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MICOS A GRANEL
Bandeirinhas, alienígenas e bolas entrantes
Carlos Vasconcellos
Saiu na Folha de S.Paulo, na capa do caderno de Esportes do dia 16 de março de 2000, uma quinta-feira: "Bandeirinha não tem olho para função – Estudo científico diz que auxiliares não podem ser infalíveis".
Abaixo, o tradicional quadro de infográficos, com diagramas de jogadas e estatísticas sobre os erros dos auxiliares. Depois, um texto explicando o estudo e mais uma continuação na última página do caderno. Tudo isso para dizer que os bandeirinhas erram, coisa que até o concreto armado da arquibancada do Maracanã já sabe! Além do mais, quem é infalível que atire a primeira pedra ou levante a bandeirinha.
E não digam que essa matéria saiu com esse destaque todo por falta de assunto, porque nesse dia o Palmeiras ia defender a liderança do seu grupo na Libertadores e acabou nas páginas internas!
Sugestão para próximas pautas:
- Pesquisa mostra que boxe deixa seqüelas em seus praticantes;
- Cientistas dizem que uso de anabolizantes em excesso pode matar;
- Matemáticos comprovam que jogador que faz mais gols é artilheiro;
- Estudo confirma que bolada nos testículos provoca dor quase insuportável!
Todas com seus respectivos infográficos...
Venusiano ou marciano?
Também não posso deixar de comentar o mico da edição do dia 21 de março do Globo Esporte, cobrindo seminário de esporte e negócios na Fundação Getúlio Vargas, ocorrido no dia anterior. A matéria mostrou algumas celebridades presentes, informou que houve discussões acaloradas e não fez uma única menção ao bate-boca entre a economista e botafoguense Elena Landau e o deputado, cartola e vascaíno Eurico Miranda. A notícia foi estampada nos principais jornais, mas não mereceu sequer um comentário do programa esportivo global. Quer dizer, a matéria era temperada com uma alfinetada de Eurico Miranda, totalmente fora de qualquer contexto, dizendo que não se deveria dar espaço a "alienígenas no meio do futebol". Para quem escutou a frase sem saber da discussão, ficou parecendo que o nobre deputado e cartola estava falando de algum venusiano, ou quem sabe do velho atacante dos anos 70, o Marciano.
E ainda tem outra de esporte. Foi no JB de 20 de março: "O Fluminense venceu seu primeiro clássico e, se as bolas de seus atacantes começarem a entrar, poderá assustar os favoritos, Flamengo e Vasco". Sem comentários.
Farinha do mesmo saco
Fernando Alecio
É muito triste ver o Brasil chegando aos 500 anos ao mesmo tempo em que nossa identidade como brasileiros e latino-americanos se perde cada vez mais, vítima da massificação impregnada pela mídia de que somente Estados Unidos e Europa é que prestam, e o resto do mundo é lixo. Isso também se estende a uma das nossas maiores paixões e um dos símbolo do nosso país, o futebol. Temos a imagem de que o futebol europeu é perfeito e que o sul-americano não merece atenção: recebemos uma overdose de notícias dos campeonatos do Velho Mundo, enquanto o "fútbol" dos vizinhos é desprezado pela imprensa.
Também me incluo nos grupo dos revoltados com a administração do futebol brasileiro e sul-americano, que deixam muito a desejar em organização e respeito ao torcedor. Mas não creio que mudaremos isso babando ovo para os europeus. Muito pelo contrário. Desse modo só estaremos contribuindo para que o futebol do nosso continente continue no primitivismo. Temos que seguir o exemplo das coisas boas que eles apresentam, como calendários mais racionais e medidas disciplinares eficientes. Mas o que fazemos é endeusá-los.
Como podemos dar visibilidade a um campeonato que ainda é disputado com resultados fabricados antes dos jogos, no qual a maioria dos clubes pertence a mafiosos, como o Campeonato Italiano (vide caso Tuta)?
Chegamos ao ponto de abrir o jornal ou ligar a TV e vermos mais notícias sobre a Copa dos Campeões da Europa do que sobre a Copa Libertadores da América. A cobertura da Libertadores se resume à participação dos clubes brasileiros; no mais, apenas resultados e tabelas de classificação. Da competição européia vemos os gols de todos os jogos, várias partidas transmitidas ao vivo pela TV a cabo ou aberta, destaque nos noticiários esportivos etc. Dos campeonatos nacionais, nem uma vírgula. São ignorados completamente. O argentino ainda ganha alguma espaço, com alguns jornais trazendo os resultados e a ESPN transmitindo ao vivo o principal jogo da rodada aos domingos.
