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iG & O DIA, JUNTOS
Cidade Biz

"Parceria de iG e O Dia chega à versão online do jornal", copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br), 25/06/01

"O Dia Online estréia nesta segunda novo projeto gráfico e editorial em que abrigará o Último Segundo, site de notícias de seu recente parceiro iG. A troca de conteúdos dos dois veículos faz parte do ‘Projeto Multimídia’ coordenado por Ariane de Carvalho Barros, diretora de Novos Negócios do Grupo O Dia.

Em contrapartida, a redação offline de O Dia passará a abastecer o portal com notícias sobre o Rio de Janeiro. Serão 10 flashes por hora, entre as 8h00 e as 19h00. A parceria também será reforçada com a inserção, no Babado, das colunas de O Dia ‘Vip Vupt’ e ‘Lu Lacerda’, que terão links para a versão online do jornal carioca."



REDE INTELECTUAL
Daniel Piza

"A Internet dos intelectuais", copyright O Estado de S. Paulo, 24/06/01

"Se você acha que não existe vida inteligente na Internet, está enganado. A rede mundial de computadores, entre tantas desvantagens, tem vantagens sobre outras formas de comunicação - espaço ilimitado, transmissão textual, interatividade física - que favorecem a formação de comunidades que pesquisam e debatem determinados assuntos. Não custa lembrar que, nascida no meio militar, a Internet ganhou força ao montar circuitos acadêmicos internacionais e daí saltou para ser uma nova mídia. Apesar de ter sido tratada como um Eldorado virtual, pronto para interligar o mundo acima de regras e revolucionar o consumo de forma absoluta, ela continua sendo um veículo de comunicação tão diferente dos outros que jamais pode ser ignorado.

John Brockman nunca ignorou. Agente literário, editor e autor americano, ele aposta na Internet como meio de comunicação em que a palavra da elite intelectual tem canal privilegiado. Mais importante: ele viu na Internet um meio de aproximar essa elite intelectual de si mesma e do público, derrubando muros acadêmicos e jornalísticos e estimulando a originalidade.

O endereço dessa originalidade Brockman percebeu há dez anos: a ‘terceira cultura’. O pequeno ensaio que escreveu com esse título para sua ‘newsletter’ em 1991 teve grande repercussão, foi republicado pela grande imprensa e teve grandes conseqüências na vida de Brockman. Ele tinha em mente dois livros: As Duas Culturas, de C.P. Snow, de 1959, e Os Últimos Intelectuais, de Russell Jacoby, de 1987. O livro de Snow era resultado de sua famosa polêmica com o crítico literário F.R. Leavis em Cambridge, Inglaterra, em que debateram as diferenças entre a cultura dita ‘humanista’ - ligada a Letras e Filosofia, principalmente - e a cultura científica. Para Snow, que dizia não conseguir ‘imaginar a vida antes do clorofórmio’, a ciência é uma cultura que possui mais critérios objetivos, que produz resultados concretos e que, por isso, é diferente da cultura literária, onde tudo é, ao fim, interpretação subjetiva. O livro de Jacoby é um protesto contra o encerramento - sobretudo a partir dos anos 70 - dos intelectuais nas universidades, onde produzem para seus pares e alunos, não para um público maior, com linguagem livre de jargões obscuros. Intelectuais americanos como Lionel Trilling e Edmund Wilson, ensaístas de literatura e política, eram alguns exemplos de Jacoby.

Diálogo - Brockman tirou a expressão ‘terceira cultura’ do próprio Snow, que na segunda edição de seu livro, em 1963, sugeriu que um campo de diálogo entre cientistas e literatos poderia emergir. Em 1995 Brockman decidiu escrever The Third Culture (Simon & Schuster, não traduzido para o Brasil) para explorar essa idéia, mas com uma observação essencial na introdução: ‘Na terceira cultura de Snow, os intelectuais literários estariam conversando com os cientistas. Embora eu empreste sua expressão, ela não descreve a cultura que ele previu. Os intelectuais literários não estão comunicando com os cientistas. Os cientistas estão comunicando diretamente com o público em geral. (...) Hoje, os pensadores da terceira cultura tendem a evitar intermediários e se esforçam em expressar os pensamentos mais profundos de maneira acessível ao público inteligente.’

