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IBM & NAZISMO
Folha de S. Paulo
"Historiador de Auschwitz diz que o campo não usou sistema da IBM", copyright Folha de S. Paulo, 14/02/01
"Franciszek Piper, chefe do departamento histórico do museu de Auschwitz, na Polônia, rejeitou ontem a tese do livro ‘IBM e o Holocausto’, do norte-americano Edwin Black, segundo a qual os nazistas teriam usado a tecnologia da gigante norte-americana IBM para administrar o campo de extermínio de Auschwitz.
O livro, lançado anteontem, afirma que a utilização de máquinas Hollerith (precursoras dos computadores), fornecidas pela subsidiária da IBM na Alemanha, a Dehomag, facilitou a eliminação de judeus durante a Segunda Guerra.
Segundo Piper, se houvesse essas máquinas nos campos de concentração, os presos saberiam. ‘Dispomos de mais de 3.000 relatos de sobreviventes de Auschwitz e de pessoas que trabalharam na administração do campo e não há menção a tais equipamentos’, disse Piper.
Mas o historiador não descarta a hipótese de existência de uma célula de administração, dentro do campo, encarregada de transmitir a Berlim informações sobre os judeus. Mas, para ele, em Auschwitz não havia necessidade do uso da tecnologia, pois o destino dos presos era a câmara de gás.
Segundo Andrzej Zbikowski, do Instituto de História Judaica em Varsóvia, não há provas de que o sistema de coleta de dados da IBM tenha sido utilizado para recensear bairros judaicos na Polônia, como alega o autor de ‘IBM e o Holocausto’.
Com base nas acusações reunidas por Black, a IBM está sendo processada em Nova York por um grupo de sobreviventes do Holocausto."
Barnaby J. Feder
"IBM é acusada de auxiliar nazistas", copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 12/02/01
"Advogados que representaram vítimas do nazismo em ações contra bancos, companhias de seguro e fábricas européias nos últimos cinco anos agora voltaram suas baterias contra executivos da empresa norte-americana IBM.
Em uma ação protocolada anteontem numa corte federal do Brooklyn, em Nova York, advogados sustentam que a IBM, a maior companhia de computadores do mundo, tem responsabilidade no modo como o Terceiro Reich usou sua tecnologia de processamento de dados.
A ação afirma que a IBM forneceu aos nazistas tecnologia que sabia poder ‘facilitar a perseguição e o genocídio’.
A ação foi proposta de modo a coincidir com o lançamento, hoje, de um livro que explora as ligações da IBM com os nazistas. Nos últimos anos, advogados de vítimas do Holocausto já conseguiram obter cerca de US$ 7 bilhões de reparações de empresas que tiveram ligações com o nazismo.
A IBM se recusou a comentar tanto o livro como a ação judicial, mas enfatizou que o uso pelos nazistas de máquinas de tabular fornecidas pela Dehomag, a subsidiária alemã da IBM, é conhecido há décadas e faz até parte do Museu Memorial do Holocausto, em Washington.
‘Como centenas de empresas estrangeiras que faziam negócios com a Alemanha naqueles tempos, a Dehomag caiu sob o controle de autoridades nazistas antes e durante a Segunda Guerra Mundial’, disse Carol Makovich, porta-voz da IBM.
A ação judicial, feita em nome de sobreviventes de campos de concentração, pede reparações da IBM com base nos ‘lucros obtidos por suas violações à lei internacional’. Também pede que a empresa torne públicos seus registros sobre o período. A IBM diz que já doou os arquivos às universidades de Nova York e de Hohenheim, em Stuttgart (Alemanha).
Os advogados argumentam que Thomas Watson, presidente da IBM de 1915 a 1956, e outros altos executivos da empresa em Nova York nada fizeram para impedir os nazistas de usar tecnologia da IBM, porque queriam proteger seus lucros.
A ação afirma que os executivos sabiam ou deveriam saber onde a tecnologia estava sendo usada, pois a companhia utilizava mais o sistema de leasing do que o de vendas. A IBM também fazia a manutenção das máquinas.
As máquinas foram usadas nos censos alemães de 1933 e 1939, na organização de operações civis e militares e, segundo documentos anexados na ação, na administração de campos de concentração.
Como outras ações de violações a direitos humanos, contenciosos relativos ao Holocausto frequentemente enfrentam o problema de falta de provas. Mas a sensibilidade das multinacionais à propaganda negativa e, em alguns casos, a vergonha por atividades do passado podem levar a um acordo de indenização.
A Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft, como a Dehomag era conhecida, foi fundada por Willy Heidinger em 1910 para explorar a tecnologia inventada pelo norte-americano Hermann Hollerith.
A Primeira Guerra deixou a Dehomag afundada em dívidas, dando à IBM -então chamada de Computing Tabulating Recording Company- a oportunidade de comprar 90% de suas ações.
