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FEITOS & DESFEITAS CRISE ARGENTINA Isabela Nogueira (*)Acrescente uma nova palavra ao seu dicionário de economês: "pesificação". O termo, que só foi descoberto pela imprensa da Argentina no dia da renúncia do presidente Fernando de la Rúa, parece ser uma saída lógica para a camisa de força cambial em que o país se meteu. Pela pesificação – ou a desdolarização, como alguns preferem –, todas os depósitos e as dívidas argentinas, hoje em grande parte dolarizados, são convertidos em pesos antes de uma desvalorização da moeda. Assim, seria afastado o maior temor do povo argentino com o abandono da paridade cambial, que estabelece que 1 peso vale 1 dólar. Nenhum argentino teria que pagar dívidas em dólares ao mesmo tempo em que recebe seu salário em pesos desvalorizados. Para ter uma idéia do temor argentino basta saber que 85% das dívidas do país estão em dólares. Imagine, agora, que você, um argentino que deve US$ 1.000 ao banco, enfrente uma desvalorização tradicional. Se as apostas mais corriqueiras estão certas, a desvalorização do peso deve ficar na casa dos 50%, o que faria sua dívida saltar para 1.500 pesos. Assim, é fácil entender por que os argentinos fogem de uma desvalorização tradicional como o diabo foge da cruz. Mas com a pesificação, a dívida seria primeiro transformada em 1.000 pesos para depois haver uma desvalorização. Assim, quando o valor da moeda nacional cair, o valor da dívida cai junto. E ficam elas por elas. Boca de siri A questão chave é desvendar por que a mídia argentina não trouxe a discussão da pesificação antes. Não é preciso ter memória de elefante para lembrar que desde o início de 2001, quando a paridade cambial começou a ser colocada em xeque, as alternativas levantadas pelos economistas por meio da imprensa eram duas: desvalorizar ou dolarizar. A desvalorização tradicional levaria o povo argentino a pagar a conta por uma estupidez monetária (a paridade) que já dura dez anos. E a dolarização é o completo abandono da soberania de um país (pode fechar o Banco Central da Argentina que o Federal Reserve americano toma conta de tudo). A grande diferença da pesificação é que quem fica com o ônus da mudança cambial não é a população, mas os grandes credores que emprestaram em dólares. São eles que vão receber 50% a menos, no caso de uma desvalorização nessas proporções. Daí o silêncio dos economistas de manual, que, por sua vez, nunca foram seriamente questionados pela mídia argentina. No Brasil, as alternativas apresentadas pelos jornalões foram as mesmas. E a omissão também não mudou em nada. Quando o megaempréstimo do FMI para a Argentina saiu, em janeiro de 2000, houve efeito manada: dois ou três economistas de manual bradaram que a salvação havia chegado. E a mídia saltou de cabeça. Faltou senso crítico, lógica econômica e respeito aos contribuintes, sobretudo os argentinos, que têm o direito de saber em detalhes quais as alternativas que estão sendo discutidas nos bastidores da cena política, nas consultorias e nas universidades. A consultoria argentina CenterGroup fala em desdolarização há pelo menos seis meses. E a imprensa grande só a descobriu às vésperas do Natal. A democracia argentina sofre dupla ameaça. Uma da classe política, que desde a saída dos militares não conseguiu elaborar um plano de desenvolvimento inteligente e soberano para o país. E outra da mídia, que dá eco a essa a falta de pensamento crítico. Em tempo: para quem gosta de números:
(*) Jornalista | ||