Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

PAUTA
Mídia estimula os
crimes que condena

Aquiles Emir (*)

 

No jornalismo do dia-a-dia, notam-se três temas muito em voga nos últimos tempos: prostituição, exploração da criança e violência no futebol. Raro o dia em que a imprensa não abre espaços para debater estes assuntos, que, convenhamos, são realmente preocupantes.

Mas o que os jornais e as emissoras de rádio e TV estão efetivamente fazendo para diminuir esse drama?

Violência do futebol

Jogadores, técnicos, cartolas e torcedores são acusados de cenas de barbárie. Acompanhe atentamente, leitor, uma transmissão esportiva, e perceberá a linguagem dos cronistas. Para eles um chute forte é uma "cacetada"; sucessivos cruzamentos sobre a área é "bombardeio"; o time na defensiva está "sob fogo cruzado"; o grande artilheiro é um "matador"; o bom driblador é um "animal"; quando a bola bate na trave "explode"; a coreografia das torcidas nas arquibancadas é uma "guerra". Isso quando não se diz que "o jogo vai ferver", "o pau vai cantar", "o tempo vai fechar", "é um jogo de vida ou morte".

Recentemente, um programa de esportes da mais influente emissora de TV trouxe uma reportagem em que eram mostradas as "armas" de Vasco e Flamengo para um grande "duelo", em busca da conquista do Campeonato Carioca. A emissora não achou nada mais bonito, nada mais melodioso, nada mais chamativo e nada mais adequado ao tema do que o som de uma rajada de metralhadora para servir de vinheta. Vascaínos metralhavam flamenguistas e vice-versa.

Pergunta-se: o que terá passado pela cabeça da moçada que se preparava para no dia seguinte descer o morro e ocupar o Maracanã?

Fora isso, há todo um vocabulário esquisito, mas muito repetido, para denominar jogadas e jogadores: pittbul, sufocar, massacrar, matar, pancada, porrada, varada etc. Tudo isto é dito com a maior naturalidade, como se estivessem locutores, repórteres e comentaristas numa arena.

Trabalho infantil

Com relação à exploração do trabalho infantil, sinto grande alívio por já ser adulto. Sinceramente, não sei qual seria o comportamento de minha mãe se fosse incriminada por contar unicamente com a solidariedade dos filhos menores tão logo viu rompido o seu casamento. Com a mesma disposição com que jogávamos bola e empinávamos pipas, fazíamos – eu e meus irmãos – carvão, pescávamos, pintávamos paredes, carregávamos tijolos, amassávamos barro em olarias, remávamos canoas nos passeios de quem queria apreciar as belezas do Rio Pindaré, enfim, fazíamos de tudo um pouco para ajudar no orçamento doméstico.

Trabalhávamos, brincávamos e estudávamos ao mesmo tempo, e vencemos todos. Agora, podemos dizer: temos vida digna, apesar do trabalho na infância.

Ainda hoje, milhares de crianças ajudam os pais ou se sustentam trabalhando, enquanto os filhos dos ricos apenas brincam. É isto que parece incomodar os jornalistas: uma aberração, condenada por instituições humanitárias.

O irônico é que muitos jornais, principalmente nos estados mais pobres, usam crianças para chegar às casas de leitores e assinantes.

Tão nocivo quanto o trabalho da criança que puxa carroça e lava carros é o uso de meninos e meninas em programas de TV (novelas, shows, cinema) e na propaganda. Ora, tal como as crianças da periferia, estão ajudando a aumentar o orçamento de suas famílias e são quase sempre submetidas a jornadas de trabalho estafantes, muitas ficando até impedidas de freqüentar escolas com regularidade, sem falar que desde muito cedo despertam para a sensualidade e o erotismo.

Isto é ou não exploração infantil? Claro que é, mas não se nota quando as personagens têm rostos rosados, dentes bem tratados e aparentam ser das classes favorecidas.

Prostituição

Cabe perguntar: alguém recebe panfleto em casa ou no trabalho sobre os "serviços" de meninas e meninos? Quem leu placa luminosa sobre a especialidade de casas de prostituição infantil? Um meio prático para se chegar a um local de prostituição é o jornal.

