Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

TELEVISÃO
O desemprego ‘é fan-tás-ti-co!’

Rosemary Segurado (*)

 

O Fantástico, da Globo, apresentou em 6 de junho reportagem sobre o desemprego que merece algumas reflexões sobre como os meios de comunicação vêm tratando essa questão complexa e crucial atravessada pela sociedade contemporânea.

Em primeiro lugar, é notória a investida que a Globo vem dando às temáticas de caráter social, apresentando-se como defensora dos direitos humanos, combatente da violência, baluarte da cidadania, representante das questões "politicamente corretas" e, mais recentemente, colocando-se no papel de assistência social.

Nos últimos anos essa emissora tem-se apresentado como a verdadeira mediadora de conflitos sociais entre poder público ou iniciativa privada e a população. Várias são as reportagens com o mesmo tom: um buraco na rua que a prefeitura não conserta, um bairro que não é contemplado pelo transporte coletivo, uma escola que não possui carteira para seus alunos. A impressão que a emissora tenta passar é que está se colocando como porta-voz dos cidadãos, ajudando a negociar soluções rápidas e definitivas para os seus problemas sociais.

Raspadinha do emprego

A reportagem sobre o desemprego – seguindo a linha editorial de discussões de interesse social – tentou passar a indignação da emissora em relação ao assunto. A partir de um apelo excessivamente emocional, em tom choroso por parte dos apresentadores, mostrou-se o cotidiano de duas pessoas que buscavam emprego. O objetivo era dar uma carga emotiva, apresentando ao espectador a situação de desalento vivida por aquelas pessoas e, conseqüentemente, procurando despertar um sentimento de "pena", desvinculando a problemática vivida por eles da situação socioeconômica e política no país.

Entre os desempregados apresentou-se uma mulher, moradora da periferia de São Paulo, com mais de 40 anos, pouca escolaridade, que todos os dias aguardava ansiosamente pela apresentação da oferta de vagas que vai ao ar diariamente durante o telejornalismo local da Globo (SPTV). Seus apresentadores informam o número de vagas existentes para diversas áreas profissionais, as exigências a serem cumpridas (escolaridade mínima, faixa de idade), além do salário oferecido. Ainda é dada a orientação para que os interessados compareçam ao Centro de Solidariedade ao Trabalhador, órgão do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, ligado à Força Sindical.

É nesse contexto que a reportagem mostra a mulher em frente à TV, com um terço na mão, rezando e dizendo ter fé em Deus que alguma vaga iria aparecer para ela. Surge uma possibilidade e a câmara focaliza os seus olhos ressaltando o "brilho" da esperança, a Globo trazendo de volta a possibilidade de dias melhores.

A reportagem continua, pois num segundo momento apresenta outro desempregado, um homem também acima dos 40 anos, com sua família demonstrando toda a situação de dificuldade vivida por ele, desempregado havia aproximadamente dois anos.

A equipe da Globo acompanha o trajeto dos dois desempregados até o Centro de Solidariedade ao Trabalhador em busca da vaga anunciada no SPTV. O que vemos ser reforçado aqui é um tipo de associação entre a emissora e a Força Sindical, central que mantém um discurso conciliatório em relação à política econômica governamental. Por outro lado, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) desapareceu por completo do telejornalismo global, provavelmente pelo questionamento que faz da política econômica do governo atual.

Quando a reportagem do Fantástico chega ao Centro de Solidariedade, constata-se que a Globo busca intensificar a expectativa do espectador em relação ao desfecho da história, como se ambos fossem participar de algum tipo de loteria, uma espécie de raspadinha do emprego. "Raspe e ganhe seu emprego agora!". Como se conseguir um emprego atualmente fosse uma questão de sorte.

Terror e paralisia

Analisando a reportagem, pode-se afirmar que se trata de uma matéria que busca a autopromoção da emissora, que utiliza um de seus programas de maior audiência, o Fantástico, para demonstrar que está colaborando para a diminuição dos índices de desemprego. Evidentemente, nada contra que os meios de comunicação contribuam com uma problemática tão complexa quanto essa, mas será esse o verdadeiro interesse da emissora?

