato e condensado do jornal, a um custo bem inferior.
A organização em rede aproxima indivíduos e agrupamentos que compartilham visões de mundo, sentimentos e desejos. Para Jésus Martín Barbero, as redes se distinguem como "lugares de encontro" de múltiplas minorias e comunidades marginalizadas ou de coletividades de pesquisa e de trabalho educativo e artístico. "Nas grandes cidades, o uso de redes eletrônicas está permitindo construir grupos que, virtuais em seu nascimento, acabam se territorializando, passando da conexão ao encontro, e do encontro à ação" [Jésus Martín Barbero. Comunicación y solidariedade en tiempos de globalización. Conferência no 1º Encontro Internacional de Comunicadores Católicos (2001), disponível em www.jmcommunications.com/spanish/barbero.html].
Os chamados à participação individual e coletiva ultrapassam barreiras geográficas, atropelam fusos horários e desconhecem grades de programação. Os intercâmbios tornam-se rápidos e acessíveis. O ciberativismo alicerça campanhas e aspirações à distância, no compasso de causas que se globalizam (combate à fome, defesa do desenvolvimento sustentável, preservação do equilíbrio ambiental, direitos humanos, luta por um sistema de comunicação pluralista).
5. Cibercidadania e liberdade de expressão
A ausência de ditames governamentais é decisiva para a internet consolidar-se como canal planetário de informações e idéias. Implica protegê-la de comandos centrais e de estatutos regulatórios que afetem a sua autonomia. Significa empenhar forças para que ela se localize fora do raio de alcance de direções morais e aprisionamentos de qualquer espécie, notadamente aqueles ambicionados pelas estruturas de poder discricionárias. Significa, em suma, recusar qualquer camisa-de-força que sufoque a sua extraordinária gama de diversidades.
Críticos moralistas agarram-se à convicção de que o caos da internet dispensa responsabilidades individuais e grupais, estimulando a permissividade. Mas é o caso de indagar: como esperar uma pureza infinita, se a sociedade contemporânea está permeada de abusos insuportáveis por metro quadrado (desemprego estrutural, brutal concentração de renda, iniqüidades sociais, corrupção)? Por que a internet, sendo uma projeção da inteligência humana, com interfaces cada vez mais próximas entre as mentes e as tecnologias, deveria ser exceção?
É claro que eventuais abusos, atitudes deletérias (insultos, pornografias e intromissões descabidas) e delitos que comprometem o exercício da cibercidadania precisam ser barrados e punidos. Instâncias governamentais, policiais e judiciárias começam a especializar-se na investigação e na repressão a práticas ilícitas e crimes digitais.
Para assegurar a liberdade na rede, é preciso coibir com rigor as fraudes e o terrorismo, sem, todavia, institucionalizar regimes de censura e desrespeito à privacidade. As legislações sobre proteção do consumidor e direitos de propriedade intelectual na web devem ser aperfeiçoadas, levando em consideração as peculiaridades de cada país ou região. Mas, em nome da repressão a crimes digitais, não se pode atropelar os fundamentos da cidadania, especialmente a livre manifestação de idéias.
A internet constitui uma vida comunitária regulada por interações, e não por leis, decretos e portarias. Longe de dispensar os indivíduos de deveres éticos, o ciberespaço propõe uma coexistência auto-regulada. Longe de padronizar condutas com base numa "maioria moral" (normas e interdições a serviço das totalidades dominantes), a ciberética apóia-se em regras e valores consensuais estabelecidos pelas células de usuários, respeitando-se a pluralidade de contextos, os projetos societários e, acima de tudo, a liberdade de expressão.
Outra exigência é combater a infoexclusão de populações de baixa renda, sobretudo nos países periféricos. Hoje, o acesso permanece concentrado nas camadas de maior poder aquisitivo e nos países mais desenvolvidos – o que estende à internet desigualdades sociais do mundo concreto.
O relatório Perspectivas Econômicas Globais e Países em Desenvolvimento, publicado em dezembro de 2000 pelo Banco Mundial, prevê que a distância entre países ricos e pobres no acesso à internet vai perdurar na próxima década. Segundo o documento, os dois principais obstáculos à massificação da web nas nações periféricas são o descompasso em telecomunicações e informática, e a escassez de "capital humano" e de serviços complementares necessários ao uso de tecnologias avançadas.
