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TELEJORNALISMO ONLINE
Muitas dúvidas, poucas
certezas, promessas várias
Antônio Brasil (*)
Qual o futuro dos nossos telejornais? A televisão ainda terá fôlego para crescer e resistir aos avanços da internet? Migração para a web ou evolução numa TV digital? Afinal, o que é e para que serve esse tal de "telejornalismo online"?
Muitas dúvidas e poucas certezas. Mas uma coisa é certa. Sempre que surge um novo meio, qualquer meio, muitos procuram se apegar firmemente ao que já é conhecido e estabelecido. As incertezas de algo novo e desconhecido assustam e isso ficou ainda mais claro durante o 2º Seminário de Telejornalismo Online – promovido pela Faculdade de Comunicação Social e o Laboratório de Televisão e Vídeo da UERJ, e realizado em 14 de maio, no Rio.
O professor Nilson Lage descreveu bem essa nova ameaça: "Toda a mídia que surge é uma reposição das mídias anteriores". Por isso, o embate com o meio predominante anterior é inevitável. Foi assim com o cinema, o rádio e televisão. Nessa mesma luta, ou "fricção" entre o velho e o novo, algumas pessoas participam motivadas pela insatisfação com o presente. Outras, simplesmente porque foram "excluídas" das poucas oportunidades oferecidas pelo meio hegemônico. Este possui uma estrutura comunicacional de sentido único e pouco democrático, na qual "somente um fala para todos". Talvez seja por isso que algumas pessoas apostam tudo numa internet que acena com a proposta instigante em que "todos falam para todos". Mas ainda há aqueles que, por esses ou por outros motivos, estão simplesmente interessados em apontar ou desbravar novos caminhos. Uma nova aventura baseada em velhos sonhos de igualdade e liberdade de expressão. O fundamental é que muitos "precisam" e "querem" acreditar nas promessas de um futuro mais participativo, experimental e criativo. Talvez a internet seja a resposta, talvez não. Mas a busca por um jornalismo melhor num mundo mais justo, esta sim, continua.
O problema é que esse futuro demora e o tempo é cada vez mais curto. Em meio a tantas crises, as novas tecnologias ainda sofrem de uma persistente "exclusão digital", produto direto de uma exclusão social, econômica e política ainda maior. Ou seja, o presente ainda não é do jeito que deveria ser. A internet continua um meio alternativo para poucos, sem linguagem própria e que não pode se comparar seriamente com a grande difusão da televisão, do rádio ou mesmo com a credibilidade de imprensa escrita. A internet não passaria de uma promessa num mundo ainda sem eletricidade e sem educação para a maioria. E se a maioria não tem acesso à internet e muitos só asssistem à TV, o jeito é insistir no presente. Será mesmo?
Após 50 anos, os números da TV quando comparados à internet são impressionantes. Mas será que estaríamos não só desprezando a comprovada capacidade de crescimento dos novos meios mas, o que é pior, insistindo em critérios que tendem a privilegiar as "quantidades" em detrimento de novos parâmetros de participação, interatividade e qualidade de público e de programação? A busca por altos índices de audiência renderam bilhões de dólares para alguns, mas levaram a TV a um impasse de qualidade. A criatividade foi substituída pela acomodação. Como evitar esse impasse na TV e destruir o "apartheid cultural" na internet? Já temos as demandas, restam as soluções.
Som e imagem
A única certeza é que o poder imperial da televisão está sendo confrontado por uma incansável luta de guerrilha tecnológica e informacional na internet. O futuro promete muitas lutas e "fricções" entre os novos e velhos meios. Mas vai ser nos conteúdos, nas mensagens, que a guerra será vencida. E a verdadeira luta ainda nem começou. Novas tecnologias aceleram ainda mais a velocidade da internet. A cada dia um novo site experimenta uma nova proposta de linguagem. Os índices e os métodos de avaliação oficiais não conseguem acompanhar o caos reinante na rede. Mais cedo ou mais tarde alguém vai acabar acertando o ponto e criando algo verdadeiramente novo. A TV, por outro lado, responde e se transforma num meio digital. Ainda não sabemos muito bem como será esse novo veículo mas a TV promete enfrentar e até integrar a internet.
Esse mesmo conteúdo, por outro lado, explode numa "sobrecarga informacional" . Nem tudo tem qualidade. O público passa a ser inundado por enorme quantidade de opções e informações e tem dificuldade crescente para contextualizar tantas notícias. Corre o risco de perder a capacidade de refletir e de decidir. Esta sobrecarga pode levar a um curto-circuito no terminal do público. Informação gera ansiedade e necessidade por mais informação. A segmentação da programação de TV, largamente prometida pelas televisões por assinatura mas jamais alcançada, é uma realidade em milhões de sítios com o potencial de se tornarem poderosas emissoras de TV geridas por simples indivíduos. Eles passam a ter a capacidade de ser vistos e ouvidos pelo mundo inteiro. Da revolução do vídeo, que gerou uma avalanche de imagens, nos deparamos agora com uma revolução ainda maior com a geração instantânea, ao vivo, e com baixíssimo custo, aberta a todos em qualquer ponto do planeta.
