MÍDIA NA COPA
Pentacampeões!
E (quase) de bem com a mídia

Marinilda Carvalho

"O Brasil celebrou doce vitória dupla no domingo. O time de Scolari não somente derrotou a Alemanha em seu caminho rumo ao penta; eles também tiveram um notável gol sobre seu mais implacável oponente, a mídia brasileira." ("Mudança de tom na imprensa brasileira", matéria do site FIFAworldcup.com, 1º/7)

Esperto o repórter da Fifa. Enquanto o país do futebol explodia de alegria pelo penta, esse jornalista anônimo, lá em Yokohama, lembrava em seu release de uma categoria chata e cruel, a mídia esportiva, que teimou em ver a Seleção Brasileira com olhos de 1º de julho de 2001. Quem diria. Um ano atrás, Felipão estreava como técnico do time e perdia para o Uruguai. Quanta coisa mudou de lá para cá... O Brasil é até penta, graças a deuses do futebol como Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, fora os outros do meio-campo e da defesa.

Mas quem na mídia brasileira acreditou neles?

"Confesso nunca ter acreditado na recuperação de Ronaldo. Para a felicidade do país – e principalmente dele próprio, Ronaldo – ele conseguiu. Certo dia escrevi que consideraria Ronaldo um craque somente quando ele conquistasse para o Brasil o título mundial. Ronaldo foi o artilheiro da Copa. Ronaldo deu o penta ao Brasil. Ronaldo é gênio. E ponto final." (Cesar Seabra, Lance!, 1º/7)

"As más lembranças eram fortes no vestiário brasileiro", conta a matéria da Fifa. "Fomos tratados miseravelmente nas Eliminatórias", lembrou Roberto Carlos aos 100 jornalistas que o receberam na sala de imprensa com gritos de "pentacampeão!" O redator da Fifa continua: "É tênue a linha entre amor e ódio. E os jornalistas do Rio de Janeiro e de São Paulo subitamente a cruzaram para o lado do amor".

O Globo não deu uma linha a respeito, mas a Folha confirma que o release da Fifa não exagerou. "O ressentimento foi a tônica da comemoração nos vestiários", disse o jornal. O protesto se deu na forma de uma batucada em fila indiana, puxada pelo atacante Ronaldo e seguida por Edílson, Júnior, Denílson, Roque Júnior, Juninho, Edmilson, Kaká e Ricardinho. Livres para acessar a internet e falar com qualquer um por telefone, os jogadores sabiam de tudo que se dizia a respeito deles. Durante a campanha suportaram tudo, conversando com a imprensa todos os dias, mas preparavam a vingança.

"O capitão Cafu passou em disparada pela zona mista, a área reservada para a imprensa, sem atender a dezenas de pedidos de entrevistas. Respondeu a meia dúzia de perguntas e se foi. Scolari também se recusou a atender o batalhão de repórteres. Só falou à Fifa e à TV Globo." (Folha, 1º/7)

Eles podiam. Quebraram recordes. Sete vitórias, artilheiro, vice-artilheiro, primeiro e único atleta em três finais, melhor ataque, melhor saldo de gols, títulos em três continentes, melhor gol de falta da Copa. Barba, cabelo e bigode, como disse o auto-assumido (por força das circunstâncias) mestre-de-cerimônias Galvão Bueno. A maioria dos críticos concordou, porque nada como um penta.

"(...) o penta está no papo, prova provada da capacidade de nossos jogadores, mesmo daqueles que não são brilhantes mas que fazem sucesso em qualquer parte do mundo, como os tão criticados (por mim, por mim!) três zagueiros – bem-sucedidos na Alemanha (Lúcio), na França (Edmilson) e na Itália (Roque Júnior). Ah, e na Coréia do Sul e no Japão!" (Juca Kfouri, Lance! <www.lancenet.com.br>, 1º/6)

Colunista após colunista, no domingo e na segunda-feira as derrotas, as falhas, os vexames – tudo foi trocado pela euforia da vitória. Bem, com algumas poucas exceções. Um grupo de críticos empedernidos não deu o braço a torcer.

"Scolari melhorou também em função das críticas. Talvez a gente tenha exagerado, talvez a gente tenha sido pessimista demais. Talvez a gente tenha supervalorizado França e Argentina, mas não me arrependo de nenhuma critica que fiz." (Milton Leite, apresentador da mesa-redonda Linha de passe, da ESPN Brasil)

José Trajano, diretor de jornalismo da ESPN Brasil, que liderou as críticas na emissora, também não se arrepende. Em sua coluna no Lance!, na véspera da final, isso ficou claro.

