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TRANSPORTE AÉREO
Calhambeques voadores
Ulysses Capozoli (*)
Vivi, há poucas semanas, uma experiência que me sinto na obrigação de compartilhar com outras pessoas, especialmente as que viajam de avião para desempenho de seus trabalhos. Na manhã de 17 de julho apanhei um vôo da Vasp de São Paulo para Natal, no Rio Grande do Norte. Nessa data fazia um mês que circularam os primeiros boatos de que a empresa estaria sendo vendida a um grupo religioso, os evangélicos.
O vôo começou com atraso de uma hora. Até aí, convenhamos que é aceitável, especialmente se for levado em conta transtornos meteorológicos. O problema é que isso não era tudo. O encosto de meu assento, no airbus que voou até Recife, por exemplo, não se firmava. Assim, mesmo que eu quisesse, era impossível "manter o assento na posição vertical", como previne a tripulação em operações de decolagem e pouso.
Mas esse seria o começo da aventura. Quando pousamos em Recife, um funcionário do atendimento em terra, gentilmente, transferiu-me para um outro vôo. Ele estava atrasado, mas ainda assim, menos que minha conexão original.
Quando entrei num velho 737-200, após mais uma hora de atraso, já não era o encosto, mas as mesinhas que não travavam. Não era o meu assento, mas o de dois passageiros atrás de mim. As mesinhas acabaram amarradas com barbante e assim, num vôo nervoso, partimos de Recife para Natal. Tentando recuperar parte do tempo perdido, o comandante fez uma curva fechada e rápida na cabeceira da pista antes de dar toda turbina para a decolagem. Foi quando percebi a tensão que atormenta a tripulação da Vasp.
Saí de Natal no dia 21 e desta vez num 737-200 ainda mais castigado que o anterior. Nesse aparelho também as mesinhas não travavam. Fiquei pensando como é possível que uma companhia aérea continue operando nessas condições. Quem será o responsável por um eventual acidente que, na minha opinião, está prestes a ocorrer com um avião da Vasp? Aparentemente, apesar do DAC, ninguém se responsabiliza por nada. Caso contrário haveria uma investigação mais detalhada do que está acontecendo com todos esses vôos.
Meu retorno a São Paulo teve uma conexão em Brasília, com um parada também em Goiânia. Em Brasília trocamos de avião. Pegamos um outro 737-200, agora com aspecto melhor que o anterior. Pelas mudanças concluí o óbvio: que as piores aeronaves voam no Nordeste.
De Brasília pensei que terminaria a viagem em condições normais. Mas bastoua decolagem para eu perceber que estava enganado. Eu estava sentado na fileira de saída de emergência, sobre a asa. E foi nessa janela que apareceu um novo problema: despressurização. Um zumbido agudo do ar escapando para o exterior ensurdecia quem estivesse naqueles assentos. Um comissário tentou sem sucesso minimizar o problema e, quando pousamos em Goiânia, ele chamou um mecânico.
Eu já havia passado para outro dos poucos lugares vagos a bordo. O mecânico abriu e fechou a saída de emergência. Não sei que explicação deu, mas o fato é que decolamos com o avião despressurizando e nessa condição voamos até São Paulo. Descemos num canto mal iluminado de Cumbica. Não sei porque razão não descemos pelas plataformas móveis que atendem todos os vôos que chegaram a esse aeroporto.
Fiquei pensando na razão de estarmos vivendo experiências desse tipo no Brasil: insegurança em todos os sentidos e me lembrei de artigos que eu próprio já escrevi sobre a privatização da Vasp. Foi essa empresa que começou a onda de privatizações deflagrada pela filosofia neoliberal que traumatiza o país.
Compramos medicamentos adulterados nas farmácias, vemos impotentes os desmandos na previdência social, na construção de edifícios públicos. Presenciamos desconcertados o aumento da violência, o crescimento da impunidade e do roubo justificados por interpretações discutíveis do que dizem as leis.
E a Vasp, neste momento, por não pagamento de seus funcionários, por sonegação de depósitos trabalhistas, dívidas junto a serviços aeroportuários, atraso no pagamento de leasing de seus aviões e uma série de outros desmandos é uma metáfora desconfortável de tudo isso.Quando cair um de seus aviões, o que está prestes a acontecer pela insegurança da própria tripulação, o que vai acontecer? A resposta é: nada, porque aí já será tarde demais.