Se nos remetermos ao passado, não muito distante, a Rede Globo era considerada por muitos setores da sociedade como o "Diário Oficial" do poder, pois seus noticiários muitas vezes omitiam informações contrárias ao regime militar. Nos últimos anos existe uma tentativa de mudar essa cara sempre tão associada ao oficialismo.

Essa maneira de tratar o problema do desemprego não é casual. É uma forma de ocultar a realidade do mercado de trabalho que vem sofrendo transformações significativas, sobretudo nas duas últimas décadas.

Outro interesse que fica nas entrelinhas da reportagem é a mensagem para os que estão empregados: devem ter sempre em mente que são privilegiados por ainda estarem inseridos no processo produtivo e, portanto, não devem questionar suas atividades profissionais e muitos menos entrar em qualquer tipo de conflito com o patrão. Nesse sentido, vemos o quanto esse tipo de enfoque dado pelo Fantástico enfatiza a situação de penúria vivida por uma pessoa desempregada. Tudo faz crer que esse tipo de discurso tem o objetivo de provocar o terror e a paralisia dos trabalhadores, tonando-os incapazes de pensar em qualquer alternativa possível e criativa para sair dessa encruzilhada.

Setores do movimento sindical associam uma certa desmobilização dos trabalhadores a partir da alegação de medo da perda do emprego, o que demonstra a eficácia desse tipo de abordagem feita pelos meios de comunicação: disseminar medo e fazer com que os trabalhadores se mantenham subjugados, sem qualquer tipo de confrontação.

Presas fáceis

Há um grande esforço por parte das câmeras em arrancar uma expressão de desespero e ao mesmo tempo de esperança dos trabalhadores retratados, buscando extrair o máximo de emoção. O fio condutor da reportagem busca individualizar o problema do desemprego. Em nenhum momento a questão é tratada como um dos problemas que mais afetam a economia não somente do país, mas de várias parte do mundo.

Como conclusão o Fantástico mostra que a mulher desempregada não consegue trabalho por estar fora da faixa de idade estabelecida pela empresa contratante. É reforçada a decepção por parte dela e ao mesmo tempo a mensagem de otimismo: "Não vou desistir."

Por outro lado, o homem retratado preenche os requisitos solicitados por uma empresa. Mais uma vez a reportagem vai imprimindo a narrativa de suspense ao seguir o trabalhador até a empresa, quando ele recebe a notícia de que finalmente está empregado. Close novamente na emoção, nas lágrimas nos olhos e a mensagem final: "Eu digo a todos que não desistam, porque eu consegui."

O que será que ficou na cabeça de milhares de desempregados que assistiam à reportagem?

Pode ser desde a esperança de também vir a conseguir um emprego até uma certa culpa, partindo do pressuposto de que o fato de não se inserir no mercado de trabalho é pela incapacidade individual, que algo de errado há com ele. Essa é a grande armadilha que a emissora acaba promovendo. E faz tudo isso a partir do diálogo direto com seus telespectadores, utilizando-se freqüentemente de recursos que atuam no sentido de provocar, alterar as pessoas, tornando-as presas fáceis submetidas ao jogo seletivo do mercado, no qual "somente vencem os capazes, os que procuram com perseverança".

A Rede Globo poderia parar de pasteurizar a realidade como se pudesse resolver questões tão complexas transformando tudo em espetáculo, achando que tudo "é fantástico!".

(*) Socióloga, pesquisadora do Neamp e doutoranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC/SP

 

CASO EDÍLSON
Mídia fareja suas presas

José Rosa Filho

 

A mídia faz, a mídia desfaz. O caso do jogador corintiano Edílson, pivô da interrupção do jogo Corinthians e Palmeiras, na final do campeonato paulista, edição 1999, é apenas conseqüência de algo "costurado", dia a dia, pela mídia futebolística, na sua fome insaciável de provocar fatos sem prever os efeitos.

Todos sabem que no Brasil o futebol, feliz ou infelizmente, tem grande importância. É alto o percentual, em termos de espaço, que o assunto futebol ocupa nas páginas dos jornais brasileiros. O mesmo acontece no veículo TV. A disputa pelas transmissões dos diversos jogos levados ao ar durante o ano é acirrada e representa muito dinheiro de anunciante. É tanta transmissão ao vivo que acontece muitas vezes de a oferta superar a procura. O vício é tamanho que o torcedor, quando vai ao estádio, estranha a ausência do replay e sai frustrado. Em síntese: acha que não viu direito os principais lances e dificilmente volta aos estádios.