Brockman se refere a cientistas que, também a partir dos anos 70, atingiram o grande público em ensaios sobre ciência, com o aumento do interesse pelo assunto e com o próprio ensimesmamento dos literatos. Os novos intelectuais públicos seriam biólogos como Stephen Jay Gould e Richard Dawkins, psiconeurologistas como Daniel C. Dennett e Steven Pinker, físicos como Murray Gell-Mann e Stephen Hawking, pesquisadores de sistemas complexos como Stuart Kauffmann e W. Daniel Hillis, todos apresentados no livro. Há muitos temas em comum em suas pesquisas e perguntas, então Brockman desde o início professou a ‘interdisciplinaridade’ da terceira cultura. A ele irritava (e irrita) particularmente que qualquer professor de Letras seja chamado de ‘intelectual’, mas que o termo não seja aplicado a cérebros como os de Einstein e Darwin, que tanto modificaram nossa percepção da realidade.

No ano seguinte, 1996, Brockman juntou mais pensadores em um livro, Digerati - Encontros com a Elite Digital (Campus). Só que agora o ponto comum era outro: a Internet. Cinco anos atrás, o potencial da rede parecia ser ainda um brilho visionário na cabeça de muitos cientistas e pesquisadores envolvidos em computação e comunicação. Eles se puseram a refletir sobre a Era Digital e já tinham ganhado do New York Times, em 1992, o nome de ‘digerati’. Mas desde os anos 80, quando passou a chamar sua agência (Brockman, Inc.) de agência literária ‘e de software’, Brockman vinha reunindo a ‘ciberelite’ em jantares patrocinados por fundações americanas. O livro reúne nomes como Esther Dyson, a filha do físico Freeman Dyson, editora da revista de informática Release 1.0 e autora de diversos livros sobre a rede; David Gelernter, um dos principais pesquisadores da inteligência artificial; Jaron Lanier, inventor do termo ‘realidade virtual’; o já citado W. Daniel Hillis; e um tal de Bill Gates.

Os dois livros de Brockman provocaram muita discussão. Mas o melhor ainda estava por acontecer. Em janeiro de 1997 Brockman lançou o site Edge (www.edge.org), exatamente um fórum de debate via Internet sobre pesquisas científicas e tecnológicas, atualizado quinzenalmente. Edge é o encontro dos intelectuais públicos da terceira cultura com os ‘digerati’. A princípio, uma figura como Stephen Jay Gould, paleontólogo, estudioso de Darwin, não parece ter muito em comum com Jaron Lanier, o crânio da computação com aparência de cantor punk. No entanto, Edge é uma demonstração de como os temas mais ‘quentes’ que esses pesquisadores debatem são convergentes (leia mais nesta página). Em pouco mais de quatro anos, o site atraiu as principais publicações do mundo e se tornou o mais conhecido endereço intelectual da Web.

Fronteira - Como site, além de contar com ajuda de fundações corporativas americanas, o Edge tem o trunfo da simplicidade. O objetivo não é nada simples: ‘Chegar à fronteira do conhecimento mundial, procurar as mentes mais complexas e sofisticadas, reuni-las numa sala e fazê-las perguntar umas às outras as questões que estão perguntando a si mesmas.’ Ou seja, o Edge é uma sala onde se promove virtualmente a troca de idéias por aqueles que produzem conhecimento de ponta em diversas áreas e países. Uma espécie de universidade aberta, sem hierarquia e horário - mas com uma originalidade e uma clareza que raras universidades possuem.

O mais divertido é o caráter ‘tentativo’ do Edge. Esses intelectuais não são apenas públicos, mas também criaram uma forma nova de falar ao público. Eles chegam e dizem: ‘Estou pesquisando tal e tal coisa, porque acho que a conseqüência disto deve ser aquilo’ etc. Mostram com incisividade o resultado de seu pensamento ao mesmo tempo em que mostram com limpeza o processo de seu pensamento - de onde veio, por onde está indo e aonde quer chegar. Muitas conclusões são duvidosas, mas é também porque eles declaram estar em dúvida, estar abertos a serem convencidos por outro ponto de vista, e porque adotam quase sempre um pretexto empírico, mesmo quando discutem um assunto sobre o qual as pesquisas ainda deixam muito a dever. Em quase todos os textos há sugestões de novos caminhos: ‘Acho que as pesquisas deveriam ir por aí.’