"Não quero ser do contra nem estraga prazer, fazer gênero amigo-da-onça. Não é porque estamos na final, praticamente com a mão na taça, que mudarei de opinião. O que tinha tudo para dar errado deu certo. A teimosia do técnico ganhou a queda-de-braço com os críticos. Os ventos foram soprando a favor, dia após dia. Na eliminação dos favoritos, na contusão dos grandes craques, nos erros das arbitragens. E na subida de produção de nosso time, por que não?" (José Trajano, Lance!, 1º/7)

Outro durão foi Tostão. Ele disse, na véspera da final: "Algumas pessoas reclamaram que mesmo com as vitórias da Seleção, muitos comentaristas, como eu, continuam criticando o time brasileiro. Critiquei e elogiei. Apontei os erros e acertos. Em qualquer atividade, vencedores e perdedores têm virtudes e defeitos. Não vou mudar os meus conceitos por causa de uma única partida, mesmo decisiva. (Jornal do Brasil, 30/6). Nessa coluna, ele foi até crítico da mídia.

"Vivemos hoje a cultura do espetáculo. Endeusam a notícia para vendê-la. A opinião e o jornalismo ficam em segundo plano. Se o Brasil ganhar, todos serão geniais. Se perder, muitos dos que estão hoje eufóricos dirão que tudo que os jogadores e o técnico fizeram foi ruim, como aconteceu em 1998." (Tostão, JB, 30/6)

No Linha de passe, os mais equilibrados foram Claudio Carsughi e Paulo César Vasconcelos. Criticaram a seleção enquanto lembravam a todo momento de Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, craques que mudam o destino. Os dois críticos contrabalançaram o permanente pessimismo não só de Trajano e Leite, mas da apresentadora Soninha que, sempre rindo, arrasava Felipão pela ausência de domínio da bola entre defesa e ataque.

"‘O jogo’ é muito mais do que futebol. Por isso, muitos se aborrecem com os críticos – pra que analisar, dissecar, ponderar? Pra que encher o saco com essa história de meio-campo? Nada disso importa. Importa torcer, comemorar. Reafirmar a identidade nacional, a combalida auto-estima, e dizer: ‘Nós somos os melhores. De novo’." (Soninha, Folha, 1º/7)

Mas, apesar do ressentimento da final, esta Copa presenciou outro fenômeno, além de Ronaldo: pela primeira vez em muitos anos a Seleção Brasileira chegou ao título sem grandes atritos com a imprensa. O feito é atribuído a um jornalista – o assessor de imprensa Rodrigo Paiva. Com jeitinho e paciência, Rodrigo conseguiu convencer técnico e jogadores de que criticar é dever da mídia. Foi uma novidade ver em quase todos os canais os elogios à comissão técnica, que autorizou a presença da imprensa nos treinos. Para a mídia estrangeira, o Brasil conquistou também o troféu laranja, o da simpatia: nunca foi tão fácil entrevistar nossos atletas, que todos os dias ficavam uma hora na zona mista. Tantos elogios a Rodrigo fazem lembrar das assessorias anteriores da Seleção, todas péssimas.

Talvez não tenham fermentado, com a abertura, as intrigas que assolam toda santa Copa, e costumam afetar o desempenho da Seleção em fases decisivas. Na véspera da final, duas ou três mesas-redondas no Brasil comentaram a fofoca da hora: Ricardinho não voltara a atuar porque um grupo de jogadores contou a Felipão que ele fez "leva-e-traz" na crise com Marcelinho Carioca, no Corinthians. Igualzinho ao período em que o país reivindicava a convocação de Romário, e cada veículo deu sua versão da história. Pois as imagens da descontração dos jogadores mostraram que em volta de Ricardinho só havia uma família harmoniosa.

"Scolari, o mais democrático técnico da Copa." (Tino Marcos, Jornal Nacional, 1º/6)

Fina ironia, vinda de um repórter da Globo. A emissora tinha exclusividade não só das transmissões, mas praticamente de tudo relacionado à Seleção, dos deslocamentos de ônibus às atividades fechadas, e encerrada com a volta da família global no avião da Seleção. Um grave problema a se estudar quando acabar a festa.

Aliás, quando cessarem a festa e o jorro de elogios da imprensa nacional e mundial, os brasileiros voltarão a chorar. E não só pelos problemas do país. Cofres italianos, espanhóis, franceses, ingleses já devem estar se abrindo – tlim-tlim –, e lá se vão nossos endeusados pentacampeões. Adeus, Kleberson, Gilberto Silva, talvez Marcos e Rogério Ceni e quem mais ainda jogue no Brasil. Sem nossos craques, continuaremos aqui entregues aos desmandos da cartolagem. Outro desafio diante da mídia, para analisar e cobrar.

Por fim, um sincero mea-culpa: esta ignorante escriba criticou a mídia esportiva em 1999 pelo deslumbramento com um "ex-craque, ex-matador, ex-artilheiro, ex-atacante e ex-goleador", o então Ronaldinho. Perdão de verdade, Ronaldo.