Penso que todos que utilizamos de aviões em nossa vida profissional deveríamos ter, neste momento, um gesto de proteção e cuidado com as tripulações que voam nessas condições, demitidas em pleno vôo, como está acontecendo na Vasp. Se fizermos isso, estaremos apenas retribuindo parte do cuidado que eles têm conosco quando estamos no ar. Assim, fazendo por eles, também estaremos fazendo para cada um de nós.
(*) Jornalista especializado em Ciência e doutorando da Universidade de São Paulo
RBS vs. PT
Jogo de esconde-esconde
Gabriel Britto (*)
A notícia a seguir foi publicada em Zero Hora de 20 de julho de 2000, página 22.
"Relatório favorece Governo Olívio
Relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) divulgado ontem pelo secretário estadual de desenvolvimento, Zeca Moraes, atenua a responsabilidade do governo Olívio Dutra pela saída da Ford do Rio Grande do Sul e critica o contrato feito pelo governo Antônio Britto.
Os auditores Paulo César Flores e Antônio Carlos Pinheiro concluem também que é impossível dimensionar o prejuízo econômico e social ao estado. Conforme o parecer, a CPI da Ford promovida pela Assembléia Legislativa ‘perdeu o seu objeto" no momento em que o governo entrou na Justiça para reaver os R$ 42 milhões que repassou à Ford e os R$ 93 milhões que a montadora obteve de isenção de ICMS.
O relatório foi acolhido pelos conselheiros do TCE e será considerado para exame das contas do governo referentes ao exercício de 1999."
Pouco antes dessa nota, na página 6, a editora de política do jornal, Rosane de Oliveira, dedicou um parágrafo de 11 linhas, em meio ao seu comentário, para tratar do mesmo assunto:
"(...) Na tentativa de neutralizar as críticas dos representantes do governo anterior, os petistas tiraram da manga um relatório de dois auditores do Tribunal de Contas, desqualificando a CPI que responsabilizou o governador Olívio Dutra pela transferência da Ford para a Bahia. Exultante, o secretário de Desenvolvimento, Zeca Moraes, destacou as partes do relatório que faziam objeções a pontos do contrato original firmado entre a Ford e o governo do estado."
De tão escondidas que estavam as notas – em contraponto ao escarcéu que foi o período de negociações Olívio/Ford, quando o assunto ocupava manchetes e reportagens especiais –, só fui tomar conhecimento do fato hoje, 24 de julho, pela coluna de Luis Fernando Verissimo:
"Bem-vinda
Se posso dar uma de ombundschen – ou ombudsman, ou como quer se chame – amador, acho que merecia mais do que uma referência na coluna da Rosane de Oliveira e uma notícia de canto de página a decisão do Tribunal de Contas do Estado a favor do governo no caso da Ford. Afinal, a responsabilidade do Olívio na desistência da Ford continua sendo debatida até hoje e o que o TC resolveu, na essência, é que o Olívio tinha razão. O que ninguém sabe ainda, e a CPI da Assembléia sobre o assunto não se interessou em saber, é a cronologia da decisão da Ford, a que feitiços baianos ela já tinha sucumbido quando não aceitou os novos termos – justos segundo o TC – para ficar. Nunca é demais lembrar a cena inédita do anúncio da ida da Ford para a ACMlândia feita no gabinete do presidente da República, quando a questão com o governo gaúcho ainda não estava resolvida. O tempo se encarregou de redimir o presidente, no entanto. Pelo que se sabe hoje, é provável que ele não tivesse a menor idéia do que estava participando, na ocasião.
A não ser pelo Olívio, ninguém se lembrou de falar no Antônio Britto na inauguração da GM em Gravataí. A direção da empresa lhe devia pelo menos um ‘muito obrigado’ público. Mas aos beneficiados com a nova fábrica não interessa se foi gasto e comprometido demais para trazê-la, os empregos estão aí e as vantagens para toda a área serão enormes e bem-vindas. A festa foi bonita, houve congraçamento, elegância, maturidade política – e salgadinhos! Pena que a Ford não quisesse ficar. Só não entendi muito bem se os robôs da linha de montagem da GM e suas famílias também são da região, mas isso também já é picuinha."
É isso aí. O que é bom, a gente mostra. O que é ruim, a gente esconde.
(*) Jornalista
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