Nas seções de classificados estão nomes, atributos, cor da pele, valor do cachê, tempo de duração do programa etc. Nos roteiros de diversão há espetáculos e mais espetáculos que, não duvidem, são pretexto para aliciamento sexual.

E na TV a coisa está ficando ainda mais explícita. Moças e rapazes seminus se expõem, com telefone legendado para contatos.

Por que, então, as empresas de comunicação aceitam esses anúncios, se a todo instante denunciam os abusos contra as crianças? Por que vendem o que sabem ser crime, para depois condenar?

As empresas de comunicação devem mesmo alertar a sociedade para os perigos que a ameaçam. Mas elas próprias alimentam os vícios.

(*) Jornalista em São Luís (MA)

 

ESPORTE
Os bons serviços do Galvão

Luciano Burger Balarotti (*)

 

A respeito da coluna de Fernando de Barros e Silva, "Quando ufanismo rima com...", publicada no suplemento TV Folha, da Folha de S.Paulo (25/7/99), gostaria de fazer algumas considerações sobre o papel da mídia na formação de preconceitos e ideologias nem sempre recomendáveis.

Certo, é um assunto meio batido, mas no momento me parece razoável falar nisso. Talvez porque hoje em dia a imprensa em quase toda a sua totalidade adote o discurso oficial como única realidade existente. Desde o número de empregos diretos e indiretos que uma nova indústria vai criar até questões muito mais sérias, como a greve dos caminhoneiros, o que se vê no noticiário são apenas as informações do governo (na maioria das vezes, pouco confiáveis).

Até mesmo no campo esportivo, em que havia uma ou outra crítica à Seleção – se não fosse assim, Zagallo não gritaria "Vocês vão ter que me engolir" –, agora sobrou apenas o ufanismo. Talvez porque a Bandeirantes tenha vendido seu Departamento de Esportes à Traffic (e isso lá é nome de empresa confiável?). Ou então porque o Luxemburgo tenha uma imagem de pessoa respeitável, que se veste bem, que sabe se expressar, em suma, um estudioso do futebol.

Desculpa da modernidade

Desta forma, não causa surpresa que até mesmo uma pessoa como o Casagrande, que em sua carreira de jogador lutava contra o sistema (foi um dos líderes da Democracia Corintiana), entre na onda de Galvão Bueno e elogie a escalação de quatro volantes no time do Brasil para jogar contra a fortíssima e perigosíssima seleção americana, dando como desculpa a modernidade (ou seria o neoliberalismo?) – "hoje em dia todo mundo joga assim".

A princípio, isso pode parecer inofensivo, pois ninguém levaria tão a sério o esporte para ser afetado por esse discurso chapa branca; mas é apenas o princípio. Para que as pessoas não se surpreendam e até achem normal, por exemplo, que FHC fale que vai apelar para a Lei de Segurança Nacional contra o MST, ou que vai chamar as Forças Armadas para conter os protestos nas estradas. Na época da ditadura isso era comum, mas ao menos os jornalistas protestavam, mesmo que nas entrelinhas. No regime militar, as pessoas conscientes até tentavam não torcer para a Seleção, usada como propaganda do regime.

Mas, como aconteceu com a última Seleção que realmente jogava um bom futebol (a de 82), era difícil não torcer para o time de 70. Hoje, quem não torce para a Seleção é acusado de não ser patriota, mesmo que muitos jogadores só estejam interessados em vantagens financeiras.

Epopéia brasileira

A Globo se aproveita do esforço admirável dos atletas de esportes menos populares no Brasil para mostrar que mesmo em inferioridade o povo brasileiro vence obstáculos e atinge o sucesso merecido. É a epopéia de um povo sofrido que supera suas dificuldades, a tentativa de mostrar que esses atletas representam o sistema, que quem manda no Brasil também se sacrifica pelo povo.

O que deveria ser noticiado é a falta de apoio aos atletas, que só recebem atenção do governo quando desfilam em carros abertos ou visitam os palácios.

Ufanismo em qualquer área rima com... nazismo? Fascismo? (Alguma sugestão?)

(*) Estudante de Jornalismo da UFPR



Mande-nos seu comentário

Início do Feitos e desfeitas





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você