Depois disso, a tecnologia de Hollerith foi controlada pela IBM norte-americana. Não há provas de que os executivos em Nova York ordenaram que a tecnologia fosse fornecida aos alemães sabendo que seria usada em campos de concentração nazistas.
Quando a Dehomag inaugurou uma fábrica em Berlim, em 1934, porém, Heidinger fez um discurso em que disse orgulhar-se de ter dado a Hitler informações úteis para realizar ‘intervenções corretivas’ e prometeu ‘seguir suas ordens cegamente’."
Marcos Guterman
"Tecnologia serviu para contar judeus, afirma livro", copyright Folha de S. Paulo, 12/02/01
"Em uma das salas do Museu do Holocausto de Washington há uma máquina da IBM para tabulação de dados em cartões perfurados. Segundo o texto que o acompanha, o engenho, produzido a partir de um modelo inventado por Hermann Hollerith, é semelhante ao que serviu para que a Alemanha nazista fizesse recenseamentos demográficos levando em consideração informações sobre a religião e a raça dos entrevistados, com o objetivo de identificar quem era judeu.
O norte-americano Edwin Black, em seu livro ‘IBM e o Holocausto’, sustenta que essas máquinas facilitaram consideravelmente a tarefa de tentar eliminar os judeus da Europa, o que provavelmente é verdade, e atribui à IBM o papel de sócio de Hitler na empreitada, o que certamente é um exagero.
O livro está saindo hoje em 17 países, inclusive no Brasil, e seu lançamento foi cercado de sigilo, o que serve para alavancar publicidade e evitar resenhas negativas de especialistas no assunto.
Black, que é jornalista, não historiador, descreve como a Dehomag, subsidiária alemã da IBM, forneceu máquinas e tecnologia para que o regime nazista contasse judeus, controlasse horários de trens para deportações e facilitasse o funcionamento dos campos de extermínio.
O autor sustenta que o Holocausto foi mais letal graças à tecnologia da IBM, o que é uma simplificação perigosa -sabe-se que os nazistas contavam sobretudo com uma formidável malha de colaboradores e informantes, muitos deles judeus, para eliminar suas vítimas.
O eixo do livro é a tentativa de Black de encontrar em Thomas J. Watson, o todo-poderoso executivo da IBM nos EUA, um ‘Hitler do capital’, um homem insensível ao drama dos judeus, preocupado somente com os lucros de sua empresa.
Para reforçar essas impressões, Black revela que Watson era chamado dentro da IBM de ‘o líder’, algo como ‘o führer’ -para o autor, um exemplo do amálgama entre os dois deu-se em 1937, quando o segundo homenageou o primeiro com uma medalha, devolvida por Watson somente em 1940, quando a guerra estava em curso e Hitler já era o inimigo declarado do mundo.
O envolvimento de grandes empresas com o Terceiro Reich, com participação mais ou menos decisiva na matança de judeus, é um fato conhecido. Corporações alemãs hoje perfeitamente integradas à vida das pessoas comuns de todo o mundo, como Siemens, Volkswagen e BMW, tiveram seus dias de cumplicidade com a máquina nazista.
Mas é compreensível que empresas da Alemanha participassem -inclusive por afinidade ideológica, em vários casos- da empreitada de Hitler. O que não é compreensível, diz Black, é que uma empresa norte-americana o fizesse.
Black pede que seu livro seja compreendido no contexto histórico que ele mesmo parece ignorar. O meio século que o separa dos fatos narrados lhe dá uma espécie de ‘conforto moral’ para julgar o comportamento daqueles que não condenaram Hitler na primeira hora.
A título de ‘contexto’, Black usa à exaustão manchetes do ‘The New York Times’ sobre a perseguição aos judeus na Alemanha nos anos 30, para mostrar que a IBM e seus dirigentes tinham como saber o que estava ocorrendo, mas, mesmo assim, continuaram a fornecer ao Reich seus serviços.
Pelo menos até o pogrom da Noite dos Cristais (1938), porém, tudo o que a Alemanha fez contra os judeus era a regra, não a exceção, numa Europa habituada a tratar judeus como párias. Isto é: do ponto de vista da época, leis que excluíssem os judeus da vida civil de um país europeu não causavam comoção, pois eram comuns.
Para ler ‘IBM e o Holocausto’ é preciso também atravessar clichês como ‘era necessário um bode expiatório, e culparam os judeus por tudo’, bobagens como ‘o fascismo, sistema político totalitário controlado pelo Estado, foi inventado por Mussolini’ e discursos pueris como ‘a alvorada da era da informação começava com o ocaso da decência humana’.
Apesar disso, a Black não se pode negar o mérito de ter obtido e estudado documentos em quantidade suficiente para tornar inquestionável a participação da IBM nos esforços nazistas, adicionando combustível à discussão sobre a ausência de uma distinção clara entre mocinhos e bandidos em relação ao Holocausto. As vítimas, todos sabemos quem foram. Sobre os vilões, pelo jeito, ainda há muitos a descobrir."
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