O Banco Mundial não se refere uma vez sequer à descomunal concentração de poder e riqueza nos países desenvolvidos, nem às graves desigualdades socioeconômicas que geram o atraso e a pobreza no Terceiro Mundo. Limita-se a falar nos desequilíbrios entre ricos e pobres no comércio eletrônico – como se isto acontecesse por efeito mágico, e não por uma ordem global perversa e excludente. Para se alcançar a infoinclusão, o relatório vislumbra a alternativa dos acessos à internet por satélite, cabo e celulares – o que, no caso atual dos países em desenvolvimento, equivale a uma miragem ou a um simples conto-de-fadas. Pelo menos o presidente do banco, James Wolfensohn, reconhece que o acesso à rede mundial de computadores é tão importante para o futuro dos países mais pobres quanto os investimentos em necessidades básicas como habitação e saneamento. "As comunidades pobres não querem simplesmente um punhado de dinheiro, mas sim a chance de acumular conhecimentos a fim de ficarem aptas a se desenvolver por si mesmas. E não há veículo mais eficiente para a difusão de conhecimentos do que a internet" [o relatório do Banco Mundial está disponível em www.worldbank.org/prospects/gep2001/chapt4.pdf].
6. A caminho da consciência planetária
As formas dialógicas que irrompem no ciberespaço começam a pôr em xeque a renitente metáfora do Big Brother, que por décadas dominou a teoria crítica no campo da comunicação. A mídia sempre encarnou – e ainda encarna – aquela sinistra figura, dado o seu poder quase absoluto de privilegiar as informações que julga relevantes. A supremacia dos meios tradicionais persiste e provavelmente persistirá, porém não há como negar que inquietações sociais e resistências à lógica dominante se propagam pela Internet, sem ingerência de governos e corporações empresariais ou militares.
O modelo comunicacional da internet contribui para reduzir a dependência aos meios tradicionais, com a sua crônica desconfiança dos movimentos comunitários. O mosaico da web reforça, assim, os campos de resistência à concentração da mídia, permitindo que idéias humanistas se exprimam no perímetro do espaço político desterritorializado.
Manuel Castells sublinha a importância estratégica de "se utilizar o enorme potencial da internet, por exemplo, para reviver a democracia, não enquanto substituição da democracia representativa por meio do voto, e sim para organizar grupos de conversação, plebiscitos indicativos e consultas sobre distintos temas, disseminando informações na sociedade" [Manuel Castells, em entrevista a René Lefort, "El nuevo papel del ciudadano ante la revolución de Internet", Correio da Unesco, outubro de 1999; consultar Manuel Castells. La galaxia Internet: reflexiones sobre Internet, empresa y sociedad. Barcelona: Plaza & Janés, 2001, os capítulos 5 e 6]. Significa realçar a sociedade civil como espaço político por excelência, fazendo-a ressurgir do declínio imposto pela hegemonia neoliberal, preferencialmente na trilha proposta por Benjamin R. Barber: "um domínio cívico republicano e mediador entre o desmedido setor governamental e o metastásico poder privado" [Benjamin R. Barber. Un lugar para todos: cómo fortalecer la sociedad civil y la democracia. Barcelona: Paidós, 2000, p. 91].
O quadro de expectativas e esperanças aqui delineado não deve, entretanto, alimentar ilusões. Em primeiro lugar, porque necessitamos amadurecer propostas de comunicação eletrônica e conciliá-las com demandas do público-alvo. Em segundo, porque nos deparamos com um fenômeno ao mesmo tempo hiperveloz (devido à expansão tecnológica) e lento (por conta de hábitos culturais e políticos nem sempre fáceis de atualizar). Em terceiro, porque os usos e apropriações da web são diferenciados, não formam um todo coeso e harmônico, por mais que redes e coletivos virtuais fortaleçam afinidades.
Não se trata, por conseguinte, de elevar a internet à condição de Eldorado digital, habilitado a suplantar o poderio da grande mídia. Seria tolice subestimar o predomínio das corporações multimídias no atual cenário de transnacionalização e oligopolização das indústrias de informação e entretenimento. Vejamos o caso particular do Brasil. Embora seja o líder em acessos (com cerca de 10% da população) na América do Sul, a maior parte dos internautas pertence às classes A e B e se aglomera nas regiões Sudeste e Sul. É a tradição da concentração das riquezas que se repete na escalada digital.
Ao ressaltar a consolidação da internet, quisemos chamar a atenção para as potencialidades que se entreabrem no âmbito virtual, fundadas em práticas interativas e não submetidas aos mecanismos de seleção da mídia. Rapidez, disponibilização ininterrupta e descentralizada, estímulo à liberdade de criação, novos percursos de leitura pelos hipertextos, espaços cooperativos em grupos de discussão, correio eletrônico e salas de conversação em tempo real, acessos diretos conteúdos online ilimitados – eis alguns diferenciais que caracterizam a pragmática de expressão e difusão na web.