O site promove tudo isso de diversos modos. Em regra, um pesquisador ou cientista escreve artigo ou é entrevistado, e outros são instados a comentar aquelas idéias. Algumas dessas entrevistas têm versão em vídeo. Há também a formulação anual de perguntas, como ‘Qual foi a maior invenção de todos os tempos?’ (que derivou em outro livro: As Grandes Invenções dos Últimos 2000 Anos, editora Objetiva), ‘Qual a história menos reportada da atualidade’ e a corrente ‘Quais questões desapareceram?’. E há o tom comunitário do site, com seus jantares anuais de digerati (‘The Billionaire Dinner’), com o Clube da Realidade (conferência anual de um dos pensadores) e com o noticiário sobre o próprio site e essas reuniões.

Então fica claro entender onde a ‘terceira cultura’ e os ‘digerati’ se encontram. Na terceira cultura, a pesquisa científica e tecnológica busca explicar comportamentos complexos - da natureza, dos sistemas, da consciência humana - e não necessariamente produzir um artefato novo, um clorofórmio revolucionário. Daí o sucesso do site. A união da elite científica e da ciberelite tem a vantagem de não exaltar demais o novo nem se conformar com o velho, de expor insuficiências das explicações para que outros cientistas colaborem com seu avanço. A verdade, ali, não cabe num Graal: ela é um esforço de aproximação e exige a coragem de enfrentar a instabilidade das fronteiras."

***

"Contra o ‘pós-tudo’", copyright O Estado de S. Paulo, 25/06/01

"John Brockman está certo em criticar os intelectuais literários por ignorar ciência e negar o nome de intelectual a um cientista como Einstein. Está ainda mais certo em fomentar os textos de cientistas dirigidos ao público, que não devem ser confundidos com obras de divulgação, mas com ensaios que podem ser lidos por quem tem formação sólida e interesse pelos assuntos. E fez muito bem ao atrair as cabeças pensantes da tecnologia para participar de um fórum com cientistas como Freeman Dyson, Richard Dawkins e Murray Gell-Mann, cujo primeiro e maior resultado é demonstrar o quanto ainda há por saber, contra a idéia pós-moderna do ‘tudo está dito’. Comete apenas dois excessos:

1) Menospreza demais o papel do intelectual das chamadas ciências humanas.

Afinal, as artes e a história são partes integrantes da cultura, importantes para o conhecimento e o autoconhecimento. O trabalho de pesquisadores da consciência e da linguagem como o neurologista António Damásio e o psicólogo Steven Pinker - habitués do Edge - não seria possível sem a ajuda que a arte deu e dá na aproximação do homem à realidade, complexa como é.

2) Crescido no meio contracultural dos anos 60, auto-intitulado herdeiro de teóricos da comunicação como Buckminster Fuller, Norbert Wiener e Marshall McLuhan, confia demais nos poderes do ‘cosmos’ digital para revolucionar o conhecimento e a sociedade. A Internet pode ser tão dispersiva quanto a TV, prejudicando a capacidade de concentração sem a qual não há grande criação, científica ou artística. Há em Brockman aquele vício americano, do otimismo empirista, que vem desde os românticos e passa pelo ufanismo.

Brockman, no entanto, é um agente cultural; seu visionarismo faz parte de seu papel como enzima do pensamento. Mas seus colaboradores são muito mais críticos. Estão basicamente interessados em lançar questões novas ou em formas novas. Assuntos como a Teoria da Evolução, a genética, a biodiversidade, teoria do caos, os modelos cosmológicos, a lógica ‘fuzzy’, a inteligência artificial, a relação consciência-linguagem - que podem passar por temas como a globalização econômica e o instinto sexual - são predominantes no Edge porque convergem no conceito de complexidade: o que faz um sistema ganhar vida própria a partir de regras simples. Modelos matemáticos, feitos por computadores cada vez mais potentes, tentam simular a complexidade que se encontra na natureza (incluído aí o cérebro humano), mas não a explicam nem a imitam com perfeição. A vida ocorre entre a ordem e a desordem, o digital e o analógico, o padrão e a contingência. Existe pesquisa mais importante?"



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