Num outro extremo, tecnologias de captação da realidade se sofisticam – como as câmeras de 360 graus com recursos virtuais de terceira dimensão. Elas reinventam o papel do telespectador num novo modelo comunicacional que confunde transmissor com receptor. Quebram-se os velhos modelos teóricos que não conseguem mais representar as novas formas de comunicação. A audiência passiva e distanciada dos nosso telejornais passa a ter a capacidade de vivenciar a notícia onde e quando ela acontece. O futuro insiste em oferecer participação, pelo menos para aqueles que não se contentam simplesmente em continuar emburrecendo na frente de uma televisão, seja ela analógica ou digital.
De qualquer forma, tentar prever o futuro é sempre muito difícil e nebuloso. As alternativas são múltiplas. Mas certamente muita gente não está satisfeita com o quadro atual. Eles estariam dispostos a enfrentar os riscos de um mundo desconhecido e talvez até cometer erros. As ferramentas já estão disponíveis, mas é preciso disposição para evitar uma acomodação tão conveniente que nos atrele aos atuais modelos hegemônicos. Pelo menos ninguém mais parece disposto a discutir o valor e o potencial da linguagem audiovisual nesse novo cenário. Seja no cinema, na televisão ou na internet, todos ainda acreditam nessa foma de comunicação. Do reality show ao telejornal, da ficção à realidade, em grandes empresas ou em pequenos sítios pessoais, é cada vez mais comum utilizar o som e a imagem em movimento em projetos de comunicação. Eles se tornam imprescindíveis no enriquecimento dos conteúdos.
O futuro chega
O que fica cada vez mais claro é que o telejornalismo não está restrito à TV. Ele é uma "linguagem comunicacional" e o "telejornalismo online" é, sem dúvida, uma proposta alternativa, experimental e com o enorme potencial criativo, que pode ser utilizado por qualquer pessoa em qualquer lugar. Telejornalismo não é mais um privilégio restrito a alguns poucos donos de emissoras e a interesses econômicos poderosos. Quando disponibilizado num veículo como a internet ou num circuito fechado de uma universidade ou condomínio, torna-se uma arma informacional poderosa. Essa nova forma de jornalismo busca alcançar um público que certamente não se contenta em continuar assistindo à mesma notícia tratada e filtrada por poucos para muitos.
A maioria do público provavelmente vai querer continuar assistindo a tudo na TV ou na internet. Mas a proposta de telejornalismo alternativo possibilita não só produzir bons noticiários de televisão, de baixo custo para pequenas comunidades, como também criar um novo modelo de público: uma audiência mais integrada ao meio e com possibilidade de dar visibilidade local a um projeto universal. Mas tudo isso, insista-se, somente para aqueles que não estão satisfeitos.
É também importante e relevante procurar não supervalorizar as promessas. Mas menosprezar o futuro pode ser um grande erro. Deveríamos, ao menos, tentar conhecer as alternativas oferecidas pelas novas tecnologias. Afinal, a internet já demonstrou ter a capacidade de ser "a mãe de todas as mídias", com uma convergência de todos os meios num só. Os problemas técnicos são contornáveis com tempo . O problema é se preparar para dizer algo novo – e de forma apropriada – ao novo meio. Para isto é preciso simplesmente pôr em prática esse novo "fazer" ou pelo menos permitir que alguns "façam".
Essas foram as questões discutidas por tantas pessoas que vieram, para
surpresa dos organizadores, de diversas partes do país para
o seminário de sobre uma nova forma de telejornalismo. Todos
compartilharam uma crescente insatisfação com o presente
e um enorme interesse pelas possibilidade do futuro. Outros tantos
participantes garantiram uma presença virtual através
da transmissão ao vivo via internet. E em épocas de
crise e idealismo, para espanto de muitos, tudo foi gratuito.
Insisto: o telejornalismo é uma linguagem informacional poderosa que
transcende os limites do seu meio original. Mas em relação
às promessas de uma migração imediata para
a internet ainda existem dúvidas em relação
à questões técnicas – como a qualidade e o
tamanho da imagem, a limitação do meio e principalmente
em relação ao conteúdo apresentado até
agora. TV na internet ainda é uma promessa. Mas poucas semanas
atra's foi lançada, em caráter experimental, a AllTV,
a primeira televisão brasileira na internet (veja em <www.alltv.com.br>).