Pois bem. Toda essa importância e todo o dinheiro em jogo ficam literalmente nas mãos de uma mídia também supervalorizada e nem sempre muito profissional, já que é difícil, diante de tanta oferta de trabalho, fazer a devida seleção. Ídolos são fabricados e destruídos como se fossem brinquedos. Aí entram interesses diversos, pois há jornalistas que se aproximam perigosa e indevidamente dos jogadores que se tornam famosos para deles conseguir informações privilegiadas, ou seja, furos. No início da carreira, o jornalista serve ao jogador, "fabrica" craques, que depois têm que devolver, com juros, a ajuda.

Gosto de sangue

Tudo isso é para dizer que o tumulto envolvendo o jogador Edílson na final do Paulistão 99 não começou ali no gramado do Morumbi com as firulas do jogador corintiano, mas sim dias atrás, com o clima criado pela mídia, jogando jogadores contra jogadores, em intermináveis e provocantes entrevistas nos jornais e televisões. No caso em questão, o jogo Palmeiras e Corinthians, há ainda a agravante dos jogos em série, sem o espaço aconselhável entre eles, com os jogadores já estressados pela maratona de partidas em reduzido espaço de tempo. O que é uma outra questão que não cabe aqui, ou seja, nossos jogadores cumprem um calendário criminoso, jogando muitas vezes o dobro de partidas que um jogador da Itália, por exemplo, tem que cumprir durante o ano. Depois são vendidos ao exterior – de resto o objetivo de todos esses pobres emergentes.

Quando Edílson fez aquela firula, provocando os jogadores palmeirenses, estava somente "executando" a pauta ditada pela mídia durante dias, ávida de ver sangue escorrendo pelo gramado para que a roda continue a girar. Se perguntados, muitos dirão que não têm culpa alguma, os jogadores é que não estão preparados, que o sucesso subiu às suas cabeças.

No dia seguinte, Edílson, por sua atitude em campo, já estava cortado da seleção, sonho maior de todo jogador de futebol. Acordou e deve ter se perguntando: como fui fazer aquela bobagem? Não sabe, e talvez nunca venha a saber. Amanhã será notícia novamente numa outra novela a ser programada para ele, só que agora como mero coadjuvante, pois outro foi contratado em seu lugar... E para esse outro correrá a mídia farejando a sua próxima vítima.

 

CARTAS
Estardalhaço

Há uma infinidade de assuntos que poderia sugerir como discussão, mas é necessário falar a respeito de um tema recente que me fez refletir um pouco sobre a questão da ética. Dizia um professor da minha faculdade que "ética é uma questão de bom senso. O que pode ser ético para mim pode não ser para você..." Após a lamentável atitude do Edilson na partida de 21/6, pude observar que a maioria dos meios (comentaristas, jornalistas e pessoas afins) criticou a atitude do atleta do Corinthians, sem antes tecer um comentário acerca das razões que o levaram a tanto.

Outro detalhe é que deixaram de observar o erro cometido pelos jogadores do Palmeiras, que numa atitude criminosa partiram para a agressão ao atleta corintiano, o que gerou toda aquela confusão. Creio que nós, como formadores de opinião, devemos analisar e expressar os dois lados da moeda, ou melhor, da notícia, e não fazer prejulgamento com tanto estardalhaço.

Moral da história: o jogador foi marginalizado pela mídia e simplesmente cortado da Seleção Brasileira. Entendo que a mídia influenciou bastante nas conseqüências desse lamentável episódio.

Eriberto Paulino da Silva, concluinte do Curso de Comunicação Social da UFRN

 

Julgamento moral

Que tal textos sobre o julgamento moral que a imprensa fez das firulas do Edilson na final do Paulista? O jogador foi crucificado e colocado como principal responsável na história pela maior parte da imprensa, enquanto o pessoal que partiu para as vias de fato ficou em segundo plano. Já vi gente falando contra, mas o mais interessante foi ouvir o pessoal na hora do acontecimento, das TVs e das rádios. Fica a sugestão.

Daniel Tremel

Nota do O.I.: Atendida!



Mande-nos seu comentário

Início do Feitos e desfeitas





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você