Há muito a fazer para universalizar as conexões e os usos sociais da web. É urgente mobilizar a sociedade civil mundial para a necessidade de se estabelecerem políticas públicas que contenham a onda de mercantilização desenfreada que atinge a internet. Não será nada fácil, tendo em vista: a) o poderio dos conglomerados que exploram a economia digital e tem fortíssimos lobbies; b) a hegemonia do discurso neoliberal, que implica, como contrapartida não-declarada, a sistemática deslegitimação ideológica de formulações alternativas ou contestadoras à supremacia do mercado na regulação da vida contemporânea; c) a dificuldade de estabelecer marcos regulatórios democráticos em um meio fluido e multifacetado como a Web.
Outro grande desafio é tornar determinados websites mais conhecidos dos internautas, o que implica expandir alianças e intercâmbios; divulgar intensivamente as páginas junto a setores da sociedade, tanto por meios convencionais, quanto por boletins e eventos eletrônicos; realizar conferências e seminários sobre estratégias comunicacionais para a Internet; e aprimorar os programas de busca e as árvores de links, para simplificar a localização das informações desejadas.
Além de uma maior percepção pública das páginas, pelo menos três desafios terão ser enfrentados: 1) a definição de estratégias de comunicação que aproveitem as vertentes criativas e interativas das tecnologias multimídias; 2) o aumento substancial do número de usuários, o que depende da superação de entraves econômico-financeiros (custos de computadores, modems, linhas e tarifas telefônicas, provedores de acesso); 3) uma melhor formação para internautas e ativistas, com simplificação de procedimentos informáticos, cursos e treinamentos.
Quer dizer, as competências humanas permanecem essenciais numa era de acelerado progresso técnico. Nesse sentido, não há por que discordar de Dominique Wolton – um crítico da comunicação eletrônica – quando ele assinala a importância de intermediários qualificados para instruir e capacitar a navegação pelos imensos continentes de saberes, dados e conhecimentos da web [ler Dominique Wolton. Internet et après: une théorie critique des nouveaus médias. Paris: Flammarion, 1999, p. 115 e 206]. Pensar o contrário seria admitir, ingenuamente, que o ambiente high tech se sustenta por automatismos ou fascínios. O aluvião informacional da internet não subsiste sem o discernimento crítico da inteligência humana que o concebeu e não cessa de renová-lo.
O diferencial da internet consiste em veicular livremente princípios, anseios e pleitos numa escala nunca antes sonhada. A arena virtual insinua-se, pois, como âmbito de representação para contrapoderes cívicos germinarem na direção apontada por Félix Guattari:
"Precisamos fomentar com êxito uma nova consciência planetária, que se apóie em nossa capacidade coletiva para a criação de sistemas de valores que escapem aos pressupostos morais, psicológicos e sociais do capitalismo, os quais se centram apenas no benefício econômico. A alegria de viver, a solidariedade e a compaixão pelos outros são sentimentos em vias de extinção e que devem ser protegidos, reavivados e impulsionados em novas direções. Os valores éticos e estéticos não nascem de imperativos nem de códigos transcendentais. Exigem uma participação existencial baseada em uma imanência que se deve reconquistar continuamente" [Félix Guattari, "Pour une refondation des pratiques sociales", Le Monde Diplomatique, outubro de 1992].
Sem ignorar os obstáculos que se interpõem, penso que a internet tende a firmar-se como um dos principais meios para a construção de uma cultura de solidariedade social, baseada em uma ética de reciprocidades entre os sujeitos comunicantes. Digo um dos principais meios para reiterar que não entendo o ciberespaço como uma esfera dissociada dos embates sociais concretos. Como cogitar de transformações radicais sem referências objetivas às lutas sociais?
Volto a dizer que percebo uma relação de confluência, de acréscimo e de sinergia entre o concreto e o virtual, resultante, de um lado, da progressiva hibridação tecnológica e, de outro, do somatório de possibilidades que nenhuma das partes, isoladamente, alcançaria. Julgo perfeitamente viável combinar os instrumentos de ação político-cultural que ambos fornecem, sem perder de vista que é no território físico, socialmente reconhecido e vivenciado, que se tece o imaginário do futuro.
(*) Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense; autor, entre outros livros, de O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia (2001) e O Planeta Mídia: tendências da comunicação da era global (1998)
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