A proposta ainda é muito semelhante a uma rádio jovem
FM, mas para aqueles que não estão presos aos limites
do presente esta é uma promessa preciosa. O futuro demora
mas chega.
Simples e claro
Muitos ainda se dividem entre as certezas insatisfeitas do presente e as possibilidades não realizadas do futuro. Entre "apocalípticos" e "integrados" surgem inúmeros "indecisos", que também estavam presentes no debate com uma visão cautelosa sobre o futuro dos nossos telejornais. Foram muitas informações e contradições num longo dia de muita reflexão, extensas anotações e muitas idéias novas.
Mas nada se compara a tentar moderar um debate com personalidades marcantes e distintas como Gabriel Priolli, Marcelo Tas, Sebastião Squirra e Nilson Lage. Todos com sólidas e bem sucedidas trajetórias profissionais na televisão e com grandes esperanças em relação à internet. Foram discutidas questões extremamente pertinentes e, ao mesmo tempo, contraditórias. As dúvidas aumentam mas já aparecem também as primeiras soluções na forma de alternativas um pouco mais claras e viáveis. É provável que os mais jovens, inspirados no passado mas não tão apegados aos seus limites, apresentem as novas propostas para os velhos problemas.
Durante o seminário também tivemos o privilégio de compartilhar o olhar estrangeiro e futurista de um pesquisador como o professor John Pavlik, diretor do New Media Center, da Columbia University. Sua apresentação em multimídia, que descrevia alguns dos novos recursos oferecidos pela realidade virtual na cobertura jornalística, levou a todos numa "viagem" ao futuro do jornalismo. Foi como se estivéssemos numa máquina do tempo virtual. Suas pesquisas com as novas tecnologias criam possibilidades em áreas nunca antes imaginadas para a cobertura de eventos jornalísticos. Ele se atreve a descrever uma nova narrativa na primeira pessoa que integra o telespectador com o repórter e utiliza sentidos até hoje desprezados pela narrativa jornalística. Além da visão e da audição, poderemos contar com tudo aquilo que transforma o nosso velho testemunho à distância numa nova forma de participação virtual. Quem viver...possivelmente, verá!
Pavlik defende que a resistência a qualquer tipo de mudança (seja tecnológica ou em termos de linguagem) numa atividade tão conservadora como o jornalismo não é privilégio de um país como o Brasil. Acusações apressadas confundem tecnologia com "curiosidades". Esquecem que a escrita também é tecnologia e que no fundo todos nós continuamos buscando novos meios para contar boas histórias, sempre de forma ética, bem apurada e bem apresentada para um público com um número crescente de opções. Pavlik declara em tom de advertência:
– O jornalismo não deveria ser encarado nem como religião nem como algo imprescindível para o homem moderno. Muitas pessoas não aceitam mais uma quantidade tão grande de notícias ruins. Algumas já preferem simplesmente ignorar o jornalismo e este, sim, é o verdadeiro problema. O meio não importa, temos que lutar para retomar a qualidade do jornalismo e dessa forma garantir o futuro.
Pelo jeito, tanto no Brasil como nos Estados Unidos podemos estar perdendo o verdadeiro foco da questão ao insistir nos limites dos novos meios. Afinal, como melhorar o jornalismo se insistimos nos modelos dominantes e não há disposição para tentar algo de novo?
Esta parece ter sido a principal constação de quase 10 horas de intensos debates durante o 2º Seminário de Telejornalismo Online . Não interessa tanto o meio, precisamos melhorar e democratizar a informação. O professor Sebastião Squirra, após proferir muitas críticas e "intrigas" (no bom sentido, é claro) em relação às promessas dos novos meios, declarou de forma categórica: "Seja lá como for, nós jornalistas sempre trabalhamos por melhores condições de simplesmente revelar a verdade". Tão simples e ao mesmo tempo tão importante.
Nessa busca pela verdade, com tantas alternativas e dúvidas, os
jornalistas talvez devêssemos ter a humildade para ouvir os
conselhos tanto dos engenheiros como dos artistas. Mas coube a um
"artista" talentoso como Marcelo Tas, numa controvertida
discussão sobre os limites profissionais do jornalismo e
da tecnologia, relembrar a todos os presentes uma questão
essencial – o fator humano – e, com isso, agitou o público:
"Não devemos nos preocupar tanto com a tecnologia. Comunicadores
de sucesso, não importa em que meio, nunca deixaram de ser
‘amadores’. Eles, simplesmente, ‘amavam’ o que faziam e dessa forma
tudo ficava ainda mais simples e claro".
(*) Jornalista, coordenador do laboratório de televisão, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ
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