Podridão parecida
Até se explica, pois os principais jogadores brasileiros estão na Europa e naturalmente há o nosso interesse em acompanhá-los. Mas é muito triste constatar que vemos com orgulho um jogador nosso indo para lá, quando deveríamos sentir vergonha disto.
Dentro de campo, concordo com que a maioria dos campeonatos nacionais da América é de baixíssimo nível, mas não vejo muita diferença na Europa. Tirando Itália, Espanha e Inglaterra, não consigo ver mais nada de interessante no futebol europeu. Você consegue se empolgar com um jogo da Bundesliga ou do Campeonato Holandês? O Campeonato Francês é de nível técnico risível, e o resto – Portugal, Bélgica, Escócia, Suécia etc. etc. – não é melhor que os campeonatos colombiano, chileno ou uruguaio.
Em relação aos dirigentes, qual a diferença entre Ricardo Teixeira, Julio Grondona, Eurico Miranda ou Fábio Koff de Silvio Berlusconi, Lorenzo Sanz ou Jesus Gil y Gil? Se formos analisar, são todos farinha do mesmo saco. Os europeus são realmente mais organizados por razões culturais, mas a diferença mesmo está do fato de que eles têm dinheiro, e a mídia a seu serviço. Por trás, a podridão é a mesma.
JORNAL DA BAND
Deslumbramento com
os "hackers do bem"
Paulo C. Barreto (*)
A luta conta a pornografia infantil na Internet, uma causa de respeito, caiu na vala comum dessas campanhas "politicamente corretas": uma vez separados os mocinhos dos bandidos, a esperança de um "mundo melhor" – quando os bandidos forem varridos da Terra (o planeta, não o provedor) – serve de avalista para quaisquer atos dos mocinhos. Por mais picaretas que sejam.
O Jornal da Band mostrou um grupo de hackers/crackers que se diverte dando lições de moral em pedófilos. Entrando em salas de bate-papo usando apelidos estrategicamente escolhidos, os garotos levam no bico os colecionadores de fotos de menores e oferecem (assim, de mão beijada?) mais material. Os arquivos (executáveis, é claro) contêm poderosos cavalos de Tróia que abrem as porteiras do computador do usuário à invasão pelo grupo de "hackers do bem": do outro lado da rede é possível dar uma geral nos diretórios do invadido, inclusive excluir arquivos e deixar documentos explicando que o usuário foi hackeado como castigo por ser pedófilo – além de ameaçar botar a boca no trombone e revelar aos quatro ventos os estranhos hábitos sexuais do usuário.
Quero saber que pinóia de "pauta jornalística" é essa. Qualquer um pode aparecer na televisão, às claras, e dizer que é um "hacker do bem", pois o hackeamento em si é feito (muito) às escuras. O grupo de hackers não pode entregar os pedófilos à polícia, já que isso confirmaria que eles invadiram sistemas dos outros. Por fim, é claro que os pedófilos hackeados nada podem fazer além de engolir em seco os hackeamentos: é isso, ou se entregar ao delegado de plantão.
Tratamento jornalístico do submundo da Internet tem desses problemas mesmo: se nas páginas policiais seria estranho mostrar um matador sem cadáver, imagine o que dizer de mostrar um garoto que pode ser hacker e que diz que hackeou usuários que ele considera serem pedófilos.
Esta é apenas a ponta do iceberg do deslumbramento da imprensa convencional (ainda que eletrônica) com as modernagens informato-criminais. Mesmo quem tem orgulho de não saber o que é uma tecla Enter não pode mais ignorar sua importância: talvez nem tanto a dos bits e bytes propriamente ditos quanto a dos trilhões de dólares que os bits e bytes movimentam.
Que tal adicionar um pouco mais de critério na apuração? "Ora, é apenas uma molecagem de CDFs contra uns reles e desprezíveis pedófilos", dirão. Colecionar fotos de crianças pode? Não pode, é claro. E formação de quadrilha (é um grupo organizado de hackers), espionagem, falsidade ideológica, chantagem e violação destruidora de informações em computadores dos outros, pode?
Já que nossos jovens e idealistas homens e mulheres de imprensa se nutriram de conhecimento nas mesmas escolas (particulares!) dos hackers, com toda a cascatologia ideológica que bem conhecemos, tanto uns quanto outros nada vêem de errado numa Revolução Cultural subterrânea, com direito a tribunais de exceção, juízes não-qualificados, condenações de estalo e execuções espetaculares a quem não fizer o jogo dos fortes. Afinal, não entraram pelo cano os pedófilos em geral, mas os que foram otários o suficiente para executar arquivos que receberam de seus colegas de chat "muy amigos".
(*) Editor do boletim informativo O Diário da Tropa; e-mail <barreto@pobox.com>
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